RESOLUÇONS DO III CONGRESSO DE PRIMEIRA LINHA: COMUNISMO GALEGO DO SÉCULO XXI
1.- TESE POLÍTICO-IDEOLÓGICA
1.1.1-
Galiza, umha naçom periférica do centro capitalista mundial
Para analisarmos a situaçom
actual do mundo do trabalho na Galiza, posta em relaçom com as condiçons
sociais que a caracterizam, devemos partir de que o nosso país fai parte
do centro capitalista mundial, embora seja na sua periferia. Em concreto,
a nossa naçom, com mais de 30.000 quilómetros quadrados de extensom (29.434
na Comunidade Autónoma, semelhante à Bélgica, à Suiça, aos Países Baixos
ou à Dinamarca), e 2.732.926 habitantes
[1]
, aos quais cumpre acrescentar por cima de cem mil sem
reconhecimento da sua nacionalidade a todos os efeitos por parte do Estado
espanhol, enquadra-se no conjunto de países periféricos integrados na Uniom
Europeia, um dos grandes espaços sócio-económicos mundiais juntamente com
a Rússia e a CEI, o Japom, a América do Norte, a Austrália e a Nova Zelándia,
a China, a Ásia Meridional e Sueste, os países árabe-islámicos, a África
Subsaariana e a Latinoamérica, e um dos três principais pólos imperialistas,
juntamente com os USA e o Japom.
Se aplicarmos o Índice de Desenvolvimento
Humano proposto polo Programa de Naçons Unidas para o Desenvolvimento (PNUD),
comprovaremos que a Galiza, com um índice de 0’915 -resultado da média ponderada
com valor tendendo a 1 resultante da aplicaçom de parámetros como o da esperança
de vida ao nascer, o nível educativo e o PNB por habitante- em 1994 se acha
entre o octogéssimo e nonagéssimo lugar entre o conjunto de estados do mundo,
por baixo de França (0’960), a Noruega (0’946) e à altura aproximada de
Portugal (0’890), a Grécia (0’923), a Irlanda (0’929) e outros países da
periferia europeia, e por cima de outros países do leste europeu retornados
ao capitalismo umha década atrás, como a Eslovénia (0’886) ou a própria
Rússia (0’792).
É conveniente empregarmos estes dados e
índices com certa precauçom porque ao serem elaborados polo capitalismo
nom reflectem a verdadeira complexidade e dimensom da realidade.
Umha das primeiras conclusons
que tiramos da análise dos parámetros de desenvolvimento do nosso país em
relaçom com outros países europeus é que tenhem muito mais em comum com
qualquer dos países do centro capitalista, situando-se por cima da média
dos estados do globo (0’764), do que com os países mais intensamente empobrecidos,
entre os que podemos citar a Índia, a Angola, Moçambique, a Nicarágua ou
o Ruanda, todos eles por baixo de 0’6, estabelecendo-se o limiar a partir
do qual consideram desenvolvido um país em 0’911. Quanto ao Estado espanhol,
tomado como conjunto, atingia no ano a que fazemos referência 0’934.
Tentamos partir de um
realista enquadramento da Galiza no mundo do capitalismo globalizado que
vivemos. O facto de a Galiza contar com um índice de desenvolvimento mais
próximo de França ou da Alemanha, do que de Timor ou do Peru, tem naturalmente
as suas implicaçons, a primeira das quais é a necessidade de reconhecermos
que fazemos parte de um dos privilegiados espaços no processo de concentraçom
de capital verificado historicamente no desenvolvimento capitalista, e nom
da ampla maioria de países que conformam o “Sul” do Planeta. O nosso país
pertence à reduzida nomina de países do “Norte” que, representando 23% da
populaçom mundial, dispom de 86% do produto bruto mundial, face aos mais
de 4.000 milhons de habitantes dos países mais intensamente empobrecidos,
para os quais ficam os 14% restantes.
Mas, é claro que, de outra
parte, a Galiza representa internamente também as conseqüências das fortes
divergências no nível de vida produzidas polo próprio desenvolvimento capitalista,
que consolida diferenças extremas no interior de cada país, tendente a um
cada vez maior controlo da economia por um mais reduzido número de famílias.
Também na Galiza avança o acaparamento de riquezas em poucas maos, a um
ritmo estimado de duas fusons por mês, o que fica reflectido nos contínuos
processos de fusom entre os grandes bancos (por exemplo, o protagonizado
por Caixavigo, Caixa Ourense, Caixa Pontevedra e Banco Gallego criando Caixanova)
ou na fusom de Larsa com Clas e Leyma com Puleva e Ram, ou a compra de Leite
Celta pola multinacional ianque Suiza Foods no sector agro-alimentar, bem
como a compra de empresas galegas por multinacionais, patente no caso das
empresas de transporte Finisterre e IASA por parte da multinacional inglesa
ARRIVA, e Castromil por Mombus.
Um caso à parte constitui-o
Inditex, multinacional galega chefiada polo oligarca Amancio Ortega e que
inclui importantes firmas do têxtil como ZARA, Massimo Dutti ou Pull-Bear,
com umha das maiores fortunas europeias em bolsa. Estas operaçons costumam
implicar reestruturaçons nos quadros de pessoal e ataques aos direitos laborais,
vendo-se envolvidos centos ou milhares de trabalhadoras e trabalhadores,
e configurando-se a outra cara da moeda da acaparaçom de capital no aumento
da precariedade laboral e da exclusom económica e social, reflectido no
aumento da pobreza na Galiza. Concretamente, 120.000 lares galegos sobre
840.000 vivem por baixo do limiar da pobreza, o que equivale segundo o baremo
europeu a ingressar menos de 50% da média no Estado em questom. Deles, 15.120
lares vivem com ingressos inferiores a 240 euros, quer dizer, com umha renda
per capita inferior a 78 euros mensais.
O desemprego estrutural,
o processo de desestruturaçom e restruturaçom permanente da classe operária,
a consolidaçom e “normalizaçom” da precariedade laboral, que atinge já a
nom menos de 33% dos trabalhadores e trabalhadoras galegas; o fim do Estado
de Providência; a hiperexploraçom económica que inclui o crescimento contínuo
de umha sinistralidade e insalubridade laborais constituídos em autêntico
terrorismo patronal, sob a ameaça da espada de Dámocles do desemprego (só
em 2000, 47.214 acidentes laborais e 124 mortes, 60% dos quais tinham contrato
temporal; desagregados numha ocorrência diária, temos 2.600 acidentes, 39
deles graves, e 5 mortais); o aumento da economia submersa; a agudizaçom
das contradiçons entre a cidade e o campo e entre e homem e mulher;... som
algumhas das faces que apresenta a realidade sócio-laboral de países periféricos
do centro capitalista como a Galiza, onde a metade das famílias reconhece
chegar com dificuldades a fim de mês e 64% nom é quem de poupar algum dinheiro.
De resto, diversos estudos confirmam que a Galiza fica cada vez mais afastada
de constituir-se em país rico dentro da Uniom Europeia, e o seu PIB está
cada vez mais afastado da média do Estado espanhol. Será portanto da compreensom
e correcta interpretaçom dessa realidade, contextualizada no actual desenvolvimento
do histórico processo de internalizaçom ou globalizaçom do capitalismo mundial,
que @s comunistas galeg@s devamos partir para propor umha estratégia revolucionária
deste pequeno país situado, geográfica e sócio-economicamente, na periferia
europeia.
Deve salientar-se, aliás,
a incidência que no nosso caso adquire o facto de constituirmos umha das
aproximadamente 5.000 realidades nacionais que no mundo sofrem de maneira
acrescentada umha tendência uniformizadora, centralizadora e desnacionalizadora
impulsionada por parte dos donos do mundo. Daí que vinquemos a peja que
para a Galiza implica nom contar com um Estado próprio que pudesse defender
umha posiçom também própria no palco internacional europeu, ficando na actualidade
desarmada em maos de um Estado capitalista com poucos escrúpulos e muita
disposiçom para aderir a umha dinámica desnacionalizadora dos pequenos espaços
como o galego, em benefício do reforçamento do seu próprio e excluente projecto
nacional: Espanha.
De resto, a Galiza nom
seria, se tivesse Estado próprio e fosse comparada com a média de estados
constituídos hoje como tais, nem dos mais pequenos em tamanho (estaria por
cima da média), nem, como já vimos, dos mais empobrecidos, apesar de que
o argumento do tamanho e da pobreza costume ser colocado polos galegos pró-espanhóis
como impedimento para caminharmos em direcçom à soberania política. Polo
contrário, temos a firme conviçom de que a criaçom de novos estados coincidentes
com realidades nacionais como a nossa implicaria a fragmentaçom dos grandes
espaços do centro capitalista e, portanto, contribuiria para umha redistribuiçom
do poder político e económico contrário aos interesses do imperialismo ocidental.
O independentismo é, desta perspectiva, um movimento claramente progressista
e democratizador que questiona o poder dos estados historicamente constituídos
sobre a rapina e o ataque às identidades nacionais; por isso é combatido
por esses estados em todo o globo.
Um dos objectivos do III
Congresso é realizar umha primeira aproximaçom do retrato sócio-laboral
e económico da Galiza administrativa actual, deixando de parte a faixa leste
por impossibilidade de contabilizar com precisom os seus parámetros sócio-económicos
ao estar fragmentada e integrada em províncias e comunidades autónomas diferentes.
Umha Galiza em transe de desapariçom como comunidade nacional diferenciada
graças ao enfraquecimento de umha consciência produtiva que nos últimos
quinze anos sofreu umha agressom de grandes dimensons em forma de liquidaçom
da sua base económica endógena, com o objectivo de fazê-la desaparecer,
sabendo o Estado espanhol que com a desapariçom dessa consciência produtiva
terminará com a medula espinal do nosso ser nacional.
1.1.2-
A situaçom sócio-económica galega por sectores
1.1.2.1-
Sector primário
1.1.2.1.1.-
Sociedade rural e economia agrária
A primeira característica
que define sócio-laboralmente a Galiza é a drástica reduçom do peso do emprego
agrário nos últimos 50 anos passando de acolher 72% da populaçom ocupada
na Galiza em 1950 a tam só 12’6% em 2001, cumha perda total de mais de 650.000
empregos, tendência incrementada a partir da entrada do Estado espanhol
na Uniom Europeia (na altura Mercado Comum Europeu), apesar da importante
mecanizaçom e especializaçom atingidas. Este processo é também comum a outros
países historicamente periféricos na Europa como a Irlanda, a Dinamarca,
Portugal ou a Itália, se bem todos eles conseguírom equilibrar o peso estrutural
dos sectores agrário e industrial nas suas economias, enquanto a Galiza
ficou afundida numha periferizaçom sócio-económica definida por um desequilíbrio
estrutural causante do fenómeno emigratório.
Ante a falta de promoçom
de um forte sector agro-industrial que pudesse modernizar e viabilizar o
sector primário, e com um sector industrial que nunca chegou a descolar
na Galiza, todo dentro do contexto sócio-económico marcado por umha letal
Política Agrária Comum, as instituiçons espanholas deixárom esmorecer a
economia agrária mediante a aplicaçom de limitaçons à produçom e o favorecimento
da entrada de multinacionais agroalimentares que tomam controlo do mercado
galego. Repare-se apenas como exemplo na renúncia recente da Junta do PP
a converter LARSA numha grande empresa galega do sector lácteo, ficando
finalmente em maos francesas. De facto, e como exemplo do que comentamos,
repare-se também como a indústria láctea galega recolhe apenas 14% da produçom
autóctone (que supom 35% da do Estado espanhol), levando o resto multinacionais
como Nestlé, Puleva-Leyma, Suiza Foods Corporation ou Danone. Repare-se
também que a indústria láctea galega vinha sendo considerada estandarte
das potencialidades industrializadoras da Galiza. Todo um símbolo do rumo
que segue a nossa economia dentro do desenvolvimento mundial do capitalismo
no actual período entre-séculos, sob tutela espanhola.
Ante esta
crua realidade, a populaçom do interior do país vê-se condenada à emigraçom,
que após a breve interrupçom na década de oitenta voltou a sair a cena na
década de noventa, em vista de que a pobre industrializaçom e as impotências
estruturais do capitalismo colonial nom permírom a sua absorçom ao longo
de todo o século XX nem a absorvem hoje.
Se a todo isto acrescentarmos
na actualidade a tendência à produçom intensiva, que deriva em situaçons
como a recentemente vivida das vacas loucas e outras aberraçons relacionadas
com a produçom forçada de carnes e outros produtos agro-gadeiros, fenómenos
consubstanciais ao desordenado modelo de crescimento capitalista, acabamos
de gizar a grave situaçom do nosso campo, ameaçado de morte e em processo
de desapariçom como sector estratégico de umha economia nacional para a
Galiza. De resto, episódios como o das vacas loucas estám a ser aproveitados
polo Governo espanhol para reduzir ainda mais as exploraçons gadeiras galegas.
Assim, se em 1981 eram 437.000 pessoas as empregadas no sector agro-gadeiro,
em 2001 som 138.000, mais da metade das quais som mulheres que nem quotizam
nem recebem salário nengum. Isso sim, no campo galego subsistem 50.000 mulheres
com pensons de viuvez de 192 euros ao mês. Só entre 1996 e 2000, perdêrom-se
40.000 empregos agrários no campo galego, concentrando a nossa naçom 60%
dos empregos destruídos no sector primário do conjunto do Estado espanhol,
enquanto noutras comunidades autónomas eminentemente rurais como Cantábria,
Múrcia e La Rioja se mantém o emprego agrário. De resto, e quanto às pensons
por reforma, os velhos e velhas galegos cobram as pensons mais baixas do
Estado espanhol, com umha média de 290 euros por mês.
A tendência
actual está a ser o crescimento da populaçom urbana, que anda perto de converter-se
em maioritária pola primeira vez na nossa história, ante a perda de 200.000
pessoas na Galiza rural na última década, acompanhando o desmantelamento
da economia produtiva agrária. Assim, e apesar de a Galiza perder, entre
1981 e 2001, 80.000 habitantes, com o saldo vegetativo mais baixo do Estado
espanhol, as sete principais cidades no seu conjunto aumentárom outro tanto
o seu número de pessoas recenseadas.
O abandono do meio rural,
de resto, está a ser aproveitado polos capitalistas espanhóis e as instituiçons
ao seu serviço para a criaçom de complexos e recursos turísticos dentro
de umha vasta estratégia turistificadora da colónia galega, umha estratégia
que conduzirá à substituiçom da economia produtiva pola reduçom do nosso
país a centro de lazer totalmente dependente e portanto inviável como projecto
nacional diferenciado. As repercussons que para a conservaçom da nossa identidade
nacional pode ter a estratégia turistificadora ficam fora de toda dúvida
e fam parte dos seus objectivos desnacionalizadores.
Com um Estado próprio
e orientado exclusivamente em favor do povo trabalhador, a madeira, a carne
e o leite poderiam suster potentíssimas indústrias transformadoras com base
no sector primário, e a garantia da nossa soberania alimentar seria umha
prioridade frente à ameaça actual, como o é em qualquer país independente.
1.1.2.1.2- Galiza marinheira e economia pesqueira
A pesca tivo historicamente
um peso fundamental na nossa economia nacional, quer polo seu contributo
para a produçom e o emprego, quer polas ligaçons com outros sectores (construçom
e reparaçom naval, transporte, indústria transformadora, acuicultura, marisqueio...),
favorecendo o desenvolvimento das zonas costeiras frente ao despovoamento
do interior.
Contodo, temos actualmente
que falar de umha profunda crise que coincide determinantemente com a incorporaçom
do Estado espanhol à Uniom Europeia, de forma que o sector pesqueiro passou
de contribuir para o PIB de 4’3% em 1980 a 2’2% em 1994. Apesar do qual,
nessa altura, a pesca e as suas ligaçons representavam na Galiza costeira
por volta de 25% do emprego.
Em 1989, a Galiza contava-se
entre as grandes potências mundiais do sector pesqueiro, com umha capacidade
pesqueira semelhante à do resto do Estado espanhol junto, o que nos colocava
em sétimo lugar no mundo. Desde aquela, o sector afundiu numha profunda
crise provocada por decisom políticas tomadas nas altas instáncias europeias, restringindo as áreas e capturas
possíveis para os nossos barcos, de maneira que a frota se viu reduzida
de maneira radical, resultando sintomática a reduçom da quota pesqueira
em águas comunitárias sofrida polo nosso país. É de salientar como o Estado
espanhol abandonou e abandona o nosso sector pesqueiro à sua sorte, empregando-o
como moeda de troca nas negociaçons com a ditadura marroquina ou aceitando
imposiçons de outros grandes estados capitalistas como o Canadá no conflito
da palmeta.
Afinal, a Galiza acaba
sendo o país com mais desfavorável relaçom entre capacidade pesqueira e
possibilidade real de pescar em funçom das quotas impostas pola Uniom Europeia.
Mesmo se nom entrássemos a questionar a Uniom Europeia como clube de estados
privilegiados ao serviço das respectivas burguesias e negadora da identidade
nacional dos povos sem Estado, nom poderíamos deixar de perguntar se a Galiza
receberia igual trato contando com um Estado próprio para defender os interesses
da sua maioria social, e só temos que contrastar o trato recebido pola Dinamarca
para obtermos umha resposta favorável às teses independentistas. De facto,
os Planos de Orientaçom Plurianual, que limitam as frotas de cada país comunitário,
venhem impondo reduçons à Galiza enquanto o conjunto dos estados membros
a alargam.
Se bem a Uniom Europeia
despreza o sector com base no seu reduzido peso no PIB europeu, a Galiza
tem ainda na pesca um sector importante, com umha frota que emprega directamente
mais de 35.000 pessoas e perto de outras 60.000 de maneira indirecta. Em
1981 eram quase 45.000 pessoas as empregadas no sector, e tomando como referência
o ano 1998, gadaria, agricultura, selvicultura e pesca representavam ainda
para a Galiza 20’3% do emprego, com 210.500 pessoas, e umha produtividade
de 38’2%.
Mais um motivo para questionarmos
a nossa permanência nesse clube de oligarcas com afáns imperialistas chamado
Uniom Europeia.
1.1.2.2.-
Galiza urbana e economia industrial
Como se sabe, a industrializaçom
da Galiza foi tardia e fraca. Em 1975, contam-se 108 indústrias com mais
de 200 empregados e outras 70 com entre 100 e 200. As grandes indústrias,
firmas normalmente foráneas pertencentes a ramos muito concretos (electricidade,
alimentaçom, construçom naval ou automóvel) determinam os traços tipicamente
caracterizadores de economias dependentes e coloniais, frente à ausência
de ramos próprios de economias avançadas (bens de consumo duradoiro, química,
maquinaria,...). Como se dixo, a ausência de indústria agro-industrial implicou
a exportaçom de produtos para indústrias foráneas que no processo de elaboraçom
geravam e apropriam-se o valor acrescentado fora da Galiza.
Na actualidade, a actividade
industrial supom na Galiza um terço da actividade económica e emprega, juntamente
com a energia e a construçom, 26’5% da populaçom que trabalha. Trata-se
do resultado de duas décadas de agressiva política de reestruturaçom económica
à custa d@s de sempre. A base encontramo-la de umha parte na crise capitalista
dos anos setenta e de outra na adaptaçom executada polo Governo espanhol
às exigências do Mercado Comum Europeu para conseguir a sua admissom nessa
superestrutura imperialista. Complexos mineiros como EXIMESA ou PENOUTA,
grandes estaleiros como ASTANO, BAZAN ou VULCANO, siderúrgicas como SIDEGASA,
som alguns dos sectores e empresas afectados pola brutal reconversom em
forma de despedimentos massivos, reformas forçadas, expedientes de regulaçom,
etc. Dúzias de milhares de galegos e galegas vírom-se directamente atingidos
pola política económica conduzida polo PSOE nesses anos.
Posteriormente à entrada no
MCE (hoje Uniom Europeia), a política neoliberal e os constantes reajustamentos
e privatizaçons nom cessárom, impondo medidas novamente liquidadoras da
base produtiva da nossa economia, como a proibiçom a ASTANO de fabricar
barcos, limitando a sua capacidade produtiva a um tipo muito determinado
de plataformas. Tratou-se da versom industrial das famosas quotas aplicadas
à produçom agrária e das limitaçons às capturas da frota pesqueira galega.
Naturalmente, outros países dentro e fora do Estado espanhol beneficiárom-se
da política executada polos sucessivos governos espanhóis a instáncias da
Uniom Europeia e do seu próprio interesse no subjugamento da Galiza com
o objectivo estratégico de inviabilizá-la como projecto à margem da dependência
política e as esmolas económicas espanholas e europeias, representadas entre
outros polos chamados fundos estruturais dirigidos às áreas menos desenvolvidas
e mais atrasadas da Uniom Europeia como é a nossa pátria. Contodo, o comissário europeu de Assuntos Económicos e
Financeiros, o espanhol Pedro Solves, já anuniciou a retirada desses fundos
à Galiza para o ano 2006, apesar de reconhecer que o nosso país nom convergeu
com o nível económico médio da UE nem o fará no futuro.
O desemprego estabelecia-se
como média no terceiro trimestre de 2001 em 12’6%. Se analisarmos a taxa
de desemprego feminino, comprovaremos que se situa em quase 16’8%, enquanto
a masculina em 9’3%. Também eloqüente resulta a generalizaçom que experimenta
nos últimos anos a precarizaçom, como nos mostram uns dados segundo os quais,
entre 1997 e 2000, passou-se de 33’94% para 35’2% de trabalhadores e trabalhadoras
eventuais, umha temporalidade que aumenta quanto menor for a idade do trabalhador
ou trabalhadora. Assim, entre 25 e 29 anos atinge 52’8%, entre 20 e 24 chega
a 73’45% e entre 16 e 19 anos supom nada menos que 83’82%.
Em concordáncia com o
papel periférico e dependente atribuído à Galiza na Uniom Europeia, salientam
dados como o que afirma serem os trabalhadores e trabalhadoras galegas (sobretodo
estas) das pior pagas da Uniom Europeia, 180 euros menos do que a média
espanhola. No caso das mulheres galegas, ganham 625 euros menos do que o
homem médio espanhol, 228 euros menos do que a mulher média espanhola e
31% menos do que os trabalhadores masculinos. Quanto aos custos para a empresa
contratante, som 33’4% menores do que a média europeia e só tenhem por baixo
países também periféricos como a Grécia e Portugal. No que ao despedimento
di respeito, resulta 42% mais barato na Galiza do que na média espanhola,
só por cima da Estremadura. Além do mais, a tendência é à baixa, enquanto
os benefícios empresariais sobem escandalosamente, como nos achega o dado
segundo o qual cinqüenta e seis firmas afincadas na Galiza facturam por
cima dos 60.000 euros, entre elas Citroën, Inditex, Pescanova, Gadisa, Coren
ou o Grupo Tojeiro.
Especialmente marginalizada
resulta a populaçom imigrante, que está a aumentar na Galiza, embora nom
o faga ainda ao ritmo de outras naçons e estados europeus. Na actualidade,
contam-se mais de 26.000 imigrantes com papéis, quantidade sensivelmente
superior se contarmos a imigraçom ilegal, nom inferior às 3.000 pessoas.
Os trabalhos localizam-se principalmente na construçom e serviços como a
venda ambulante, embora em pontos localizados como Burela haja importantes
colectivos também dedicados à pesca. O aumento da imigraçom será espectacular
nos próximos anos, ajudando a sua presença a debuxar um novo mapa do mundo
do trabalho na Galiza, nom só por engrossar as nossas classes populares
e preencher a queda demográfica que o nosso país regista de umhas décadas
para cá, senom por contribuir para agudizar processos precarizadores hoje
já em curso. Mais um repto para a sobrevivência do nosso país e para a viabilidade
do projecto revolucionário que representamos será comprovarmos a nossa capacidade
de ganhar as massas imigrantes para a causa da libertaçom nacional e social
de género, evidenciando a influência que nelas próprias terá o seu posicionamento
favorável à construçom nacional com umha perspectiva aberta à integraçom
das culturas de origem numha realidade galega que sabe de minorizaçom cultural
e que nom repetirá a injustiça que ela própria continua a sofrer por parte
de Espanha.
Só a condiçom dependente
da nossa naçom pode explicar que continue a crescer a distáncia económica
entre a Galiza e Espanha, em favor desta. Apesar de termos um grande potencial
em matérias primas e sermos um país energeticamente excedentário, o nível
de vida fica cada vez mais distanciado do espanhol, que se lucra das nossas
carências aproveitando-se da nossa riqueza. Um dos últimos informes elaborados
por Eurostat revela que o norte
de Portugal superou em riqueza a Galiza em 1998. A inícios do desenvolvimento
do processo autonómico, o PIB galego achava-se quase 6% mais perto de Espanha
do que hoje. Em 1980, Galiza gerava 6’52% da riqueza do Estado espanhol,
percentagem que hoje desceu até 5’62%.
A energia
é o melhor exemplo do que acabamos de afirmar. Lembremos que a Galiza produz
na actualidade o duplo da energia eléctrica que consume (que supom 35% da
produzida no Estado espanhol), apesar do qual existe um plano estratégico
de incremento energético até 2007, que prevê a posta em marcha de plantas
de gás (Fenosa e Endesa) e sector eólico (mais de 15 empresas). Nom a precisamos,
mas o plano estratégico impom-se, supondo umha importante ameaça ambiental
e paisagística, especialmente grave no caso de plantas de gás como a prevista
para a ria de Ferrol em contra de qualquer normativa de segurança, a 100
metros dos primeiros núcleos habitados.
Como dado
escandalosamente delator do papel que se impom à Galiza como fornecedora
de energia barata e qualidade de vida para os espanhóis e enriquecimento
dos seus oligarcas, mencionamos apenas o nulo revertimento dos benefícios
de empresas como ENDESA no próprio país em que desenvolve a sua poluente
actividade. Os seus ganhos fogem para Espanha deixando-nos todos os prejuízos
ambientais que bem podem ser verificados em lugares como As Pontes. Sermos
excedentári@s na produçom nom impede que existam graves deficiências na
subministraçom e que tenhamos que pagar idêntico preço que em qualquer ponto
do Estado pola energia que produzimos.
Nom deve ser
esquecida a água como recurso fundamental e cada vez mais escasso, sendo
a nossa terra privilegiada quanto à sua abundáncia. Será capaz o nosso povo
de controlar o seu aproveitamento racional e comercial numha relaçom de
equidade com os restantes povos do mundo ou, de novo, ficará tam preciado
recurso em maos espanholas e ao serviço da compensaçom dos seus desertos
enquanto o nosso país morre na mais lacerante precariedade económica e social?.
1.1.2.3.-
Sociedade terciarizada: economia de serviços
O sector terciário emprega
mais da metade da populaçom ocupada na Galiza, cum incremento contínuo nas
últimas décadas do seu peso relativo segundo a tendência das economias capitalistas
ocidentais. Mas esta terciarizaçom nom é conseqüência dum processo endógeno
de desenvolvimento económico, senom que agocha no fundo a liquidaçom dos
sectores agrário e industrial fruto da situaçom de dependência económica
do nosso país. A terciarizaçom, em que toma especial relevo a turistificaçom,
implica umha maior dependência de um território, o galego, que no interior
ficará deserto quando acabe a presente década. Já hoje se produzem o duplo
de falecimentos do que nascimentos, e o número destes passou de 45.000 em 1976 a 18.500
em 1995. Em 1981, o número de habitantes cumha idade superior aos 65 anos
era de 337.890, 13’43% da populaçom. Em 2001 incrementou até 19’3%, 526.133
pessoas. Os menores de 19 anos eram 875.908 (31’15%) em 1981 frente aos
556.348 de 2001, os 20’42%. Temos 22.000 jovens menos desde 1996. A este
ritmo perderemos 66.000 pessoas menores de 30 anos em 2003.
Em 1981, nasciam ao mês 3.025 crianças, actualmente
reduziu-se à metade, 1.545. As escolas perdem anualmente 15.000 matriculad@s.
De seguir esta tendência, em 2025, um terço da populaçom da CAG superará
a idade de reforma.
Mais umha vez, comprova-se como a anulaçom económica
de um país, a destruiçom da sua capacidade e consciência produtiva, é o
melhor meio para fazê-lo desaparecer como realidade diferenciada e assimilá-lo
de vez. E mais umha vez devemos concluir que a nossa acçom de resistência
e ofensiva renacionalizadora deve partir dessa realidade e fazer-lhe frente
nesse plano.
Claro
que, no referente à perda de populaçom, o quase exponencial aumento da imigraçom
nos próximos anos substituirá o declínio dos nascimentos; mas nom evitará
o desequilíbrio que fai com que determinadas zonas das Rias Baixas tenham
umha densidade de 500 habitantes por quilómetro quadrado enquanto na montanha
interior se situa à roda de cinco habitantes por quilómetro quadrado.
A tendência que indicamos influirá
notavelmente quer numha economia de serviços com cada vez mais maior peso,
quer nas relaçons económicas e laborais. As tensons e conflitos contra a
crescente hiperexploraçom estám servidas, com a dificuldade acrescentada
para as classes populares de verem-se fragmentadas, desagregadas e à margem
das medianas e grandes concentraçons fabris que, de resto, só em sectores
muito pontuais tivérom incidência historicamente na Galiza.
Como dado significativo
da evoluçom do sector, salienta a irrupçom das grandes áreas comerciais,
dependentes de empresas multinacionais como El Corte Inglés, Alcampo ou
Continente, que condenárom à desapariçom o pequeno comércio autóctone e
integrárom massas de desempregad@s que trabalham eventualmente nas piores
condiçons laborais que garantem as sucessivas contra-reformas laborais protagonizados
primeiro polo PSOE e nos últimos anos polo PP. Neste senso, e contando só
os hipermercados, passou-se de nengum em 1980 a 11 em 2001. Acrescentem-se
os centenares de grandes supermercados de firmas como Grupo Froiz, Vegonsa,
Supermega Claudio ou Gadis, todos eles caracterizados pola crescente exploraçom
e carência de direitos d@s trabalhadores/as que os mantenhem. Se a isto
somarmos a privatizaçom sistématica de serviços historicamente públicos
e nos quais se empregavam sectores muito significativos da classe operária,
como a que experimentárom ou experimentam nos últimos anos Telefónica ou
Correios e Telégrafos, entre outras, acabaremos de apresentar um cenário
actual que apenas representa o início de umha tendência neoliberal que está
longe de tocar fundo, e na qual tivo muito a ver a derrota dos chamados
“estados socialistas” de leste da Europa, nomeadamente a Uniom Soviética,
e o conseqüente encorajamento capitalista ante a ausência de um contrapoder
que durante décadas favoreceu com a sua só presença a existência de estados
de providência na Europa. Nom folga lembrar o vergonhoso papel das principais
forças políticas e sindicais operárias nos diferentes países, Galiza incluída,
cujas direcçons capitulárom convertendo-se ao mais desprezível reformismo
em troca da sua subsistência como grupos de influência social mediante a
sua plena integraçom no sistema que anos atrás combatiam.
Nom podemos deixar de
vincar o papel que as ETT’s venhem jogando nos últimos anos no processo
de precarizaçom e hiperexploraçom da classe trabalhadora galega que comentamos,
como novos agentes escravistas do século XXI no centro capitalista. Nem
a reorientaçom educativa, também relacionada com o novo panorama de exploraçom,
eventualidade e elitismo classista acorde com as crescentes desiguladades
sociais. Outros elementos superestruturais como o representado polos meios
de desinformaçom, intérpretes na sua totalidade da mensagem alienante do
poder, autênticas ferramentas de embrutecimento das massas e fabricantes
de realidades virtuais que acabam por coalhar na inconsciência colectiva
como reais, actuando e votando a maioria social em funçom delas.
A reacçom
capitalista só está começando a mostrar a sua autêntica face em matéria
sócio-laboral. A explosom de conflitos derivados do incremento da exploraçom
e das desigualdades internacionais e no interior dos estados do centro capitalista
também, e o número actual de guerras, superior cinqüenta, é o melhor indício.
E a Galiza nom será umha ilha alheia às graves contradiçons que sacodem
o Planeta.
Como resumo
dos apartados precedentes, temos que ser capazes de ver dados, factos e
tendências sócio-económicos efectivados nas últimas décadas para reparar
na gravíssima destruiçom e desestruturaçom da base económica galega exprimindo-se
na agricultura, pesca e indústria os exemplos mais reveladores. As sucessivas
reconversons, através de despedimentos massivos, expedientes de regulaçom,
reformas antecipadas e outras fórmulas supugérom a partir dos anos oitenta
por cima dos cem milhares de postos de trabalho destruídos ou reconvertidos
ao actual regime laboral próximo em muitos aspectos das condiçons draconianas
eliminadas décadas atrás com muito esforço por parte da classe trabalhadora
dos principais países europeus e com a ajuda da “ameaça comunista” que pairava
sobre os governos burgueses da Europa Ocidental. A outra cara da moeda foi
e está a ser nestes mesmos tempos os crescentes incrementos de benefícios
ano após ano de umha banca e umhas grandes multinacionais e transnacionais
proprietárias de um poder económico e político cada vez mais fortalecido
e unificado em menos maos no Estado espanhol e através dele na Galiza e
noutros países principalmente sudamericanos e até na própria Península,
aumentando o seu peso em Portugal. O fortalecimento da reaccionária oligarquia
espanhola agoira umha maior tendência fortalecedora do seu projecto imperialista,
fortalecimento que já se enxerga na sua ofensiva contra as naçons sem Estado
que submete. Só o fortalecimento de movimentos libertadores de tipo revolucionário,
socialista e independentista nas naçons dependentes como a nossa e o próprio
surgimento interno na sociedade espanhola de movimentos anti-sistema poderám
fazer frente ao expansionismo hispano. Assim sucedeu noutros contextos históricos
caracterizados por tendências semelhantes à que nos afecta como galegos
e galegas e como trabalhadores e trabalhadoras.
Nom podemos,
por último, deixar de sublinhar o facto de que essas condiçons sócio-laborais
e outras bem mais desumanas a que figemos referência fôrom e continuam a
ser a norma nos estados capitalistas do chamado terceiro mundo, umha norma
que cada vez se estende a novos territórios e sectores sociais mundiais,
conformando o autêntico carácter da tam cacarejada globalizaçom, e anunciando
novas vagas de luita futura pola dignidade humana, luitas que começam já
a abrolhar em diferentes cantos do planeta em forma de respostas antiimperialistas
a tanta injustiça globalizada. Neste contexto, a Galiza deve aderir, liderada
pola luita das suas classes populares, ao combate global contra o imperialismo
e o capitalismo: a luita pola independência é no nosso país o rosto do movimento
mundial antiglobalizaçom, é a forma que toma umha mundializada luita de
classes que fai com que a maioria dos países do mundo exerçam de novos párias
frente à opulência de cada vez menos Estados privilegiados no reparto da
riqueza e recursos mundiais. O nosso dever revolucionário como comunistas
é situar a Galiza na barricada dos países párias, aderir à sua justa luita
pola dignidade humana, que é também a nossa luita.
1.2-
Quantificaçom das classes na actual formaçom social galega
Acabamos de analisar de maneira
preliminar a situaçom sócio-laboral actual numha formaçom social concreta,
a galega, sobre a qual agimos e a qual aspiramos a transformar de jeito
revolucionário. De umha perspectiva, portanto, revolucionária e nom meramente
empirista ou especulativa, é que apresentamos a análise de umha situaçom
que determina a morfologia concreta na estrutura de classes da Galiza de
inícios do século XXI; morfologia que devemos conhecer
profundamente, juntamente com as tendências sociais e históricas que agem
sobre a sociedade galega, com um objectivo evidente: conseguirmos umha certa
incidência nas tendências e aproveitá-las ao máximo na nossa prática política, algo que só acontecerá desde que a nossa
análise, e sobretodo a nossa actuaçom, forem decididas e correctas.
É claro que nem vontade
nem o acerto possibilitam, e muito menos garantem, a vitória revolucionária.
É imprescindível a ocorrência de circunstáncias objectivas, e alheias à
influência das organizaçons revolucionárias, para tornar possível um cenário
em que a acçom decidida e correcta da vanguarda política à frente de um
movimento de massas poda implicar a derrubada do sistema burguês em que
vivemos ou umha modificaçom qualitativa no caminho da sua derrota definitiva,
simultaneamente à conquista da soberania nacional por parte da maioria social
objectiva que constitui o Povo Trabalhador Galego, objectivo estratégico
do nosso Partido.
Naturalmente, sendo certo
que nem vontade nem acerto políticos pola nossa parte garantem o surgimento
das condiçons revolucionárias objectivas na sociedade galega, nom menos
certo é que sem a vontade e o acerto políticos nengumha situaçom revolucionária,
incluídos os mais potentes e massivos movimentos de massas contra o poder
estabelecido, conseguem a vitória, sumindo-se a efervescência popular com
a mesma rapidez com que ascendera. Existem numerosos exemplos do que comentamos
na história dos últimos séculos, e mesmo dos últimos anos.
Partindo da reflexom anterior
é que a seguir analisamos de jeito materialista a estrutura de classes da
formaçom social galega nesta altura histórica, com dous objectivos fundamentais
ligados com a base argumental precedente: a classe dominante está a imbuir
a consciência da maioria social de umha ideia falsa mas perfeitamente efectiva
ao serviço dos fins de quem a espalha. Trata-se da ideia segundo a qual
a classe trabalhadora teria diminuído quantitativamente de maneira importante
e continuaria a fazê-lo na actualidade. Por vezes, chega-se a afirmar directamente
que já deixou de existir. Essa é a tendenciosa explicaçom que difundem os
meios académicos, políticos e de intoxicaçom de massas, achacando-a ao suposto
fracasso do comunismo como alternativa ao sistema mundial vigente e como
resultado da aplicaçom da reaccionária teoria do fim da história. Naturalmente,
o mito burguês que comentamos tem o seu correlato no da superaçom das diferenças
nacionais através da unificaçom política e económica representada polos
grandes espaços comerciais resultantes da mundializaçom capitalista, como
a Uniom Europeia no nosso contexto.
De outra parte, e por
conseqüência da falsidade da desapariçom da classe trabalhadora, a classe
dominante afirma também o idealista mas ideologicamente funcional tópico
da neutralidade do Estado como ferramenta ao serviço “de toda a sociedade”
e de todos os territórios que administra.
Pola nossa parte, partimos
dos contributos teóricos de Marx e Engels para a definiçom materialista
das classes sociais, madurecida por Lenine, e que parte da interpretaçom
das mesmas como forças motrizes da luita de classes e de cuja configuraçom
quanto a força e consciência determinam o carácter sistémico das naçons.
Desta óptica, definimos, com Vladímir Ilich, as classes como “vastos grupos de pessoas que se distinguem polo lugar que ocupam num sistema
historicamente definido de produçom social, pola sua relaçom (as mais das
vezes fixada e consagrada polas leis) face aos meios de produçom, polo seu
papel na organizaçom social do trabalho, portanto, polos meios de obtençom
e importáncia da parte da riqueza social de que disponhem e o modo como
a obtenhem. As classes som grupos de pessoas, um dos quais pode apropriar-se
do trabalho da outra mercê dos diferentes lugares que ocupam num sistema
de economia social determinado”. Eis a leitura correcta da sentença
marxiana de os operários nom terem pátria, toda vez que na altura em que
foi escrita nom era a classe operária quem detinha o poder político e económico
em nengum país, sendo a burguesia a autêntica representante de todas e cada
umha das “pátrias” capitalistas que nom mundo eram. Quer dizer, cumpre sublinhar
o carácter de classe de todo Estado, se nom quigermos cair na armadilha
ideológica pseudodemocrática preparada pola burguesia, segundo a qual o
sistema capitalista permite que o seu aparelho estatal represente nom já
a maioria social, senom mesmo a totalidade das classes que partilham o território
sobre o qual a burguesia impera. Tal é a explicaçom de que se generalizem
teorias como a da desapariçom da classe trabalhadora ou de que o Estado
está ao serviço da sociedade em abstracto, para além dos interesses das
classes, as naçons e as mulheres que domina. Pola nossa parte, afirmamos
que os planos nacional, social e genérico se implicam na relaçom dialéctica
existente entre naçom, classe e género, com base na qual revindicamos o
conceito de Povo Trabalhador Galego como afirmaçom sintética dos diferentes
níveis.
Contodo, achamos necessário
actualizar ou completar a definiçom clássica, ultrapassando um certo economicismo
mecanicista subjacente e de resto presente em boa parte da teorizaçom marxista
nom só decimonónica, como também do século passado (nomeadamente nas versons
mais escolásticas e reducionistas promovidas polo Estado soviético a partir
dos anos 30).
Referimo-nos
à necessidade de ir além da exclusiva consideraçom da directa relaçom com
os meios de produçom ou rol na organizaçom social do trabalho, chegando
aos grupos sociais existentes na sua periferia com umha relaçom de dependência
económica e/ou recomposiçom da força de trabalho como garante da estabilidade
e dedicaçom laboral do pessoal assalariado em maos do capital. Estes sectores,
excluídos na definiçom clássica de classe trabalhadora, constituem hoje
umha fracçom importante do Povo Trabalhador Galego, adscrito sem dúvida
às classes populares e necessitado de ultrapassar a sua invisibilidade e
desconsideraçom análitica. Estamos a referir-nos aos contingentes de mulheres
oficialmente enquadradas no plano laboral sob o epígrafe de “os seus labores”;
e ao estudantado como sector popular que está a formar-se ou capacitar-se
para a sua incorporaçom ao mercado de trabalho, o que o dota de um evidente
valor de troca a partir do qual acharám um posto de trabalho em que serem
explorados em maior ou menor medida, conformando enquanto isso um sector
de desemprego encoberto, mas real.
Também nom devemos eludir as importantes mudanças operadas
nas relaçons de produçom e como afectam à composiçom social. Já figemos referência a como as
grandes concentraçons fabris deixárom de definir a imbricaçom da classe
trabalhadora, com poucas empresas que ultrapassem os 500 trabalhadores/as,
muitas pequenas empresas a funcionarem como subcontratas e onde as condiçons
laborais, a precariedade e a eventualidade impedem a frágua de um movimento
sindical forte. O incremento dos serviços na economia do nosso país, um
sector onde os contratos-lixo e as empresas multinacionais alimentares,
do transporte, etc, ajudam a definir um panorama em que o sindicalismo tradicional
perde influência pola sua pouca adequaçom às novas condiçons de trabalho.
Um panorama no que a desestruturaçom e restruturaçom permanentes da classe
operária se plasma no desemprego estrutural de um importante sector, a eventualidade
crónica de outro maior, na especial situaçom de opressom patriarco-laboral
da mulher trabalhadora, na legiom de trabalhadores e trabalhadoras que subsistem
na economia submersa ou de subsistência em pequenos negócios que chegam
a provocar a própria autoexploraçom de famílias inteiras no sector serviços,...
e na “privilegiada” situaçom de um outro sector com um nível variável de
qualificaçom, empregado de grandes empresas e indústrias em condiçons muito
superiores às dos trabalhadores e das trabalhadoras de empresas subcontratadas
pola sua, ou certos sectores do funcionariado burocrático na Administraçom
pública, sectores constituídos em “pata negra” da classe trabalhadora que
defendem corporativistamente o seus estátus superior à hiperexploraçom imperante
e recusam avanços substanciais em direcçom à ruptura de relaçons de dependência
com Espanha, apesar de alguns deles gostarem da léria autonomista por estarem
empregados na Junta.
Todo isto condiciona nom
só a fraqueza e descoordenaçom das respostas de classe ante as sucessivas
contra-reformas laborais arranjadas pola direita espanhola e contra as agressons
concretas a cada sector e cada empresa, cada vez mais generalizadas, senom
a falta de umha estratégia sindical e política à altura das novas caraterísticas
e necessidades do mercado laboral em que o nível de sindicaçom é só um primeiro
indício da desfeita operária nos países perífericos do centro capitalista
como o nosso, e entre o qual, nom o esqueçamos, o sindicalismo nacionalista
nom passa de representar 25%.
A seguir, mostraremos
com dados como a classe trabalhadora galega nom só continua a ser o segmento
hegemónico da populaçom que habita este país, senom que se acha num processo
de expansom por mor da proletarizaçom de amplos sectores procedentes do
campesinato. E é-o apesar das novas problemáticas que tem colocadas, das
graves contradiçons que arrasta e das dificuldades que as suas organizaçons
demonstram na adaptaçom a umha realidade nova e em transformaçom contínua
em direcçom ao mais sofisticado funcionamento dos mecanismos de exploraçom
e de anulaçom da resposta d@s oprimid@s. De facto, nom só continua a ser
o segmento maioritário, senom que o seu crescimento é constante na Galiza
e no mundo, na medida que as desigualdades também aumentam ao ritmo que
o capitalismo se mundializa.
1.2.1-
O Povo Trabalhador Galego
Já dixemos que a populaçom
galega se aproxima dos 3.000.000 se contarmos a faixa leste excluída da
Comunidade Autónoma. Porém, e como também já explicamos, vemo-nos na obriga
de limitar a nossa análise aos 2.732.926 habitantes da Comunidade Autónoma
da Galiza. A populaçom activa, em crescimento nos últimos anos, é constituída
por 1.143.700 pessoas, das quais aproximadamente 60% som homens. Quanto
às pessoas ocupadas, nom passam do milhom, de novo 60% de homens face a
40% de mulheres. No que a desemprego di respeito, 12% encontra-se nessa
situaçom, o que supom 143 800 pessoas. Sintomaticamente, neste parámetro
som as mulheres quem ficam muito por cima dos homens, atingindo 16’8% enquanto
os homens ficam em 9’3%. Convém salientar também como é na juventude que
o desemprego atinge as suas mais altas quotas, em concreto 28% na faixa
etária que vai de 20 a 24 anos.
Temos, portanto, definido
um primeiro segmento na composiçom do Povo Trabalhador Galego, o formado
polo contingente de 143.800 pessoas desempregadas, das que mais de cem mil
som mulheres. Desse total, aproximadamente 90 mil som desempregad@s de longa
duraçom, das que quase 60 mil som mulheres.
Um segundo colectivo global
a considerar é o das pessoas assalariadas, claramente maioritário a respeito
dos restantes sectores que componhem a populaçom ocupada. Em concreto, 705.000
pessoas, 426.000 homens e 279.000 mulheres. Levando em conta que dez anos
atrás, em 1991, eram 552.800 as galegas e galegos assalariados, aginha comprovamos
como se trata de um grupo em contínuo crescimento, e que maioritariamente se adscreve
como classe trabalhadora dentro do Povo Trabalhador Galego. É um facto incontestável
que o segmento de trabalhadoras/es por conta de outrem aumenta até o ponto
de converter-se no principal ante a queda do emprego agrário e o deslocamento
da populaçom ocupada para os sectores secundário e terciário.
A grande maioria dessas
705.000 pessoas assalariadas som Povo Trabalhador Galego, com a excepçom
das minoritárias fracçons integradas nas forças armadas e outros corpos
repressivos, bem como altos cargos das administraçons e de empresas privadas
(88.800 ao todo). @s assalariad@s no sector público somam 135 800, d@s que
mais de 75.000 som da Junta da Galiza, enquanto @s empregad@s no sector
privado por conta de outrem atingem a cifra de 430.700 pessoas o que dá
ideia da minoria que representam as elites directivas e as forças repressivas
do Estado nesse conjunto.
O contingente
classificado como “assalariado” reparte-se numericamente em 9.900 na agricultura,
17.900 na pesca, 171.600 na indústria, 92.500 na construçom e 413.100 no
sector serviços: sanidade, educaçom, hospedaria, comércio, administraçom,
banca, limpeza,... Inclui-se na contagem do Povo Trabalhador Galego, embora
na sua periferia, certa pequena burguesia assalariada: engenheiros, sectores
do professorado de ensino médio e universitário, técnicos especializados...
Já temos, portanto, um
segundo segmento na composiçom do Povo Trabalhador Galego, formado pola
maior parte (mais de 75%) das 705.000 pessoas assalariadas.
Devemos acrescentar no
cômputo da Classe Trabalhadora Galega, como dixemos, dous colectivos classificados
como populaçom inactiva nas estatísticas: o estudantil e o classificado
como “labores do lar”. Este último, na sua esmagadora maioria, é formado
por mulheres que constituem um contingente de trabalhadoras domésticas nom
remuneradas muito funcionais para a manutençom do sistema capitalista. As
donas de casa com dedicaçom exclusiva som
261.700 mulheres
[1]
cuja suposta “inactividade” nom se corresponde com o
rol sócio-económico fundamental que desenvolvem, sem horário nem direitos
laborais, umha exploraçom contabilizável em milhares de horas dia, no atendimento
do lar e do homem, garantindo assim a sua recuperaçom como força de trabalho
ao serviço do capital e preparando as crianças para a sua incorporaçom ao
mercado laboral no futuro. Quanto à populaçom galega estudante, atinge 214.300
pessoas.
O número de reformados
é no nosso país de 629.300 pessoas, que se repartem proporcionalmente na
sua adscriçom de classe resultando, portanto, imensa maioria as adscritas
a algum dos segmentos constituintes do Povo Trabalhador Galego.
Devem incluir-se ainda
outros grupos também pertencentes ao Povo Trabalhador Galego, como som os
membros de cooperativas (7.300), comerciantes autónomos e trabalhadores/as
semi-autónom@s e agrícolas, estatisticamente classificados como empresári@s
por manterem um pequeno negócio ou umha pequena produçom cárnica ou láctea
para comercializar na procura da própria subsistência; e outros tipos de
autoempregad@s considerad@s como empresári@s quando na realidade som eles
que dependem totalmente de grandes empresas que os levam à autoexploraçom,
ou como muito sectores nom dependentes de um salário nem patrons de assalariados,
tradicionalmente denominados pequena burguesia proprietária; inclusive contamos
um número indeterminado de operári@s-camponeses/as (operári@s e agricultores/as
a tempo parcial nas suas propriedades agrícolas) e outras formas de simbiose
entre situaçons aparentemente contraditórias, mas presentes no nosso país,...
Nom temos mais que dar umha vista de olhos às quase 187 000 pessoas estatisticamente
catalogadas como “empresári@s sem assalariad@s” para fazermos ideia da importáncia
desse heterogéneo grupo que deve ser computado como maioritariamente pertencente
às classes populares, com excepçom de certos grupos de profissionais liberais.
Se reconhecermos a pertença
ao Povo Trabalhador Galego da percentagem proporcional correspondente dos
galegos e galegas menores de dezasseis anos (por cima dos 400.000), dependentes
dos núcleos familiares em que se inserem, confirmaremos o facto de as classe
populares conformarmos a imensa maioria da populaçom galega.
1.2.2.-
Burguesia e fracçons associadas à classe dominante vs. Povo Trabalhador
Talvez nos levasse menos
tempo começar por identificar e contabilizar os membros do bloco dominante
e as suas classes de apoio, dada a sua reduzida nómina. Começamos por sublinhar
@s 59.600 empresári@s com assalariad@s estatisticamente detectad@s. Se a
esses acrescentarmos as pessoas antes resenhadas como directiv@s de empresas
públicas e privadas, bancos, etc., juntamente com as forças repressivas,
políticos a soldo, tecnocratas e burocratas diversos (por volta das 100.000
no seu conjunto), bem como as suas famílias (partindo da média de 3’2 pessoas
por lar como média familiar galega), chegamos a umha percentagem de uns
300.000 indivíduos entre grandes e medianos burgueses, forças repressivas
e altos burocratas, juntamente com as respectivas famílias.
Porém, só umha pequena
parte desse colectivo constitui a verdadeira classe burguesa que decide
e ordena, que possui directamente os meios de produçom, as grandes empresas,
o capital, que mantém relacionamento directo com a oligarquia espanhola
e transnacional. Lembremos a tendência à acumulaçom de capital e recursos
em cada vez menos maos, vejamos a listagem de grandes empresas galegas ou
instaladas na Galiza (PSA Peugeot Citroën, Inditex, Pescanova, Gadisa, Coren,
Construciones San José, Grupo Finsa, Vegonsa, Fadesa, Grupo Súbel, por citar
as dez mais importantes no ranquing de facturaçom) e comprovaremos que som apenas alguns centos de pessoas as
directamente pertencentes à burguesia dominante, umha parte das quais nem
galegas som, pois que em nom poucas ocasions som oligarcas espanhóis ou
multinacionais os donos de bancos e grandes empresas, pertencentes a diversos
sectores e afincadas na nossa naçom, quem configuram a burguesia imperante
na Galiza.
Contodo, levando em conta
as citadas fracçons de assalariad@s ao serviço dos grandes burgueses, das
suas empresas e de instituiçons e empresas públicas, a classe dominante
atinge esses escassos 10% da populaçom da Comunidade Autónoma da Galiza
actual, todos eles ao serviço do estátus dependente da Galiza como apêndice
de Espanha por motivos materiais bem evidentes, o que os une em estratégica
aliança com os oligarcas e classes dominantes espanholas. Escassos 10%,
portanto, mas que contam com todos os aparelhos institucionais, repressivos
e de poder ao serviço dos seus privilégios, o que os fai, a olhos dos interesses
objectivos do Povo Trabalhador Galego, um perigoso inimigo a bater.
As restantes e aproximadas
2.200.000 galegas e galegos som os 143.800 desempregados e desempregadas,
os 600.000 assalariados que nom pertencem ao grupo de 100.000 directivos
e repressores, as 261.700 donas de casa, a imensa maioria dos 214.300 estudantes,
@s quase 200.000 trabalhadores/as autónom@s, cooperativistas, labregas,
autoempregadas, etc.; umha grande parte dos 629.300 reformados e os familiares
nom incluídos nos grupos citados.
Som com certeza esses
mais de 90% de galegos e galegas quem formam o Povo Trabalhador Galego,
porquanto é aí que se encontram @s pobres (120.000 lares galegos), @s desempregad@s
(143.800 reconhecidos, muitos mais na realidade); @s precarizad@s (205.000
com contratos temporários, muitos mais suportando exploraçom e a ameaça
patronal do despedimento para “incentivar” o seu rendimento); @s desnacionalizad@s
(patentes no crescimento da massa social lingüísticamente espanholizada
e conseqüente interrupçom da transmissom intergeracional do galego); e as
marginalizadas (já demos os dados que despem a evidente marginalizaçom sócio-laboral
da mulher galega). É aí que deve prender a semente revolucionária e independentista
como única via de soluçom para os graves problemas sócio-económicos e culturais
que atravessa a imensa maioria de habitantes da nossa pátria.
O primeiro que devemos
fazer os revolucionários e as revolucionárias galegas para acometer a nossa
tarefa é esclarecer a autêntica dimensom quantitativa das classes populares
galegas, do nosso Povo Trabalhador, como agente da sua própria libertaçom
através de organizaçons próprias e de classe, rejeitando por princípio qualquer
proposta interclassista que pretenda incluir sob o mesmo programa social
a minoria burguesa e as maioritárias classes populares, ou que pretenda
situar à frente do projecto revolucionário e independentista a pequena burguesia
assalariada com os seus membros empregados como administradores, professorado
universitário, deputados autonómicos, funcionariado vário, profissionais
liberais e directivos de empresas públicas ou privadas, sectores em parte
já excluídos do Povo Trabalhador e em todo o caso nunca possibilitados para
configurarem umha vanguarda revolucionária, senom mais bem para abocá-la
ao reformismo conciliador com Espanha e o capital. Eis a natureza actual
de projectos ditos “interclassistas” como o do BNG, e eis a explicaçom do
seu conservadorismo nos objectivos de emancipaçom nacional e social de género.
Dificilmente pelejará
pola sua emancipaçom como classe quem já ocupa um estátus social acomodado
ou privilegiado na sociedade galega, e dificilmente aspirará à independência
nacional quem tam bem vive sob protecçom institucional e dependência económica
espanhola. Se bem é certo que essas fracçons pequeno burguesas nom contam
com o peso social e económico das burguesias basca e catalá que lhes permita
constituir-se em verdadeira burguesia, nom é menos certo que, como elas,
acham na actual configuraçom política, na actual dependência do nosso povo,
a suficiente comodidade e expectativas de futuro como segmento social para
nom só nom aspirar a romper com o Estado espanhol, como inclusive situar-se
do seu lado quando for preciso combater os “vermelho-separatistas”, julgando-nos
“aventureiros” ou “desestabilizadores” do seu estreito projecto nacional-autonomista.
Nom dizemos com isto que
todo o nacionalismo autonomista galego tenha a mesma extracçom de classe
(seria contraditório com a quantificaçom anterior). Ao contrário, a sua
base social e umha grande parte da sua militáncia pertencem sem dúvida ao
Povo Trabalhador Galego, como também umha parte da base social apoiante
do PSOE e mesmo do PP. O que afirmamos é que a direcçom do movimento nacionalista
politicamente representado polo BNG está em maos de representantes dessa
fracçom pequeno burguesa, e que isso determina o seu rumo e os seus objectivos
estratégicos. A alienaçom, juntamente com umha média social em muitos aspectos
por baixo do que o nacionalismo autonomista “oferece” (progressismo limitado
que caracteriza a nova pequena burguesia face a pequena burguesia tradicional),
completam a explicaçom da sua deriva reformista e anti-independentista.
A tal porto conduziu o
projecto “interclassista” do nacionalismo galego hoje maioritário. Percebendo
a sua deriva em termos materialistas e dialécticos, em termos de classe,
perceberemos qual deve ser a orientaçom do incipiente movimento independentista
que quer ganhar protagonismo no futuro deste povo à volta de três objectivos
irrenunciáveis: a independência, o socialismo e a emancipaçom de género.
Só um projecto que marque
bem a divisória com a burguesia poderá responder às necessidades reais desses
90% de galegos e galegas que configuram o nosso Povo Trabalhador. Um projecto
que restrinja o seu “interclassismo” aos sectores incluídos nesses 90%,
e que combata os privilégios, o acomodamento e os interesses nom só das
classes dominantes espanholas ou directamente vinculadas a elas no nosso
país, senom também as posiçons “intermédias” dos que se proponham procurar
um acomodo na Espanha com teses mornamente nacionalistas e declaradamente
conciliadoras, através de umha suposta reordenaçom educadamente reivindicada
do braço das burguesias nacional-autonomistas catalá e basca.
Devemos ser capazes de
estender entre o nosso Povo Trabalhador a ideia da ligaçom indestrutível
entre libertaçom social de género e libertaçom nacional, entre a conquista
de umha vida digna e a conquista da soberania nacional plena, da independência.
Devemos combater a alienaçom generalizada e imbuir a identificaçom entre
as classes dominantes e a dependência, entre as forças repressivas e o espanholismo,
entre o autonomismo e a unidade de Espanha. Devemos desmascarar o papel
amortecedor das luitas que cada vez mais joga o nacionalismo galego institucionalizado,
denunciar o rol reformista e anti-soberanista da sua direcçom e jogar a
carta da luita aberta, prática e teórica, contra Espanha e o capitalismo.
Claro que, para nom ficarmos
nos grandes princípios e na declaraçom de intençons, deveremos também detectar
e reconhecer as grandes dificuldades que afrontamos no caminho da construçom
da alternativa independentista, socialista e de emancipaçom de género.
Graves dificuldades derivadas
da estrutura de classes da formaçom social galega a que antes figemos referência,
e que deve ser completada com mençom de algumhas características sociais
da Galiza actual.
Para já, nom devemos esquecer
que durante quase a metade do último século, a Galiza viveu sob a bota militar
e fascista espanhola, que ceifou as cabeças mais lúcidas do movimento popular,
nacionalista e progressista que estava a coalhar no primeiro terço do século
XX. As vítimas contárom-se por milhares e a repressom estendeu-se durante
décadas; repressom crua e nua, física e também ideológica. Com efeito, ainda
hoje devemos recorrer aos profundos efeitos dessa repressom contra todo
o que cheirasse a galego e a esquerda para explicar o estado calamitoso
em que se encontram as consciências das nossas massas populares. Estado
calamitoso de um corpo social com altos índices de alienaçom e desconhecimento
da própria história, da própria condiçom social, cujos indivíduos tenhem
como modelo de comportamento o da burguesia espanhola, escravos do consumismo
apesar de piorarem as suas condiçons laborais e de vida, aumentando assim
o seu nível de escravatura e dependência das condiçons sócio-laborais impostas
pola patronal e por Espanha.
De resto, nom devemos
esquecer que a populaçom rural e o hábitat disperso mantenhem um peso importante
na Galiza. Embora o país esteja assistindo a um novo processo acelerado
de urbanizaçom, na actualidade ainda 56% da populaçom reside no rural frente
32% nas cidades e 11’2% em núcleos intermédios. Um destacável sector da
classe trabalhadora vinculada ao sector serviços, concretamente à limpeza,
hospedaria, bem como @s trabalhadores/as da construçom, que desenvolvem
a sua actividade nas cidades e nas grandes vilas, continuam morando no rural,
embora já nom se podam definir como populaçom camponesa strictu sensu. Esta situaçom, unida à ausência de umha classe operária
industrial de terceira geraçom, que tenha perdido definitivamente qualquer
vínculo directo com o mundo agrário e a cultura labrega, quer dizer, a persistência
maioritária de umha classe operária simbiótica, tem dificultado a consolidaçom
da cultura e autoorganizaçom operária, contribuindo para suavizar os efeitos
das medidas neoliberais ao contar com umha retaguarda (leiras, casa na aldeia)
que atenua os efeitos das constantes agressons que padece, exercendo de
amortecedor das respostas contundentes que políticas menos beligerantes
provocam noutras latitudes.
Continua a ser umha paisagem
habitual a congestom das vias de comunicaçom de entrada dos grandes núcleos
urbanos galegos, aos domingos de tarde ou nos feriados, por milhares de
automóveis ateigados de trabalhadores/as e as suas famílias que voltam de
passar o fim de semana na aldeia com a mala cheia de produtos da terra complementares
para a subsistência.
Na Galiza, a cultura operária
e urbana, característica daquelas formaçons sociais que realizárom a revoluçom
burguesa e industrial, é minoritária. As conseqüências do forte peso da
sociedade rural, muito embora conservasse intacta até há bem poucas décadas
parte da base material do projecto nacional, traduzem-se no conservadorismo
e persistência do auto-ódio colectivo entre amplos sectores da populaçom.
Os laços com este universo simbólico, em plena mutaçom e/ou desaparecimento
polo despovoamento do interior (mais de 250 aldeias abandonadas), pola destruiçom
física da língua e de todas as manifestaçons artísticas directamente ligadas
à cultura nacional (arquitectura, etnografia), manifestam-se na perpetuaçom
da mentalidade submissa de súbditos versus
cidadaos que define historicamente o agro galego e que pervive praticamente
intacto nesse sector social refractário às mudanças, ancorado no tradicionalismo,
modulado pola falsa consciência necessária, sob a tutelagem do caciquismo,
alienado, temeroso, marcado polo trauma da guerra de 1936-39 e a selvagem
repressom fascista posterior, que continua a apoiar sem reservas o autoritarismo
do neo-fascismo espanhol representado polo PP e o projecto antipopular do
PSOE.
Umha parte salientável
da Galiza do século XXI continua sob a sombra do velho regime estamental,
-dominada pola alienaçom da religiom católica, da televisom, dos espectáculos
de massas como o futebol-, assiste passsiva à destruiçom do seu ser nacional.
Nem o fenómeno da emigraçom, nem a industrializaçom da década de sessenta,
nem as profundas mudanças operadas na Galiza urbana e ocidental tenhem influído
substancialmente numha populaçom rural com umha baixíssima formaçom e umha
altíssima subordinaçom a respeito do cacique, quer em forma de alcalde do
PP, quer em forma de “obediência devida” às forças vivas, numha continuaçom
linear e ininterrompida com a forma de vida sob o franquismo que chega aos
nossos dias. Também no hábitat urbano detectamos sintomas preocupantes,
como a desarticulaçom social da nossa sociedade, a falta de participaçom,
a absoluta delegaçom do exercício dos direitos cívicos e políticos, que
caracterizam umha Galiza paralisada e em crise como comunidade nacional
diferenciada e viável.
Nom devemos esquecer que
as profundas deficiências que topamos no seio da consciência das diferentes
fracçons que conformam o Povo Trabalhador Galego vem determinada polas condiçons
materiais concretas. Assim, a efectiva ligaçom de um amplo sector da classe
trabalhadora com o mundo rural, concretizada pola posse de terras em muitos
casos exploradas como complemento da actividade laboral principal, explica
a subsistência de umha mentalidade colectiva que reflecte os esquemas próprios
de umha sociedade de pequenos proprietários. Este facto é aproveitado polo
sistema de um jeito duplo tanto num nível ideológico, ao permitir umha perpetuaçom
das relaçons políticas clientelares, fundamente arreigadas no agro galego;
quanto na esfera produtiva, ao abrandar as tensons sociais provocadas pola
precarizaçom laboral, já que parte das massas assalariadas galegas podem
recorrer à prática de umha agricultura de subsistência em períodos de crise,
facto historicamente comprovado nas décadas de 40 e 50 do século XX.
De outra parte, nom há
que minusvalorizar a importáncia ideológica de a maioria das empresas que
empregam a força de trabalho do Povo Trabalhador Galego estarem qualificadas
como pemes. Isto é, nelas, as relaçons entre patrom e operári@ som muito
estreitas, ocorrendo as mais das vezes que o proprietário desenvolve a actividade
física própria d@ assalariad@. Nom raro, nessa situaçom existe umha identificaçom
d@s trabalhadores/as com os interesses do patrom, que é valorizado como
mais um “companheiro” que logrou ocupar a sua posiçom graças ao seu esforço
individual. Provocando além do mais que @s operári@s aspirem a se converter
em patrons num futuro, caindo assim na armadilha do sistema.
Se a todo isto acrescentarmos
a globalizaçom capitalista e a crise mundial e generalizada das forças e
da subjectividade revolucionárias umha década após o derrubamento quase
absoluto dos sistemas ditos socialistas ao longo de boa parte do mundo,
crise de que a Galiza nom fica em absoluto à margem, poderemos acabar de
gizar um cenário na actualidade adverso para as posiçons anti-capitalistas,
feministas e independentistas que defendemos.
A já comentada mudança
operada no mundo do trabalho quanto aos agrupamentos fabris, a também citada
desmembraçom da classe operária, o mito da desapariçom da classe trabalhadora
e da luita de classes como expoentes de umha alienaçom muito potencializada
pola actividade dos cada vez mais poderosos meios de intoxicaçom de massas,
a pouca representatividade sindical e o seu afastamento dos segmentos mais
explorados da classe operária, a venda dos próprios projectos sindicais
ao financiamento institucional,... Som muitos os parámetros em que detectamos
as enormes dificuldades a que fazemos referência, num momento em que nom
estamos ante um reforço do Estado de Providência que pudesse adormecer o
ánimo combativo da classe trabalhadora, senom ante um incremento das políticas
neoliberais e dos ataques às liberdades mais fundamentais das pessoas e
dos povos.
Um projecto revolucionário
como o que Primeira Linha está construindo tem que ser capaz de definir
as grandes mudanças que se estám gerando no interior da estrutura de classes
do nosso país e portanto focar a intervençom sócio-política em funçom do
futuro e nom sob a inoperante nostalgia, muitas vezes conservadora, de umha
idílica visom de um passado actualmente em vias de extinçom. A Galiza acha-se
numha encruzilhada histórica, é umha estrutura social em plena transiçom,
que em menos de umha geraçom assistirá à transformaçom radical da naçom.
As mudanças sócio-económicas em curso vam desembocar num país mais dependente,
espanholizado, urbanizado, muito envelhecido, proletarizado, com fortes
desequilíbrios entre a Galiza septentrional e a meridional, que provocarám
novos reptos para a esquerda independentista. A perda de um dos sinais medulares
da nossa nacionalidade, o idioma, a massiva volta de emigrantes, o incremento
da imigraçom, da pobreza e exclusom social, dos problemas ambientais, determinarám
o evoluir da sociedade galega de segundo terço deste século.
Sermos capazes de antecipar-nos
a este quadro é cruzial para podermos lograr a penetraçom e consolidaçom
do projecto soberanista entre esses emergentes sectores sociais, e podermos
canalizar as luitas e conflitos sociais inerentes na direcçom da independência
nacional, o socialismo e a emancipaçom de género. A esquerda independentista
deve dotar-se de um discurso específico e diversificado, apropriado ao século
XXI, para podermos ser um dos actores principais desse novo cenário social
que hoje tam só começa a emergir.
NOTAS
[1] Na actualidade, 1.389.700 galeg@s nascid@s na Galiza residem fora do país. Esta cifra ascende a mais de quatro milhons e meio se
contarmos as duas primeiras geraçons na América, e a mais de seis milhons contando @s descendentes no conjunto da Europa. Vivem no conjunto do Estado espanhol 625.000; na Argentina 330.000; na Venezuela 100.000; no Brasil 95.000; na Alemanha 90.000; na Suíça 55.000; em França 50.000; no Uruguai 36.000; no Reino Unido 32.000; no México 17.000, por citar a localizaçom das principais colónias de emigrantes de primeira geraçom em diferentes pontos do Planeta.
2.4- A Unidade
Popular e a reorganizaçom do MLNG