REVOLUÇOM GALEGA. Dez anos de Primeira Linha

Umha década nom é nada na história dum povo. É um breve período de tempo, irrelevante, umha simples gota de água no imenso oceano da luita de classes, no dilatado processo de emancipaçom nacional e social de género.

Na Galiza dos últimos dez anos, -a cavalo entre a segunda metade da década de noventa do século XX e primeira década do actual século XXI-, tivo lugar a génese e os primeiros passos do desenvolvimento dumha original experiência de construçom dumha força política revolucionária, dum partido comunista de nova planta.

Neste 2006 Primeira Linha cumprem-se dez anos de intensa actividade e intervençom ao exclusivo serviço da classe trabalhadora, das mulheres e da Galiza.


Origens

A génese de Primeira Linha (MLN) situa-se a meados de 1995, quando um reduzido grupo de jovens, maioritariamente integrados em diversas estruturas da esquerda nacionalista galega, insatisfeitas com a sua orientaçom, mas também com as limitaçons inerentes aos movimentos sociais de que faziam parte, vem necessário pôr em andamento umha organizaçom marxista-leninista de prática independentista.

Armados de entusiasmo, coragem e audácia, com praticamente todos os elementos contra, decidem construir na Galiza um partido comunista para o século XXI.

Meses de discretos encontros, de dúvidas e contradiçons, dúzias de horas de debates para atingir a síntese colectiva de visons e opinions moduladas por diversas experiências e trajectórias, confluírom na constituiçom de Primeira Linha (MLN) no 1º de Maio de 1996, numha assembleia fundacional realizada num local da compostelana rua do Vilar.

As dificuldades e obstáculos a que os fundadores do Partido tivérom que fazer frente e superar fôrom inumeráveis.

O panorama sociopolítico a escala nacional e internacional era pouco alentador.

O nacionalismo de esquerda, representado polo BNG e as organizaçons sociais de carácter sectorial, em plena euforia eleitoralista, já manifestavam graves sintomas da sua posterior claudicaçom e adaptaçom às regras impostas por Espanha e o Capital.

O possibilismo, a perda de combatividade, a anorexia ideológica, a burocratizaçom, a institucionalizaçom, o supersticioso respeito pola legalidade vigorante, o exclusivismo eleitoral, caracterizavam e monopolizavam as tendências maioritárias no seio da sua direcçom.

O núcleo fundador de Primeira Linha (MLN) estava plenamente consciente desta situaçom. Assim ficou recolhido no manifesto fundacional Por um partido marxista revolucionário. Por umha organizaçom de libertaçom nacional, distribuído nos dias prévios ao 25 de Julho de 1996 no primeiro acto político onde foi apresentada a organizaçom emergente perante um grupo de simpatizantes.

@s fundadores do Partido conheciam as fracassadas tentativas precedentes, e embora tivessem claro o carácter transitório da presença no seio do BNG, correctamente descartárom começar o processo de acumulaçom de forças no seu exterior porque só ficavam ruínas das décadas anteriores.

Naquela altura, a esquerda independentista caracterizava-se pola desorganizaçom, fragmentaçom e confusionismo. Esmorecia e carecia da energia necessária para atrair a juventude trabalhadora. O seu principal objectivo era sobreviver. Umha parte do movimento tinha sido derrotado política e militarmente, a outra estava praticamente inerte e instalada na complacência.

Nom havia mais hipótese que começar de novo, reconstruir o independentismo revolucionário sob novas coordenadas políticas, ideológicas, elaborando um novo discurso, um novo imaginário, conjugando-o de forma criativa com o marxismo e os contributos dos novos movimentos sociais de quais procedia parte do núcleo fundador, do feminismo, do antimilitarismo, do ecologismo.

À escala internacional, a situaçom nom era muito mais esperançosa. O sentimento subjectivo de derrota seguia presente no conjunto da esquerda após o rotundo fracasso das experiências do socialismo soviético, a seguir à queda do muro de Berlim em 1989 e implosom da URRS no Verao de 1991.

Existia umha irracional atmosfera de estigmatizaçom e criminalizaçom do comunismo.

O capitalismo estava vitorioso, celebrando os primeiros passos da ofensiva militar global contra os povos e a classe trabalhadora.

O imperialismo tinha desatado a primeira guerra do Golfo, a nova ordem internacional estava-se impondo a ferro e fogo, a disparatada teoria do fim da história legitimadora do pensamento único era doutrina oficial, tam só timidamente questionada por sectores minoritários da esquerda nacional do nosso país.

Umha boa parte dos velhos partidos comunistas, de organizaçons e movimentos revolucionários, em praticamente todos os pontos do planeta, optavam pola rendiçom, por claudicarem, por vergonhosas reconversons aos parámetros da inofensiva e domesticada social-democracia.

Mas, naquele tam afastado e tam próximo 1995, um grupo de jovens inconformistas e rebeldes acertárom na necessidade de sentarem os alicerces deste nosso Partido, desta modesta e proletária experiência combatente. A sua valentia e lucidez permitiu abrir na Galiza umha nova fase para a esquerda revolucionária.

É indiscutível a sua contribuiçom para os modestos avanços organizativos, e basicamente políticos e ideológicos, atingidos polo conjunto do MLNG.


Os primeiros passos

Desde o primeiro momento, Primeira Linha (MLN) pretendeu agir como um revulsivo, como um insubornável referente de honestidade e luita para organizar o descontentamento interno no seio da esquerda nacionalista e frear a deriva autonomista e reformista.

A apresentaçom pública do projecto tivo lugar na rua, o espaço por excelência da luita de classes, da luita de libertaçom nacional.

Na manhá do 25 de Julho de 1996 milhares de exemplares do Abrente eram distribuídos polos filhos da madrugada na alameda compostelana, e umha gigantesta faixa, -elaborada clandestinamente com sigilo e esmero no faiado dumha casa em obras dos arrabaldos de Compostela-, emergia da maré humana daquele histórico Dia da Pátria.

Terra e liberdade. Independência e Socialismo foi a palavra de ordem com que Primeira Linha manifestou a sua firme determinaçom de ser um referente para os sectores mais avançados das massas.

Desde o primeiro momento, o núcleo fundacional, e as posteriores incorporaçons de militantes que conformárom o cerne partidário até 1999, -ano em que abandonamos o BNG-, foi consciente de que éramos umha força incómoda, um projecto incontrolável polo sistema e polos mandarins do autonomismo. Por este motivo, padecêrom na sua acçom política e vida pessoal as enormes dificuldades, os imensos obstáculos, as pressons, as campanhas de desprestígio e insídias, empregadas polas diversas variantes do reformismo, mas também por aquelas que se auto-consideravam organizaçons revolucionárias, para evitarem a nossa consolidaçom e reforçamento.

Para o conjunto da esquerda nacionalista e os restos do naufrágio do independentismo da primeira década de noventa, sem excepçons, a constituiçom de Primeira Linha supujo grande surpresa. A inicial indiferença traduziu-se rapidamente em oposiçom e hostilidade. Existia plena coincidência na necessidade de fazer-nos desaparecer.

À medida que o Partido logrou umha mínima expansom organizativa e se foi dotando de linha política nos movimentos sociais e organizaçons de massas, a existência de Primeira Linha converteu-se numha doentia obsessom para a maioria da direcçom do Bloque, que marcou como objectivo a expulsom, contribuindo para gerar e reforçar a criminalizaçom a que se via submetido polos meios de comunicaçom e as forças repressivas.

Um irrespirável clima de assédio impedia a intervençom política, forçava destinar ingentes energias e recursos a umha mera prática defensiva.

Simultaneamente, a direcçom do Partido e praticamente o conjunto da militáncia assumiu que a deriva autonomista e social-democrata do nacionalismo galego nom tinha volta de folha. Tínhamos atingido os limites da capacidade de influência, muitos apoios recebidos na esfera do privado nom se traduziam em cobertura pública. Chegara-se a um ponto em que Primeira Linha era incapaz de aglutinar o resto do descontentamento de posiçons de esquerda, que optava por abandonos individuais ou por desistir comodamente de fazer frente ao aggiornamento.

A paulatina integraçom do BNG no quadro jurídico-político pós-franquista impedia a continuidade de Primeira Linha no seu interior, inviabilizava seguir construindo umha corrente comunista e independentista no seu seio.


I Congresso

A 5 e 6 de Dezembro de 1998, tem lugar o I Congresso, fechando a primigénia etapa de provisoriedade.

Abrindo horizontes de revolta na Galiza foi a cristalizaçom de um processo aberto de debate interno e clarificaçom ideológica em que se atingiu umha certa consolidaçom organizativa, dotando o Partido de um programa político, um corpo ideológico, definindo a estratégia, e aprovando um particular modelo organizativo leninista adaptado às particulares condiçons da específica formaçom social concreta sobre a qual intervimos as comunistas e os comunistas galegos, a Galiza do século XXI.

A criminalizaçom que os meios de comunicaçom do sistema empregárom contra o I Congresso foi determinante para a superarmos o anonimato, e foi a primera escusa para a tentativa de expulsom do BNG.

A segunda foi o conteúdo das III Jornadas Independentistas Galegas, realizadas em Março de 1999, onde agitando vozes da rebeliom internacional manifestamos o firme compromisso internacionalista com os diversos métodos de luita dos povos e as classes trabalhadoras.

Embora nesta primeira cita congressual fosse ratificada a decisom de continuarmos no BNG, umha boa parte da militáncia era consciente de que os nossos dias no seu interior já iniciáram a contagem decrescente. Assim, um dos principais acordos deste Congresso foi explorar vias de aproximaçom aos sectores da esquerda independentista alheios ao BNG, promovendo contactos, potenciando o conhecimento mútuo, possibilitando campos de trabalho comuns para dotar de expressom política o independentismo sociológico. Já naquela altura, Primeira Linha tinha claro que sem um forte movimento unitário e plural seria improvável a sua viabilidade futura.

Este acordo congressual derivou nos contactos realizados com todas as outras expressons do independentismo nos primeiros meses de 1999.


A saída do BNG

A 10 de Abril de 1999, o Comité Central acorda por unanimidade convocar um Congresso extraordinário para referendar o abandono do BNG.

A 5 de Junho, tem lugar o II Congresso, onde umha esmagadora maioria da militáncia assistente acorda que o projecto comunista de libertaçom nacional representado por Primeira Linha abandone o BNG, dando por fechada a primeira etapa de construçom do nosso colectivo partidário.

O II Congresso convocado sob a legenda Pola unidade da esquerda independentista, após caracterizar as diversas correntes do soberanismo socialista, acorda sentar as bases para a criaçom dumha força política unitária, plural e de massas onde coincidirmos todas as correntes da esquerda independentista actuantes na Galiza.

Foi umha decisom arriscada, -como umha boa parte das adoptadas desde a nossa constituiçom em 1995-1996, e as que posteriormente tenhem permitido a celebraçom do X Aniversário-, mas imprescindível para contribuirmos para construçom do cenário político que permitiu a unidade de acçom, e a posterior criaçom das actuais organizaçons de massas do novo independentismo.

Tam arriscada e necessária que provocou a perda de um considerável núcleo militante que optou por seguir integrado no BNG, renunciando ao inconformismo característico dum partido comunista e revolucionário.


Umha nova etapa para o Partido e para a esquerda independentista galega

A histórica unidade do soberanismo socialista atingida no 25 de Julho de 1999 só pode ser entendível polas decisons adoptadas no II Congresso de Primeira Linha.

O sucesso desta iniciativa, e das que posteriormente tivérom lugar no resto do Verao, nas convocatórias de homenagem a Moncho Reboiras em Ferrol e aos caídos e represaliados polo fascismo em Ponte Vedra, servírom para activar e ilusionar muitas jovens, muitos trabalhadores e trabalhadoras que optáram por abandonar a militáncia e participaçom política activa, ou nom se decidiam a dar passos nessa direcçom, perante a situaçom de atomizaçom e falta de expectativas em que se achava o MLNG.

Primeira Linha sempre defendeu que a convergência desse Dia da Pátria nom devia ser erroneamente interpretado como um simples e fortuito acordo pontual, fruto dumha determinada conjuntura política, senom como o início dumha fase de unidade de acçom que permitisse criar as condiçons subjectivas imprescindíveis para ultrapassar a fraticida divisom da esquerda independentista, mediante a criaçom dumha Unidade Popular.

Assim, derivada desta concepçom e estratégia, é criada em Outubro a Comissom Nacional Unitária da Esquerda Independentista, como um organismo de carácter permanente e estável, configurado por umha delegaçom tripartida das três forças convocantes das iniciativas unitárias, com o objectivo de desenhar e coordenar a unidade de acçom. Para avançarmos no processo estratégico de sentar as bases para que Galiza e a classe trabalhadora se dote dumha estrutura plural e unitária de massas para defender-se das agressons do capitalismo espanhol e dirigir o processo de libertaçom nacional e social face a Independência Nacional e o Socialismo.

Esta Comissom, que durante meses gerou expectativas, logrando umha indiscutível referencialidade em amplos sectores populares com iniciativas e propostas, nom foi capaz de avançar polo caminho que demandava a maioria da base social independentista.

A deslealdade e as reticências de aqueles que anteponhem os interesses partidários aos da Galiza e aos da classe trabalhadora furtárom o seu sucesso.

As eleiçons ao Parlamento espanhol de Março de 2000 marcam o ponto de inflexom e posterior ruptura dos frágeis acordos pola unilateral decisom de apresentar candidatura em solitário por umha das forças que faziam parte da unidade de acçom.

Primeira Linha chama à abstençom e participa activamente na campanha, denunciando o carácter antidemocrático deste regime herdeiro do franquismo.


As primeiras estruturas unitárias do novo independentismo

Ao longo da primeira metade do ano 2000, nascem as Assembleias Populares Comarcais, como estruturas políticas unitárias da esquerda independentista.

As APCs som resultado do acordo unitário entre aqueles sectores do movimento que apostavam pola unidade orgánica.

O 25 de Julho de 2000, também de carácter unitário, clarifica perante a magna assembleia do MLNG que é o Dia da Pátria, a firme vontade da maioria de superar a atomizaçom e caminhar conjuntamente na construçom da Unidade Popular.

Primeira Linha, as APCs e AMI ponhem em andamento em Dezembro de 2000 o Processo Espiral, sentando as bases do novo independentismo: umha força política unitária e plural, superadora das inércias do passado, da marginalidade, com vocaçom de vertebrar o espaço sociopolítico à esquerda do autonomismo no plano político e social existe na Galiza, dotando-o dumha aglutinante expressom colectiva.

Um referente de luita e combate para a classe trabalhadora, para a juventude e as mulheres que nom acreditam nas forças políticas da esquerda tradicional e demandam novas formas de intervir ao serviço dos interesses populares, comprometidas em somar forças na estratégia de construçom do seu instrumento defensivo frente o Capital: o Estado galego sob direcçom obreira.

Primeira Linha, tal como vinha defendendo desde o I Congresso, apostou abertamente por esta estratégia.

Os seus resultados, embora modestos, estám aí, som tangíveis.

A criaçom de AGIR em Setembro de 2000, como organizaçom unitária do estudantado da esquerda independentista, de NÓS-Unidade Popular em Junho de 2001, das Bases Democráticas Galegas em Dezembro de 2003, de BRIGA em Outubro de 2005, fam parte dessa rede popular, pluralista, na qual as comunistas galegas, os comunistas galegos estamos firmemente comprometidos.

Estratégia que com fluxos e refluxos permitiu constantes iniciativas unitárias de mobilizaçom de massas em que o soberanismo socialista levou a iniciativa, jogando um papel determinante. Desde as mobilizaçons contra a cimeira de ministros do Interior e Justiça da UE, passando polo Nom no referendo da Constituiçom europeia, até a oposiçom contra o desfile do militarismo espanhol na Corunha.

O nosso papel na configuraçom da nova esquerda independentista tem sido determinante. Temos contribuído para situar o MLNG, -junto com outras expressons organizadas e companheir@s sem adscriçom-, como um sujeito político e social, com linha política própria, com estatégia definida, tal como se constatou na activa e muitas veces referencial participaçom nas grandes luitas de massas que sacudírom Galiza nos primeiros anos do novo século. Nas greves gerais de 2001 e 2002, no combate à LOU, na denúncia da maré negra, da guerra imperialista, nas mobilizaçons das mulheres.

Nestes anos temos contribuido para impulsionar organizaçons culturais, centros e locais sociais, colectivos feministas, organizaçons juvenis, participado na construçom de correntes sindicais caracterizadas pola combatividade, contrárias ao pacto social e defensoras dum sindicalismo de rua e mobilizador.


O III Congresso e o modelo de Socialismo

O 2 de Março de 2002 decorreu o III Congresso, onde se determinou o carácter periférico da Galiza no seio do centro capitalista e se elaborou umha análise da concreta morfologia da estrutura de classes da Galiza, reafirmando a imprescindível composiçom e direcçom obreira do MLNG.

Nesta cita congressual, Primeira Linha desprende-se das siglas MLN, ratificando a aposta estratégica de apoiar, consolidar e alargar o projecto unitário, plural e de massas da nova esquerda independentista, sacrificando o protagonismo público em aras da consolidaçom de NÓS-UP, a cujos êxitos e fracassos ficou intimamente ligada.

A importáncia do III Congresso radica na ratificaçom da natureza de força política de vanguarda, de organizaçom de quadros que define o modelo e natureza de Primeira Linha.

Nesta cita congressual, o Partido traçou as sete grandes carácterísticas básicas do modelo socialista que defende para Galiza como primeiro passo para a construçom do comunismo.

-Um socialismo nom patriarcal.

-Respeitoso com a natureza.

-Pluralista e comprometido com a verdadeira democracia e as liberdades individuais e colectivas.

-Que aposta sem ambigüidades pola aboliçom da propriedade privada dos meios de produçom, do dinheiro.

-Que renuncia a dotar-se de um exército regular.

-Um socialismo criativo de novos seres humanos afastados de todos os vícios e defeitos de séculos de capitalismo.

-Um socialismo global, internacionalista, comprometido com todas as luitas do planeta.

Finalmente, o III Congresso analisou a reactivaçom da ofensiva machista e patriarcal do capitalismo, reajustando e aperfeiçoando a linha feminista, corrigindo a estendida tese da tripla opressom que padecem as mulheres trabalhadoras numha naçom oprimida, -a de género, a nacional e de classe-, afirmando e demonstrando que estes três factores fam parte dumha totalidade concreta historicamente constituída, dumha única opressom global, definida como opressom nacional e social de género.


Os inquestionáveis contributos teórico-práticos do nosso Partido

Estes dez anos tenhem ratificado umha boa parte das análises e prognósticos que conformavam a arquitetura político-ideológica de Primeira Linha e justificavam as razons da sua criaçom.

A Galiza de 1995-1996, -em pleno processo de traumáticas mudanças provocadas pola opressom nacional e a ofensiva neoliberal-, estava deixando de ser aquele país rural conformado por umha imensa massa de labregos, desindustrializado e incomunicado, para se converter numha sociedade urbana conformada por umha hegemónica massa de assalariad@s, onde o proletariado industrial, de carácter simbiótico, ocupa um papel cada vez mais destacado.

Mas naquela altura, tanto o BNG, como o independentismo, nom só se negavam a mudar a teoria sobre a que vinham agindo desde 1964, e portanto o seu erróneo discurso, como desqualificavam gratuitamente os contributos e novas análises que Primeira Linha realizava.

Mas sem teoria revolucionária nom há movimento revolucionário.

Hoje é fácil diagnosticar, -embora continuem a existir fortes inércias geradoras de absurdas resistências-, que a Galiza de 2006 nada tem a ver com aquela formaçom social que deu lugar à criaçom do nacionalismo de esquerda contemporáneo, e portanto que nem as suas análises, nem as formas de intervençom, nem muito menos as suas alternativas, conservam validez, por estarem ultrapassadas.

A morfologia de classes do nosso país é muito mais semelhante às sociedades do capitalismo avançado que às do Terceiro Mundo.

As revisons e adequaçons teóricas de parte dos paradigmas e ideias-força da esquerda nacionalista e independentista em que Primeira Linha incidiu nesta década, constatárom que algumhas das teses originárias eram erróneas, que outras fôrom superadas pola evoluçom da sociedade galega e as profundas transformaçons experimentadas no mundo do Trabalho, e que noutras cumpre constatar no presente o seu grau de validez. E que no seu conjunto som responsáveis pola actual deriva regionalista e derrota estratégica do autonomismo.

Isto foi possível basicamente por duas razons.

Porque o nosso colectivo partidário nom procedia do mesmo tronco comum, nom foi umha cisom radical da velha UPG, e portanto nom herdou as suas limitaçons genético-estruturais, nem o complexo de Édipo, que provocárom o fracasso continuado das experiências de construçom dum partido comunista de libertaçom nacional que tivérom lugar em 1976-77 e posteriormente em 1986.

E em segundo lugar, porque sempre aplicamos de forma criativa o materialismo histórico e dialéctico à nossa concreta realidade, fugindo de mimetismos e de modelos foráneos.

Como umha das experiências mais singulares de construçom dum partido comunista na Europa ocidental no crepúsculo do século XX, somos quiçá o primeiro, ou um dos primeiros, colectivos partidários comunistas criados depois da queda do muro de Berlim e posterior descomposiçom da URSS, em pleno recrudescimento da ofensiva ideológica do Capital contra o Trabalho.

Por este motivo, as achegas e cultura política de Primeira Linha ao movimento de libertaçom nacional e social de género marca um antes e depois em relaçom com todo o precedente.

Nom somos enquadráveis em nengumha das etiquetas dos diversos ismos das tradicionais ou mais novas correntes marxistas.

A originalidade de Primeira Linha radica precisamente na capacidade de fusom e síntese do melhor das nossas tradiçons e experiências nacionais de luita, em perfeita sintonia com a teoria revolucionária do movimento obreiro e popular internacional.

Actualmente, após o processo de aperfeiçoamento do nosso corpo teórico-prático, contamos com um firme e rigoroso programa e teoria revolucionária adequada à realidade do século XXI, claramente superior às diversas variantes das anacrónicas e dogmáticas leituras e interpretaçons da opressom nacional da Galiza, exploraçom de classe e opressom de género, que realizam as fracçons do autonomismo e as outras correntes da esquerda independentista.

Temos contribuido para situar a política no centro de gravidade da esquerda independentista, soltando os lastros do ideologismo, do consignismo estratégico, incidindo no dia a dia dos problemas da populaçom, ligando-os à situaçom de dependência nacional e à ditadura do mercado.

Temos contribuido para romper essa falsa normalidade democrática que o capitalismo espanhol tem construído à nossa volta, agindo como um revulsivo permanente, tensionando a sociedade com imaginaçom e contundência, evitando indiferença, provocando adesons e solidariedades, estimulando a participaçom popular, monstrando sem complexos que a luita é o único caminho.

Temos dado exemplo de coragem, sacrifício e entrega, qualidades revolucionárias definitórias do comunismo.

Também, como nom podia ser de outro jeito, com humildade e sinceridade revolucionária, reconhecemos os nossos erros colectivos, cometidos ao longo destes dez anos.

Eles som, obviamente, parte do nosso património. Porém, na sua imensa maioria som fruto da inexperiência, da juventude do Partido e da sua militáncia.

A todas e todos aqueles companheir@s e colectivos que podam ter-se sentido incomodados ou agredidos nalgum momento por algumha actuaçom nossa no seio do movimento popular, transmitimos a nossa autocrítica e desculpas comunistas.


O combate ideológico

Um dos mais importantes contributos de Primeira Linha nestes dez anos tem sido o esforço destinado à construçom dum novo movimento revolucionário galego. Neste objectivo a batalha ideológica, a construçom dum corpus teórico-prático tem sido umha constante preocupaçom.

As Jornadas Independentistas Galegas, cuja primeira ediçom se realizou em Janeiro de 1997, e a última, as X, tivérom lugar em Março deste ano, tenhem sido umha iniciativa de primeira ordem.

De carácter monográfico e anual, som o único espaço estável de debate e formaçom marxista, umha escola de aprendizagem e conhecimento, em que Primeira Linha aborda o futuro do independentismo galego, o papel da cultura, as luitas de outros povos, o modelo de comunismo, a globalizaçom capitalista, a situaçom da esquerda portuguesa, a opressom da mulher, a validez do leninismo, a situaçom do idioma, os reptos e perspectivas da esquerda.

Sempre, dumha perspectiva marxista revolucionária, mas aberta a outras vozes e opinions.

O Abrente, o vozeiro nacional do Partido, tem sido umha ferramenta insubstituível.

Hoje, esta publicaçom revolucionária com mais de 40 números editados, convertido na manchete decana da imprensa da esquerda independentista galega e no único jornal comunista editado na Galiza, tem acompanhado trimestralmente diversas geraçons de luitadores e combatentes, armando-as de razons e argumentos.

A importáncia do Abrente deve estabelecer-se em duas direcçons: dumha parte, e conforme a concepçom leninista do jornal como organizador colectivo, serviu e serve de aglutinador do nosso colectivo partidário, mas também como transmissor das nossas posiçons, como órgao formativo, como foro aberto para o debate de questons de actualidade.

A Abrente Editora é outra das peças essenciais do nosso projecto sociopolítico revolucionário. Nascida há também agora dez anos, este modesto selo editorial tem a honra de ser o único existente na Galiza de carácter comunista.

Caminhando ao ritmo das possibilidades partidárias, tem preenchido um espaço necessário para a formaçom das geraçons comunistas e de esquerda.

Com quatro colecçons iniciadas -Biblioteca Galega de Marxismo-Leninismo, Internacional, Documentos e Textos Políticos, e Construirmos Galiza- deu a lume algumhas das mais importantes obras clássicas do marxismo, assim como análises inéditas sobre o nosso país, contribuindo para dotar ao novo MLNG dumha teoria própria para a luita obreira, nacional e feminista.

Umha força comunista do século XXI nom podia desconsiderar as profundas mudanças provocadas pola revoluçom tecnológica. Eis a importáncia do nosso jornal electrónico, do portal Primeiralinha em Rede, actualizado diariamente, onde o Partido transmite a sua interpretaçom da realidade nacional e internacional, e onde podem ser consultadas dezenas de textos marxistas traduzidos para o galego, a totalidade dos números do Abrente e grande quantidade de artigos de opiniom.

O constante incremento de visitas ratifica a sua importáncia estratégica e o seu sucesso.


O IV Congresso e o futuro

Antes de finalizar o ano, Primeira Linha, coincidindo com o X aniversário, realizará o IV Congresso, de carácter ordinário.

O principal repto das comunistas e dos comunistas galegos é contribuir para lograr que a esquerda independentista deixe de ser um movimento marginal e se converta numha força minoritária.

Nesse objectivo coincidiremos com todas aquelas organizaçons e pessoas dispostas a buscar pontos de encontro e espaços comuns de debate, intervençom e luita.

Tal como definimos no II Congresso, consideramos plenamente vigente a estratégia de unidade de acçom, e posteriormente orgánica, de todos os agentes, colectivos e pessoas que defendemos que os problemas e agressons que padece a classe trabalhadora só se podem superar ligando a luita polo Socialismo à recuperaçom da soberania nacional da Galiza.

Reforçar e alargar as organizaçons de massas do MLNG, os movimentos sociais, o espaço autodeterminista, fortalecer o nosso carácter de classe, de organizaçom obreira, ao exclusivo serviço do proletariado e classes trabalhadoras, serám algumhas das prioridades de Primeira Linha.

Somos um colectivo militante vivo e orgulhoso da sua trajectória, com energias e entusiasmo revolucionário para continuar avante na luita por essa Galiza livre, vermelha e lilás que sonhamos.

Somos um partido comunista patriótico e internacionalista, umha organizaçom combatente com um único objectivo: sermos úteis ao desenvolvimento das condiçons subjectivas que permitam mais cedo que tarde atingir a Revoluçom Galega.

 

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