TREZE
REFLEXONS SOBRE O DIÁLOGO INSTITUCIONAL, O PATRIOTISMO CONSTITUCIONAL
GALEGO E A OFENSIVA ESPANHOLA
·Comité
Central de Primeira Linha
1-
Achamo-nos a perto de um ano da encenaçom do diálogo
institucional simbolizado na ceia entre Fraga e Beiras de 5 de Dezembro
de 2001, após o aperto de maos no parlamentinho, que modificou substancialmente,
e tem condicionado a “actividade política” do país. O giro copernicano realizado
polo BNG, —renunciando explicitamente a exercer de verdadeira oposiçom—, e
as mudanças operadas na centralidade discursiva do PPdG por mandato imperativo
de Fraga, tenhem provocado diversos efeitos na estrutura de classes galega,
mas também tenhem desconcertado a tradicional caracterizaçom das três principais
forças políticas operantes na Galiza que realizava a populaçom.
2-
O actual clima institucional de acordo e diálogo entre
o PPdG e o BNG, tal como já temos analisado em anteriores Abrente,
é conseqüência directa do fracasso eleitoral colheitado polo autonomismo social-democrata
em Outubro do ano passado ao nom ter atingido com o PSOE umha maioria alternativa
ao fraguismo. É portanto, desde a fraqueza e condicionado por umha realidade
adversa que o BNG opta por claudicar, tirar definitivamente pola borda todo
o seu capital político de força antifranquista, legitimando Fraga e o seu
governo mediante as habituais práticas de concórdia e respeito institucional
características dos modelos políticos de certas democracias ocidentais.
3-
Fraga e o PPdG estám sendo os mais beneficiados por
esta nova conjuntura ao lograr neutralizar o BNG como força opositora, ao
integrar e apropriar-se parcialmente das reivindicaçons autonomistas sobre
as que vem alicerçando o seu discurso, mas basicamente pola legitimidade democrática
que lhes concede o aval antifascista do autonomismo, logrando incorporá-lo
com vinte e cinco anos de atraso na lógica dos pactos da Transiçom, ou seja
na aceitaçom da monarquia, da unidade estatal e da economia de mercado.
4-
É o PSOE de Tourinho a parte mais prejudicada deste
novo cenário por ficar literalmente fora de jogo. Nom interessa aos seguidores
de Zapatero na Galiza participar ao mesmo nível que o BNG no diálogo institucional
porque ficariam diluidos entre Fraga e Beiras, mas especialmente porque aspiram
a recuperar o segundo posto no ranquing eleitoral, apostando por exercer de
oposiçom, substituindo o BNG, mas tampouco podem rejeitar frontalmente ser
co-partícipes do acordo e clima de diálogo institucional. Só destes parámetros
se pode entender as propostas de modificar o Estatuto defendidas por Tourinho
ou as reticências a pactuar acordos. As eleiçons municipais de Maio de 2003
modulam o seu discurso e a actual táctica parlamentar.
5-
A profunda crise de identidade do projecto nacional
espanhol, perante o incremento das luitas nacionais, e das dinámicas da construçom
da UE, —às portas do seu alargamento face o leste e os países mediterráneos
após a aprovaçom do Tratado de Nice pola Irlanda—, recebe com alívio e satisfaçom
a fidelidade do BNG; com a Constituiçom espanhola e o Estatuto de Autonomia,
e o seu compromisso obsessivo por nom questioná-lo. Ante as suspicácias e
desconfianças de certos poderes estatais ancorados na inércia, Dom Manuel
age e desfruta de padrinho protector da nova trajectória superadora do passado
descarriado do seu afilhado, perante os parentes madrilenos que às vezes nom
entendem a fondura da operaçom.
O capitalismo
espanhol é consciente da sua incapacidade para cumprir os objectivos imediatos
que o bloco de classes oligárquicas vem tracejando desde a chegada do PP à
Moncloa: derrotar a esquerda independentista basca e as reivindicaçons soberanistas
da Galiza e a Catalunha, como premissa ineludível para aspirar a situar-se
como potência de primeira ordem no seio da UE, à altura da Alemanha, França
ou a Gram Bretanha. A neutralizaçom, —embora mantivesse parámetros cada vez
mais mornos—, do questionamento histórico do BNG sobre o actual modelo de
Estado espanhol, e a constataçom da sua renúncia ao exercício do direito de
autodeterminaçom, além de significar umha evidente vitória da burguesia espanhola,
incorpora esta força na colaboraçom, por activa e por passiva, com os dous
objectivos assinalados, ao reforçar o bloco constitucional e participar da
criminalizaçom das teses independentistas.
A posiçom
mantida polo BNG no debate sobre a ilegalizaçom de Batasuna, ou no conflito
imperialista com Marrocos sobre a ilha de Leila, ou na revisom do convénio
militar cos EEUU, som expressons da nova lógica de Estado com que actua e
em que parecem estar cada vez mais cómodos os seus dirigentes.
6-
A nova linha do BNG nom é fruto dumha decisom unilateral
do seu porta-voz nacional, como interesseiramente, —numha convencional manobra
de confusionismo—, alguns sectores pretendem fazer-nos ver, embora tenha sido
ele quem provavelmente deu o primeiro passo sem consultas prévias. Foi ratificada
na X Assembleia Nacional realizada em Abril deste ano, e posteriormente plasmada
e teorizada em inumeráveis ocasions (Manifesto Bóveda de Junho), ou
sem irmos mais longe nos acordos pactuados no Debate da Autonomia de
Outubro deste ano e plasmados previamente nos cinco pontos, que reproduzimos
integramente por serem eloqüentes da absoluta normalizaçom e interiorizaçom
das categorias da política burguesa e espanhola assumida polo autonomismo.
7-
A extracçom social hegemónica na direcçom do BNG,
da maioria dos seus quadros, (pequena burguesia mesocrática, funcionarial),
os nada desprezíveis espaços de poder que gerem, e portanto os imensos interesses
criados, explicam a rápida interiorizaçom da nova estratégia e a ausência
de qualquer dissidência organizada, mais alá das consubstancias diferenças
de matiz ou artificiais questionamentos, fruto das dinámicas e dialécticas
internas entre os partidos integrados na frente, e/ou entre as fracçons internas
desses partidos, por ocupar parcelas de poder, mediatizados em muitas ocasions
pola susbtituiçom de Beiras que procuram sectores da UPG. Nom podemos esquecer
que esta estratégia foi a resposta do autonomismo à crise provocada pola queda
eleitoral de Outubro. A X Assembleia Nacional convocada pola urgência da renovaçom
após o fracasso eleitoral, decidiu orientar o BNG na plena normalizaçom política
do regime burguês, espanhol e patriarcal, em que @s comunistas galeg@s
valorizamos como umha incorrecta resposta das causas que motivárom a perda
dum destacado sector da base social de esquerda e nacionalista, concretamente
segmentos do proletariado urbano, da mocidade trabalhadora e estudantil, e
do independentismo sociológico. O aggiornamento empreendido, —em que
coincidem todas as fracçons integradas no seu seio—, nom vai servir para recuperar
esses sectores sociais desencantados e afastados cada vez mais do projecto
autonomista, mas tampouco vai servir para ocupar o espaço tradicional do PPdG
ou do PSOE, tal como constatam os inquéritos.
8-
Mas, além de oportunidade política, do conjunturalismo
inerente a este novo panorama, som basicamente causas estruturais as que forçárom
a mover ficha as duas organizaçons que aparentavam ser irreconciliáveis, que
construírom e modelárom sobre o antagonismo intransigente mais dumha
década da história recente do país, e sobre a que se mantinha e edificava
a lealdade eleitoral e sentimental de amplos sectores da esquerda social e
nacional.
A ofensiva
espanhola contra as reivindicaçons soberanistas, contra a esquerda independentista,
é vivida com lógica preocupaçom no seio do BNG, e por alguns dos seus efeitos
colaterais, nom é compartilhada plenamente polo PPdG.
A burguesia
espanhola está manipulando e empregando as reivindicaçons nacionalistas de
Euskal Herria, Galiza e Catalunha para legitimar Espanha como espaço de acumulaçom
e expansom de capital, reforçando com umha bateria de medidas simbólico-materiais
(bandeira, exército, êxitos desportivos, reinterpretaçom da história, defesa
do idioma espanhol, modificaçom integral do modelo educativo, etc) a fraca
identidade espanhola entre as massas operárias e populares, gerando umha cortina
de fumo sobre os verdadeiros problemas que estas padecem por mor da crise
do modo de produçom. Com esta manobra de distraçom, —em que se criminalizam
as aspiraçons nacionais e se culpabiliza estas da crise económica—, a oligarquia
espanhola pretende neutralizar o mal-estar social e a conflituosidade laboral,
e simultanemanete consensuar e justificar socialmente as duras medidas repressivas
e a involuçom política que está aplicando (Lei de Partidos e ilegalizaçom
de Batasuna, reforma do Código Penal, criaçom de 150 novas prazas de juizes
e fiscais, alargamento das forças policiais e coordenaçom da polícia municipal
com os corpos estatais, endurecimento da Lei de Estrangeiria, criaçom dum
julgado central de instruçom para delitos de terrorismo) como antessala
dum Estado autoritário de baixa intensidade, que nom descarta aplicar
para evitar pola força as decisons democráticas das naçons que oprime e explora.
Mas os objectivos
centrípetos do PP, consensuados com o PSOE e nom questionados na sua essência
pola esquerda espanhola, batem com os interesses de classe de certas fracçons
das burguesias periféricas, que ao abeiro da tímida descentralizaçom administrativa
fruto do Estado das Autonomias, gerou e desenvolveu em duas décadas
uns interesses próprios, nom sempre coincidentes com os da oligarquia. O esvaziamento
parcial das competências das conselharias motivado pola política hipercentralista
de Madrid, mas também polas cada vez maiores atribuiçons dos organismos da
UE, é vivido com grande preocupaçom pola burguesia autóctone, e polas dezenas
de milhares de funcionários e cargos públicos que dependem da Junta de Galiza,
e que configuram o corpo central das classes médias que disputam representar
ambas organizaçons.
Umha empresa
galega da construçom, —por utilizar um exemplo ilustrativo—, está mais interessada
em que a Conselharia de Obras Públicas tenha plenas competências nesta matéria
sobre a Comunidade Autónoma, que depender do Ministério, pois a sua capacidade
de pressom em Madrid é imensamente menor, e a sua capacidade de competência
com empresas de todo o Estado vê-se consideravelmente mermada.
A esta ameaça
para o empresariado galego devemos acrescentar a que deriva da ampliaçom da
UE aos dez novos sócios do leste e do Mediterráneo (Chipre, Chéquia, Estónia,
Eslováquia, Eslovénia, Hungria, Letónia, Lituánia, Malta, e Polónia), pois
provocará inevitavelmente a reforma dos fundos estruturais. A natural reduçom
destes subsídios terá efeitos negativos para a burguesia galega, habituada
a depender de ajudas institucionais. Daí que tanto o PPdG como o BNG mantenham
cada vez um discurso mais semelhante à hora de defender a necessidade de que
a CAG tenha presença directa em certos organismos da UE para negociar e defender
os seus interesses específicos.
9-
É o PPdG quem se desloca para os postulados autonomistas
ou é o BNG quem se inclina na defesa dos parámetros que combatia quando há
agora vinte anos foi refundado em Riazor? O desenvolvimento maximalista da
Administraçom Única formulada por Fraga há mais dumha década, e o minimalismo
do patriotismo constitucional galego formulado e defendido por Beiras
no discurso do Estado da Autonomia, nem som antagónicos, nem colisionam. Mais
bem convergem harmonicamente porque emanam da necessidade de defesa de idênticos
interesses de classe: os da burguesia nacional, e no caso do BNG da sua explícita
renúncia a defender os interesses da classe trabalhadora galega. A actual
legislatura vai ser utilizada como banco de provas para comprovar quem sai
ganhando, em termos eleitorais, com a concórdia autonomista, pois os perdedores
som evidentes: o projecto nacional galego e as camadas populares objectivamente
interessadas em romper com a dependência espanhola e construir umha Galiza
ceive, socialista e nom patriarcal.
10-
O debate sobre a necessidade de reclamar maiores competências
autonómicas constata paradoxalmente a coincidência discursiva dos antigos
inimigos e a surpreendente e esperpêntica posiçom adoptada pola secçom galega
do PSOE reclamando umha modificaçom do Estatuto. Beiras e Fraga, com diferentes
velocidades e com diversos graus reivindicativos, coincidem na necessidade
de nom ser prioritária a modificaçom do Estatuto e sim em reclamar o trespasso
das competêncais pendentes, frente a um Tourinho, —com dificuldades para situar-se
no panorama político do diálogo institucional—, defendendo a modificaçom do
Estatuto de 1981 como proposta estrela para converter-se, sem excessivo entusiasmo,
na verdadeira oposiçom ao PPdG. Os cálculos eleitoralistas determinam as estratégias
das três forças políticas a medida que a ideologia e os programas que dela
emanam cada vez som meros elementos rituais para exercer na lógica parlamentar
e institucional.
11-
O BNG descarta qualquer objectivo soberanista conformando-se
com um novo contrato com o Estado espanhol consistente em atingir as
plenas transferências competenciais, a gestom íntegra dos fundos estruturais
europeus, e pequenos reajustamentos na articulaçom institucional espanhola
(reforma do Senado para convertê-la numha cámara territorial, modificaçom
do sistema de designaçom do Tribunal Constitucional, etc), a maioria dos quais
som assumidos polo PPdG.
A claudicaçom
nacional e a constante mostra de adesom ao modelo que historicamente combateu
é a resposta cobarde da sua direcçom à ofensiva espanhola. Por muito que Beiras
tente camuflar e decorar com terminologia e categorias neo-marxistas (“...
confronto sistemático entre posiçons fixas a umha dialéctica de controvérsia
entre contrários que inclui o diálogo institucional para os assuntos que,
pola sua gravidade, o reclamam e que, pola sua natureza, o fam possível”),
a actual estratégia do BNG é umha traiçom aos interesses do povo trabalhador
galego e ao seu projecto nacional.
Resulta
patético ouvir num dirigente dumha organizaçom que se define como nacionalista
galega, justificar a adesom crítica, mas adesom, ao projecto fascista do capitalismo
espanhol, para reclamar umhas dúzias de competências que nom solucionarám
os graves problemas que padece o nosso povo e que ameaçam a sobrevivência
de Galiza como naçom. “Reconhecerám todos vocês que aqui, na Galiza, ninguém
poderá argüir que exista nengumha força política centrífuga que ameaçe fazer
saír o nosso país da órbita solar do Estado espanhol”. A submissom do
colonizado à metrópole, do bom escravo para receber concessons do seu amo.
Aprofundar numha tímida descentralizaçom administrativa e na via autonomista,
pomposamente definida por Beiras como patriotismo constitucional galego,
é a errónea resposta do BNG à actual ofensiva espanhola.
12-
O PPdG acata disciplinadamente a nova estratégia marcada
polo patrom, mas nem a compreende, nem obviamente a compartilha. Como
estrutura de poder baseada na figura dum líder indiscutível, umha parte dos
barons e das redes locais e comarcais do PPdG acham-se entre a espada e a
parede: acatar submissamente as decisons de Fraga e a sua equipa, e portanto
seguir desfrutando dos privilégios e das regalias do poder autonómico, ou
manter fidelidade às posiçons tradicionais do partido representadas no aparelho
madrileno, e portanto coincidir com Arenas mas arriscar-se a perder os favores
do capo territorial. Os quadros e agentes eleitorais do PPdG, conformados
por centenas de caciques franquistas, por ex-falangistas, por oportunistas
de toda índole, assumem em silêncio a nova linha, sempre que nom afecte os
seus interesses económicos, mas politicamente nom a compartilham. Mas a outra
parte do partido, a vinculada ao empresariado e ao aparelho autonómico, é
consciente da necessidade de adoptar esta nova estratégia para defender os
seus interesses e perpetuar-se no poder após o final biológico de Fraga.
Até agora
o PPdG deu mostras mais que evidentes de ser umha força muito disciplinada,
pois salvo a crítica de Cuinha ao BNG por mor da sua abstençom na ilegalizaçom
de Batasuna, —imediatamente desautorizada por Fraga a petiçom de Beiras—,
nom há cosntáncia de maiores incumprimentos do guiom, ao igual que no BNG
onde nom se tem escuitado nengumha voz discrepante minimamente qualificada.
13-
O debate institucional e a orientaçom política parlamentar
causa absoluto desinteresse popular, e os termos específicos da sua realizaçom
este ano, —após a capitulaçom do BNG—, tenhem contribuído para incrementar
a desconfiança generalizada das massas face a política, pois tal como reflectírom
os meios só foi seguido por pouco mais de 1% d@s
habitantes da Comunidade Autónoma.
Todo isto
tem lugar num quadro da agudizaçom da dependência nacional da Galiza e do
incremento da exploraçom de classe e de género que padece o povo trabalhador,
especialmente as mulheres e a mocidade. A paulatina precarizaçom das condiçons
laborais, o incremento do desemprego e o espectacular aumento dos acidentes
laborais vai acompanhado por dous fenómenos interdependentes: o processo de
proletarizaçom da populaçom activa e o aumento de acumulaçom de capital pola
burguesia.
A fraqueza e pouca coesom político-ideológica da esquerda independentista dificulta que o projecto do MLNG poda aproveitar umha conjuntura tam favorável para poder ocupar o espaço que leva anos disputando ao autonomismo.