Quinze teses sobre Nunca Mais

Manipulaçom do movimento de massas e fracasso da estratégia reformista

-Carlos Morais

Nom é a primeira vez que no Abrente abordamos a situaçom do movimento de massas que esporadicamente e de jeito intermitente vem caracterizando parcialmente de há um biénio a situaçom socio-política galega, como tampouco é a primeira ocasiom na que denunciamos a inacertada e inoperante prática insititucionalista e reformista imposta polo autonomismo.

Quando as forças populares acumuladas polo movimento Nunca Mais e a oposiçom à intervençom imperialista no Iraque semelham estar em pleno refluxo cumpre analisar as causas que provocárom esta dispersom, as razons da impressom generalizada, do sentimento colectivo de frustraçom presente entre amplos sectores que participárom activamente nestas luitas, assim como as responsabilidades políticas, e as achegas realizadas polo independentismo.

1-      Em primeiro lugar, devemos destacar que a resposta semi-espontánea à catástrofe do Prestige surpreendeu pola sua massividade e vitalidade. Galiza, desde as mobilizaçons operárias e populares desenvolvidas primeiro na denominada Transiçom, e posteriormente na resistência à reconversom industrial da década de oitenta, nom tinha assistido a um fenómeno desta magnitude e persistência. As organizaçons reformistas, tanto políticas como sindicais, mas também as revolucionárias, vimo-nos desbordadas pola resposta popular, exprimindo umha excessiva lentidom na hora de prever este fenómeno.

2-      O BNG e as organizaçons sociais do seu contorno, polos recursos humanos e materiais com que conta, pola experiência acumulada em décadas de intervençom social, hegemonizou desde o primeiro momento a direcçom, a orientaçom e o discurso da plataforma Nunca Mais.

3-      Para facilitar a consolidaçom de tam heterogénea conjugaçom de actores políticos e sociais, mas também para dificultar as acusaçons de instrumentalizaçom realizadas polo PP, o BNG habilmente delegou em diversos referentes sociais do mundo artístico e cultural o protagonismo formal das faces públicas do movimento.

4-      A necessária incorporaçom do PSOE e das organizaçons sociais mais vinculadas directa e indirectamente com este partido, -o sindicalismo espanhol, as Ong´s e os grupos burocratizados e virtuais que sobrevivem de subsídios e ajudas institucionais-, contribuiu para reduzir ainda mais o programa minimalista de Nunca Mais e o esvaziado de qualquer reivindicaçom nacional e anticapitalista.

5-      Directamente ligado com as duas reflexons anteriores, o autonomismo vetou, -apesar das resistências e oposiçons de um nada desprezível sector de colectivos e grupos da esquerda social-, a presença do MLNG em Nunca Mais. Embora esta prática nom seja nova, sim a firmeza e contundência empregada para evitar que o independentismo estivesse integrado. Nalgumhas comarcas como o Condado, onde polas dinámicas endógenas das pequenas localidades NÓS-UP fazia parte de ambas entidades, fomos irregularmente expuls@s.

6-      Desde o primeiro momento, o BNG, e especialmente a UPG, que levava décadas sonhando com um movimento social desta dimensom, condicionou as actividades e intervençom da plataforma Nunca Mais e da Coordenadora Galega pola Paz à estratégia eleitoralista. O fomento e impulso deste movimento de massas respondeu sempre a duas grandes linhas estratégicas: a primeira, alargar a sua influência social, mas basicamente derrotar o PP nas urnas. O imediatismo tacticista característico do reformismo primou sobre qualquer aposta longoprazista de incremento da consciência e auto-organizaçom popular.

7-      Nunca Mais foi, como vem sendo habitual, grosseiramente instrumentalizado e manipulado pola torpe e errónea lógica eleitoralista da burocracia do autonomismo. O ritmo e o discurso de todas as grandes iniciativas nacionais que desenvolveu durante seis meses (Novembro 2002-Abril 2003) estivo condicionado e supeditado a estes parámetros estratégicos. Se bem a macro-manifestaçom nacional de 1 de Dezembro em Compostela é o ponto de arranque dumha insólita dinámica de rua que inicialmente nom fazia parte das previsons, o BNG, apresentando doze dias depois a absurda moçom de censura no parlamento autónomo, lançava duas mensagens claras:

-Em primeiro lugar, transmitia ao regime que a excepcional situaçom do país provocada pola maré negra nom mudava a sua inquestionável lealdade às regras de jogo impostas pola burguesia espanhola, apostando deste jeito por umha saída negociada à crise nacional.

-E, em segundo lugar, comunicava aos sectores mais “radicalizados” da sua base social, -que guiados polo entusiasmo do fenómeno em curso propugnavam medidas de luita e pressom nom homologáveis com a estratégia eleitoral-, que este tipo de medidas nom se correspondem com as aspiraçons e objectivos dumha “força política responsável”.

A negativa do BNG a secundar a greve geral que propujo a CIG mediante manobras de confusom para ganhar tempo, mas na prática substituindo-a pola inofensiva moçom de censura que também promovia o PSOE,  foi o balom de oxigénio que reclamava Fraga e a condena à morte lenta do movimento dumha perspectiva de mobilizaçom, luita e auto-organizaçom popular, como também contribuiu para desmobilizar a polémica de criaçom dumha comissom parlamentar de investigaçom.

8-  A burocratizaçom de Nunca Mais, entendida como umha super-estrutura configurada por umha coordenaçom nacional de entidades com o seu respectivo alargamento comarcal, permitiu o eficaz exercício de um férreo controlo, mas também impediu a participaçom popular. A direcçom do BNG nunca apostou por um movimento horizontalista, assemblear, com vida própria, configurado por comités, grupos, comissons, que afastados da lógica institucional-eleitoral, a partir da pluralidade ideológica, o debate político, coordenassem a luita contra a maré negra e contra os responsáveis directos pola catástrofe. Os objectivos de Beiras e Paco Rodríguez nunca fôrom construir força social, transformar a indignaçom popular, o incremento do primário sentimento de autoestima colectiva que provocárom as heróicas respostas d@s trabalhadores/as do mar de Arousa, Ponte Vedra ou Vigo contra o veneno que expulsava o Prestige, em consciência nacional, em massa crítica. A evidente politizaçom e ideologizaçom dumhas massas impactadas polo desinteresse criminoso, traumatizadas pola passividade das autoridades espanholas, devia estar controlada e limitada para evitar que escapasse da maus, para impedir qualquer conato de radicalizaçom.

9-   Nas primeiras semanas o autonomismo mantivo umha inteligente e hábil prudência na hora de evitar condenar os legítimos episódios de violência popular que @s atingid@s protagonizárom contra os responsáveis políticos. Mas, à medida que o movimento foi institucionalizando-se, à medida que as mobilizaçons se consolidárom como o cenário de intervençom social da pequena-burguesia funcionarial e mesocrática, nas suas variantes artística e cultural, o autonomismo abandonou o silêncio passando à condena e perseguiçom das diversas mostras de combatividade (ataques às sedes do PP, denúncia sem paliativos dos responsáveis do chapapote e da guerra, pressom sobre os dirigentes populares). Assim, a criminalizaçom da esquerda independentista e os desmedidos apelos à repressom policial e judicial contra as expressons mais elaboradas da luita popular foi outro dos “serviços” novamente realizados ao capitalismo espanhol. Resulta paradoxal a condena das práticas de auto-defesa enquanto se confraternizava com Fraga e a monarquia imposta por Franco, enquanto se compartilhavam inauguraçons, recepçons, reunions, com aqueles que justificavam o bombardeamento e invasom do Iraque polo bem da “democracia ocidental”.

10- Mas, igual que afirmávamos na primeira tese que carecemos de previsom na hora de prognosticar a massiva resposta popular gerada polas dramáticas conseqüências do afundimento do Prestige, voltamos a cometer similares erros de cálculo na hora de calibrar a verdadeira dimensom do movimento de massas, da capacidade do regime para superar o inicial desconcerto, da ausência de razons para que abalassem as invisíveis redes de dominaçom e alienaçom construídas durante séculos. Fomos engolidos por umha desbordante, desmedida e acrítica euforia por assistirmos de um dia para outro a manifestaçons semanais de dezenas de milhares de pessoas em dúzias de localidades, a umha epidérmica politizaçom repentina de umha considerável faixa de compatriotas encenada na massiva utilizaçom das populares palavras de ordem “Nunca Mais” e “Nom à guerra” que invadírom casas, automóveis, centros de trabalho e de ensino, mediante cartazes, faixas, autocolantes, pintadas, pins, etc. Embora, tal como afirmávamos prudente e acertadamente num artigo escrito em 5 de Janeiro quando reflectíamos sobre o papel das classes trabalhadoras afectadas no movimento de massas, “A sua organizaçom, desenvolvimento e consolidaçom, a sua capacidade de manter a luita, de nom deixar-se instrumentalizar polo autonomismo, som alguns dos elementos fundamentais para poder orientar e inclinar a situaçom em chaves nacionais e de esquerdas, ou acabar na via morta de umha nova frustraçom colectiva. Há que evitar deixar-se levar polo triunfalismo que emana das mobilizaçons populares em curso, pois os comportamentos sociológicos, os códigos de conduta, que o capitalismo colonial injectou secularmente na nossa estrutura de classes, nom desaparecem em poucos meses, nom se derrubam com umha crise, que se bem todo aponta que vai continuar, a experiência histórica ensinou-nos a imensa capacidade de resistência e regeneraçom da rede caciquil e clientelar que mantém no cativério alienante e controla numerosos sectores populares [1] ”, nos dous primeiros meses nom emprestamos suficiente atençom a analisar criticamente a natureza, conteúdos e composiçom social do movimento. Deixamo-nos deslumbrar polos aspectos mais espectaculares, descuidando e desatendendo as tendências dessa maiora silenciosa, a influência da práctica totalidade dos meios de comunicaçom controlados polo PP e as fracçons de regime que apoiam incondicionalmente Aznar e Fraga.

11- Os resultados das eleiçons municipais de 25 de Maio constatam novamente o fracasso da estratégia do autonomismo. O reformismo mais umha vez errou nos seus cálculos. Igual que em Outubro de 2001 considerou factível atingir juntamente com o PSOE umha maioria aritmética alternativa ao PP, nesta ocasiom voltou a realizar prognósticos nom acertados. As causas som variadas e diversas. Existem deficiências estruturais consubstanciais com a degeneraçom idealista do reformismo quanto ao conhecimento dos comportamentos eleitorais das massas. A experiência revolucionária tem verificado historicamente que nom existe umha relaçom mecánica e directa entre amplos sectores que participam nos protestos, nas mobilizaçons, e a opçom eleitoral pola qual posteriormente se inclinam. Tal como acertada e magistralmente afirmou Trotsky “A papeleta de voto nom é decisiva na luita de classes” [2] pois “A representaçom parlamentar dumha classe oprimida está consideravelmente por baixo da sua força real” [3] . Milhares de pessoas que se manifestárom contra Fraga e Aznar polas evidentes responsabilidades na catástrofe ecológica e socio-laboral do Prestige, que saírom à rua para gritar contra o imperialismo, no dia 25 de Maio paradoxalmente votárom no PP. Outras muitas (945.654) optárom pola abstençom ou polas fórmulas anti-sistémicas do voto branco e nulo, incluída a opçom em negro que impulsionou NÓS-Unidade Popular.

Porém o movimento de massas dos meses prévios, que fora surpreendentemente congelado para “nom interferir no desenvolvimento democrático da campanha” tal como assinalárom portavozes qualificad@s, foi vital para activar umha nada desprezível fatia de abstencionistas que optárom por voltar a opoiar novamente ao BNG freando assim umha queda maior. Mas a direita espanhola nom afundou, nem o autonomismo atingiu os espectaulares resultados prognosticados pola sua direcçom. A maré negra e a guerra reduzírom o desgaste da profunda crise que arrasta o BNG, a paulatina erosom que vai acumulando nos núcleos mais activos da esquerda social, mas nom foi suficiente para reparar o descrédito. A decisom de cessar a luita popular, a moderaçom nas críticas e reivindicaçons, a negativa a enquadrar a crise nacional na dependência nacional a que nos submete o capitalismo, som conseqüência directa do pacto institucional previamente assinado com o fascismo espanhol, que se bem se viu lógicamente abalado polos acontecimentos em curso, no essencial continua a vigorar. O BNG ofereceu essa saída negociada que implica nom romper as regras de jogo e evitar a radicalizaçom social que tanto pánico provoca nos partidos burgueses. A manutençom dos actos institucionais entre alcaides e cargos públicos do BNG com as autoridades responsáveis pola catástrofe ou com os directos representantes do regime que submete a Galiza a este tipo de periódicas agressons: a monarquia; a negativa a solicitar medidas penais para os responsáveis; ou a renúncia a exigir a paralisaçom e suspensom das obras da Cidade da Cultura destinando os mais de 80.000 milhons de pesetas a regenerar o litoral e apoiar a classe trabalhadora atingida, som alguns dos mais eloqüentes exemplos dumha estratégia claramente errónea, rigidamente supeditada à lógica eleitoral, cuja conseqûência directa é a subjectiva sensaçom de derrota em que se acham instalados alguns dos sectores virtualmente mais activos de Nunca Mais, tal como se pode constatar na vergonhosa web de Suso de Toro [4] , que passou de ser um dos ícones intelectuais do protesto a defender a retirada da cena pública e a volta à esfera do privado dessas centenas de progres fascinad@s com a intervençom e a linha discursiva de Nunca Mais e Nom à guerra até o fatídico domingo em que tantas fantasias tinham depositado.

12- Ligar umha luita popular de massas a uns resultados eleitorais, além de ser umha incorrecta e fraudulenta prática reformista que apenas acelera a dispersom e dissolve a luita, provoca situaçons como as que actualmente vivemos. Quando os objectivos som moderados e curtoprazistas, e nom precisamente para evitar asfastar-se do nível de aspiraçons socialmente compartilhados, senom para rendibilizá-los no mercado eleitoral; quando a direcçom do movimento nom fomenta a organizaçom e a participaçom social, concentrando forças em combater o pluralismo ideológico, e deixa em maos da pequena-burguesia o discurso, acontece que o movimento fracassa estrepitosamente e gera sentimentos derrotistas entre aqueles sectores com menor consciência política, mas essenciais para configurar carácter de massas. As centenas de artistas, poetas, compositores, escritoras/es, intelectuais orgánicos, articulad@s em Burla Negra, que salvo honrosas e minoritárias excepçons, levavam, -por pura cobardia e comodidade-, décadas sem o menor compromisso político ou social, e que calculárom erroneamente, por mero oportunismo, que chegara o momento de posicionar-se abertamente contra o PP para substituí-lo por outra das fracçons mais moderadas do regime (BNG, IU ou PSOE) porque a política de Fraga e Aznar constrangia as suas aspiraçons classistas de atingir novas oportunidades, prestígio e ascenso social, porque necessitávam libertar-se do puritanista e sectário espartilho da Opus Dei, som quem, se bem alimentárom o desenvolvimento do movimento, agora reflectem no povo trabalhador a sua particular frustraçom. O funcionariado “guai” da dupla chapa de “Nom à guerra” e “Nunca Mais”, os progres de salom que como os cogumelos no outono inçárom as mobilizaçons com as suas palavras de ordem políticamente correctas, características do elitismo pequeno-burguês, som quem agora afirmam, sem qualquer recato, com prepotentes atitudes de desprezo polo país e as suas gentes, que “Galiza nom tem soluçom”, que “Somos um país doente”, que “Há que emigrar porque este sítio é um país de idiotas”, que “Na próxima maré negra que limpem os de Mugia”, que “Temos o que merecemos”, etc.

13- Nom podemos desconsiderar, na hora de analisar as razons que fundamentalmente gerárom a articulaçom do fenómeno Nunca Mais, e em menor medida a oposiçom à agressom imperialista contra o Iraque, que as reivindicaçons minimalistas sintetizadas em ambas as palavras de ordem facilitárom, -por comodidade e pola massiva aceitaçom social-, que milhares de pessoas desse espaço sociológico que denominamos “progressia”, optassem paulatinamente por aderir, à medida que o protesto se foi desenvolvendo e alargando, para assim lavar más consciências, por notoriedade, por moda, por puro mimetismo, etc. Mas agora, quando o movimento agoniza pola dependência eleitoralista a que inexoravelmente foi ligado, a maioria daqueles/as que manifestavam um incansável entusiasmo, em muitos casos produto dumha espécie de alienaçom em positivo, optárom por retirar-se à esfera do privado em que levavam cómoda e acriticamente instalad@s até há poucos meses. Rapidamente tirárom a toalha, abandonárom a luita, a imensa maioria d@s que consideravam estarmos assistindo a umha revoluçom pacífica, cívica, que nom implicava sacrifícios nem grandes doses de entrega, lúdica e festiva, assumível e compreendida por todas as camadas sociais, paradigmática do século XXI, afastada dos “radicalismos obsoletos e estéreis” dos modelos revolucionários que como o MLNG exigem constáncia, compromisso, implicaçom e implicam riscos e problemas diários nos centros de trabalho e ensino, nos espaços familiares, polo emergente do projecto e o baixo nível de consciência que ainda possui o nosso povo.

14- Finalmente, antes de entrar a lembrar e analisar o papel da esquerda independentista nestes intensos meses, cumpre esclarecer que se bem o autonomismo freou o movimento, e impediu a sua ideologizaçom, foi a primeira vítima das contradiçons intrínsecas da sua estratégia. A mentalidade hegemónica no seu seio nom teria muitas outras opçons que nom questionassem a lógica política que vem aplicando nos últimos anos. Ter apostado polo confronto com Espanha, por um movimento de massas pluralista e assemblear, por ligar a catástrofe com a carência de soberania e com a lógica e os critérios do modo de produçom capitalista, abandonando o facilom, inofensivo e populista discurso da incapacidade e incompetência da burocracia espanhola, teria questionado radicalmente a estratégia política, teria sido um golpe mortal à linha de flutuaçom da sua prática e objectivos que nom poderia assumir sem provocar umha crise de incalculáveis conseqüências.

      Nunca Mais vai esmorecer ou ficar reduzido à mínima expressom porque já nom tem utilidade na lógica institucional-eleitoral do autonomismo, nem vai atingir os imediatistas resultados que prognosticava a intelectualidade orgánica dos Manolo Rivas e Cia, e o grémio d@s artistas.

      Se bem as causas que provocárom o nascimento permanecem praticamente inalteráveis, -um barco expulsando toneladas diárias de fuelóleo ao mar, a poluiçom da costa, a crise económica dumha naçom dependente do mar, a ausência de planos tangíveis e orçamentos para paliar os efeitos directos da catástrofe, o incumprimento das promessas de dotar a Galiza dos mínimos recursos e meios técnicos para defender-nos e combater similares situaçons que a história demonstra que som cíclicas-, o movimento de massas dissolveu-se, invisivilizou-se, perante a ausência de estruturas e espaços permanentes de auto-organizaçom. Mas a diferença das grandes luitas laborais protagonizadas pola classe operária nas greves gerais de Junho de 2001 e 2002, agora o desencanto, a frustraçom e o derrotismo, igual que aconteceu no movimento estudantil contra a LOU, expande-se como alga venenosa na consciência popular.

15- A esquerda independentista encarou a intervençom no seio de Nunca Mais e contra a guerra em pleno início do debate interno cristalizado nas resoluçons da II Assembleia Nacional de NÓS-Unidade Popular. Este condicionante dificultou umha particicipaçom mais intensa e planificada, mas nom impediu que as correctas e lúcidas análises históricas do independentismo sobre a situaçom de dependência nacional e as suas causas adoptassem plena actualidade, e lograssem ser assumidas por importantes sectores sociais do movimento. “O discurso do MLNG, freqüentemenmte tildado de radical, de irrealista, mantém umha sintonia com um sector muito importante das camadas populares galegas. Já tinhamos constatado nas mobilizaçons como muita gente vê com simpatia e segue as nossas palavras de ordem de ilegalizaçom do PP” [5] . Efectivamente, NÓS-UP conseguiu incorporar com certo rigor e cadência pedagógica no movimento de massas três grandes linhas reivindicativas tácticas, mas de evidente questionamento estratégico do status quo burguês, espanhol e patriarcal: definir como atentado terrorista contra a Galiza os acontecimentos desenvolvidos entre 13 e 19 de Novembro, acrescentando conseqüentemente prisom à palavra de ordem de demisssom para os culpados; ilegalizaçom do PP; e ligar a crise nacional à dependência colonial mediante a popularizaçom de “Espanha é a nossa ruina”, “Com Espanha nunca mais”, ou “Capitalismo espanhol culpável”.

Mas nom logramos, polas evidentes limitaçons do actual MLNG, converter-nos num permanente referente de massas mais alá de reduzidos sectores combativos.

      Porém, introduzimos o discurso nacional, de classe e de género no movimento, constatamos como métodos de luita até o momento socialmente estigmatizados, como realizar pintadas, cortes de tránsito, apupar políticos, sabotagens, atingiam permissividade e respaldo popular.

      O veto promovido polo autonomismo e o reformismo espanhol para integrar-nos no seio de Nunca Mais, se bem nom impediu a nossa participaçom activa nas mobilizaçons, nalgumhas delas com destacada influência, e a constante criminalizaçom a que fomos e somos submetidos como movimento anti-sistémico, foi umha dificuldade acrescentada para dar convertido a agitaçom de massas em influência social.

      Hoje, quando Nunca Mais mantivo um silêncio ofensivo perante a visita propagandística à Galiza que realizou o monarca espanhol a finais de Junho, quando renuncia a convocar umha mobilizaçom de massas, um acto de desagravo nacional, contra o governinho autonómico pola ultraje que significa condecorar com a medalha de ouro de Galicia, no Dia da Pátria, um dos carrascos, -Francisco Álvarez Cascos-, directamente involucrado nas responsabilidades do afundamento do Prestige, verificamos as nefastas conseqüências de dirigir um movimento popular por umha presa de votos, de orientar a luita de massas ao terreno eleitoral, no que também infelizmente companheir@s da esquerda independentista tendem a magnificar.

 

Mas nom se pode realizar umha sesgada leitura negativa dos acontecimentos destes meses, embora a sensaçom de derrota popular, e o desencanto substitua a euforia das jornadas iniciais. O movimento de massas deixou umha inegável pegada no imaginário colectivo galego, incorporou umha geraçom de jovens à luita social, contribuiu para re-politizar -embora superficialmente- umha sociedade dominada pola resignaçom paralisante, catalisou e activou um sentimento generalizado de mal-estar e raiva individualmente presente em centenas de milhares de mulheres e homens do povo trabalhador, que até o momento, tam só de forma esporádica e tímida exprimiam, recuperou a rua como espaço por excelência da luita político-social, dignificou e prestigiou a participaçom popular, o compromisso, deixou a nu as limitaçons do reformismo para atingir vitórias e avanços. 

Eis algumhas liçons que o povo trabalhador galego deve nom esquecer para que nunca mais se voltem a repetir.

 

 

 



[1] - Carlos Morais. “Contra o chaPPapote que assola Galiza: organizaçom e mobilizaçom social”, artigo publicado de forma sintética no GARA (17 de Janeiro de 2003) e integramente em www.primeiralinha.org
[2] -Leon Dadidovich Bronstein “Alemanha, a chave da situaçom internacional”, artigo publicado em 26 de Novembro de 1931.
[3] -Leon Dadidovich Bronstein. “E agora?. Problemas vitais do proletariado alemam”, artigo publicado em 25 de Janeiro de 1932.
[4] - www.susodetoro.com  Actualmente na capa desta página podemos ler um texto intitulado “Despedida” do qual destacamos “No sé bien el sentido que tuvo escribir para alguien desconocido, o para nadie. Pero estoy cansado, mucho y eso ya es un motivo para descansar, incluso para abandonar. Es lo que estoy haciendo, diciendo adiós a quien haya leído estas botellas, fracsos llenos de palabras desasosegadas casi siempre, o melancólicas, esto es cargadas de muerte. Las fuerzas se gastan y el corazón no resiste tanta ansai, quiere reducirlas”. A página que estava inicialmente redigida em reintegrado passou a estar em perfeito espanhol.
[5] - Carlos Morais. “Breve aproximaçom aos fenómenos sociais em curso”. Artigo publicado em www.primeiralinha.org a 6 de Março de 2003.


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