Quinze teses
sobre Nunca Mais
Manipulaçom do movimento de massas e fracasso da estratégia reformista
-Carlos Morais
Nom é a primeira vez que no Abrente
abordamos a situaçom do movimento de massas que esporadicamente e de jeito
intermitente vem caracterizando parcialmente de há um biénio a situaçom socio-política galega, como tampouco é a primeira
ocasiom na que denunciamos a inacertada e inoperante prática insititucionalista
e reformista imposta polo autonomismo.
Quando as forças populares acumuladas
polo movimento Nunca Mais e a
oposiçom à intervençom imperialista no Iraque semelham estar em pleno refluxo
cumpre analisar as causas que provocárom esta dispersom, as razons da impressom
generalizada, do sentimento colectivo de frustraçom presente entre amplos
sectores que participárom activamente nestas luitas, assim como as responsabilidades
políticas, e as achegas realizadas polo independentismo.
1-
Em primeiro lugar, devemos destacar
que a resposta semi-espontánea à catástrofe do Prestige surpreendeu pola sua massividade e vitalidade. Galiza, desde
as mobilizaçons operárias e populares desenvolvidas primeiro na denominada
Transiçom, e posteriormente na resistência à reconversom industrial da década
de oitenta, nom tinha assistido a um fenómeno desta magnitude e persistência.
As organizaçons reformistas, tanto políticas como sindicais, mas também
as revolucionárias, vimo-nos desbordadas pola resposta popular, exprimindo
umha excessiva lentidom na hora de prever este fenómeno.
2-
O BNG e as organizaçons sociais do
seu contorno, polos recursos humanos e materiais com que conta, pola experiência
acumulada em décadas de intervençom social, hegemonizou desde o primeiro
momento a direcçom, a orientaçom e o discurso da plataforma Nunca Mais.
3-
Para facilitar a consolidaçom de tam
heterogénea conjugaçom de actores políticos e sociais, mas também para dificultar
as acusaçons de instrumentalizaçom realizadas polo PP, o BNG habilmente
delegou em diversos referentes sociais do mundo artístico e cultural o protagonismo
formal das faces públicas do movimento.
4-
A necessária incorporaçom do PSOE
e das organizaçons sociais mais vinculadas directa e indirectamente com
este partido, -o sindicalismo espanhol, as Ong´s e os grupos burocratizados
e virtuais que sobrevivem de subsídios e ajudas institucionais-, contribuiu
para reduzir ainda mais o programa minimalista de Nunca Mais e o esvaziado de qualquer reivindicaçom nacional e anticapitalista.
5-
Directamente ligado com as duas reflexons
anteriores, o autonomismo vetou, -apesar das resistências e oposiçons de
um nada desprezível sector de colectivos e grupos da esquerda social-, a
presença do MLNG em Nunca Mais.
Embora esta prática nom seja nova, sim a firmeza e contundência empregada
para evitar que o independentismo estivesse integrado. Nalgumhas comarcas
como o Condado, onde polas dinámicas endógenas das pequenas localidades
NÓS-UP fazia parte de ambas entidades, fomos irregularmente expuls@s.
6-
Desde o primeiro momento, o BNG, e
especialmente a UPG, que levava décadas sonhando com um movimento social
desta dimensom, condicionou as actividades e intervençom da plataforma Nunca Mais e da Coordenadora Galega
pola Paz à estratégia eleitoralista. O fomento e impulso deste movimento
de massas respondeu sempre a duas grandes linhas estratégicas: a primeira,
alargar a sua influência social, mas basicamente derrotar o PP nas urnas.
O imediatismo tacticista característico do reformismo primou sobre qualquer
aposta longoprazista de incremento da consciência e auto-organizaçom popular.
7-
Nunca Mais
foi, como vem sendo habitual, grosseiramente instrumentalizado e manipulado
pola torpe e errónea lógica eleitoralista da burocracia do autonomismo.
O ritmo e o discurso de todas as grandes iniciativas nacionais que desenvolveu
durante seis meses (Novembro 2002-Abril 2003) estivo condicionado e supeditado
a estes parámetros estratégicos. Se bem a macro-manifestaçom nacional de
1 de Dezembro em Compostela é o ponto de arranque dumha insólita dinámica
de rua que inicialmente nom fazia parte das previsons, o BNG, apresentando
doze dias depois a absurda moçom de censura no parlamento autónomo, lançava
duas mensagens claras:
-Em primeiro lugar, transmitia ao
regime que a excepcional situaçom do país provocada pola maré negra nom
mudava a sua inquestionável lealdade às regras de jogo impostas pola burguesia
espanhola, apostando deste jeito por umha saída negociada à crise nacional.
-E, em segundo lugar, comunicava aos
sectores mais “radicalizados” da sua base social, -que guiados polo entusiasmo
do fenómeno em curso propugnavam medidas de luita e pressom nom homologáveis
com a estratégia eleitoral-, que este tipo de medidas nom se correspondem
com as aspiraçons e objectivos dumha “força política responsável”.
A negativa do BNG a secundar a greve
geral que propujo a CIG mediante manobras de confusom para ganhar tempo,
mas na prática substituindo-a pola inofensiva moçom de censura que também
promovia o PSOE, foi o balom de oxigénio
que reclamava Fraga e a condena à morte lenta do movimento dumha perspectiva
de mobilizaçom, luita e auto-organizaçom popular, como também contribuiu para desmobilizar a polémica de criaçom dumha
comissom parlamentar de investigaçom.
8- A burocratizaçom de Nunca Mais, entendida como umha super-estrutura configurada por umha
coordenaçom nacional de entidades com o seu respectivo alargamento comarcal,
permitiu o eficaz exercício de um férreo controlo, mas também impediu a
participaçom popular. A direcçom do BNG nunca apostou por um movimento horizontalista,
assemblear, com vida própria, configurado por comités, grupos, comissons,
que afastados da lógica institucional-eleitoral, a partir da pluralidade
ideológica, o debate político, coordenassem a luita contra a maré negra
e contra os responsáveis directos pola catástrofe. Os objectivos de Beiras
e Paco Rodríguez nunca fôrom construir força social, transformar a indignaçom
popular, o incremento do primário sentimento de autoestima colectiva que
provocárom as heróicas respostas d@s
trabalhadores/as do mar de Arousa, Ponte Vedra ou Vigo contra o veneno que
expulsava o Prestige, em consciência
nacional, em massa crítica. A evidente politizaçom e ideologizaçom dumhas
massas impactadas polo desinteresse criminoso, traumatizadas pola passividade
das autoridades espanholas, devia estar controlada e limitada para evitar
que escapasse da maus, para impedir qualquer conato de radicalizaçom.
9- Nas primeiras semanas o autonomismo mantivo
umha inteligente e hábil prudência na hora de evitar condenar os legítimos
episódios de violência popular que @s
atingid@s protagonizárom contra os responsáveis
políticos. Mas, à medida que o movimento foi institucionalizando-se, à medida
que as mobilizaçons se consolidárom como o cenário de intervençom social
da pequena-burguesia funcionarial e mesocrática, nas suas variantes artística
e cultural, o autonomismo abandonou o silêncio passando à condena e perseguiçom
das diversas mostras de combatividade (ataques às sedes do PP, denúncia
sem paliativos dos responsáveis do chapapote e da guerra, pressom sobre
os dirigentes populares). Assim,
a criminalizaçom da esquerda independentista e os desmedidos apelos à repressom
policial e judicial contra as expressons mais elaboradas da luita popular
foi outro dos “serviços” novamente realizados ao capitalismo espanhol. Resulta
paradoxal a condena das práticas de auto-defesa enquanto se confraternizava
com Fraga e a monarquia imposta por Franco, enquanto se compartilhavam inauguraçons,
recepçons, reunions, com aqueles que justificavam o bombardeamento e invasom
do Iraque polo bem da “democracia ocidental”.
10-
Mas, igual que afirmávamos na primeira tese que carecemos de previsom na
hora de prognosticar a massiva resposta popular gerada polas dramáticas
conseqüências do afundimento do Prestige,
voltamos a cometer similares erros de cálculo na hora de calibrar a verdadeira
dimensom do movimento de massas, da capacidade do regime para superar o
inicial desconcerto, da ausência de razons para que abalassem as invisíveis
redes de dominaçom e alienaçom construídas durante séculos. Fomos engolidos
por umha desbordante, desmedida e acrítica euforia por assistirmos de um
dia para outro a manifestaçons semanais de dezenas de milhares de pessoas
em dúzias de localidades, a umha epidérmica politizaçom repentina de umha
considerável faixa de compatriotas encenada na massiva utilizaçom das populares
palavras de ordem “Nunca Mais” e “Nom à guerra” que invadírom casas, automóveis, centros de trabalho
e de ensino, mediante cartazes, faixas, autocolantes, pintadas, pins, etc.
Embora, tal como afirmávamos prudente e acertadamente num artigo escrito
em 5 de Janeiro quando reflectíamos sobre o papel das classes trabalhadoras
afectadas no movimento de massas, “A
sua organizaçom, desenvolvimento e consolidaçom, a sua capacidade de manter
a luita, de nom deixar-se instrumentalizar polo autonomismo, som alguns
dos elementos fundamentais para poder orientar e inclinar a situaçom em
chaves nacionais e de esquerdas, ou acabar na via morta de umha nova frustraçom
colectiva. Há que evitar deixar-se levar polo triunfalismo que emana das
mobilizaçons populares em curso, pois os comportamentos sociológicos, os
códigos de conduta, que o capitalismo colonial injectou secularmente na
nossa estrutura de classes, nom desaparecem em poucos meses, nom se derrubam
com umha crise, que se bem todo aponta que vai continuar, a experiência
histórica ensinou-nos a imensa capacidade de resistência e regeneraçom da
rede caciquil e clientelar que mantém no cativério alienante e controla
numerosos sectores populares
[1]
”, nos dous primeiros meses nom emprestamos suficiente
atençom a analisar criticamente a natureza, conteúdos e composiçom social
do movimento. Deixamo-nos deslumbrar polos aspectos mais espectaculares,
descuidando e desatendendo as tendências dessa maiora silenciosa, a influência
da práctica totalidade dos meios de comunicaçom controlados polo PP e as
fracçons de regime que apoiam incondicionalmente Aznar e Fraga.
11-
Os resultados das eleiçons municipais de 25 de Maio constatam novamente
o fracasso da estratégia do autonomismo. O reformismo mais umha vez errou
nos seus cálculos. Igual que em Outubro de 2001 considerou factível atingir
juntamente com o PSOE umha maioria aritmética alternativa ao PP, nesta ocasiom
voltou a realizar prognósticos nom acertados. As causas som variadas e diversas.
Existem deficiências estruturais consubstanciais com a degeneraçom idealista
do reformismo quanto ao conhecimento dos comportamentos eleitorais das massas.
A experiência revolucionária tem verificado historicamente que nom existe
umha relaçom mecánica e directa entre amplos sectores que participam nos
protestos, nas mobilizaçons, e a opçom eleitoral pola qual posteriormente
se inclinam. Tal como acertada e magistralmente afirmou Trotsky “A papeleta de voto nom é decisiva na luita de classes”
[2]
pois “A representaçom
parlamentar dumha classe oprimida está consideravelmente por baixo da sua
força real”
[3]
. Milhares de pessoas que se manifestárom contra Fraga
e Aznar polas evidentes responsabilidades na catástrofe ecológica e socio-laboral
do Prestige, que saírom à rua para gritar
contra o imperialismo, no dia 25 de Maio paradoxalmente votárom no PP. Outras
muitas (945.654) optárom pola abstençom ou polas fórmulas anti-sistémicas
do voto branco e nulo, incluída a opçom em negro que impulsionou NÓS-Unidade
Popular.
Porém o movimento de massas dos meses
prévios, que fora surpreendentemente congelado para “nom interferir no desenvolvimento
democrático da campanha” tal como assinalárom portavozes qualificad@s, foi vital para activar umha nada
desprezível fatia de abstencionistas
que optárom por voltar a opoiar novamente ao BNG freando assim umha queda
maior. Mas a direita espanhola nom afundou, nem o autonomismo atingiu os
espectaulares resultados prognosticados pola sua direcçom. A maré negra
e a guerra reduzírom o desgaste da profunda crise que arrasta o BNG, a paulatina
erosom que vai acumulando nos núcleos mais activos da esquerda social, mas
nom foi suficiente para reparar o descrédito. A decisom de cessar a luita
popular, a moderaçom nas críticas e reivindicaçons, a negativa a enquadrar
a crise nacional na dependência nacional a que nos submete o capitalismo,
som conseqüência directa do pacto institucional previamente assinado com
o fascismo espanhol, que se bem se viu lógicamente abalado polos acontecimentos
em curso, no essencial continua a vigorar. O BNG ofereceu essa saída negociada
que implica nom romper as regras de jogo e evitar a radicalizaçom social
que tanto pánico provoca nos partidos burgueses. A manutençom dos actos
institucionais entre alcaides e cargos públicos do BNG com as autoridades
responsáveis pola catástrofe ou com os directos representantes do regime
que submete a Galiza a este tipo de periódicas agressons: a monarquia; a
negativa a solicitar medidas penais para os responsáveis; ou a renúncia
a exigir a paralisaçom e suspensom das obras da Cidade
da Cultura destinando os mais de 80.000 milhons de pesetas a regenerar
o litoral e apoiar a classe trabalhadora atingida, som alguns dos mais eloqüentes
exemplos dumha estratégia claramente errónea, rigidamente supeditada à lógica
eleitoral, cuja conseqûência directa é a subjectiva sensaçom de derrota
em que se acham instalados alguns dos sectores virtualmente mais activos
de Nunca Mais, tal como se pode constatar
na vergonhosa web de Suso de Toro
[4]
, que passou de ser um dos ícones intelectuais do protesto
a defender a retirada da cena pública e a volta à esfera do privado dessas
centenas de progres fascinad@s com a intervençom e a linha discursiva de Nunca Mais e Nom à guerra até o fatídico domingo em que tantas fantasias
tinham depositado.
12-
Ligar umha luita popular de massas a uns resultados eleitorais, além de
ser umha incorrecta e fraudulenta prática reformista que apenas acelera
a dispersom e dissolve a luita, provoca situaçons como as que actualmente
vivemos. Quando os objectivos som moderados e curtoprazistas, e nom precisamente
para evitar asfastar-se do nível de aspiraçons socialmente compartilhados,
senom para rendibilizá-los no mercado eleitoral; quando a direcçom do movimento
nom fomenta a organizaçom e a participaçom social, concentrando forças em
combater o pluralismo ideológico, e deixa em maos da pequena-burguesia o
discurso, acontece que o movimento fracassa estrepitosamente e gera sentimentos
derrotistas entre aqueles sectores com menor consciência política, mas essenciais
para configurar carácter de massas. As centenas de artistas, poetas, compositores,
escritoras/es, intelectuais orgánicos, articulad@s
em Burla Negra, que salvo honrosas
e minoritárias excepçons, levavam, -por pura cobardia e comodidade-, décadas
sem o menor compromisso político ou social, e que calculárom erroneamente,
por mero oportunismo, que chegara o momento de posicionar-se abertamente
contra o PP para substituí-lo por outra das fracçons mais moderadas do regime
(BNG, IU ou PSOE) porque a política de Fraga e Aznar constrangia as suas
aspiraçons classistas de atingir novas oportunidades, prestígio e ascenso
social, porque necessitávam libertar-se do puritanista e sectário espartilho
da Opus Dei, som quem, se bem alimentárom o desenvolvimento do movimento,
agora reflectem no povo trabalhador a sua particular frustraçom. O funcionariado
“guai” da dupla chapa de “Nom à guerra” e “Nunca Mais”, os progres
de salom que como os cogumelos no outono inçárom as mobilizaçons com as
suas palavras de ordem políticamente correctas, características do elitismo
pequeno-burguês, som quem agora afirmam, sem qualquer recato, com prepotentes
atitudes de desprezo polo país e as suas gentes, que “Galiza nom tem soluçom”, que “Somos
um país doente”, que “Há que emigrar
porque este sítio é um país de
idiotas”, que “Na próxima maré
negra que limpem os de Mugia”, que “Temos
o que merecemos”, etc.
13-
Nom podemos desconsiderar, na hora de analisar as razons que fundamentalmente
gerárom a articulaçom do fenómeno Nunca
Mais, e em menor medida a oposiçom à agressom imperialista contra o
Iraque, que as reivindicaçons minimalistas sintetizadas em ambas as palavras
de ordem facilitárom, -por comodidade e pola massiva aceitaçom social-,
que milhares de pessoas desse espaço sociológico que denominamos “progressia”,
optassem paulatinamente por aderir, à medida que o protesto se foi desenvolvendo
e alargando, para assim lavar más consciências, por notoriedade, por moda,
por puro mimetismo, etc. Mas agora, quando o movimento agoniza pola dependência
eleitoralista a que inexoravelmente foi ligado, a maioria daqueles/as que
manifestavam um incansável entusiasmo, em muitos casos produto dumha espécie
de alienaçom em positivo, optárom
por retirar-se à esfera do privado em que levavam cómoda e acriticamente
instalad@s até há poucos meses. Rapidamente tirárom a toalha,
abandonárom a luita, a imensa maioria d@s
que consideravam estarmos assistindo a umha revoluçom
pacífica, cívica, que nom implicava sacrifícios nem grandes doses de entrega,
lúdica e festiva, assumível e compreendida por todas as camadas sociais,
paradigmática do século XXI, afastada dos “radicalismos obsoletos e estéreis”
dos modelos revolucionários que como o MLNG exigem constáncia, compromisso,
implicaçom e implicam riscos e problemas diários nos centros de trabalho
e ensino, nos espaços familiares, polo emergente do projecto e o baixo nível
de consciência que ainda possui o nosso povo.
14-
Finalmente, antes de entrar a lembrar e analisar o papel da esquerda independentista
nestes intensos meses, cumpre esclarecer que se bem o autonomismo freou
o movimento, e impediu a sua ideologizaçom, foi a primeira vítima das contradiçons
intrínsecas da sua estratégia. A mentalidade hegemónica no seu seio nom
teria muitas outras opçons que nom questionassem a lógica política que vem
aplicando nos últimos anos. Ter apostado polo confronto com Espanha, por
um movimento de massas pluralista e assemblear, por ligar a catástrofe com
a carência de soberania e com a lógica e os critérios do modo de produçom
capitalista, abandonando o facilom, inofensivo e populista discurso da incapacidade
e incompetência da burocracia espanhola, teria questionado radicalmente
a estratégia política, teria sido um golpe mortal à linha de flutuaçom da
sua prática e objectivos que nom poderia assumir sem provocar umha crise
de incalculáveis conseqüências.
Nunca
Mais vai esmorecer ou ficar reduzido à mínima expressom porque já nom
tem utilidade na lógica institucional-eleitoral do autonomismo, nem vai
atingir os imediatistas resultados que prognosticava a intelectualidade
orgánica dos Manolo Rivas e Cia, e o grémio d@s artistas.
Se bem as causas que provocárom o
nascimento permanecem praticamente inalteráveis, -um barco expulsando toneladas
diárias de fuelóleo ao mar, a poluiçom da costa, a crise económica dumha
naçom dependente do mar, a ausência de planos tangíveis e orçamentos para
paliar os efeitos directos da catástrofe, o incumprimento das promessas
de dotar a Galiza dos mínimos recursos e meios técnicos para defender-nos
e combater similares situaçons que a história demonstra que som cíclicas-,
o movimento de massas dissolveu-se, invisivilizou-se, perante a ausência
de estruturas e espaços permanentes de auto-organizaçom. Mas a diferença
das grandes luitas laborais protagonizadas pola classe operária nas greves
gerais de Junho de 2001 e 2002, agora o desencanto, a frustraçom e o derrotismo,
igual que aconteceu no movimento estudantil contra a LOU, expande-se como
alga venenosa na consciência popular.
15-
A esquerda independentista encarou a intervençom no seio de Nunca Mais e contra a guerra em pleno início do debate interno cristalizado
nas resoluçons da II Assembleia Nacional de NÓS-Unidade Popular. Este condicionante
dificultou umha particicipaçom mais intensa e planificada, mas nom impediu
que as correctas e lúcidas análises históricas do independentismo sobre
a situaçom de dependência nacional e as suas causas adoptassem plena actualidade,
e lograssem ser assumidas por importantes sectores sociais do movimento.
“O discurso do MLNG, freqüentemenmte
tildado de radical, de irrealista, mantém umha sintonia com um sector muito
importante das camadas populares galegas. Já tinhamos constatado nas mobilizaçons
como muita gente vê com simpatia e segue as nossas palavras de ordem de
ilegalizaçom do PP”
[5]
. Efectivamente, NÓS-UP conseguiu incorporar com certo
rigor e cadência pedagógica no movimento de massas três grandes linhas reivindicativas
tácticas, mas de evidente questionamento estratégico do status quo burguês, espanhol e patriarcal: definir como atentado terrorista
contra a Galiza os acontecimentos desenvolvidos entre 13 e 19 de Novembro,
acrescentando conseqüentemente prisom à palavra de ordem de demisssom para
os culpados; ilegalizaçom do PP; e ligar a crise nacional à dependência
colonial mediante a popularizaçom de “Espanha é a nossa ruina”, “Com Espanha
nunca mais”, ou “Capitalismo espanhol culpável”.
Mas nom logramos, polas evidentes
limitaçons do actual MLNG, converter-nos num permanente referente de massas
mais alá de reduzidos sectores combativos.
Porém, introduzimos o discurso nacional,
de classe e de género no movimento, constatamos como métodos de luita até
o momento socialmente estigmatizados, como realizar pintadas, cortes de
tránsito, apupar políticos, sabotagens, atingiam permissividade e respaldo
popular.
O veto promovido polo autonomismo e o reformismo
espanhol para integrar-nos no seio de Nunca Mais, se bem nom impediu a nossa participaçom activa nas mobilizaçons,
nalgumhas delas com destacada influência, e a constante criminalizaçom a
que fomos e somos submetidos como movimento anti-sistémico, foi umha dificuldade
acrescentada para dar convertido a agitaçom de massas em influência social.
Hoje, quando Nunca Mais mantivo um silêncio ofensivo perante a visita propagandística
à Galiza que realizou o monarca espanhol a finais de Junho, quando renuncia
a convocar umha mobilizaçom de massas, um acto de desagravo nacional, contra
o governinho autonómico pola ultraje que significa condecorar com a medalha
de ouro de Galicia, no Dia da
Pátria, um dos carrascos, -Francisco Álvarez Cascos-, directamente involucrado
nas responsabilidades do afundamento do Prestige, verificamos as nefastas conseqüências de dirigir um movimento
popular por umha presa de votos, de orientar a luita de massas ao terreno
eleitoral, no que também infelizmente companheir@s da esquerda independentista tendem a magnificar.
Mas nom se pode realizar umha sesgada
leitura negativa dos acontecimentos destes meses, embora a sensaçom de derrota
popular, e o desencanto substitua a euforia das jornadas iniciais. O movimento
de massas deixou umha inegável pegada no imaginário colectivo galego, incorporou
umha geraçom de jovens à luita social, contribuiu para re-politizar -embora
superficialmente- umha sociedade dominada pola resignaçom paralisante, catalisou
e activou um sentimento generalizado de mal-estar e raiva individualmente
presente em centenas de milhares de mulheres e homens do povo trabalhador,
que até o momento, tam só
de forma esporádica e tímida exprimiam, recuperou a rua como espaço por
excelência da luita político-social, dignificou e prestigiou a participaçom
popular, o compromisso, deixou a nu as limitaçons do reformismo para atingir
vitórias e avanços.
Eis algumhas liçons que o povo trabalhador
galego deve nom esquecer para que nunca mais se voltem a repetir.
[1] - Carlos Morais. “Contra o chaPPapote que assola Galiza: organizaçom e mobilizaçom social”, artigo publicado de forma sintética no GARA (17 de Janeiro de 2003) e integramente em www.primeiralinha.org[2] -Leon Dadidovich Bronstein “Alemanha, a chave da situaçom internacional”, artigo publicado em 26 de Novembro de 1931.[3] -Leon Dadidovich Bronstein. “E agora?. Problemas vitais do proletariado alemam”, artigo publicado em 25 de Janeiro de 1932.[4] - www.susodetoro.com Actualmente na capa desta página podemos ler um texto intitulado “Despedida” do qual destacamos “No sé bien el sentido que tuvo escribir para alguien desconocido, o para nadie. Pero estoy cansado, mucho y eso ya es un motivo para descansar, incluso para abandonar. Es lo que estoy haciendo, diciendo adiós a quien haya leído estas botellas, fracsos llenos de palabras desasosegadas casi siempre, o melancólicas, esto es cargadas de muerte. Las fuerzas se gastan y el corazón no resiste tanta ansai, quiere reducirlas”. A página que estava inicialmente redigida em reintegrado passou a estar em perfeito espanhol.[5] - Carlos Morais. “Breve aproximaçom aos fenómenos sociais em curso”. Artigo publicado em www.primeiralinha.org a 6 de Março de 2003.