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ABRENTE Nº 21

 

Julho-Agosto-Setembro de 2001

 

CONTEÚDOS

- Editorial: Ganhar o futuro, conquistar a independência

- Por um sindicalismo transformador. Etelvino Blanco e Anjo Pérez Carvalho

- Entrevista a Maurício Castro e Clara Martins

- Em defesa do trem, contra o AVE. José Veiras Garcia

- Movimento operário português. A longa recomposiçom. Francisco Martins Rodrigues

- Persiste a ofensiva internacional do movimento anticapitalista

 

 

 

 

- Editorial: Ganhar o futuro, conquistar a independência

 

O nascimento de NÓS-Unidade Popular, como resultado da acumulaçom poliédrica de forças, da síntese de trajectórias, da unificaçom multiplicadora de vontades, e do clarificador debate político-ideológico da esquerda independentista que, desde o Processo Espiral, consideravamos imprescindível dotarmos o antes possível a Galiza e as suas classes trabalhadoras de um sujeito político unitário, plural e de massas, é umha magnífica notícia para o movimento de libertaçom nacional e social deste país.

O éxito do processo em curso ratifica o diagnóstico que desde há mais de dous anos vínhamos realizando desde o Abrente. A nossa base social demandava com claridade a configuraçom do novo independentismo do século XXI. Exigia amplas doses de generosidade e audácia política para superarmos dinámicas enrocadas e endogámicas interpretaçons da realidade. A Assembleia Nacional Constituinte (ANC) realizada o 2 e 3 de Junho em Compostela constatou a existência de energias e vontade política suficiente para iniciar a marcha unitária, abandonando a desorientaçom e a resignaçom parasilante.

O projecto revolucionário -independentista, socialista e antipatriarcal- que NÓS-Unidade Popular representa, parte cumha dilatada e rica experiência de trabalho político nas suas costas, de intervençom social, mas também deve ser consciente das carências e dos erros estruturais que até o momento caracterizárom o nosso movimento patriótico.

É vital partirmos desta premissa para lograrmos que a Unidade Popular contribua a abrir um novo ciclo político neste país, para que a Unidade Popular logre um crescimento sustentado de forças, paralelo a umha introduçom social tam necessária como imprescindível para poder ocupar o desvertebrado espaço político que à esquerda do nacionalismo institucional hoje ninguem ocupa. É umha evidência empiricamente verificável que existe esse espaço político objectivo, que cada dia que passa é maior. Portanto o nosso repto nom é criar esse espaço, é sermos capazes de dar-lhe forma e geri-lo com êxito. NÓS-Unidade Popular em nengum momento deve reproduzir mimeticamente dinámicas precedentes, refugiar-se em práticas e modelos anteriores, pois a indiscutível vocaçom superadora que deve guiar o seu agir diário necessita estilos de trabalho diferentes para conseguir elaborar alternativas novas e umha linha política própria, adaptada à estrutura social e à luita de classes sobre a que opera, a Galiza do século XXI.

NÓS-Unidade Popular tem o dever histórico de acertar politicamente, de lograr que, após três décadas de fracassos, naufrágios, e derrotas, o independentismo galego se converta na quarta força política deste país, num movimento determinante na configuraçom e construçom nacional da Galiza. Nom podemos permitir-nos o luxo de defraudar novamente o nosso povo.

Se queremos tornar possível o impossível, devemos abandonar a cultura do testemunhalismo, do residualismo, quebrar as inércias, desterrar a auto-comprazência da prática anedótica que provocou e perpetuou a fragmentaçom cainista.

As resoluçons da ANC som determinantes nesta questom, -sem renunciarmos aos acertos e erros do passado-, devemos construir algo novo e novidoso, afastado de nostalgias e guiado polo futuro. Queremos lograr a adesom de todas aquelas mulheres e homes que levam anos aguardando pola criaçom de umha organizaçom política unitária, plural e de massas, que fale dos problemas reais, quotidianos, que busque soluçons, que contribua para transformar o presente, que articule dinámicas de luita e resistência contra o capitalismo colonial e a involuçom social que caracteriza a actual ofensiva do neoliberalismo e o imperialismo espanhol.

A esquerda patriótica articulada na Unidade Popular conta pola primeira vez, em mais de umha década, com umha alternativa séria e solvente. Agir com responsabilidade política, +

com altura de miras, mais alá de interesses partidários, deve ser a prática diária interna de umha força política que respeita a pluralidade ideológica, considera enriquecedora a existência de correntes, e assume com naturalidade as leis da democracia participativa.

NÓS-Unidade Popular deve ser a casa comum da esquerda independentista, nela devem ter cabimento, sem nengum tipo de excepçons, todas aquelas pessoas que, de acordo co modelo organizativo, os princípios ideológicos e o programa político, estám dispostas a implicar-se nesta tarefa. As portas devem estar permanentemente acessíveis a tod@s @s companheir@s cos que coincidimos nas dinámicas unitárias dous últimos dous anos, devem ser referenciais para a perplexa base social do nacionalismo, devem ser atractivas para conectar e cativar socialmente, estimulando a entrada de cada vez mais povo.

O processo unitário realizado na Galiza pola esquerda independentista está enquadrado nas dinámicas de reformulaçom, confluência e achegamento que se estám a desenvolver em diversos pontos do planeta por parte das forças políticas e sociais anticapitalistas. O nascimento de Batasuna em Euskal Herria, do MLNC nas Canárias, o Marc de Vinaròs nos Països Catalans, a unidade de acçom da esquerda revolucionária em diversos países européus e latinoamericanos, o impressionante desenvolvimento do movimento antiglobalizaçom, som alguns dos múltiplos expoentes desta tendência mundial.

Num planeta em que o exercício da dominaçom se realiza a escala global, é necessário estabelecer coordenaçons e estratégias de luita a nível regional e supranacional. O independentismo galego nom pode isolar-se, praticar o autismo e a autarquia ideológico-política, desconsiderando o que acontece no exterior das nossas fronteiras, deve ser capaz de abrir-se o mundo, dar a conhecer o seu projecto e aprender de todas aquelas experiências úteis para avançar.

A Galiza é um país do centro no sistema capitalista mundial, embora nos situemos na periferia desse centro. Os nossos parámetros sócio-económicos, as nossas condiçons políticas, estám mais próximas hoje de umha Alemanha, de umha França ou de um Canadá, do que de um Timor, umha Chechénia ou um Peru, por mais que também a nossa sociedade contenha em si todas as contradiçons e injustiças que constituem a essência do capitalismo.

A Unidade Popular tem que contribuir para a reorganizaçom e desenvolvimento do MLNG, pois pretendendo ser o referente unitário de toda a esquerda independentista, tem o dever de potenciar um projecto sócio-político que adopta a fórmula de movimento, entendido este como o conjunto de entidades e organizaçons que desde a autonomia organizativa compartilhamos umha mesma estratégia de luita com base nos comuns parámetros ideológicos de independência, socialismo e antipatriarcado. Os êxitos e avanços políticos de cada entidade, os fracassos e retrocessos de cada organismo sectorial, inevitavelmente influirám no conjunto do movimento. De aí a necessidade de construir um movimento coesionado e sincronizado com linha política definida e globalizadora, nas entidades juvenis, estudantis, feministas, culturais existentes, nas que cumpre impulsionar noutros campos, nas centrais sindicais nacionalistas e no associacionismo vizinhal.

O independentismo conta co sujeito político unitário, com objectivos tácticos e estratégicos definidos, agora só resta trabalho, implicaçom e audácia para lograrmos acumulaçom de forcas e espaços de contrapoder popular. @s comunistas galeg@s temos a firme determinaçom de contribuir coa nossa experiência, recursos humanos e materiais para o êxito deste projecto.

Viva NÓS-Unidade Popular!.

 

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- Por um sindicalismo transformador. Etelvino Blano e Anjo Pérez

 

Possivelmente resultaría digno de compaixom o historiador que, tendo um mínimo de sensibilidade social e compromisso, tivesse a encomenda de escrever sobre o movimento sindical nos últimos anos.

Com toda a certeza, a classe trabalhadora viveu umha das épocas máis dificultosa da sua dilatada e intensa vida.

Os nossos direitos fôrom em claro retrocesso; as velhas conquistas arrancadas em esforçadas luitas, fôrom perdendo-se as mais delas; a repressom aumentou sem que mostrássemos capacidade de enfrentamento; a indefensom converteu-se em sentimento generalizado; o entreguismo do sindicalismo tradicional foi moeda de troca; a individualizaçom reina nas relaçons laborais... Em soma, levamos tempo perdendo a partida contra o sistema.

Sem embargo, neste panorama, no que as cabeças pensantes do capitalismo semelham apostar por umha grande, se nom definitiva, volta de porca aos direitos mais elementares e pretendem impor a sua lei anti-social e a sua concepçom das relaçons económicas, chegam a surgir respostas de grandíssimo calado que golpeiam precisamente no coraçom do Sistema: o Movimento Antiglobalizaçom.

Possivelmente a deste Movimento seja a única resposta, com certa projecçom e peso internacional, ao aparentemente sagrado sistema. E dita resposta vem produzir-se de fora das fileiras dos Sindicatos e Partidos políticos tradicionais, aparentemente arreigados e com ampla representaçom no conjunto da sociedade.

Este ressurgir mobilizador, juntamente coas importantes luitas levadas adiante nos últimos tempos em diferentes países pola Segurança Social universal ou polas 35 horas, podem ser os dados mais significativos dumha recuperaçom da capacidade de luita da nossa classe, ainda que seja a partir doutro modelo organizativo.

Também na Galiza vivemos, olhando o passado recente, anos de frustraçom. A ilusionante unidade do sindicalismo nacionalista nos princípios dos anos noventa nom frutificou em resultados concretos: produziu-se um estancamento na nossa representatividade; perdemos a iniciativa na direcçom sindical no país; confrontamos mais os lideratos que os modelos; envolvemo-nos em liortas internas que nom perseguiam melhorar a situaçom dos trabalhadores e trabalhadoras, senom a dos grupos que pelejavam polo poder; vimos como de novo umha parte do sindicalismo nacionalista rompia coa organizaçom; assediados pola patronal e polo sindicalismo estatal, nom soubemos respostar em coerência e mesmo, nalguns casos, fomos caindo num modelo que nunca foi o nosso.

Mais também no nosso país semelha viver-se umha esperançadora recuperaçom da acçom sindical coerente e comprometida. Umha recuperaçom em que tem muito a ver a Confederaçom Intersindical Galega, da qual quem suscrevem fazemos parte, e que recentemente celebrou o seu III Congresso.

Um anódino Informe de Gestom da Executiva Confederal sainte deu passagem a umha série de debates sem que reinasse precisamente o ánimo de consenso para, imediatamente, chegar ao que parecia ser o momento culminante: a eleiçom dos cargos dirigentes.

Os mesmos que antes votaram favoravelmente no Informe do realizado nos quatro anos anteriores, enfrontavam-se em listas diferentes para dirigir o Sindicato nos quatro anos seguintes. Todo um considerável despropósito.

Em qualquer caso, e tendo em conta determinados comportamentos e algumha que outra intervençom e tese congressual, o veradeiramente preocupante nom é que pessoa ocupe a Secretaria Geral, nem tal ou qual cargo, senom que a maior expressom do sindicalismo nacionalista organizado esteja controlada (nom falamos de incidência senom de controlo) por umha organizaçom política. Mais ainda: nom temos garantia neste momento de nom estar hipotecados ante o que num futuro pudesse ser um “governo amigo”.

Com certeza que nom se trata aqui de defender o apoliticismo sindical, nem tampouco de cumprir o papel de “contras”. Do que se fala é da imperiosa necessidade de que umha organizaçom obreira defenda sempre, e dizemos sempre, os direitos da classe social que representa, tenha em frente quem tiver.

A defensa da democracia interna, da participaçom desde a base, da recuperaçom cada vez maior do dinamismo e da direcçom sindical, da independência do sindicato a respeito de qualquer grupo de poder e o respeito das minorias, som precisamente pilares fundamentais em que assentamos aquelas persoas que apostamos pola CIG como praticante dum sindicalismo transformador da realidade actual. Neste caminho estamos os homens e mulheres que conformamos o Colectivo 10 de Março.

Mas nom todo o sindicalismo, mui afortunadamente, se dirime em chave interna.

Também é justo reconhecer que no nosso país estám a acontecer feitos que afundam na aposta de ruptura da dinámica de retrocesso.

A convocatória de Greve Geral do passado 15 de Junho tem umha importáncia vital para o sindicalismo nacionalista e de classe que a CIG representa.

O feito de ser umha Greve Nacional, de abrir-se umha fenda no sindicalismo estatal, de dar umha resposta netamente obreira a umha política abertamente neoliberal e de que tivesse tam importante repercussom e participaçom entre a classe trabalhadora (apesar do silenciamento dos meios de comunicaçom e da covarde passividade dos grupos da oposiçom institucional) pode representar o começo dum novo mapa nas relaçons laborais no nosso país.

Nom devemos pecar de excessivo optimismo: O movimento demonstra-se caminhando e há que ver como se vai comportar a UGT de aqui em diante nos temas fundamentais como a negociaçom colectiva, o quadro de relaçons laborais ou a conflituosidade que puder aparecer. Nom temos garantia nengumha de que a mudança vaia ser de grande calado.

Sem embargo, nom devemos esquecer que é a primeira vez que um Sindicato estatal abandona o seu campo habitual de acçom e vem jogar ao nosso, enfrentando-se aliás co seu aliado “natural”.

Assim que em grande medida depende de nós mesmos provocar que esta situaçom se prolongue no tempo e nas decisons sindicais importantes.

Devemos pois apostar por continuar mantendo firmeza sindical e tomando iniciativas se quigermos realmente mudar o estado de cousas e voltar a acadar conquistas para a nossa classe.

Quiçá a história do movimento sindical poda ser mais optimista no futuro imediato.

Etelvino Blanco Rodriguez é o Responsável Comarcal da CIG em Ourense.

Anjo Pérez Carvalho é membro da Direcçom Comarcal da CIG de Ourense.

 

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- Entrevista a Maurício Castro e Clara Martins

Dam-se as condiçons objectivas para que exista umha opçom independentista e de esquerda

 

Maurício Castro e Clara Martins, membros da Permanente Nacional de NÓS-Unidade Popular, numha entrevista co Abrente debulham diversos aspectos da conjuntura política da Galiza, com especial destaque na situaçom da esquerda independentista e o projecto político unitário que representa a recém constituída Unidade Popular.

 

· NÓS-Unidade Popular emerge no panorama político galego como resultado do original processo de debate e acumulaçom de forças, aberto ao conjunto da cidadania, denominado Processo Espiral.

Clara- No Processo Espiral que deu lugar à constituiçom de NÓS-Unidade Popular conseguimos juntar um importante número de pessoas a título individual com muita vontade de trabalhar pola independência da Galiza com todo o que implica.

Maurício- Efectivamente, podemos dizer que NÓS-Unidade Popular supom a culminaçom de um processo de debate em que durante seis meses se chegou a um acordo programático e orgánico para a criaçom da casa comum da esquerda independentista. A originalidade estivo na criaçom de umha gestora plural e representativa do independentismo político galego, que elaborou os textos para serem discutidos em foros comarcais abertos que figérom as suas emendas para a posterior discussom na Assembleia Nacional Constituinte. Se bem é certo que nom todo o independentismo aderiu ao Processo Espiral, nom menos certo é que NÓS-Unidade Popular é hoje a única proposta unitária existente, que terá como labor principal nos próximos meses integrar pessoas que ficárom à espreita de como se desenvolve a nossa acçom política. O nosso repto é ganhar essas pessoas para a causa comum da plena soberania nacional e o socialismo.

· O nascimento de NÓS-Unidade Popular vem a solventar um dos principais problemas que historicamente arrasta a esquerda independentista, a sua endémica atomizaçom e fragmentaçom organizativa.

Maurício- Polo menos supom um passo importante e decidido nessa direcçom. Nom podemos nem queremos ocultar que ainda há muit@ independentista fora de NÓS-Unidade Popular; incluso existem siglas que até hoje recusárom incorporar-se ao trabalho unitário. As causas há que procurá-las em dous motivos fundamentais: de umha parte, na dificuldade de vencer dinámicas já antigas no nacionalismo galego, dinámicas nom isentas de sectarismos e particularismos, pondo em ocasions os interesses partidistas à frente das necessidades objectivas que evidencia a grave situaçom que atravessa a nossa naçom. Por outra parte, também é certo que alguns sectores sem adscriçom partidária arrastam um compreensível cepticismo ante umha história carregada de ilusons frustradas, passos em falso e dinámicas centrífugas sem fim. Só se demonstrarmos na prática que esta vez a aposta unitária pode funcionar é que ganharemos esses sectores que ainda nom aderírom ao projecto.

Clara- Este é um dos objectivos que buscamos com este projecto, a integraçom de todo o independentismo. Confiamos em fazer um bom trabalho neste sentido e consegui-lo quanto antes.

· O BNG já nom é umha ferramenta acaída para acumular forças soberanistas e transformadoras.

Clara- Considero que nom som quem para responder isto, parece-me um juízo de valor.

Maurício- Em opiniom dos homens e mulheres que formamos NÓS-Unidade Popular, existe um espaço político objectivo que está a ser abandonado polo BNG desde há anos. Alguns sectores populares que nom acabavam de acreditar neste diagnóstico, começam a certificá-lo dous anos depois de que o nacionalismo institucional acedesse ao governo da maior parte das grandes cidades galegas. Cada vez é mais evidente que a aposta desse nacionalismo é exclusivamente eleitoral. Na melhor das hipóteses, poderíamos acreditar que aspira a transformar o país desde o governo autonómico, mas alguém deverá explicar-nos como pode reforçar-se a consciência nacional de um povo submetido desde as instituiçons e o quadro constitucional que servem a esse submetimento. A aposta independentista deve ser justamente a contrária: criar consciência nacional para ganhar um sector significativo das classes populares como sustento para umha ofensiva renacionalizadora. Nom se trata de governar a toda a custa, senom de criar força social para a transformaçom desde a base, o qual nom supom umha renúncia ao trabalho institucional, senom situá-lo no lugar que lhe corresponde na estratégia de construçom nacional.

· Que modelo de organizaçom, definiçom ideológica e programa político aprovou o conjunto da filiaçom da Unidade Popular na ANC celebrada a inícios de Junho?.

Clara- A ideia inicial é umha organizaçom piramidal, mas de base. Orabém, de ser piramidal sempre com a assembleia por cima. Somos socialistas.

Maurício- NÓS-Unidade Popular é umha organizaçom assemblear baseada na filiaçom individual. Quanto ao programa político, a nossa Assembleia Nacional Constituinte definiu as linhas de actuaçom política em cinco grandes apartados: consciência nacional e democracia, política socioeconómica, política da mulher, política contra toda forma de discriminaçom e política socioambiental. Estes apartados dam ideia das preocupaçons fundamentais da nossa organizaçom: a defesa dos direitos nacionais da Galiza, a luita pola justiça social com umha visom claramente de esquerda e revolucionária, o combate ao patriarcado, ao racismo e outras formas de discriminaçom, e umha aposta ambientalista que situe o critério ecológico como prioritário em qualquer actuaçom socioeconómica. O próprio modelo de democracia participativa galega enfrentada à pseudodemocracia espanhola que se impom ao nosso país definirá a nossa actividade política.

· Por que NÓS-UP se define como organizaçom socialista?.

Clara- Por coerência.

Maurício- A situaçom criada pola desapariçom dos sistemas burocráticos em que derivárom os ensaios socialistas nom pode ser mais crua para a grande maioria da humanidade. Essa situaçom mostra-nos mais claramente do que nunca a injustiça e crueldade consubstanciais ao capitalismo mundializado. Neste contexto, a Galiza nom pode deixar de posicionar-se, e em nossa opiniom deve fazê-lo do lado dos povos que no mundo sofrem a opressom de um imperialismo cada vez mais letal. Somos conscientes de que o nosso país ocupa um lugar de privilégio quanto ao injusto reparto de riqueza no mundo. Fazemos parte da periferia de um dos centros capitalistas, a Uniom Europeia, responsável pola precarizaçom socioeconómica imposta à nossa pátria nas últimas décadas, e sabemos qual tem sido a posiçom da burguesia do nosso país durante todo este tempo: a integraçom no projecto nacional espanhol e o serviço ao capitalismo transnacional.

Ante esta realidade, e se queremos evitar que a Galiza desapareça como realidade nacional, só os sectores mais conscientes das classes populares poderám liderar a luita pola independência, com um programa social próprio e com conteúdos revolucionários. Nesse caminho, encontraremo-nos com outros muitos povos que no mundo luitam por esses mesmos objectivos. O autêntico internacionalismo é nesta altura histórica defender a independência da nossa naçom e articular com os restantes povos da Europa e o mundo umha rede de resistência que acabe derrotando o imperialismo e o capitalismo.

· É bastante inovador, mesmo para umha força política revolucionária, que o antipatriarcado seja, junto da independência e o socialismo, o terceiro eixo definitório sobre o que se vertebre a sua armaçom política-ideológica.

Clara- A estas alturas, depois de cinqüenta anos de mobilizaçons feministas, nom podemos considerar que a luita antipatriarcal seja novidosa. O socialismo implica umha luita contra o patriarcado e umha das cousas que pretende NÓS-Unidade Popular é ser umha força política revolucionária. No meu pensamento está a importante labor levado a cabo polas diferentes organizaçons feministas com que contou e conta este país.

Maurício- Desde logo, na existência do patriarcado como modelo de referência e poder social, a Galiza nom constitui nengumha excepçom no contexto mundial, já que também neste aspecto a opressom está globalizada. Desde NÓS-Unidade Popular achamos que nom se pode defender a libertaçom nacional e social de um país sem que os homens renunciemos à posiçom de poder que ocupamos graças ao submetimento da metade da populaçom galega, e achamos também que a problemática da mulher tem umha dimensom que nom permite subsumi-la noutras reivindicaçons como a independência e o socialismo. Daí que, seguindo o critério das mulheres participantes no Processo Espiral, a organizaçom resultante tenha assumido o antipatriarcado como princípio definitório. O combate contra as violências estruturais que sofre a mulher galega terá em NÓS-Unidade Popular mais umha ferramenta ao ao seu serviço, e faremos que o parámetro antipatriarcal esteja presente nom só na actuaçom social, senom a nível interno, algo que amiúde nom tenhem feito muitas organizaçons teoricamente defensoras da causa das mulheres.

· O reintegracionismo lingüístico também é um dos princípios ideológicos fundamentais que caracteriza NÓS-UP.

Maurício- O independentismo tem feito já do reintegracionismo um sinal de identidade, apostanto com decisom por essa via quando quase ninguém o fazia mais que na teoria. Hoje, dentro do dramática que é a situaçom social da língua, o certo é que o reintegracionismo ganhou novos espaços e sectores, e a organizaçom política unitária da esquerda independentista deve fazer da aposta reintegracionista um dos ingredientes fundamentais da sua política lingüística e cultural, reforçando na medida das suas possibilidades a luita de base polos direitos lingüísticos do nosso povo, que hoje som radicalmente negados polo Estado espanhol. A opçom reintegracionista é cada vez mais evidente, pois supom a incorporaçom da Galiza ao espaço cultural que lhe corresponde por história e por necessidade futura, um espaço que a pouco que ponhamos da nossa parte reforçará a nossa luita normalizadora. Devemos deixar de olhar para Espanha e abrir-nos à relaçom com os países de fala galega no mundo, começando por Portugal.

Clara- A recuperaçom da grafia da nossa língua parece-nos fundamental, tendo em conta que leva trinta anos perdendo falantes devido a políticas lingüísticas como a actual que “elevam” a nossa língua a um reduto folclórico.

· NÓS-UP como organizaçom nacional, unitária, assemblear, democrática e plural, permite à sua filiaçom organizar-se internamente segundo afinidades políticas e ideológicas, ou seja a dupla militáncia.

Clara- Si.

Maurício- Com efeito, NÓS-Unidade Popular admite a adscriçom a correntes ou partidos, sem que estes se integrem organicamente dentro da organizaçom unitária independentista. A pluralidade é umha realidade que nom deve ser ocultada. É mais bem um valor em si mesmo que deve ser promovido, e daí que se reconheça a agrupaçom da filiaçom conforme as afinidades no ideário político. Unicamente se exige umha comunidade fundamental quanto aos objectivos estratégicos da organizaçom unitária: independência, socialismo e antipatriarcado.

· Existe hoje na Galiza espaço político suficiente para vertebrar umha organizaçom independentista e de esquerda mais alá do mero testemunhalismo?.

Maurício- Sem dúvida, o espaço existe. Dam-se as condiçons objectivas para que exista umha opçom independentista e de esquerda. Por umha parte, a própria subsistência nacional da Galiza exige umha proposta política que defenda os nossos direitos colectivos mais alá da assunçom do quadro pseudodemocrático oferecido por Espanha. A Constituiçom espanhola é a negaçom mesma da soberania galega. Ante isso, ou respondemos colectivamente articulando e construindo o nosso país e ultrapassando a condiçom regional que nos impom o Estado espanhol, ou estamos condenad@s à assimilaçom definitiva. De outra parte, esse projecto tem que partir, como dixem antes, das classes populares, sintetizando a luita de libertaçom nacional com a conquista da vida digna para a maioria social, hoje submetida à exploraçom e à alienaçom capitalistas.

O que temos que demonstrar é que, para além das condiçons objectivas, estamos em condiçons de impor a subjectividade do povo ganhador, temos que demonstrar na prática que a liberdade é possível, que somos capazes de arrumar as diferenças menores e trabalhar conjuntamente na mesma organizaçom política todos os sectores da esquerda independentista galega. Eu confio em que desta vez sim conseguiremos, com muito trabalho, a introduçom social necessária para viabilizar um projecto ambicioso como o que representamos.

Clara- A ANC demonstrou que na Galiza há pessoas com muita vontade de luitar para conseguir a unidade real do independentismo.

· A que sectores sociais dirige fundamentalmente a sua mensagem a Unidade Popular?. Qual é para NÓS-UP o sujeito de transformaçom?.

Clara- NÓS-Unidade Popular consideramos que fai falta umha transformaçom radical do nosso país. Como independentistas sabemos que fazemos parte dos sectores desfavorecidos no sistema capitalista actual. Som precisamente as discriminaçons, desigualdades e marginalizaçons sociais que estruturam estes sectores contra as que luitamos.

Maurício- A história da Galiza deixa clara qual foi a funçom da burguesia na nossa sociedade e na sua relaçom com Espanha. Hoje mais do que nunca terám que ser as classes populares quem liderem a luita pola liberdade nacional e social ou nom será ninguém. Neste senso, é importante a aposta socialista de NÓS-Unidade Popular e o abandono de ambigüidades “interclassistas” que o próprio BNG se encarrega de mostrar-nos onde concluem. Nom é possível defender um programa social para todas as classes, e nessa medida NÓS-Unidade Popular tem bem definidos os sectores a quem se dirige. Julgaríamos óptimo que a burguesia galega adoptasse finalmente umha postura nacionalista, apoiando por exemplo o ascenso eleitoral do BNG. Mas nom lhes cederemos o protagonismo na confecçom de um programa social para a classe trabalhadora. Deve ser a própria classe trabalhadora, com umha perspectiva independentista e socialista, quem imponha o seu programa social numha organizaçom ao seu serviço. Essa organizaçom bem pode ser NÓS-Unidade Popular.

· Nom todo o independentismo optou por aderir ao Processo Espiral, nem à expresom organizativa do mesmo. Tem NÓS-UP algumha estratégia para lograr a plena unidade política do Movimento?.

Maurício- A nossa estratégia passa por manter as portas abertas a novas adesons que temos certeza se ham de produzir se figermos as cousas bem. Na fase actual do processo, as forças do independentismo som pequenas e as tendências históricas nom ajudam, daí que nom resulte fácil estabelecer um referente válido e reconhecido por todo o mundo. Será a prática a que confirme ou impugne a nossa aposta unitária, a nossa capacidade de fortalecer esta proposta e a demonstraçom da sua sinceridade e adequaçom à realidade social galega.

Clara- O desejável neste momento seria a unidade de acçom.

· Desde que Aznar logra a maioria absoluta a ofensiva espanhola contra as naçons sem Estado continua um avanço imparável.

Maurício- Certamente, o Estado espanhol encontra-se numha posiçom de força ante as diversas nacionalidades presas na sua Constituiçom. Unicamente o País Basco parece resistir a ofensiva, como provou nas últimas eleiçons autonómicas. No caso da Galiza, carecemos da fortaleza suficiente para parar os pés aos espanhóis, e a organizaçom maioritária do nacionalismo nom está polo labor de oferecer umha resistência activa, pregando-se às normas que o sistema lhe impom para evitar as conseqüências de tê-lo em frente. Só o fortalecimento de um movimento de resistência nacional pode garantir um futuro ante a assimilaçom forçada que nos impom Espanha.

Clara- Considero que cada vez mais o senhor Aznar está demonstrando o seu talante fascista, é mais, penso que já nem o dissimula como estám fazendo a maioria dos chefes dos estados da cultura ocidental.

· Quais vam ser os vossos principais eixos de actuaçom e objectivos políticos nos próximos meses?. Tendes previsto participar nas eleiçons autonómicas de Outubro?.

Maurício- O nosso labor principal será nos próximos meses o próprio assentamento orgánico, bem como dar a conhecer a nossa proposta política a novos sectores sociais. A participaçom eleitoral nom será possível na convocatória de Outubro, por falta de tempo, o qual nom significa que nom pensemos concorrer eleitoralmente no futuro. Trata-se mais bem do contrário, já que o que desejamos evitar é limitar-nos ao testemunhalismo que historicamente caracterizou a oferta eleitoral independentista. Aspiramos a converter-nos, também no plano eleitoral, numha força política significativa na sociedade galega do século que começa.

Clara- Ampliar e vertebrar internamente a organizaçom, assim como dar a nossa alternativa a conhecer ao resto da sociedade. Acaba de concluir a nossa ANC, nesta decidimos nom apresentar-nos a estas próximas eleiçons.

· Considerades importante para o país e para as suas classes trabalhadoras que se vertebre no parlamento autonómico umha maioria alternativa ao fraguismo?.

 

Clara- Evidentemente.

Maurício- Seria absurdo negar que gostaríamos de ver o PP desbancado do poder autonómico, mas a questom de fundo para nós é mais bem qual é a alternativa à direita espanhola. BNG e PSOE nom oferecem o projecto que este país necessita, e ainda que o PSOE representa a espanholidade em termos semelhantes ao PP na Galiza, tampouco o BNG garante umha firme defesa dos direitos nacionais da Galiza, já que isso implicaria um enfrentamento com as instituiçons do Estado desde a instituiçom autonómica. De chegarem à Junta, ambos reeditariam os pactos municipais a nível autonómico, quer dizer, política de gestom e alguns gestos “progres” em política social adubados talvez com umha maior vontade autonomista. Nengumha mudança de fundo, já que esta só pode chegar de umha transformaçom social que deve ser promovida na prática sociopolítica do dia a dia, algo em que nengum dos principais partidos da oposiçom demonstra acreditar. Os sectores que ainda acreditam na “revoluçom democrática” do BNG, ficarám desiludidos quando o vejam actuar no governo autonómico.

· Galiza atravessa objectivamente umha situaçom crítica que adopta a forma de emergência nacional, mas amplos sectores sociais, alguns dos quais sofrem com maior virulência as agressons das políticas do capitalismo espanhol e transnacional, continuam a apoiar os partidos e organizaçons sociais responsáveis por esta desfeita.

Maurício- Por isso nós insistimos na necessidade de promover a transformaçom social desde o trabalho de base. Trata-se de conseguir nom que a maioria social nos vote, senom que tome consciência da situaçom em que vive, da sua identidade nacional, dos problemas que lhe afectam e dos seus responsáveis, e que peleje no seu bairro, no seu posto de trabalho, na sua associaçom cultural ou no seu centro de ensino por mudar as cousas. Desde que isso se consiga, a democracia participativa tomará corpo e as manipulaçons burdas que hoje promovem os partidos, meios de comunicaçom e o sistema no seu conjunto perderám boa parte da sua efectividade actual. Consciência e acçom, essa é a única via para a emancipaçom que a Galiza precisa, e os falsos atalhos eleitorais só nos fam desviar-nos do caminho certo e cair nas redes do sistema.

Clara- O que apontades é umha das cousas que dificultam e provocam na Galiza que a consciência e práticas políticas comprometidas na luita de classes nom sejam maioritárias. É explicável se temos em conta o tardio final do feudalismo, os longos anos de ditadura franquista e a predomináncia da pequena propriedade, cumha cidadania conservadora, dominante e sem consciência de serem e fazerem país.

· A greve geral do passado 15 de Junho marca o início de umha nova fase política no país?.

Clara- Ainda nom fizemos umha valoraçom, mas foi muito emotivo estar com tantas pessoas protestando contra a precariedade laboral.

Maurício- Já comentei que a última década foi umha etapa de “vacas magras” para os movimentos populares e antiimperialistas, umha etapa de recessom nos direitos atingidos após duras luitas operárias durante todo o século XX. O fim das experiências socialistas encorajou umha ofensiva sem precedentes do capital e do imperialismo, ao tempo que o enfraquecimento da resistência popular favoreceu o reforçamento de posiçons conservadoras, quando nom vendidas, nas direcçons políticas e sindicais dos movimentos operários dos diversos países. A Galiza, que nom é nengumha ilha e participa dos avanços e recuos da esquerda mundial, nom foi umha excepçom.

No entanto, nos últimos tempos, marcados pola profundizaçom nas políticas neoliberais dos anos 90, assistimos ao que pode ser o início da recuperaçom das forças revolucionárias em diferentes cantos do planeta, recuperaçom simbolizada de maneira exemplar polo movimento antiglobalizaçom. Também na Galiza se detectam sintomas da reactivaçom operária, sendo a Greve Geral de Junho um importante passo nessa direcçom. Resta, porém, dar continuidade a essa dinámica e abri-la à participaçom dos sectores do mundo do trabalho que nos últimos anos, apesar de serem as principais vítimas das políticas neoliberais, ficárom fora do raio de acçom dos sindicatos. Desempregad@s, trabalhadores e trabalhadoras precárias e a mocidade popular devem tomar o relevo das velhas direcçons operárias acomodadas no pacto social. E, nessa aposta, a esquerda independentista tem muito a dizer dada a sua composiçom sociológica actual, caracterizada por umha nova geraçom de militantes jovens e adscritos maioritariamente a esses sectores do povo trabalhador. A participaçom da filiaçom de NÓS-Unidade Popular no desenvolvimento da recente greve foi um primeiro passo que deve ter continuidade com a incorporaçom da nossa gente à luita sindical nas organizaçons nacionalistas de classe.

· Quais som as perspectivas e objectivos para este 25 de Julho?.

Maurício- O nosso objectivo é fazer da mobilizaçom de NÓS-Unidade Popular a referência política independentista na jornada patriótica do 25 de Julho. Daí que tenhamos dedicado um importante esforço na organizaçom e convocatória deste ano. Sem sacralizarmos esta data (nem nengumha outra), sim julgamos que o Dia da Pátria funciona como o termómetro que nestes anos mediu a temperatura do nosso movimento depois de um ano de trabalho. A nossa aspiraçom é e será que todo o independentismo se manifeste unido polas ruas de Compostela, convocado pola organizaçom unitária que NÓS-Unidade Popular aspira a representar no curto prazo.

Clara- Que as manifestaçons independentistas contem com ampla participaçom. Estaria bem que nom chovesse.

 

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- Em defesa do trem, contra o AVE. José Veiras

 

O transporte é o “núcleo duro” da crise ambiental. O modelo territorial, o mercado único e o desenvolvimento do turismo estám provocando um crescimento muito forte do sector do transporte em toda a Europa. Os modos de transporte que máis crescem som o transporte por estrada e o aviom, que provocam elevados custos ecológicos (mudança climática, poluiçom, deterioraçom e fragmentaçom de habitats naturais,...), sociais (acidentes,...) e económicos (investimentos em infraestruturas, gastos sanitários,...), custos claramente infravalorizados pola maioria da sociedade.

Umha política de transporte sustentável e equitativa deve fomentar a “criaçom de proximidade”, aumentando a proximidade e nom a mobilidade, restringir fortemente a presença dos carros no ámbito urbano e potenciar todo o possível os modos de transporte nom motorizados, o trem e o autocarro.

O protagonismo do trem deve ser muito maior. Os ecologistas galegos defendemos a modernizaçom da obsoleta rede ferroviária do nosso país para fazer possível o aumento da participaçom do trem no transporte de pessoas e de mercadorias. Queremos um trem moderno que ajude a reduzir o desbaldimento de energia, a poluiçom e a acidentalidade e contribua para o desenvolvimento sustentável do país.

O convénio para a modernizaçom dos caminhos de ferro galegos assinado pola Junta e o Ministério de Fomento nom garante o desejável potenciamento do trem na Galiza, especialmente fora do eixo Corunha-Vigo, que concentra os 75% do investimento. O limitado investimento previsto no convénio para a melhoria do caminho de ferro convencional no nosso país até o ano 2007 (160.000 milhons de pts.) contrasta cos elevadíssimos investimentos destinados à construçom de linhas de alta velocidade estrita (máis de 250 km/h) em todo o Estado espanhol até o ano 2010 (6,8 bilhons de pts.).

Na Galiza, parece ser que só está prevista a construçom de umha linha de alta velocidade estrita, como a do AVE Madrid-Sevilha, entre Ourense e Santiago. Galiza só teria um AVE entre estas duas cidades. Os ecologistas nom nos lamentamos por isto. Melhor ainda seria nom termos nengumha linha de alta velocidade estrita (insistimos no de estrita porque, há um ano, o Ministério de Fomento, através dum decreto, redefiniu a alta velocidade, criando a alta velocidade “à galega”, muito inferior à velocidade das linhas AVE em senso estrito).

Os ecologistas ibéricos rejeitamos o trem de alta velocidade porque causa um grave impacto ambiental e apresenta umha reduzida rendibilidade social em relaçom co seu elevado custo económico. É por isto que a maioria dos governos europeus estám promovendo o trem de velocidade alta (200-220 Km/h), nom o de alta velocidade. Que saibamos, só França, o Estado espanhol e Portugal apostam pola alta velocidade. Na Alemanha, paralisárom-se os projectos de trens a 300 km/h. Na Suécia, a ligaçom entre as duas principais cidades, Estocolmo e Goteborg, levou-se a cabo com trens X-2000, de tecnologia pendular (como a do trem Talgo ou a do Alaris entre Madrid e Valência).

A circulaçom a altas velocidades exige que os traçados sejam rectilíneos, com raios mínimos de curvatura superiores a 5.000 m e pendentes máximas do 2,5%, o que implica grandes movimentos de terra. O impacto dumha linha de AVE sobre o território é comparável ao de umha auto-estrada. Além disso, os trens de alta velocidade precisam de um consumo energético desproporcionado, até 6 vezes maior do que o do caminho de ferro convencional.

O AVE supom um uso pouco eficiente do orçamento público. Podemos ter um caminho de ferro moderno sem necessidade de investirmos nada menos que 2.000 milhons por quilómetro (custo médio do AVE) para conseguirmos aforros de tempo adicionais mínimos. Co investimento de um só dos 27 km do famoso túnel do Guadarrama poderia construir-se, por exemplo, um hospital médio moderno!.

O AVE só atende às principais cidades e é caro e elitista. Nom está concebido como um serviço público para todos e todas. O AVE Madrid-Sevilha restou passageiros ao aviom, mas também expulsou muitos usuários do trem à estrada e deixou incomunicadas muitas povoaçons. O AVE detrai investimentos do caminho de ferro convencional, impedindo a sua melhoria adequada.

A megalomania de alguns, o desejo de nom sermos discriminados a respeito doutras zonas do Estado espanhol ou os interesses do sector da construçom nom nos podem ocultar as decisivas desvantagens do AVE. O AVE nom pode ser umha demanda da sociedade galega se aspira a um modelo de transporte ecologicamente sustentável e socialmente justo.

O movimento ecologista galego defende trens modernos, cómodos, exequíveis e polivalentes, com grande capacidade e freqüência, que dem serviço a todo o território, adaptados às diferentes procuras e necessidades, capazes de competirem co transporte por estrada mesmo apesar do reduzido preço dos combustíveis (que continuam sem incorporar os custos ambientais).

O trem nom é um modo de transporte do passado. É o modo de transporte dum futuro sustentável. Por isso, reclamamos nom só a modernizaçom da rede ferroviária existente senom também o seu alargamento coa criaçom de novas linhas. Haveria que estudar seriamente a construçom de novas linhas como Santiago-Lugo, Santiago-Aeroporto de Lavacolha, Corunha-Cee, Santiago-Noia, Lugo-Marinha, Padrom-Ribeira ou Ponte-Vedra-Sam Genjo. A criaçom de novas linhas ferroviárias deveria considerar-se como alternativa à construçom de novas rodovias e auto-estradas.

José Veiras Garcia é Membro de ADEGA e coordenador-geral da Federaçom Ecologista Galega (FEG), que agrupa 25 associaçons de defesa ambiental.

 

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- Movimento operário portugués: a longa recomposiçom. Francisco Martins

 

O movimento operário português atravessa desde há um quarto de século uma situaçom difícil. Sujeito desde 1976 a umha severa ofensiva burguesa reaccionária que o privou de quase todos os direitos conquistados após o 25 de Abril, enfrentou nos últimos dez anos, devido ao processo de integraçom europeia, o prático desmantelamento dos poucos centros industriais que serviam de motor da resistência operária e popular ao capital (metalurgia, química, estaleiros navais), a privatizaçom das empresas públicas e a dispersom.

Com a cobertura dos sucessivos governos “socialistas” ou “social-democratas”, e sob a batuta do imperialismo ianque e europeu, o salário real volta a níveis semelhantes aos do tempo do fascismo. Hoje, na maioria das fábricas, o assalariado está sujeito à vontade sem resposta do patrom ou do chefe, que lhe pode alongar a jornada de trabalho, impor maiores ritmos de produçom, cortar regalias, atrasar o pagamento do salário, suspender o contrato...

Vinte anos de ofensiva patronal ininterrupta dérom um pesado golpe no activismo operário. Os jovens, em regime precário, receiam “dar nas vistas” com atitudes reivindicativas, o que significa nom ver renovados os seus contratos a prazo. Grande parte da velha geraçom, que tivo um grande papel nas conquistas do período revolucionário, ao verem a situaçom degradar-se, caírom no cansaço e no desencanto e aceitam reformas antecipadas com indemnizaçom para ir para casa. Os novos contingentes de imigrantes africanos e do Leste europeu debatem-se com a ameaça permanente da expulsom. Som as mulheres que por vezes se destacam em acçons mais combativas nas fábricas têxteis, do calçado, etc.

Os sindicatos, deparando com umha cada vez maior dificuldade em intervir nos locais de trabalho e mobilizar os trabalhadores, fôrom-se fechando na burocratizaçom. A CGTP, com tradiçons de resistência, foi-se aproximando da UGT amarela, com a bençom da CES, a confederaçom europeia. Patronato e sindicatos, sob a “arbitragem” do governo, negoceiam entre si os acordos, que depois aparecem já cozinhados aos olhos da massa operária. Os delegados sindicais na prática funcionam como moços de recados da direcçom para a base. As comissons de trabalhadores, criaçom do 25 de Abril, ou desaparecêrom sob a pressom do patronato, ou caírom no imobilismo.

No terreno directamente político, também a situaçom da esquerda é de crise. O Partido Comunista, tradicional organizador da resistência ao fascismo, vê decair inexoravelmente a sua influência devido ao fracasso do seu programa de colaboraçom de classes (a “democracia avançada no século XXI”) e ao desmoronamento da “pátria do socialismo”, mas continua a exercer uma acçom perniciosa contra a radicalizaçom das luitas. É o clássico “partido burguês para operários” de que falava Lenine. Quanto à prática totalidade dos grupos e activistas que tinham surgido à sua esquerda nos anos 60-70, iniciando a renovaçom do movimento comunista, ou desaparecêrom ou convertêrom-se à “democracia de mercado”. O duro despertar das ilusons de 1975 num avanço fácil para o socialismo, junto com a desorientaçom perante a queda do “campo socialista”, semeárom o pessimismo e a descrença na revoluçom. O marxismo-leninismo, que chegou a ser umha moda entre a juventude dos anos 60-70, está desacreditado. O novo Bloco de Esquerda, constituído há dous anos mediante um contrato entre dous pequenos partidos –UDP, maoísta, e PSR, trotskista– define-se como umha oposiçom de tipo parlamentar, com um estilo de intervençom e palavras de ordem mais dirigidas para os sectores médios do que para a massa proletária.

É difícil prever por enquanto qual o desenlace de toda esta difícil recomposiçom do proletariado e das correntes políticas da esquerda em Portugal. A ofensiva de grande envergadura que está a ser lançada polo governo socialista, a pretexto de sanear a situaçom económica, começa a suscitar reacçons de luita mais combativas, por enquanto limitadas. Parece fora de dúvida que o proletariado português, integrado doravante no império europeu, condenado a permanecer como um dos destacamentos mais pobres do proletariado europeu, vai ser empurrado para novas luitas de envergadura contra o capital e a romper o desgraçado isolamento nacional em que tem sido mantido. E aí, as liçons do período revolucionário, tam longamente enterradas, ressurgirám porque o movimento operário tem a sua memória própria.

Francisco Martins Rodrigues é dirigente da organizaçom comunista portuguesa Política Operária.

 

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- O Banco Mundial suspende a conferéncia em Barcelona

Persiste a ofensiva internacional do movimento anticapitalista

Génova, Gante e Bruxelas som as próximas citas

 

Tal como já abordávamos no Abrente 19, o movimento internacional contra a globalizaçom capitalista, que emergeu com força nas ruas de Seattle (USA) em Dezembro de 1999, longe de ser um mero acto de rebeliom pontual, continua o seu desenvolvimento ao longo do planeta, somando forças e correntes políticas diversas, movimentos sociais e entidades anti-sistémicas de toda a índole.

O temor à poderosa capacidade de mobilizaçom que até agora tem demonstrado este movimento provocou a suspensom da conferência sobre “Economia e desenvolvimento” que o Banco Mundial tinha previsto desenvolver em Barcelona entre o 25 e o 27 de Junho. Mas esta vitória nom dissuadiu os organizadores dos protestos a desconvocar as diversas acçons previstas que, -tal como se relata na crónica que adjuntamos-, apesar das provocaçons policiais, logrou mobilizar dezenas de milhares de pessoas numha nova mostra da recuperaçom e boa saúde do movimento anticapitalista a escala planetária.

Dias antes, as ruas da cidade sueca de Gotemburg assistírom a massivas manifestaçons contra a cimeira da UE, saldadas com centos de detids e dezenas de feridos, vários de bala, numha brutal represom policial que comocionou meia Europa.

Posteriormente a Barcelona, co objecto de reduzir a capacidade dos protestos das mobilizaçons contra a reuniom do Foro Económico Mundial em Salzburgo, as autoridades austríacas suspendêrom o Tratado de Schengen que permite a livre circulaçom de pessoas polos estados membros da Uniom Europeia.

A esquerda independentista galega, por mor do processo de reorganizaçom em que estivo imersa, e por evidentes incompatibilidades co calendário político do nosso país, ainda nom tivo ocasiom de participar de jeito organizado numhas mobilizaçons internacionais em que a voz da Galiza anticapitalista e independentista deve estar presente.

As próximas citas serám Génova o 20 a 22 de Julho para boicotar a reuniom do G-8, os sete estados mais industrializados do planeta mais Rússia, -às que será impossível assistir por mor da campanha do Dia da Pátria- e as cimeiras europeias de Barcelona, Madrid, Gante e Bruxelas, em Março, Maio, Outubro e Dezembro respectivamente.

Desde a Galiza cumpre começar a trabalhar neste tema porque um outro mundo é possível.

 

Crónica urgente dumha repressom policial

Obviamente a crónica que adjunto nom recolhe todo o que se passou em Barcelona, pois seria tarefa praticamente impossível. A manifestaçom começou às 12 do meio-dia com mais de 26.000 participantes, com muita gente de fora do Estado espanhol apesar da suspensom da reuniom polo Banco Mundial.

Por volta das 12:30 da manhá, um grupo de pessoas começou a romper os vidros do Banco Santander, o qual nos fijo pensar que algo nom quadrava, porque umha destacada parte da manifestaçom, na qual nos encontrávamos, ainda nom iniciara a marcha e era muito provável que a polícia cargasse contra nós.

A massa percorreu o Passeio de Gràcie e essa gente, incontrolada pola organizaçom da manifestaçom e com o beneplácito das forças de repressom, continua a romper todo o que encontrava no caminho.

Umha vez chegados à Plaça de Catalunya demo-nos conta de que essa gente que arremetia contra bancos, comércios, etc, eram polícias secretas disfarçados de manifestantes que estavam encarregados de gerar provocaçons co objecto de ter assim umha escusa para realizar as detençons e cargas policiais posteriores.

De tarde, os anti-distúrbios entrárom no MACBA (Museu de Arte Contemporánea de Barcelona) para rebentar a assembleia de porta-vozes dos grupos que organizavam a manifestaçom. A polícia perseguiu durante todo o dia as pessoas que participaram neste acto, e um helicóptero estivo durante duas noites sobrevoando a cidade com potentes focos. Estivo em vigor um verdadeiro estado de sítio para impedir o êxito da mobilizaçom anticapitalista.

As forças de repressom espanholas ferírom 32 pessoas, entre elas umha freira sueca que passeava por ali a fazer turismo, e um grupo de turistas chineses que nom tinham nada a vêr coa mobilizaçom.

Detivérom 22 pessoas das quais ainda a dia de hoje ficam duas detidas, a quem provavelmente aplicárom a Lei Anti-Terrorista: um companheiro português e um companheiro italiano.

Estes factos demonstrárom mais umha vez a natureza do Estado espanhol, um regime sicário e cúmplice do capitalismo mais agressivo que nom permite o livre exercício de expressom, reuniom e manifestaçom.

Independência e Socialismo!

 

Gustavo Garcia Soares

Barcelona, 24 de Junho de 2001

 

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