
O nascimento de NÓS-Unidade Popular, como resultado da acumulaçom poliédrica de forças, da síntese de trajectórias, da unificaçom multiplicadora de vontades, e do clarificador debate político-ideológico da esquerda independentista que, desde o Processo Espiral, consideravamos imprescindível dotarmos o antes possível a Galiza e as suas classes trabalhadoras de um sujeito político unitário, plural e de massas, é umha magnífica notícia para o movimento de libertaçom nacional e social deste país.

O éxito do processo em curso ratifica
o diagnóstico que desde há mais de dous anos vínhamos realizando desde o Abrente.
A nossa base social demandava com claridade a configuraçom do novo independentismo
do século XXI. Exigia amplas doses de generosidade e audácia política para
superarmos dinámicas enrocadas e endogámicas interpretaçons da realidade.
A Assembleia Nacional Constituinte (ANC) realizada o 2 e 3 de Junho em Compostela
constatou a existência de energias e vontade política suficiente para iniciar
a marcha unitária, abandonando a desorientaçom e a resignaçom parasilante.
O projecto revolucionário -independentista,
socialista e antipatriarcal- que NÓS-Unidade Popular representa, parte cumha
dilatada e rica experiência de trabalho político nas suas costas, de intervençom
social, mas também deve ser consciente das carências e dos erros estruturais
que até o momento caracterizárom o nosso movimento patriótico.
É vital partirmos desta premissa
para lograrmos que a Unidade Popular contribua a abrir um novo ciclo político
neste país, para que a Unidade Popular logre um crescimento sustentado de
forças, paralelo a umha introduçom social tam necessária como imprescindível
para poder ocupar o desvertebrado espaço político que à esquerda do nacionalismo
institucional hoje ninguem ocupa. É umha evidência empiricamente verificável
que existe esse espaço político objectivo, que cada dia que passa é maior.
Portanto o nosso repto nom é criar esse espaço, é sermos capazes de dar-lhe
forma e geri-lo com êxito. NÓS-Unidade Popular em nengum momento deve reproduzir
mimeticamente dinámicas precedentes, refugiar-se em práticas e modelos anteriores,
pois a indiscutível vocaçom superadora que deve guiar o seu agir diário necessita
estilos de trabalho diferentes para conseguir elaborar alternativas novas
e umha linha política própria, adaptada à estrutura social e à luita de classes
sobre a que opera, a Galiza do século XXI.
Se queremos tornar possível o impossível,
devemos abandonar a cultura do testemunhalismo, do residualismo, quebrar as
inércias, desterrar a auto-comprazência da prática anedótica que provocou
e perpetuou a fragmentaçom cainista.
As resoluçons da ANC som determinantes
nesta questom, -sem renunciarmos aos acertos e erros do passado-, devemos
construir algo novo e novidoso, afastado de nostalgias e guiado polo futuro.
Queremos lograr a adesom de todas aquelas mulheres e homes que levam anos
aguardando pola criaçom de umha organizaçom política unitária, plural e de
massas, que fale dos problemas reais, quotidianos, que busque soluçons, que
contribua para transformar o presente, que articule dinámicas de luita e resistência
contra o capitalismo colonial e a involuçom social que caracteriza a actual
ofensiva do neoliberalismo e o imperialismo espanhol.
A esquerda patriótica articulada
na Unidade Popular conta pola primeira vez, em mais de umha década, com umha
alternativa séria e solvente. Agir com responsabilidade política, +
com altura de miras, mais alá de
interesses partidários, deve ser a prática diária interna de umha força política
que respeita a pluralidade ideológica, considera enriquecedora a existência
de correntes, e assume com naturalidade as leis da democracia participativa.
NÓS-Unidade Popular deve ser a casa
comum da esquerda independentista, nela devem ter cabimento, sem nengum tipo
de excepçons, todas aquelas pessoas que, de acordo co modelo organizativo,
os princípios ideológicos e o programa político, estám dispostas a implicar-se
nesta tarefa. As portas devem estar permanentemente acessíveis a tod@s @s
companheir@s cos que coincidimos nas dinámicas unitárias dous últimos dous
anos, devem ser referenciais para a perplexa base social do nacionalismo,
devem ser atractivas para conectar e cativar socialmente, estimulando a entrada
de cada vez mais povo.
O processo unitário realizado na
Galiza pola esquerda independentista está enquadrado nas dinámicas de reformulaçom,
confluência e achegamento que se estám a desenvolver em diversos pontos do
planeta por parte das forças políticas e sociais anticapitalistas. O nascimento
de Batasuna em Euskal Herria, do MLNC nas Canárias, o Marc de Vinaròs nos
Països Catalans, a unidade de acçom da esquerda revolucionária em diversos
países européus e latinoamericanos, o impressionante desenvolvimento do movimento
antiglobalizaçom, som alguns dos múltiplos expoentes desta tendência mundial.
Num planeta em que o exercício da
dominaçom se realiza a escala global, é necessário estabelecer coordenaçons
e estratégias de luita a nível regional e supranacional. O independentismo
galego nom pode isolar-se, praticar o autismo e a autarquia ideológico-política,
desconsiderando o que acontece no exterior das nossas fronteiras, deve ser
capaz de abrir-se o mundo, dar a conhecer o seu projecto e aprender de todas
aquelas experiências úteis para avançar.
A Galiza é um país do centro no sistema
capitalista mundial, embora nos situemos na periferia desse centro. Os nossos
parámetros sócio-económicos, as nossas condiçons políticas, estám mais próximas
hoje de umha Alemanha, de umha França ou de um Canadá, do que de um Timor,
umha Chechénia ou um Peru, por mais que também a nossa sociedade contenha
em si todas as contradiçons e injustiças que constituem a essência do capitalismo.
A Unidade Popular tem que contribuir
para a reorganizaçom e desenvolvimento do MLNG, pois pretendendo ser o referente
unitário de toda a esquerda independentista, tem o dever de potenciar um projecto
sócio-político que adopta a fórmula de movimento, entendido este como o conjunto
de entidades e organizaçons que desde a autonomia organizativa compartilhamos
umha mesma estratégia de luita com base nos comuns parámetros ideológicos
de independência, socialismo e antipatriarcado. Os êxitos e avanços políticos
de cada entidade, os fracassos e retrocessos de cada organismo sectorial,
inevitavelmente influirám no conjunto do movimento. De aí a necessidade de
construir um movimento coesionado e sincronizado com linha política definida
e globalizadora, nas entidades juvenis, estudantis, feministas, culturais
existentes, nas que cumpre impulsionar noutros campos, nas centrais sindicais
nacionalistas e no associacionismo vizinhal.
O independentismo conta co sujeito
político unitário, com objectivos tácticos e estratégicos definidos, agora
só resta trabalho, implicaçom e audácia para lograrmos acumulaçom de forcas
e espaços de contrapoder popular. @s comunistas galeg@s temos a firme determinaçom
de contribuir coa nossa experiência, recursos humanos e materiais para o êxito
deste projecto.
Viva NÓS-Unidade Popular!.
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Por um sindicalismo transformador
Possivelmente resultaría digno de
compaixom o historiador que, tendo um mínimo de sensibilidade social e compromisso,
tivesse a encomenda de escrever sobre o movimento sindical nos últimos anos.
Com toda a certeza, a classe trabalhadora
viveu umha das épocas máis dificultosa da sua dilatada e intensa vida.

Os nossos direitos fôrom em claro
retrocesso; as velhas conquistas arrancadas em esforçadas luitas, fôrom perdendo-se
as mais delas; a repressom aumentou sem que mostrássemos capacidade de enfrentamento;
a indefensom converteu-se em sentimento generalizado; o entreguismo do sindicalismo
tradicional foi moeda de troca; a individualizaçom reina nas relaçons laborais...
Em soma, levamos tempo perdendo a partida contra o sistema.
Sem embargo, neste panorama, no que
as cabeças pensantes do capitalismo semelham apostar por umha grande, se nom
definitiva, volta de porca aos direitos mais elementares e pretendem impor
a sua lei anti-social e a sua concepçom das relaçons económicas, chegam a
surgir respostas de grandíssimo calado que golpeiam precisamente no coraçom
do Sistema: o Movimento Antiglobalizaçom.
Possivelmente a deste Movimento seja
a única resposta, com certa projecçom e peso internacional, ao aparentemente
sagrado sistema. E dita resposta vem produzir-se de fora das fileiras dos
Sindicatos e Partidos políticos tradicionais, aparentemente arreigados e com
ampla representaçom no conjunto da sociedade.
Este ressurgir mobilizador, juntamente
coas importantes luitas levadas adiante nos últimos tempos em diferentes países
pola Segurança Social universal ou polas 35 horas, podem ser os dados mais
significativos dumha recuperaçom da capacidade de luita da nossa classe, ainda
que seja a partir doutro modelo organizativo.
Também na Galiza vivemos, olhando
o passado recente, anos de frustraçom. A ilusionante unidade do sindicalismo
nacionalista nos princípios dos anos noventa nom frutificou em resultados
concretos: produziu-se um estancamento na nossa representatividade; perdemos
a iniciativa na direcçom sindical no país; confrontamos mais os lideratos
que os modelos; envolvemo-nos em liortas internas que nom perseguiam melhorar
a situaçom dos trabalhadores e trabalhadoras, senom a dos grupos que pelejavam
polo poder; vimos como de novo umha parte do sindicalismo nacionalista rompia
coa organizaçom; assediados pola patronal e polo sindicalismo estatal, nom
soubemos respostar em coerência e mesmo, nalguns casos, fomos caindo num modelo
que nunca foi o nosso.
Mais também no nosso país semelha
viver-se umha esperançadora recuperaçom da acçom sindical coerente e comprometida.
Umha recuperaçom em que tem muito a ver a Confederaçom Intersindical Galega,
da qual quem suscrevem fazemos parte, e que recentemente celebrou o seu III
Congresso.
Um anódino Informe de Gestom da Executiva
Confederal sainte deu passagem a umha série de debates sem que reinasse precisamente
o ánimo de consenso para, imediatamente, chegar ao que parecia ser o momento
culminante: a eleiçom dos cargos dirigentes.
Os mesmos que antes votaram favoravelmente
no Informe do realizado nos quatro anos anteriores, enfrontavam-se em listas
diferentes para dirigir o Sindicato nos quatro anos seguintes. Todo um considerável
despropósito.
Em qualquer caso, e tendo em conta
determinados comportamentos e algumha que outra intervençom e tese congressual,
o veradeiramente preocupante nom é que pessoa ocupe a Secretaria Geral, nem
tal ou qual cargo, senom que a maior expressom do sindicalismo nacionalista
organizado esteja controlada (nom falamos de incidência senom de controlo)
por umha organizaçom política. Mais ainda: nom temos garantia neste momento
de nom estar hipotecados ante o que num futuro pudesse ser um “governo amigo”.
Com certeza que nom se trata aqui
de defender o apoliticismo sindical, nem tampouco de cumprir o papel de “contras”.
Do que se fala é da imperiosa necessidade de que umha organizaçom obreira
defenda sempre, e dizemos sempre, os direitos da classe social que representa,
tenha em frente quem tiver.
A defensa da democracia interna,
da participaçom desde a base, da recuperaçom cada vez maior do dinamismo e
da direcçom sindical, da independência do sindicato a respeito de qualquer
grupo de poder e o respeito das minorias, som precisamente pilares fundamentais
em que assentamos aquelas persoas que apostamos pola CIG como praticante dum
sindicalismo transformador da realidade actual. Neste caminho estamos os homens
e mulheres que conformamos o Colectivo 10 de Março.
Mas nom todo o sindicalismo, mui
afortunadamente, se dirime em chave interna.
Também é justo reconhecer que no
nosso país estám a acontecer feitos que afundam na aposta de ruptura da dinámica
de retrocesso.
A convocatória de Greve Geral do
passado 15 de Junho tem umha importáncia vital para o sindicalismo nacionalista
e de classe que a CIG representa.

O feito de ser umha Greve Nacional,
de abrir-se umha fenda no sindicalismo estatal, de dar umha resposta netamente
obreira a umha política abertamente neoliberal e de que tivesse tam importante
repercussom e participaçom entre a classe trabalhadora (apesar do silenciamento
dos meios de comunicaçom e da covarde passividade dos grupos da oposiçom institucional)
pode representar o começo dum novo mapa nas relaçons laborais no nosso país.
Nom devemos pecar de excessivo optimismo:
O movimento demonstra-se caminhando e há que ver como se vai comportar a UGT
de aqui em diante nos temas fundamentais como a negociaçom colectiva, o quadro
de relaçons laborais ou a conflituosidade que puder aparecer. Nom temos garantia
nengumha de que a mudança vaia ser de grande calado.
Sem embargo, nom devemos esquecer
que é a primeira vez que um Sindicato estatal abandona o seu campo habitual
de acçom e vem jogar ao nosso, enfrentando-se aliás co seu aliado “natural”.
Assim que em grande medida depende
de nós mesmos provocar que esta situaçom se prolongue no tempo e nas decisons
sindicais importantes.
Devemos pois apostar por continuar
mantendo firmeza sindical e tomando iniciativas se quigermos realmente mudar
o estado de cousas e voltar a acadar conquistas para a nossa classe.
Quiçá a história do movimento sindical
poda ser mais optimista no futuro imediato.
Etelvino Blanco Rodriguez é o Responsável
Comarcal da CIG em Ourense.
Anjo Pérez Carvalho é membro da Direcçom
Comarcal da CIG de Ourense.
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Entrevista a Maurício Castro e Clara Martins
“Dam-se
as condiçons objectivas para que exista umha opçom independentista e de esquerda”
Maurício
Castro e Clara Martins, membros da Permanente Nacional de NÓS-Unidade Popular,
numha entrevista co Abrente debulham diversos aspectos da conjuntura política
da Galiza, com especial destaque na situaçom da esquerda independentista e
o projecto político unitário que representa a recém constituída Unidade Popular.
· NÓS-Unidade Popular emerge no panorama
político galego como resultado do original processo de debate e acumulaçom
de forças, aberto ao conjunto da cidadania, denominado Processo Espiral.
Clara- No Processo Espiral que deu
lugar à constituiçom de NÓS-Unidade Popular conseguimos juntar um importante
número de pessoas a título individual com muita vontade de trabalhar pola
independência da Galiza com todo o que implica.
Maurício- Efectivamente, podemos
dizer que NÓS-Unidade Popular supom a culminaçom de um processo de debate
em que durante seis meses se chegou a um acordo programático e orgánico para
a criaçom da casa comum da esquerda independentista. A originalidade estivo
na criaçom de umha gestora plural e representativa do independentismo político
galego, que elaborou os textos para serem discutidos em foros comarcais abertos
que figérom as suas emendas para a posterior discussom na Assembleia Nacional
Constituinte. Se bem é certo que nom todo o independentismo aderiu ao Processo
Espiral, nom menos certo é que NÓS-Unidade Popular é hoje a única proposta
unitária existente, que terá como labor principal nos próximos meses integrar
pessoas que ficárom à espreita de como se desenvolve a nossa acçom política.
O nosso repto é ganhar essas pessoas para a causa comum da plena soberania
nacional e o socialismo.
· O nascimento de NÓS-Unidade Popular
vem a solventar um dos principais problemas que historicamente arrasta a esquerda
independentista, a sua endémica atomizaçom e fragmentaçom organizativa.
Maurício- Polo menos supom um passo
importante e decidido nessa direcçom. Nom podemos nem queremos ocultar que
ainda há muit@ independentista fora de NÓS-Unidade Popular; incluso existem
siglas que até hoje recusárom incorporar-se ao trabalho unitário. As causas
há que procurá-las em dous motivos fundamentais: de umha parte, na dificuldade
de vencer dinámicas já antigas no nacionalismo galego, dinámicas nom isentas
de sectarismos e particularismos, pondo em ocasions os interesses partidistas
à frente das necessidades objectivas que evidencia a grave situaçom que atravessa
a nossa naçom. Por outra parte, também é certo que alguns sectores sem adscriçom
partidária arrastam um compreensível cepticismo ante umha história carregada
de ilusons frustradas, passos em falso e dinámicas centrífugas sem fim. Só
se demonstrarmos na prática que esta vez a aposta unitária pode funcionar
é que ganharemos esses sectores que ainda nom aderírom ao projecto.
Clara- Este é um dos objectivos que
buscamos com este projecto, a integraçom de todo o independentismo. Confiamos
em fazer um bom trabalho neste sentido e consegui-lo quanto antes.

· O BNG já nom é umha ferramenta
acaída para acumular forças soberanistas e transformadoras.
Clara- Considero que nom som quem
para responder isto, parece-me um juízo de valor.
Maurício- Em opiniom dos homens e
mulheres que formamos NÓS-Unidade Popular, existe um espaço político objectivo
que está a ser abandonado polo BNG desde há anos. Alguns sectores populares
que nom acabavam de acreditar neste diagnóstico, começam a certificá-lo dous
anos depois de que o nacionalismo institucional acedesse ao governo da maior
parte das grandes cidades galegas. Cada vez é mais evidente que a aposta desse
nacionalismo é exclusivamente eleitoral. Na melhor das hipóteses, poderíamos
acreditar que aspira a transformar o país desde o governo autonómico, mas
alguém deverá explicar-nos como pode reforçar-se a consciência nacional de
um povo submetido desde as instituiçons e o quadro constitucional que servem
a esse submetimento. A aposta independentista deve ser justamente a contrária:
criar consciência nacional para ganhar um sector significativo das classes
populares como sustento para umha ofensiva renacionalizadora. Nom se trata
de governar a toda a custa, senom de criar força social para a transformaçom
desde a base, o qual nom supom umha renúncia ao trabalho institucional, senom
situá-lo no lugar que lhe corresponde na estratégia de construçom nacional.
· Que modelo de organizaçom, definiçom
ideológica e programa político aprovou o conjunto da filiaçom da Unidade Popular
na ANC celebrada a inícios de Junho?.
Clara- A ideia inicial é umha organizaçom
piramidal, mas de base. Orabém, de ser piramidal sempre com a assembleia por
cima. Somos socialistas.
Maurício- NÓS-Unidade Popular é umha
organizaçom assemblear baseada na filiaçom individual. Quanto ao programa
político, a nossa Assembleia Nacional Constituinte definiu as linhas de actuaçom
política em cinco grandes apartados: consciência nacional e democracia, política
socioeconómica, política da mulher, política contra toda forma de discriminaçom
e política socioambiental. Estes apartados dam ideia das preocupaçons fundamentais
da nossa organizaçom: a defesa dos direitos nacionais da Galiza, a luita pola
justiça social com umha visom claramente de esquerda e revolucionária, o combate
ao patriarcado, ao racismo e outras formas de discriminaçom, e umha aposta
ambientalista que situe o critério ecológico como prioritário em qualquer
actuaçom socioeconómica. O próprio modelo de democracia participativa galega
enfrentada à pseudodemocracia espanhola que se impom ao nosso país definirá
a nossa actividade política.
· Por que NÓS-UP se define como organizaçom
socialista?.
Clara- Por coerência.
Maurício- A situaçom criada pola
desapariçom dos sistemas burocráticos em que derivárom os ensaios socialistas
nom pode ser mais crua para a grande maioria da humanidade. Essa situaçom
mostra-nos mais claramente do que nunca a injustiça e crueldade consubstanciais
ao capitalismo mundializado. Neste contexto, a Galiza nom pode deixar de posicionar-se,
e em nossa opiniom deve fazê-lo do lado dos povos que no mundo sofrem a opressom
de um imperialismo cada vez mais letal. Somos conscientes de que o nosso país
ocupa um lugar de privilégio quanto ao injusto reparto de riqueza no mundo.
Fazemos parte da periferia de um dos centros capitalistas, a Uniom Europeia,
responsável pola precarizaçom socioeconómica imposta à nossa pátria nas últimas
décadas, e sabemos qual tem sido a posiçom da burguesia do nosso país durante
todo este tempo: a integraçom no projecto nacional espanhol e o serviço ao
capitalismo transnacional.
Ante esta realidade, e se queremos
evitar que a Galiza desapareça como realidade nacional, só os sectores mais
conscientes das classes populares poderám liderar a luita pola independência,
com um programa social próprio e com conteúdos revolucionários. Nesse caminho,
encontraremo-nos com outros muitos povos que no mundo luitam por esses mesmos
objectivos. O autêntico internacionalismo é nesta altura histórica defender
a independência da nossa naçom e articular com os restantes povos da Europa
e o mundo umha rede de resistência que acabe derrotando o imperialismo e o
capitalismo.
· É bastante inovador, mesmo para
umha força política revolucionária, que o antipatriarcado seja, junto da independência
e o socialismo, o terceiro eixo definitório sobre o que se vertebre a sua
armaçom política-ideológica.
Clara- A estas alturas, depois de
cinqüenta anos de mobilizaçons feministas, nom podemos considerar que a luita
antipatriarcal seja novidosa. O socialismo implica umha luita contra o patriarcado
e umha das cousas que pretende NÓS-Unidade Popular é ser umha força política
revolucionária. No meu pensamento está a importante labor levado a cabo polas
diferentes organizaçons feministas com que contou e conta este país.
Maurício- Desde logo, na existência
do patriarcado como modelo de referência e poder social, a Galiza nom constitui
nengumha excepçom no contexto mundial, já que também neste aspecto a opressom
está globalizada. Desde NÓS-Unidade Popular achamos que nom se pode defender
a libertaçom nacional e social de um país sem que os homens renunciemos à
posiçom de poder que ocupamos graças ao submetimento da metade da populaçom
galega, e achamos também que a problemática da mulher tem umha dimensom que
nom permite subsumi-la noutras reivindicaçons como a independência e o socialismo.
Daí que, seguindo o critério das mulheres participantes no Processo Espiral,
a organizaçom resultante tenha assumido o antipatriarcado como princípio definitório.
O combate contra as violências estruturais que sofre a mulher galega terá
em NÓS-Unidade Popular mais umha ferramenta ao ao seu serviço, e faremos que
o parámetro antipatriarcal esteja presente nom só na actuaçom social, senom
a nível interno, algo que amiúde nom tenhem feito muitas organizaçons teoricamente
defensoras da causa das mulheres.
· O reintegracionismo lingüístico
também é um dos princípios ideológicos fundamentais que caracteriza NÓS-UP.
Maurício- O independentismo tem feito
já do reintegracionismo um sinal de identidade, apostanto com decisom por
essa via quando quase ninguém o fazia mais que na teoria. Hoje, dentro do
dramática que é a situaçom social da língua, o certo é que o reintegracionismo
ganhou novos espaços e sectores, e a organizaçom política unitária da esquerda
independentista deve fazer da aposta reintegracionista um dos ingredientes
fundamentais da sua política lingüística e cultural, reforçando na medida
das suas possibilidades a luita de base polos direitos lingüísticos do nosso
povo, que hoje som radicalmente negados polo Estado espanhol. A opçom reintegracionista
é cada vez mais evidente, pois supom a incorporaçom da Galiza ao espaço cultural
que lhe corresponde por história e por necessidade futura, um espaço que a
pouco que ponhamos da nossa parte reforçará a nossa luita normalizadora. Devemos
deixar de olhar para Espanha e abrir-nos à relaçom com os países de fala galega
no mundo, começando por Portugal.
Clara- A recuperaçom da grafia da
nossa língua parece-nos fundamental, tendo em conta que leva trinta anos perdendo
falantes devido a políticas lingüísticas como a actual que “elevam” a nossa
língua a um reduto folclórico.
· NÓS-UP como organizaçom nacional,
unitária, assemblear, democrática e plural, permite à sua filiaçom organizar-se
internamente segundo afinidades políticas e ideológicas, ou seja a dupla militáncia.
Clara- Si.
Maurício- Com efeito, NÓS-Unidade
Popular admite a adscriçom a correntes ou partidos, sem que estes se integrem
organicamente dentro da organizaçom unitária independentista. A pluralidade
é umha realidade que nom deve ser ocultada. É mais bem um valor em si mesmo
que deve ser promovido, e daí que se reconheça a agrupaçom da filiaçom conforme
as afinidades no ideário político. Unicamente se exige umha comunidade fundamental
quanto aos objectivos estratégicos da organizaçom unitária: independência,
socialismo e antipatriarcado.
· Existe hoje na Galiza espaço político
suficiente para vertebrar umha organizaçom independentista e de esquerda mais
alá do mero testemunhalismo?.
Maurício- Sem dúvida, o espaço existe.
Dam-se as condiçons objectivas para que exista umha opçom independentista
e de esquerda. Por umha parte, a própria subsistência nacional da Galiza exige
umha proposta política que defenda os nossos direitos colectivos mais alá
da assunçom do quadro pseudodemocrático oferecido por Espanha. A Constituiçom
espanhola é a negaçom mesma da soberania galega. Ante isso, ou respondemos
colectivamente articulando e construindo o nosso país e ultrapassando a condiçom
regional que nos impom o Estado espanhol, ou estamos condenad@s à assimilaçom
definitiva. De outra parte, esse projecto tem que partir, como dixem antes,
das classes populares, sintetizando a luita de libertaçom nacional com a conquista
da vida digna para a maioria social, hoje submetida à exploraçom e à alienaçom
capitalistas.
O que temos que demonstrar é que,
para além das condiçons objectivas, estamos em condiçons de impor a subjectividade
do povo ganhador, temos que demonstrar na prática que a liberdade é possível,
que somos capazes de arrumar as diferenças menores e trabalhar conjuntamente
na mesma organizaçom política todos os sectores da esquerda independentista
galega. Eu confio em que desta vez sim conseguiremos, com muito trabalho,
a introduçom social necessária para viabilizar um projecto ambicioso como
o que representamos.
Clara- A ANC demonstrou que na Galiza
há pessoas com muita vontade de luitar para conseguir a unidade real do independentismo.
· A que sectores sociais dirige fundamentalmente
a sua mensagem a Unidade Popular?. Qual é para NÓS-UP o sujeito de transformaçom?.
Clara- NÓS-Unidade Popular consideramos
que fai falta umha transformaçom radical do nosso país. Como independentistas
sabemos que fazemos parte dos sectores desfavorecidos no sistema capitalista
actual. Som precisamente as discriminaçons, desigualdades e marginalizaçons
sociais que estruturam estes sectores contra as que luitamos.
Maurício- A história da Galiza deixa
clara qual foi a funçom da burguesia na nossa sociedade e na sua relaçom com
Espanha. Hoje mais do que nunca terám que ser as classes populares quem liderem
a luita pola liberdade nacional e social ou nom será ninguém. Neste senso,
é importante a aposta socialista de NÓS-Unidade Popular e o abandono de ambigüidades
“interclassistas” que o próprio BNG se encarrega de mostrar-nos onde concluem.
Nom é possível defender um programa social para todas as classes, e nessa
medida NÓS-Unidade Popular tem bem definidos os sectores a quem se dirige.
Julgaríamos óptimo que a burguesia galega adoptasse finalmente umha postura
nacionalista, apoiando por exemplo o ascenso eleitoral do BNG. Mas nom lhes
cederemos o protagonismo na confecçom de um programa social para a classe
trabalhadora. Deve ser a própria classe trabalhadora, com umha perspectiva
independentista e socialista, quem imponha o seu programa social numha organizaçom
ao seu serviço. Essa organizaçom bem pode ser NÓS-Unidade Popular.
· Nom todo o independentismo optou
por aderir ao Processo Espiral, nem à expresom organizativa do mesmo. Tem
NÓS-UP algumha estratégia para lograr a plena unidade política do Movimento?.
Maurício- A nossa estratégia passa
por manter as portas abertas a novas adesons que temos certeza se ham de produzir
se figermos as cousas bem. Na fase actual do processo, as forças do independentismo
som pequenas e as tendências históricas nom ajudam, daí que nom resulte fácil
estabelecer um referente válido e reconhecido por todo o mundo. Será a prática
a que confirme ou impugne a nossa aposta unitária, a nossa capacidade de fortalecer
esta proposta e a demonstraçom da sua sinceridade e adequaçom à realidade
social galega.
Clara- O desejável neste momento
seria a unidade de acçom.
· Desde que Aznar logra a maioria
absoluta a ofensiva espanhola contra as naçons sem Estado continua um avanço
imparável.
Maurício- Certamente, o Estado espanhol
encontra-se numha posiçom de força ante as diversas nacionalidades presas
na sua Constituiçom. Unicamente o País Basco parece resistir a ofensiva, como
provou nas últimas eleiçons autonómicas. No caso da Galiza, carecemos da fortaleza
suficiente para parar os pés aos espanhóis, e a organizaçom maioritária do
nacionalismo nom está polo labor de oferecer umha resistência activa, pregando-se
às normas que o sistema lhe impom para evitar as conseqüências de tê-lo em
frente. Só o fortalecimento de um movimento de resistência nacional pode garantir
um futuro ante a assimilaçom forçada que nos impom Espanha.
Clara- Considero que cada vez mais
o senhor Aznar está demonstrando o seu talante fascista, é mais, penso que
já nem o dissimula como estám fazendo a maioria dos chefes dos estados da
cultura ocidental.
· Quais vam ser os vossos principais
eixos de actuaçom e objectivos políticos nos próximos meses?. Tendes previsto
participar nas eleiçons autonómicas de Outubro?.
Maurício- O nosso labor principal
será nos próximos meses o próprio assentamento orgánico, bem como dar a conhecer
a nossa proposta política a novos sectores sociais. A participaçom eleitoral
nom será possível na convocatória de Outubro, por falta de tempo, o qual nom
significa que nom pensemos concorrer eleitoralmente no futuro. Trata-se mais
bem do contrário, já que o que desejamos evitar é limitar-nos ao testemunhalismo
que historicamente caracterizou a oferta eleitoral independentista. Aspiramos
a converter-nos, também no plano eleitoral, numha força política significativa
na sociedade galega do século que começa.
Clara- Ampliar e vertebrar internamente
a organizaçom, assim como dar a nossa alternativa a conhecer ao resto da sociedade.
Acaba de concluir a nossa ANC, nesta decidimos nom apresentar-nos a estas
próximas eleiçons.

· Considerades importante para o
país e para as suas classes trabalhadoras que se vertebre no parlamento autonómico
umha maioria alternativa ao fraguismo?.
Clara- Evidentemente.
Maurício- Seria absurdo negar que
gostaríamos de ver o PP desbancado do poder autonómico, mas a questom de fundo
para nós é mais bem qual é a alternativa à direita espanhola. BNG e PSOE nom
oferecem o projecto que este país necessita, e ainda que o PSOE representa
a espanholidade em termos semelhantes ao PP na Galiza, tampouco o BNG garante
umha firme defesa dos direitos nacionais da Galiza, já que isso implicaria
um enfrentamento com as instituiçons do Estado desde a instituiçom autonómica.
De chegarem à Junta, ambos reeditariam os pactos municipais a nível autonómico,
quer dizer, política de gestom e alguns gestos “progres” em política social
adubados talvez com umha maior vontade autonomista. Nengumha mudança de fundo,
já que esta só pode chegar de umha transformaçom social que deve ser promovida
na prática sociopolítica do dia a dia, algo em que nengum dos principais partidos
da oposiçom demonstra acreditar. Os sectores que ainda acreditam na “revoluçom
democrática” do BNG, ficarám desiludidos quando o vejam actuar no governo
autonómico.
· Galiza atravessa objectivamente
umha situaçom crítica que adopta a forma de emergência nacional, mas amplos
sectores sociais, alguns dos quais sofrem com maior virulência as agressons
das políticas do capitalismo espanhol e transnacional, continuam a apoiar
os partidos e organizaçons sociais responsáveis por esta desfeita.
Maurício- Por isso nós insistimos
na necessidade de promover a transformaçom social desde o trabalho de base.
Trata-se de conseguir nom que a maioria social nos vote, senom que tome consciência
da situaçom em que vive, da sua identidade nacional, dos problemas que lhe
afectam e dos seus responsáveis, e que peleje no seu bairro, no seu posto
de trabalho, na sua associaçom cultural ou no seu centro de ensino por mudar
as cousas. Desde que isso se consiga, a democracia participativa tomará corpo
e as manipulaçons burdas que hoje promovem os partidos, meios de comunicaçom
e o sistema no seu conjunto perderám boa parte da sua efectividade actual.
Consciência e acçom, essa é a única via para a emancipaçom que a Galiza precisa,
e os falsos atalhos eleitorais só nos fam desviar-nos do caminho certo e cair
nas redes do sistema.
Clara- O que apontades é umha das
cousas que dificultam e provocam na Galiza que a consciência e práticas políticas
comprometidas na luita de classes nom sejam maioritárias. É explicável se
temos em conta o tardio final do feudalismo, os longos anos de ditadura franquista
e a predomináncia da pequena propriedade, cumha cidadania conservadora, dominante
e sem consciência de serem e fazerem país.
· A greve geral do passado 15 de
Junho marca o início de umha nova fase política no país?.
Clara- Ainda nom fizemos umha valoraçom,
mas foi muito emotivo estar com tantas pessoas protestando contra a precariedade
laboral.
Maurício- Já comentei que a última
década foi umha etapa de “vacas magras” para os movimentos populares e antiimperialistas,
umha etapa de recessom nos direitos atingidos após duras luitas operárias
durante todo o século XX. O fim das experiências socialistas encorajou umha
ofensiva sem precedentes do capital e do imperialismo, ao tempo que o enfraquecimento
da resistência popular favoreceu o reforçamento de posiçons conservadoras,
quando nom vendidas, nas direcçons políticas e sindicais dos movimentos operários
dos diversos países. A Galiza, que nom é nengumha ilha e participa dos avanços
e recuos da esquerda mundial, nom foi umha excepçom.
No entanto, nos últimos tempos, marcados
pola profundizaçom nas políticas neoliberais dos anos 90, assistimos ao que
pode ser o início da recuperaçom das forças revolucionárias em diferentes
cantos do planeta, recuperaçom simbolizada de maneira exemplar polo movimento
antiglobalizaçom. Também na Galiza se detectam sintomas da reactivaçom operária,
sendo a Greve Geral de Junho um importante passo nessa direcçom. Resta, porém,
dar continuidade a essa dinámica e abri-la à participaçom dos sectores do
mundo do trabalho que nos últimos anos, apesar de serem as principais vítimas
das políticas neoliberais, ficárom fora do raio de acçom dos sindicatos. Desempregad@s,
trabalhadores e trabalhadoras precárias e a mocidade popular devem tomar o
relevo das velhas direcçons operárias acomodadas no pacto social. E, nessa
aposta, a esquerda independentista tem muito a dizer dada a sua composiçom
sociológica actual, caracterizada por umha nova geraçom de militantes jovens
e adscritos maioritariamente a esses sectores do povo trabalhador. A participaçom
da filiaçom de NÓS-Unidade Popular no desenvolvimento da recente greve foi
um primeiro passo que deve ter continuidade com a incorporaçom da nossa gente
à luita sindical nas organizaçons nacionalistas de classe.
· Quais som as perspectivas e objectivos
para este 25 de Julho?.
Maurício- O nosso objectivo é fazer
da mobilizaçom de NÓS-Unidade Popular a referência política independentista
na jornada patriótica do 25 de Julho. Daí que tenhamos dedicado um importante
esforço na organizaçom e convocatória deste ano. Sem sacralizarmos esta data
(nem nengumha outra), sim julgamos que o Dia da Pátria funciona como o termómetro
que nestes anos mediu a temperatura do nosso movimento depois de um ano de
trabalho. A nossa aspiraçom é e será que todo o independentismo se manifeste
unido polas ruas de Compostela, convocado pola organizaçom unitária que NÓS-Unidade
Popular aspira a representar no curto prazo.
Clara- Que as manifestaçons independentistas
contem com ampla participaçom. Estaria bem que nom chovesse.
O transporte é o “núcleo duro” da
crise ambiental. O modelo territorial, o mercado único e o desenvolvimento
do turismo estám provocando um crescimento muito forte do sector do transporte
em toda a Europa. Os modos de transporte que máis crescem som o transporte
por estrada e o aviom, que provocam elevados custos ecológicos (mudança climática,
poluiçom, deterioraçom e fragmentaçom de habitats naturais,...), sociais (acidentes,...)
e económicos (investimentos em infraestruturas, gastos sanitários,...), custos
claramente infravalorizados pola maioria da sociedade.
Umha política de transporte sustentável
e equitativa deve fomentar a “criaçom de proximidade”, aumentando a proximidade
e nom a mobilidade, restringir fortemente a presença dos carros no ámbito
urbano e potenciar todo o possível os modos de transporte nom motorizados,
o trem e o autocarro.
O protagonismo do trem deve ser muito
maior. Os ecologistas galegos defendemos a modernizaçom da obsoleta rede ferroviária
do nosso país para fazer possível o aumento da participaçom do trem no transporte
de pessoas e de mercadorias. Queremos um trem moderno que ajude a reduzir
o desbaldimento de energia, a poluiçom e a acidentalidade e contribua para
o desenvolvimento sustentável do país.

O convénio para a modernizaçom dos
caminhos de ferro galegos assinado pola Junta e o Ministério de Fomento nom
garante o desejável potenciamento do trem na Galiza, especialmente fora do
eixo Corunha-Vigo, que concentra os 75% do investimento. O limitado investimento
previsto no convénio para a melhoria do caminho de ferro convencional no nosso
país até o ano 2007 (160.000 milhons de pts.) contrasta cos elevadíssimos
investimentos destinados à construçom de linhas de alta velocidade estrita
(máis de 250 km/h) em todo o Estado espanhol até o ano 2010 (6,8 bilhons de
pts.).
Na Galiza, parece ser que só está
prevista a construçom de umha linha de alta velocidade estrita, como a do
AVE Madrid-Sevilha, entre Ourense e Santiago. Galiza só teria um AVE entre
estas duas cidades. Os ecologistas nom nos lamentamos por isto. Melhor ainda
seria nom termos nengumha linha de alta velocidade estrita (insistimos no
de estrita porque, há um ano, o Ministério de Fomento, através dum decreto,
redefiniu a alta velocidade, criando a alta velocidade “à galega”, muito inferior
à velocidade das linhas AVE em senso estrito).
Os ecologistas ibéricos rejeitamos
o trem de alta velocidade porque causa um grave impacto ambiental e apresenta
umha reduzida rendibilidade social em relaçom co seu elevado custo económico.
É por isto que a maioria dos governos europeus estám promovendo o trem de
velocidade alta (200-220 Km/h), nom o de alta velocidade. Que saibamos, só
França, o Estado espanhol e Portugal apostam pola alta velocidade. Na Alemanha,
paralisárom-se os projectos de trens a 300 km/h. Na Suécia, a ligaçom entre
as duas principais cidades, Estocolmo e Goteborg, levou-se a cabo com trens
X-2000, de tecnologia pendular (como a do trem Talgo ou a do Alaris entre
Madrid e Valência).
A circulaçom a altas velocidades
exige que os traçados sejam rectilíneos, com raios mínimos de curvatura superiores
a 5.000 m e pendentes máximas do 2,5%, o que implica grandes movimentos de
terra. O impacto dumha linha de AVE sobre o território é comparável ao de
umha auto-estrada. Além disso, os trens de alta velocidade precisam de um
consumo energético desproporcionado, até 6 vezes maior do que o do caminho
de ferro convencional.
O AVE supom um uso pouco eficiente
do orçamento público. Podemos ter um caminho de ferro moderno sem necessidade
de investirmos nada menos que 2.000 milhons por quilómetro (custo médio do
AVE) para conseguirmos aforros de tempo adicionais mínimos. Co investimento
de um só dos 27 km do famoso túnel do Guadarrama poderia construir-se, por
exemplo, um hospital médio moderno!.
O AVE só atende às principais cidades
e é caro e elitista. Nom está concebido como um serviço público para todos
e todas. O AVE Madrid-Sevilha restou passageiros ao aviom, mas também expulsou
muitos usuários do trem à estrada e deixou incomunicadas muitas povoaçons.
O AVE detrai investimentos do caminho de ferro convencional, impedindo a sua
melhoria adequada.
A megalomania de alguns, o desejo
de nom sermos discriminados a respeito doutras zonas do Estado espanhol ou
os interesses do sector da construçom nom nos podem ocultar as decisivas desvantagens
do AVE. O AVE nom pode ser umha demanda da sociedade galega se aspira a um
modelo de transporte ecologicamente sustentável e socialmente justo.
O movimento ecologista galego defende
trens modernos, cómodos, exequíveis e polivalentes, com grande capacidade
e freqüência, que dem serviço a todo o território, adaptados às diferentes
procuras e necessidades, capazes de competirem co transporte por estrada mesmo
apesar do reduzido preço dos combustíveis (que continuam sem incorporar os
custos ambientais).
O trem nom é um modo de transporte
do passado. É o modo de transporte dum futuro sustentável. Por isso, reclamamos
nom só a modernizaçom da rede ferroviária existente senom também o seu alargamento
coa criaçom de novas linhas. Haveria que estudar seriamente a construçom de
novas linhas como Santiago-Lugo, Santiago-Aeroporto de Lavacolha, Corunha-Cee,
Santiago-Noia, Lugo-Marinha, Padrom-Ribeira ou Ponte-Vedra-Sam Genjo. A criaçom
de novas linhas ferroviárias deveria considerar-se como alternativa à construçom
de novas rodovias e auto-estradas.
José Veiras Garcia é Membro de ADEGA
e coordenador-geral da Federaçom Ecologista Galega (FEG), que agrupa 25 associaçons
de defesa ambiental.
O movimento operário português atravessa
desde há um quarto de século uma situaçom difícil. Sujeito desde 1976 a umha
severa ofensiva burguesa reaccionária que o privou de quase todos os direitos
conquistados após o 25 de Abril, enfrentou nos últimos dez anos, devido ao
processo de integraçom europeia, o prático desmantelamento dos poucos centros
industriais que serviam de motor da resistência operária e popular ao capital
(metalurgia, química, estaleiros navais), a privatizaçom das empresas públicas
e a dispersom.
Com a cobertura dos sucessivos governos
“socialistas” ou “social-democratas”, e sob a batuta do imperialismo ianque
e europeu, o salário real volta a níveis semelhantes aos do tempo do fascismo.
Hoje, na maioria das fábricas, o assalariado está sujeito à vontade sem resposta
do patrom ou do chefe, que lhe pode alongar a jornada de trabalho, impor maiores
ritmos de produçom, cortar regalias, atrasar o pagamento do salário, suspender
o contrato...
Vinte anos de ofensiva patronal ininterrupta
dérom um pesado golpe no activismo operário. Os jovens, em regime precário,
receiam “dar nas vistas” com atitudes reivindicativas, o que significa nom
ver renovados os seus contratos a prazo. Grande parte da velha geraçom, que
tivo um grande papel nas conquistas do período revolucionário, ao verem a
situaçom degradar-se, caírom no cansaço e no desencanto e aceitam reformas
antecipadas com indemnizaçom para ir para casa. Os novos contingentes de imigrantes
africanos e do Leste europeu debatem-se com a ameaça permanente da expulsom.
Som as mulheres que por vezes se destacam em acçons mais combativas nas fábricas
têxteis, do calçado, etc.

Os sindicatos, deparando com umha
cada vez maior dificuldade em intervir nos locais de trabalho e mobilizar
os trabalhadores, fôrom-se fechando na burocratizaçom. A CGTP, com tradiçons
de resistência, foi-se aproximando da UGT amarela, com a bençom da CES, a
confederaçom europeia. Patronato e sindicatos, sob a “arbitragem” do governo,
negoceiam entre si os acordos, que depois aparecem já cozinhados aos olhos
da massa operária. Os delegados sindicais na prática funcionam como moços
de recados da direcçom para a base. As comissons de trabalhadores, criaçom
do 25 de Abril, ou desaparecêrom sob a pressom do patronato, ou caírom no
imobilismo.
No terreno directamente político,
também a situaçom da esquerda é de crise. O Partido Comunista, tradicional
organizador da resistência ao fascismo, vê decair inexoravelmente a sua influência
devido ao fracasso do seu programa de colaboraçom de classes (a “democracia
avançada no século XXI”) e ao desmoronamento da “pátria do socialismo”, mas
continua a exercer uma acçom perniciosa contra a radicalizaçom das luitas.
É o clássico “partido burguês para operários” de que falava Lenine. Quanto
à prática totalidade dos grupos e activistas que tinham surgido à sua esquerda
nos anos 60-70, iniciando a renovaçom do movimento comunista, ou desaparecêrom
ou convertêrom-se à “democracia de mercado”. O duro despertar das ilusons
de 1975 num avanço fácil para o socialismo, junto com a desorientaçom perante
a queda do “campo socialista”, semeárom o pessimismo e a descrença na revoluçom.
O marxismo-leninismo, que chegou a ser umha moda entre a juventude dos anos
60-70, está desacreditado. O novo Bloco de Esquerda, constituído há dous anos
mediante um contrato entre dous pequenos partidos –UDP, maoísta, e PSR, trotskista–
define-se como umha oposiçom de tipo parlamentar, com um estilo de intervençom
e palavras de ordem mais dirigidas para os sectores médios do que para a massa
proletária.
É difícil prever por enquanto qual
o desenlace de toda esta difícil recomposiçom do proletariado e das correntes
políticas da esquerda em Portugal. A ofensiva de grande envergadura que está
a ser lançada polo governo socialista, a pretexto de sanear a situaçom económica,
começa a suscitar reacçons de luita mais combativas, por enquanto limitadas.
Parece fora de dúvida que o proletariado português, integrado doravante no
império europeu, condenado a permanecer como um dos destacamentos mais pobres
do proletariado europeu, vai ser empurrado para novas luitas de envergadura
contra o capital e a romper o desgraçado isolamento nacional em que tem sido
mantido. E aí, as liçons do período revolucionário, tam longamente enterradas,
ressurgirám porque o movimento operário tem a sua memória própria.
Francisco Martins Rodrigues é dirigente da organizaçom comunista portuguesa Política Operária.
-
O Banco Mundial suspende a conferéncia em Barcelona
Persiste
a ofensiva internacional do movimento anticapitalista
Génova,
Gante e Bruxelas som as próximas citas
Tal como já abordávamos no Abrente
19, o movimento internacional contra a globalizaçom capitalista, que emergeu
com força nas ruas de Seattle (USA) em Dezembro de 1999, longe de ser um mero
acto de rebeliom pontual, continua o seu desenvolvimento ao longo do planeta,
somando forças e correntes políticas diversas, movimentos sociais e entidades
anti-sistémicas de toda a índole.
O temor à poderosa capacidade de
mobilizaçom que até agora tem demonstrado este movimento provocou a suspensom
da conferência sobre “Economia e desenvolvimento” que o Banco Mundial tinha
previsto desenvolver em Barcelona entre o 25 e o 27 de Junho. Mas esta vitória
nom dissuadiu os organizadores dos protestos a desconvocar as diversas acçons
previstas que, -tal como se relata na crónica que adjuntamos-, apesar das
provocaçons policiais, logrou mobilizar dezenas de milhares de pessoas numha
nova mostra da recuperaçom e boa saúde do movimento anticapitalista a escala
planetária.
Dias antes, as ruas da cidade sueca
de Gotemburg assistírom a massivas manifestaçons contra a cimeira da UE, saldadas
com centos de detids e dezenas de feridos, vários de bala, numha brutal represom
policial que comocionou meia Europa.

Posteriormente a Barcelona, co objecto
de reduzir a capacidade dos protestos das mobilizaçons contra a reuniom do
Foro Económico Mundial em Salzburgo, as autoridades austríacas suspendêrom
o Tratado de Schengen que permite a livre circulaçom de pessoas polos estados
membros da Uniom Europeia.
A esquerda independentista galega,
por mor do processo de reorganizaçom em que estivo imersa, e por evidentes
incompatibilidades co calendário político do nosso país, ainda nom tivo ocasiom
de participar de jeito organizado numhas mobilizaçons internacionais em que
a voz da Galiza anticapitalista e independentista deve estar presente.
As próximas citas serám Génova o
20 a 22 de Julho para boicotar a reuniom do G-8, os sete estados mais industrializados
do planeta mais Rússia, -às que será impossível assistir por mor da campanha
do Dia da Pátria- e as cimeiras europeias de Barcelona, Madrid, Gante e Bruxelas,
em Março, Maio, Outubro e Dezembro respectivamente.
Desde a Galiza cumpre começar a trabalhar
neste tema porque um outro mundo é possível.
Obviamente a crónica que adjunto
nom recolhe todo o que se passou em Barcelona, pois seria tarefa praticamente
impossível. A manifestaçom começou às 12 do meio-dia com mais de 26.000 participantes,
com muita gente de fora do Estado espanhol apesar da suspensom da reuniom
polo Banco Mundial.
Por volta das 12:30 da manhá, um
grupo de pessoas começou a romper os vidros do Banco Santander, o qual nos
fijo pensar que algo nom quadrava, porque umha destacada parte da manifestaçom,
na qual nos encontrávamos, ainda nom iniciara a marcha e era muito provável
que a polícia cargasse contra nós.
A massa percorreu o Passeio de Gràcie
e essa gente, incontrolada pola organizaçom da manifestaçom e com o beneplácito
das forças de repressom, continua a romper todo o que encontrava no caminho.
Umha vez chegados à Plaça de Catalunya
demo-nos conta de que essa gente que arremetia contra bancos, comércios, etc,
eram polícias secretas disfarçados de manifestantes que estavam encarregados
de gerar provocaçons co objecto de ter assim umha escusa para realizar as
detençons e cargas policiais posteriores.
De tarde, os anti-distúrbios entrárom
no MACBA (Museu de Arte Contemporánea de Barcelona) para rebentar a assembleia
de porta-vozes dos grupos que organizavam a manifestaçom. A polícia perseguiu
durante todo o dia as pessoas que participaram neste acto, e um helicóptero
estivo durante duas noites sobrevoando a cidade com potentes focos. Estivo
em vigor um verdadeiro estado de sítio para impedir o êxito da mobilizaçom
anticapitalista.
As forças de repressom espanholas
ferírom 32 pessoas, entre elas umha freira sueca que passeava por ali a fazer
turismo, e um grupo de turistas chineses que nom tinham nada a vêr coa mobilizaçom.
Detivérom 22 pessoas das quais ainda
a dia de hoje ficam duas detidas, a quem provavelmente aplicárom a Lei Anti-Terrorista:
um companheiro português e um companheiro italiano.
Estes factos demonstrárom mais umha
vez a natureza do Estado espanhol, um regime sicário e cúmplice do capitalismo
mais agressivo que nom permite o livre exercício de expressom, reuniom e manifestaçom.
Independência e Socialismo!
Gustavo Garcia Soares
Barcelona, 24 de Junho de 2001