
ABRENTE Nº 22
Outubro-Novembro-Dezembro de 2001
CONTEÚDOS
- Editorial: Guerra mundial contra a humanidade, a fase terrorista do capitalismo
- A necessária leitura política do (des)acordo normativo. Maurício Castro
- Umha achega para a análise do movimento contra a LOU. André Seoane Antelo
- A necessidade estratégica de articular umha alternativa de esquerda e independentista. C.C. de Primeira Linha (MLN)
- Uruguai, a esquerda hoje, face um novo abrente. Manuel Castro Deangelo
- Independência para a Palestina, adiante com a resistência armada e popular
- Editorial: Guerra mundial contra a humanidade, a fase terrorista do capitalismo
Os sucessos de 11 de Setembro
marcam um ponto de inflexom na história contemporánea. O espectacular
ataque contra o centro económico-financeiro e militar dos Estados Unidos
da América abre umha nova fase na luita de classes a nível mundial,
e na crise estrutural da actual economia mundo capitalista, que definitivamente
opta por adoptar umha involuçom de natureza terrorista.
De umha parte, rui um dos mitos sobre o que o imperialismo ianque veu construindo
desde inícios do século XIX a sua prepotente hegemonia a escala
mundial: a invulnerabilidade do seu território. A evidente virtualidade
deste constructo, plenamente assumido e interiorizado polo conjunto da sua
populaçom e das suas elites, bem como pola prática totalidade
dos habitantes do planeta, desabou em poucas horas. Centenares de milhons
de pessoas verificamos em directo por televisom que o monstro nom só
podia ser atacado, senom que podia ser golpeado com êxito nos órgaos
vitais do seu imenso corpo. Até o 11 de Setembro, o imperialismo ianque
tinha sido combatido em diversos pontos do planeta nas múltiplas luitas
abertas pola libertaçom e a emancipaçom dos povos e d@s trabalhadores/as,
mas nunca tinha sido tam duramente espancado no seu próprio território
num operativo militar da envergadura e complexidade do que destrui totalmente
o World Trade Center de Nova Iorque e parcialmente o prédio do Pentágono
em Washington.
De outra parte, esta acçom
de resposta a séculos de espólio, humilhaçom, exploraçom,
dominaçom, colonialismo, do modo de produçom capitalista sobre
o conjunto da humanidade, -sem reivindicar, mas presumivelmente vinculada
às organizaçons armadas do integrismo defensivo ou fundamentalismo
de resistência- está a ser utilizada polo bloco de classes oligárquicas
para introduzir profundas limitaçons nas liberdades formais que desfrutava
Ocidente e acelerar os planos de intervençom e guerra global contra
todos aqueles povos e organizaçons populares que resistem os letais
planos do capitalismo na sua fase de globalizaçom e luitam pola independência
nacional.
Pola primeira vez na história
do Tratado do Atlántico Norte, os USA invocárom o Artigo 5 de
reciprocidade e ajuda mútua no que só se pode interpretar como
a urgente necessidade de fechar fileiras, coesionar os seus aliados e impulsionar
a guerra global contra todo aquel que questionar o capitalismo, tal como tinham
previsto os planos estratégicos desde a implosom da URSS a finais da
década de oitenta.
A involuçom do fundamentalismo ocidental
Bush, no 11 de Setembro,
como mero gestor político dos interesses das multinacionais e do complexo
militar-industrial norte-americano, aproveitou umha conjuntura favorável
construída pola manipulaçom mediática, -ser o presidente
dum país vítima de um brutal ataque terrorista-, para dar um
golpe de estado mundial com a submissom das potências imperialistas
(Uniom Europeia e Japom), e a passividade permissiva da Rússia e da
China.
Que significam alguns
milhares de vítimas, -na sua imensa maioria responsáveis pola
aniquilaçom de povos, da morte de milhons de pessoas por fame e doenças;
nom esqueçamos que o Pentágono é o centro neurálgico
do terror militar imperialista, e que nas torres gémeas achavam-se
instalados escritórios centrais de centenares de multinacionais e bancos,
e da própria CIA, responsáveis de ditaduras, golpes de estado,
intervençons militares, invasons, etc- frente aos centenares de milhons
de seres humanos assassinados por Ocidente desde os genocídios cometidos
polos espanhóis com as populaçons americanas no século
XVI e XVII, passando polo extermínio de povos e culturas inteiras do
colonialismo decimonónico, o ataque nuclear sobre as cidades do derrotado
Japom em 1945, a guerra do Viet-Nam, até o bombardeamento sobre a populaçom
civil do Iraque, o Sudám ou a Jugoslávia, ou os 35.615 nen@s
que, segundo dados da FAO, morrêrom no mesmo dia 11 de Setembro em todo
o planeta por fame e doenças?. É umha evidência que quem
sementa ventos recolhe tempestades.
Esse dia foi aproveitado
polo imperialismo para imprimir substanciais mudanças -previamente
traçadas aos sucessos- na doutrina internacional emanada dos acordos
de Bretton Woods após o conflito bélico de 1939-45 e iniciar
umha guerra mundial contra o terrorismo. Com a redifiniçom
do mal chamado conceito de defesa e segurança, pretende-se
aplicar por decreto umhas novas regras a escala global, alicerçadas
no maniqueísta fim da neutralidade, na flagrante vulneraçom
daquele direito internacional desenhado polas potências vencedoras em
1945, na legitimaçom do uso ilimitado da agressom militar, no rearmamento,
no recorte das liberdades e direitos cívicos, cuja conseqüência
mais evidente é a paulatina aceleraçom de um estado de excepçom
em todo o globo.
O integrismo ocidental,
apoiando-se na justificaçom de esmagar o novo inimigo abater, o integrismo
islámico, que ousou atacar simbolicamente o seu poderio, pom em andamento
umha cruzada global contra os povos, @s trabalhadores/as, e oprimid@s de todo
o planeta. A nova guerra santa contra os infieis, abençoada com toda
a liturgia medieval na catedral de Sam Patrício, dirige-se inicialmente
contra Bin Laden, -o ícone do integrismo islámico construído,
financiado, treinado e armado basicamente pola CIA, o SIDI paquistanês
e os petrodólares dos regimes autocráticos de Arábia
Saudita e do golfo pérsico-, a sua organizaçom Al Qaeda e o
regime talibám do Afeganistám, mas desde o primeiro momento
fica definido sem lugar a qualquer tipo de ambigüidades que a ofensiva
é geograficamente de carácter ilimitado e global, e desenvolverá-se
ao longo desta década. Combater o terrorismo, -conceito em que se integra
toda posiçom democrática que questionar o capitalismo-, em qualquer
ponto do globo, bem como os estados, movimentos ou organizaçons que
ajudam o terrorismo, converteu-se na justificaçom moral para espoletar
a brutal ofensiva militar em curso, que procura controlar o conjunto dos recursos
minerais, energéticos e humanos do planeta, e simultaneamente esmagar
toda a dissidência.
Efectivamente, o ataque
militar imperialista dos USA, com o apoio da UE e das potências regionais
com armamento nuclear (Rússia, Índia, China, Paquistám)
tem basicamente dous objectivos: controlar e apoderar-se definitivamente dos
fabulosos jazigos de matérias primas energéticas da Ásia
Central, e esmagar o conjunto das forças anti-sistémicas, independentemente
da sua natureza ou ADN político e/ou religioso, que questionam a actual
desordem internacional e as corruptas elites desses estados, para assim evitar
que liderem e dirijam a resistência organizada ao neoliberalismo nas
suas diferentes variantes e estruturas sociais concretas. O regime militar
de Islamabad pretende liquidar o fundamentalismo islámico; a Rússia
autoritária de Putin a resistência chechena e a ameaça
integrista das repúblicas asiáticas; a burguesia indiana o separatismo
cachemir; a China pós-maoista o independentismo dos territórios
do norte. Mais umha vez, constata-se umha estreita comunidade de interesses
entre o imperialismo ianque e as classes dominantes locais: coincidência
em aniquilar um fenómeno político gestado nos últimos
vinte anos que por mor do fracasso da esquerda e do empobrecimento das massas
provocado pola ocidentalizaçom forzosa e que, de parámetros
do materialismo histórico, representa falsos projectos emancipadores.
Se da ultraconservadora doutrina salafista wahabita nom pode emanar nengumha
alternativa ao imperialismo, da brutal agressom militar ocidental, que antecede
o controlo económico desta vasta área geográfica, os
povos e a classe trabalhadora só continuaremos a perder direitos e
liberdades.
Desde o 11 de Setembro,
desaparecêrom por arte de mágia as hipócritas reticências
da social-democracia, das educadas democracias burguesas ocidentais, polos
métodos mais obscuros e inconfesáveis das suas políticas
internacionais; a sua cínica defesa a ultrança dos direitos
humanos, do respeito pola vida, da legalidade internacional, da soluçom
pacífica dos conflitos, evaporou-se, passando a somar-se sem reserva
algumha a apoiar as modificaçons necessárias para adequar a
legislaçom vigorante aos ditames emanados do golpe de estado concebido
em Washington. Os serviços secretos, os aparelhos de estado, já
nom tenhem qualquer reparo em afirmarem que possuem licença para matar,
que podem intervir, seqüestar e assassinar a todo aquel que qüestionar
a lei do império, pois os meios de comunicaçom de massas justificam
sem rubor estas práticas na necessária defesa da civilizaçom
ocidental e a paz mundial.
Nesta nova fase da desordem
internacional o imperialismo norte-americano está a prescindir dos
organismos supranacionais que no último meio século venhem utilizando
ao seu serviço para legitimar o seu intervencionismo. A ONU só
cumpre um papel subsidiário, a NATO a diferença do conflito
da Jugoslávia passou a um terceiro plano, e a UE carece de voz própria.
Unicamente som meros instrumentos norte-americanos para justificar as suas
agressons.
Ninguém qüestiona
a intervençom porque a todos benefícia. Os únicos perdedores
som @s trabalhadores/as e os povos, e no imediato aqueles que luitam desesperadamente
por sobreviver: Chechénia, Saara, Palestina, Curdistám, ...
para os quais as resoluçons do Conselho de Segurança da ONU,
perante os reiterados incumprimentos e violaçons, som papel molhado.
O actual processo de militarizaçom
social e reforçamento dos estados policiais, está a ser simultáneo
ao processo de recorte dos direitos laborais, destruiçom de milhons
de postos de trabalho em todo o globo, precarizaçom do emprego, empobrecimento
e exclusom social. Outra das grandes mentiras desta guerra mundial contra
a humanidade é identificar a recessom económica com os ataques
aos EEUU. A economia norte-americana, japonesa, europeia, achava-se em graves
problemas antes do 11 de Setembro, embora na actualidade se tenha aprofundado
com um substancial incremento da queda do comércio exterior e extensom
da crise a novos sectores como o aeronáutico e turístico.
Mas a autista sociedade
norte-americana, o conjunto da sua classe trabalhadora, desconhecedora do
sanguinário papel desenvolvido polo seu país nos últimos
200 anos em todo o planeta, e de que o nível de vida que desfruta umha
boa parte da sua populaçom se baseia no espólio de 85% da humanidade,
também sofrerá com mais rigor nas suas próprias carnes
as políticas militaristas do complexo militar-industrial. Ainda é
cedo, nom temos suficiente perspectiva, para calcular os seus efeitos no emergente
movimento antiglobalizaçom que desde Seattle vinha convulsionando umha
sociedade imersa nuns parámetros de ilimitada alienaçom, mas
todo aponta a que o actual patriotismo militarista fomentado polos aparelhos
de estado, o virtual estado de insegurança e alarme social instalado
no seio das massas, contribua para desacelerá-lo e marginalizá-lo.
Hoje, os EEUU som um país ocupado polos uniformados. O poder legislativo
delegou no poder executivo. Bush, quer dizer, o complexo militar-industrial,
tem plenas competências para desmantelar o seu atrofiado estado de direito,
convertendo o país num imenso campo de concentraçom. Actualmente,
há milhares de pessoas detidas à espera de juízo polo
mero facto de serem suspeitas de terrorismo pola cor da sua pel e/ou origem
étnica-nacional, e o ministro de Justiça norte-americano Jonh
Ashcroft pretende fomentar a cultura da delaçom em troca de acelerar
os trámites de legalizaçom de residência para @s imigrantes.
Os tribunais marciais
aprovados pola Casa Branca permitem ao Estado norte-americano poder seqüestar
em qualquer parte do globo cidadaos de qualquer país, julgá-las
numha base ou num porta-avions sem direitos nem garantias legais, condená-los
à morte, executá-los secretamente e deitar os seus corpos ao
mar, polo bem da civilizaçom ocidental, quer dizer, para
que a burguesia mundial nom perda as taxas de benefícios que vinha
desfrutando até datas recentes.
Este é o mundo a que nos quer conduzir o imperialismo.
A Espanha submissa
aos ditados dos USA
O Estado espanhol, desde
o primeiro dia, mostrou a sua entusiástica e obediente adesom às
ordens que provinham de Washington. Desde o primeiro momento, Aznar e o PP
aderírom à coligaçom internacional, apoiárom a
guerra, e aplaudírom todas as medidas tendentes a realizar umha revisom
profunda dos conceitos estratégicos de defesa e segurança. Assim,
a 19 de Setembro, o ministro espanhol de Defesa, Federico Trillo, confirmava
a necessidade de mudar as conceiçons estratégicas, as
conceiçons tácticas, os investimentos programáticos e,
inclusive, certas decisons sobre a educaçom, no quadro interno
da Revisom Estratégica da Defesa Nacional e reforma dos serviços
de inteligência espanhóis. Todas estas medidas contárom
com a habitual complacência do PSOE, o silêncio cúmplice
das burguesias nacionalistas basca e catalá, e as mornas críticas
das pequenas forças parlamentares.
O governo de Aznar também
está a aproveitar a favorável conjuntura internacional para
aumentar a criminalizaçom da luita dos povos e d@s trabalhadores/as,
para endurecer e modificar a legislaçom vigorante, com o objecto de
poder ilegalizar organizaçons politicas e sociais, recortar as liberdades,
aprofundar no controlo dos meios de comunicaçom e estigmatizar sem
reservas os movimentos de libertaçom nacional. A criaçom do
CNI (Centro Nacional de Inteligencia), novo nome do velho CESID, e as declaraçons
do Chefe do Estado Maior da Defesa, Antonio Moreno Barberá, sobre a
necessária intervençom do exército espanhol no combate
contra toda ameaça para a sobrevivência do Estado, som muito
eloqüentes das mudanças operadas.
A visita de Aznar a Washington
em 28 de Novembro para receber em directo instruçons do imperador,
e mostrar que realizou os deveres encomendados como aluno avantajado, nom
é nada novo nos presidentes do Governo espanhol, quer Suárez,
quer Felipe González, cumprírom com a pleitesia, mas exprime
a plena submissom da UE ao poderio norte-americano e a obsessom espanhola
por involucrar directamente os norte-americanos no combate contra o independentismo,
alargando e transladando essa guerra global a parte do território peninsular.
Nesta visita, Bush também aproveitou para esclarecer ao mundo que Espanha
é um dos seus principais lacaios, qualificando a Aznar de um
amigo dos que primeiro chamou aginha que se produzírom os atentados
do 11 de Setembro, para oferecer-nos a sua solidariedade e a sua ajuda na
luita contra o terrorismo.
A necessidade de vertebrar
a oposiçom popular à guerra
Na Galiza, continuamos
a padecer os perversos efeitos da desmobilizaçom social provocada pola
consolidaçom do quadro autonómico emanado do fascismo, e pola
plena integraçom do nacionalismo institucional no seu seio. O BNG,
concentrado em ganhar votos nas eleiçons de Outubro, e seguindo o tradicional
isolacionismo que define as suas preocupaçons políticas internacionais,
também aplicou a nova doutrina em curso dentro das suas limitadas possibilidades.
Assim, sem dar explicaçons, negou-se a unificar forças na mobilizaçom
social contra a guerra imperialista na Galiza. Nom só nom assistiu
às reunions iniciais que dérom lugar à conformaçom
da Plataforma galega pola paz e a nom intervençom, impulsionada por
NÓS-Unidade Popular, as entidades sectoriais da esquerda independentista
e alguns movimentos sociais, senom que pressionou algumhas organizaçons
integradas ou vinculadas ao seu projecto político, para abandonarem
este espaço unitário e plural de luita contra a guerra. Deste
modo, ADEGA e o COSAL supeditárom a sua autonomia às decisons
de um BNG que tem acordado isolar politicamente a esquerda patriótica
dentro de umha sistemática política de méritos e gestos
com o poder espanhol.
Simultaneamente a esta
política de aparheid com o independentismo, articula sem êxito
umha virtual coordenadora contra a guerra, em aliança com o PSOE da
NATO e todas as siglas espanholistas existentes no país, com o único
objectivo de cobrir o expediente.
O confusionista manifesto
político sobre o qual se sela essa coordenadora, seguindo a filosofia
da progressia ocidental, nom qüestiona a fundo o imperialismo, homologa
os seus crimes com todo o tipo de resistência anti-ocidental, mas sim
assume o discurso hegemónico imposto polo capital de condolência
e condena polas vítimas dos atentados terrroristas, definindo o combate
ao terrorismo como um dos principais objectivos da humanidade.
Com este panorama, está
a ser difícil mobilizar a esquerda social galega. Mas seria umha grave
irresponsabilidade política, umha miopia de incalculáveis conseqüências,
desconsiderar a dimensom dos acontecimentos do Afeganistám, as ameaças
de Bush contra o Iraque, a Somália e outros estados alheios aos ditados
do neoliberalismo, a guerra global em curso contra os povos e @s trabalhadores/as,
no que é o início de um combate sem trégua pola hegemonia
mundial.
A esquerda independentista,
como a principal expressom do movimento anticapitalista na Galiza, está
a ser o precário alvo dos planos da doutrina do terror no nosso país.
Combater a guerra no Afeganistám ou em qualquer canto do planeta, mantendo
umha equidistante oposiçom entre o fundamentalismo ocidental e o fundamentalismo
de resposta, mas sem obviar que na actualidade a contradiçom principal
é a que confronta o poder do capitalismo globalizado e a imensa maioria
da humanidade empobrecida pola suas criminais políticas, nom só
é um dever internacionalista, é umha necessidade para fortalecer
as nossas posiçons e enfraquecer o avanço da involuçom
do capitalismo espanhol na nossa estrutura social.
Nós nom somos neutrais,
nom coincidimos com o fundamentalismo islámico, mas tampouco apoiamos
a cruzada do capital; porém, estamos do mesmo lado da barricada dos
que luitam contra a uniformizaçom e pola sobrevivência.
Cumpre reforçarmos a resistência, o internacionalismo e a luita pola independência nacional e a emancipaçom social de género.
- A necessária leitura política do (des)acordo normativo. Maurício Castro
Qualquer que ler o título deste artigo poderá pensar que já está bem de politizar a língua. Permita-se-me adiantar-me respondendo que num país como o nosso, como em qualquer outro cuja soberania é disputada, o conflito político está presente em todas e cada umha das manifestaçons da sua vida social e em todos e cada um dos seus signos de identidade nacional questionados. De facto, a decisom tomada pola Real Academia Galega (RAG) em 17 de Novembro é umha mostra evidente de como a política pesa na questom da língua; igualmente, a própria proposta universitária respondia de jeito bem claro a umha outra pulsom política. Se a primeira foi condicionada polo Partido Popular desde a Junta da Galiza, a segunda ajusta-se como umha luva às necessidades políticas do Bloque Nacionalista Galego neste momento histórico. Enquanto o Governo autonómico, por meio dos seus qualificados porta-vozes, nom oculta a sua satisfaçom pola resposta da RAG, boa parte da base social favorável à normalizaçom do idioma lamenta o resultado, semelhando nom perceber o condicionante político da proposta resultante da negociaçom auspiciada pola Asociación Sócio-Pedagóxica Galega (AS-PG) e como essa proposta representa a derrota histórica do sector conhecido como de mínimos. Se a questom fosse assepticamente lingüística, a decisom nom mereceria sentimentos políticos enfrentados de satisfaçom no PP, nem frustraçom nos deputados da primeira força da oposiçom. Nestas linhas, pretendemos pôr em evidência a filiaçom política da proposta e da sentença, os interesses materiais que ambas partes ocultam e qual deveria ser em nossa opiniom a posiçom dos sectores mais conscientes da comunidade lingüística galega ante este conflito.
Umha vista de olhos
à história
Se figermos algo de pré-história, lembraremos que antes de Alianza Popular impor em 1982, por decreto, o padrom lingüístico actualmente em vigor, umha comissom lingüística presidida polo professor Carvalho Calero, a pedido da Junta pré-autonómica, elaborou em 1980 umha normativa que pretendia já o consenso entre reintegracionismo e isolacionismo. Deve ser no seu súbito e injustificado rechaço polo poder político em favor das normas propostas polo ILG que procuremos a causa da posterior fractura social entre as orientaçons reintegracionista e isolacionista. Convém sublinharmos, além do mais, que naquela comissom presidida por Carvalho Calero participárom lingüistas representativos das duas tendências, entre os que podemos citar Antom Santamarina polo ILG, o notório isolacionista e pró-franquista Filgueira Valverde ou o filólogo espanhol, nada suspeito de subversom lusista, José Luís Pensado.

Quem revisar vinte e um
anos depois aquelas normas de 80 comprovará a sua maior ambiçom
na consecuçom de um galego pulcro e reintegrado do que o gorado acordo
de 2001, um acordo este último promovido, como se sabe, polo próprio
ILG, a AS-PG e os departamentos de Galego da Corunha, Vigo e Compostela; um
acordo, de resto, que no plano estritamente lingüístico pouco
mais acrescentaria do que recomendar as soluçons da chamada banda
alta da actual norma oficial, e nem sempre. A primeira conclusom que
tiramos, portanto, é que a Galiza nom só perdeu vinte anos ancilosada
na espanholizadora norma proposta polo ILG em 82, senom que a suposta alternativa
que proponhem o ILG e os departamentos de Galego em 2001 fica muito por baixo
da verdadeira norma de consenso de 1980.
Aliás, cabe sublinhar que o isolacionismo, promovido durante estas
duas décadas polo poder político espanhol, tivo no Instituto
da Lingua Galega (ILG) o seu representante máximo até nom há
muito, responsável pola orientaçom extremamente sectária,
por anti-reintegracionista, das normas de 82 (com as suas posteriores revisons,
a última de 95). Quanto ao reintegracionismo, recorde-se que contou
de umha parte com os pragmáticos chamados de mínimos,
sector política, sindical e culturalmente afim ao BNG. Este sector
exerceu durante estes anos de reintegracionista no mundo das ideias, mas com
umha prática contraditória, nomeadamente se levarmos em conta
que em princípio se proclamou de mínimos em funçom
da existência de uns máximos para os que tender.
Os sectores que assumírom esses máximos, constituídos
em autêntico destacamento de vanguarda a partir do nascimento em 1981
da Associaçom Galega da Língua (AGAL), levárom nestes
anos bem paus da oficialidade, ao tempo que deparárom com um muro de
contençom construído polas organizaçons do nacionalismo
maioritário, refractário a apoiar a sua expansom com a sempiterna
escusa de que o povo nom está preparado. Com a perspectiva
que dá a passagem dos anos e involuçom dos noutrora defensores
desses mínimos, aquela negativa a promocionar os máximos desde
os mesmos inícios da sua existência chegando a promover
a cissom em organismos com maioria reintegracionista pró-AGAL como
a AS-PG histórica, foi um primeiro indício da mais recente disposiçom
das organizaçons e colectivos ligados à expressom maioritária
do nacionalismo galego para integrarem-se na orientaçom isolacionista
que define a normativa oficial.
Quem é quem
no actual (des)acordo normativo
Com efeito, a passagem
do tempo e a influência das forças presentes no decorrer histórico
fijo com que aquele quadro inicial tenha derivado em 2001 num cenário
em que a maior parte dos diversos actores passárom a representar novos
papéis.
A estrela desta nova representaçom é o mundo que rodeia e representa
socialmente o BNG, que nom só nom avançou em direcçom
aos máximos referenciais de partida, senom que se acha
empenhado em abandonar os mínimos em direcçom a
um isolacionismo mal maquilhado. Foi, de facto, da principal força
da oposiçom parlamentar que partiu a iniciativa por um acordo de concórdia
que, mais umha vez, pretendeu deixar o reintegracionismo fora de jogo.
Mas, por que tam repentino
interesse em superar as historicamente irreconciliáveis diferenças
com o doestado oficialismo?. A resposta deve procurar-se na premente necessidade
política que tem o BNG de integrar-se de vez no mundo institucional
e de normalizar por completo as suas relaçons com o mesmo. Razons complementares
som as pressons de sectores editoriais e culturais afins, entre os que salientam
A Nosa Terra e a Asociación Sócio-Pedagóxica Galega,
fartos de nom receberem um peso da sectária política lingüística
oficial com a escusa de umhas pequenas diferenças na escrita. Nom esqueçamos
que livros de texto, colecçons em fascículos e outro material
audiovisual diverso vinham sendo já publicados na norma oficial por
muitas dessas entidades satelizadas polo BNG, entre elas a própria
AS-PG, promotora a um tempo das negociaçons a que vimos aludindo e
da histórica normativa de mínimos. Significativa
da renúncia estratégica transparecida pola iniciativa do sector
de mínimos é a assunçom por parte do semanário
ligado ao BNG, A Nosa Terra, da normativa oficial com imediata posterioridade
ao fracasso do dito consenso. O conflito normativo é, cada vez mais,
um incómodo estorvo para a normalizaçom institucional da principal
força da oposiçom, um dos restos delatores da radicalidade caracterizadora
da sua política no passado, e na actualidade representa apenas um empecilho
no seu ascenso aos escritórios de Sam Caetano e no fortalecimento económico
da rede de organismos sociais e empresariais que lhe som fiéis. Nom
podemos aqui deixar de parafrasear um dos vultos do mundo intelectual que
nestes anos mantivo a ficçom dos mínimos reintegracionistas,
que recentemente publicava um artigo em que num acto de honestidade intelectual
e pessoal reconhecia que a proposta de reforma procurava unha solución
que permitise (que nos permitise) aos que estamos vencidos e derrotados poder
apresentar unha digna escusa ao noso descanso... mas nen iso se nos permite
(1).
A tentativa contou, aliás, com a participaçom activa do que duas décadas atrás fora principal agente do oficialismo lingüístico na sua estratégia espanholizadora: o ILG.
Porém, e como o
tempo nom passa em balde, o célebre Instituto universitário
compostelano perdeu boa parte da sua influência no mundo cultural financiado
pola Junta da Galiza. Naturalmente, a perda de protagonismo do noutrora principal
representante científico do PP tem a sua explicaçom,
na medida em que o espanholismo imperante na Junta arrumou as veleidades galeguistas
do Instituto em favor de um flamante Centro Ramom Piñeiro para a Investigación
das Humanidades que absorve de uns anos para cá o grosso dos dinheiros
que antes desfrutava o ILG para as suas investigaçons.
Na direcçom deste Centro e nas suas redondezas movem-se alguns dos
académicos contrários à proposta de acordo normativo,
como Constantino Garcia, Jesus Ferro Ruival ou Manuel González. A perda
de protagonismo (e de recursos económicos) do ILG determinou o alineamento
de boa parte dos seus membros, que nom gozárom de cadeira no novo Centro,
com o principal partido da oposiçom, um BNG que, como sabemos, nos
últimos anos segue umha política de portas abertas para determinados
sectores historicamente por ele demonizados, entre os que se encontra o próprio
ILG. Poderíamos ilustrar o acontecido com umha popular sentença:
juntárom-se a fame e a vontade de comer.
Eis, portanto, como umha rede de interesses políticos e circunstáncias
sociais concretas, pouco relacionadas com o córpus lingüístico
sobre o que uns e outros operam, permitírom um acordo entre
a intelectualidade historicamente ligada ao BNG e a de mais recente incorporaçom,
a representada por um sector significativo dentro do ILG, após este
ter perdido o seu lugar ao sol no mundo dos suculentos subsídios oficiais.
Porém, e apesar
do empenhamento dos agentes citados, semelha claro que o núcleo duro
do oficialismo, o que detém as rédeas do poder, nom se viu forçado
a negociar o acordo normativo. Eis a leitura que devemos fazer da decisom
adoptada pola maioria dos membros da Real Academia Galega, que chegou a rejeitar
umha proposta aceitada pola maioria dos seus lingüístas, atingindo
o culme do esperpento e pondo em evidência o carácter político,
e politicamente conservador, da sua sentença. Naturalmente, a RAG está
amarrada de perto polo poder político autonómico, e só
a disponibilidade deste poderá no futuro garantir umha reforma como
a pretendida polo BNG, que verificou no dia 19 de Novembro a autêntica
dimensom da sua derrota eleitoral de Outubro. Permita-se-nos acrescentar que
o Partido Popular perdeu umha magnífica ocasiom para integrar lingüisticamente
o BNG no sistema, e só a bebedeira pós-eleitoral encirrada polo
exultante espanholismo do PP nos tempos que correm pode explicar a prepotência
excluente de umha direita espanhola que recusa a plena integraçom do
morno nacionalismo do Bloco no sistema constitucional a pesar de a proposta
representar a sua inapelável derrota histórica. Contodo, convém
reconhecermos que o nacionalismo maioritário galego é persistente
e continuará a tentá-lo...
E o reintegracionismo?
A AGAL, principal e histórica
entidade reintegracionista (embora nom única), demonstrou ao longo
destes anos umha maior autonomia política do que o oficialismo isolacionista
e as entidades normalizadoras pró-Bloco. Eis o seu principal aval,
um autêntico património que, se se mantiver nas suas coordenadas
históricas, poderá apresentar algum dia ante a sociedade galega.
Um património, a sua plena autonomia a respeito de qualquer instituiçom
ou organizaçom política concreta, que deve manter-se a toda
a custa, por mais que no seu interior podam participar militantes de quaisquer
tendências, como de facto acontece. No caso que nos ocupa, a AGAL mantivo-se
à margem das negociaçons e dos seus resultados, numha posiçom
prudente e construtiva ao ter julgado que qualquer avanço em direcçom
ao reintegracionismo, por tímido que fosse, teria sido positivo para
o nosso idioma, sempre que nom servisse de coarctada para a definitiva exclusom
social da dissidência lingüística. Infelizmente, tememos
que isso é justamente o que teria acontecido de ter-se aprovado a proposta
do BNG.
De resto, nom deve esquecer-se
que o diálogo que desembocou na proposta que analisamos veu dous anos
atrás acalar as vozes que, de diferentes cantos do mundo cultural galego,
começavam a generalizar a exigência de umha aproximaçom
ortográfica séria a respeito do português. Um dos resultados
desta proposta de consenso promovida polo BNG foi apagar aquele
enriquecedor debate, que nom sabemos em que poderia ter concluído.
Nos próximos meses,
provavelmente assistamos a umha campanha que solicite umha rectificaçom
à RAG, umha campanha auspiciada polos agentes implicados na negociaçom
do acordo e que, como costuma fazer o BNG, tentará identificar os seus
interesses partidistas com os do país. Assim, venderám-nos que
esse acordo implicará a superaçom do conflito normativo e um
avanço determinante no caminho normalizador. Mais umha vez, pretenderám
deixar o reintegracionismo reduzido ao papel de convidado de pedra, ante o
qual este deverá contar com um discurso próprio, um discurso
de calado estratégico que faga ênfase, de umha parte, na necessidade
de que se permita a discrepáncia radical com a oficialidade, para além
do que cheguem a acordar uns e outros; um discurso que, de outra parte, ponha
em evidência a falsa saída que suporia a aprovaçom de
umha nova normativa que está a ser apresentada como soluçom
final para o idioma, na medida em que só umha orientaçom abertamente
reintegracionista como a representada pola AGAL e polos restantes colectivos
reintegracionistas servirá para favorecer realmente a normalizaçom
lingüística na Galiza, contando com o apoio que supom a presença
e potência da nossa língua a nível mundial.
Em todo o caso, para além
das negociaçons e, em geral, das políticas de salom, quaisquer
medidas e campanhas serám castelos no ar se nom houver por trás
um significativo apoio activo da sociedade galega para a causa da normalizaçom
lingüística. Eis a principal carência actual que enfrentamos,
e eis a primeira causa de preocupaçom que deve ter o reintegracionismo,
prévia a quaisquer negociaçons institucionais: promover e articular
a consciência lingüística no seio da populaçom galega,
com a conviçom de que só a força social garantirá
um futuro para a nossa comunidade lingüística, e só a força
social impedirá que o reintegracionismo seja deixado de parte nas discussons
sobre o futuro do galego.
Um bom jeito de começar
a articular essa enfraquecida força social é trabalhar pola
unidade de acçom do próprio reintegracionismo, hoje atomizado
e sem umha estratégia de actuaçom definida. À margem
das suas autênticas motivaçons, o certo é que a dia de
hoje a marginalizaçom do reintegracionismo acha fácil escusa
na sua injustificável fragmentaçom.
O futuro do movimento reintegracionista, como ingrediente fundamental do movimento normalizador na Galiza, passa pola unidade e a plena autonomia a respeito das diversas opçons partidárias, sem por isso negar as suas implicaçons políticas. Cada passo que se der nessa direcçom será um passo à frente na concreçom das principais necessidades históricas que afronta a nossa comunidade lingüística: o reintegracionismo lingüístico e o monolingüismo social.
(1) Francisco Salinas Portugal: De normas e concórdias... de
tempos e destinos. A Nosa Terra nº 1012, 13 a 19 de Dezembro de
2001.
Maurício Castro, é membro do CC de Primeira Linha (MLN)
- Umha achega para a análise do movimento contra a LOU. André Seoane Antelo
A nossa tarefa revolucionária
obriga-nos a manter um continuum análitico dos factos que se produzem
na nossa sociedade, análise que é ainda mais necessária
quando o facto observado corresponde a um desses momentos de convulsom social
em que por umha vez a política passa a ser protagonizada nom polos
profissionais senom por umha ampla massa que decide prescindir de intermediários
para agir de jeito auto-organizado. Este é o caso do movimento contra
a LOU, um movimento social integrado maioritariamente por estudantes que se
desenvolveu dum jeito espectacular durante os dous últimos meses de
2001.
Dizemos espectacular porque essa foi a impressom que recebeu tanto quem dele participou como quem o observou de fora. Espectacular polo nível de participaçom nas mobilizaçons convocadas; espectacular pola sua radical natureza democrática; e especialmente espectacular por ter-se produzido num momento histórico e entre um sector social, o estudantado, em que nom era de aguardar tal explosom contestatária.

Em primeiro lugar, convém
recordar que a geraçom hoje presente nas aulas universitárias
galegas é aquela nascida no após-franquismo, quer dizer, as
pessoas bombardeadas durante toda a sua vida polas ideias-força da
democracia espanhola, o constitucionalismo, a superaçom
da ditadura, etc... Em segundo, esta mesma geraçom nasceu e viveu
na etapa de assimilaçom no sistema dos partidos e sindicatos da esquerda
oficial espanhola, tal como está a viver a assimilaçom do nacionalismo
galego maioritário, nom sendo na sua grande parte consciente dumha
alternativa organizada ao sistema político e económico imperante.
Em terceiro e último, estas pessoas som as que de um jeito mais brutal
estám a sofrer o bombardeamento ideológico capitalista, som
a geraçom do individualismo como praxe vital e da alienaçom
através das drogas, o futebol e o consumismo, como via de escape da
miséria vital em que vivem submersas.
Mas, assim e todo, semelha que algo está mover-se na sociedade, algo
que está a causar falhanço nos mecanismos de alienaçom
de massas. Esse algo é o enfraquecimento das condiçons vitais
da maioria da populaçom, enfraquecimento que na Europa occidental ainda
nom se traduziu numha miséria absoluta como a que se sofre na maior
parte do mundo, mas que sim é percibida na destruiçom do Estado-Providência,
destruiçom que cada dia é mais acelerada.
A LOU, umha lei à
medida do capitalismo espanhol
A Lei Orgánica
de Universidades de 2001 tem que ser integrada dentro do quadro estratégico
da reforma do sistema de ensino do Estado espanhol promovida polo PP, seguindo
as directrizes iniciadas polo PSOE. As suas linhas mestras som fundamentalmente
duas. A primeira, adequar o ensino às necessidades de capital
humano impostas polo sistema capitalista. No nosso contexto, passam
por um recorte drástico das pessoas com título universitário,
ao qual só deve ter acesso umha elite maioritariamente proveniente
do bloco de classes dominante, e um reforço da especializaçom
técnica dum sector da mao de obra.
Isto traduz-se na imposiçom
de um sistema educativo a três niveis. Um para a elite dirigente, que
passará polas aulas universitárias; outro para a mao de obra
especializada com uns mínimos conhecimentos intelectuais, à
qual se destina a nova Formaçom Profissional; e um último nível
para a ingente quantidade de massa social sem qualificaçom específica
que encherá a bolsa do desemprego da qual as empresas tirarám
essa maioria de trabalhadores e trabalhadoras destinadas à contrataçom
em precário.
A segunda linha caracterizadora
da reforma educativa do PP é a referente à funçom ideológica
do ensino. Assim, das aulas tem que transmitir-se a ideia da unidade da naçom
espanhola, com a conseqüente ignoráncia da realidade do nosso
país, além de perpetuar o modelo social vigente. Resumindo,
o ensino que o PP quer tem que ser capitalista, espanhol e patriarcal.

A verdade, nom nos enganemos,
é que o sistema de ensino público até hoje existente
já era mui semelhante ao defendido hoje polo PP. A diferença
é que agora se pretende dar umha volta de porca. De acordo com a fase
por que o capitalismo histórico está a passar, fase de crise
estrutural, é preciso reforçar os seus aspectos mais repressivos,
aqueles que permitem umha maior e melhor exploraçom da maioria. Um
destes aspectos é o correspondente à educaçom, polo que
o ensino na actualidade tem que ser ainda mais capitalista, mais espanhol
e mais patriarcal do que foi até esta altura.
A reacçom dos
privilegiados
Mas o PP nom deveu deitar
bem as contas, ou se o fijo tinha que estar mui apressado, para enfrontar-se
directamente contra umha das fracçons mais imobilistas e corporativas
da burocracia estatal: o professorado universitário. Talvez influíssem
na sua atitude os tradicionais tiques autoritários da direita
espanholista, mas o certo é que nom duvidou em atacar parte dos privilégios
desta casta social, submetendo o Governo universitário ao control directo
do Estado. Após desta medida acha-se a necessidade de racionalizar
economicamente a universidade, o que implica a desapariçom de algumha
que outra cátedra universitária e mesmo de algumha que outra
universidade. Evidentemente, isto nom é do agrado das pessoas que tam
certas estavam da sua preminência social polo simples facto de chegar
à titularidade da vaga nalgum departamento universitário.
Esta oposiçom dos
privilegiados da Universidade contra umha medida concreta do governo foi transladada
à sociedade ideologicamente mascarada. Os doutores, entre os que nom
adianta fazer distinçons ideológicas pois que nestes temas agem
como ente único, nom dim que estejam contra a LOU porque agrede os
seus privilégios, fundamentalmente económicos, senom porque
atenta contra a autonomia universitária, submetendo-a directamente
ao controlo dos poderes político e económico, como se nom fosse
assim até o de agora. Mas o certo é que a sua mensagem foi escoitada
e coalhou especialmente entre o sector social mais directamente atingido pola
lei, e que está em relaçom directa de submisom a respeito ao
professorado, o estudantado.
Nom podemos negar que
a prédica anti-LOU desde as palestras universitárias serviu
como detonante do movimento de massas, poque do mesmo jeito que outras vezes
umha boa parte do estudantado prestou ouvidos às palavras de ordem
do professor que dizia que nom havia que secundar tal ou qual mobilizaçom
estudantil, nesta ocasiom atendeu as razons de quem animavam a mobilizar-se.
O estudantado galego
reagiu
Já desde há
dous anos, quando após a consecuçom da maioria absoluta numha
eleiçons legislativas estatais o PP se lançou decidido a aplicar
o seu plano de reforma do ensino, as organizaçons estudantis galegas
venhem denunciando as conseqüências nefastas que trará para
o nosso país o reforço de um ensino espanholizador ao serviço
do capital. Entre essas organizaçons estudantis salientou pola sua
beligeráncia o estudantado da esquerda independentista, que afrontou
a luita num momento caracterizado polo articulamento de umha estrutura unitária,
AGIR, que atingiu a sua madurez como projecto precisamente no contexto do
movimento contra a LOU.
Se em Outubro AGIR nom
tivesse lançado umha campanha centrada na denúncia da LOU, seria
muito difícil que o movimento tivesse atingido as dimensons tam amplas
que se verificárom. Mas, por que foi em Novembro que o estudantado
saiu à rua massivamente e nom em Outubro, momento em que se produz
a primeira convocatória de AGIR?
Influírom vários factores. Em primeiro lugar, a fraqueza organizativa de AGIR, nucleada basicamente no cámpus compostelano, o que impediu o desenvolvimento pleno de umha campanha nacional. Em segundo, a acossa e a criminalizaçom do independentismo que fai com que umha boa parte do estudantado acredite que a organizaçom do estudantado da esquerda independentista é umha caste de grupúsculo terrorista. Em terceiro, a desconfiança do estudantado diante de qualquer entidade organizada devido ao desprestígio geral da política. Desprestígio provocado por umha história ateigada de traiçons aos interesses das massas protagonizada por um ronsel de entidades supostamente de esquerdas ou defensoras do estudantado.

Mas, contodo, Novembro
estourou, e nom houvo que aguardar muito para que o estudantado se libertasse
da tutela do professorado. Primeiro foi o cámpus de Compostela e depois
somárom-se os outros seis cámpus galegos. O estudantado organizou-se
através das assembleias que substituírom tanto ás organizaçons
estudantis tradicionais como os órgaos de governo universitário.
As pessoas assistentes às manifestaçons tivérom que se
contar por milhares, a actividade académica ficou em suspenso, várias
faculdades fôrom ocupadas, as cidades fôrom paralisadas por cortes
de tránsito e mesmo escachou o grande mito da troula estudantil galega,
a noite de umha quinta-feira compostelana viveu umha greve de consumo em que
os locais normalmente ateigados de estudantes ficárom baleiros.
Durante este período pudemos assistir ao desenvolvimento e madurecimento
de um movimento social em que nom tardárom em surgir contradiçons.
De umha parte, o professorado pretendeu instrumentalizar o movimento estudantil
para usá-lo como medida de pressom nas suas negociaçons particulares
com o Estado; tal instrumentalizaçom tentou ser contrarrestada polos
sectores mais conscientes do estudantado que provocárom com a sua praxe
um afastamento que concluiu em confronto entre professores e estudantes em
conflitos pontuais como o fechamento da Faculdade de Filologia em Compostela.
No seio do próprio
movimento estudantil desenvolveu-se umha outra luita entre os sectores mais
acomodatícios, proclives ao consenso e a pax social, e os mais combativos,
conscientes da necessidade de radicalizar demandas e métodos de luita.
Assim foi que os mesmos que protestavam contra as pessoas que guindavam ovos
contra os prédios oficiais, ou faziam pintadas nas entidades bancárias;
coincidiam com os que defendiam a volta às aulas ou pretendiam a dissoluçom
das demandas específicas do estudantado galego numha tabela comum a
todos os sectores universitários. Também costumavam coincidir
com os sectores mais recalcitrantemente espanholistas que qüestionavam
o uso do idioma galego e defendiam a integraçom na dinámica
estatal.
Com todas as suas eivas
e atrancos, o estudantado galego reagiu com dignidade. Se bem a fase por que
passa o nosso país, caracterizada por um fraco movimento patriótico
e revolucionário, após a já definitiva integraçom
no sistema do BNG e das suas organizaçon satélites e a ainda
precária situaçom de imadurez da esquerda independentista, impediu
que o movimento contra a LOU atingisse um nível óptimo de combatividade
e consciência. Mas o certo é que podemos dizer que serviu para
avançar.
No seu seio, AGIR, e portanto
a esquerda independentista, soubo estar a um alto nível representando
os sectores mais inconformistas do estudantado galego. Pola primeira vez,
o independentismo galego foi umha das principais forças políticas
actuantes num conflicto social de releváncia na Galiza.
A jeito de conclusom
Com o objeto de tirar
algumha aprendizagem, haveria que fazer umha série de valorizaçons
finais que nos permitam perceber melhor o que é que significou o movimento
contra a LOU e as conseqüências que pode traer num futuro próximo.
Em primeiro lugar, o governo do PP sai debilitado dum conflito em que, apesar
de nom se conseguir paralisar a LOU, tornou patente que a maioria absoluta
eleitoral nom é maioria social. Rebelou-se para muita gente qual é
a natureza real de um partido que minusvalorizou em todo o momento a opiniom
de amplos sectores populares que protagonizárom algumhas das maiores
manifestaçons que recorda o nosso país. Para amplos sectores
sociais, ficou bem claro que o PP nom escuita a voz do povo.

Em segundo lugar, manifestou-se
mais umha vez a semelhança entre o PSOE e o BNG que, com leves diferenças
de matiz no seu discurso, agírom de jeito parelho pretendendo instrumentalizar
um movimento social. Contodo, a sua virtualidade como alternativa ao PP fica
sem ser clara, pois que nom lográrom achegar os sectores mais descontentes
que se matenhem ainda numha atitude de desconfiança diante destas duas
forças políticas.
Em terceiro, como já
dixemos antes, e graças à actividade de AGIR, a esquerda independentista
situa-se pola vez primeira como umha alternativa política solvente
para amplos sectores sociais. Diante da morneza de um PSOE e de um BNG que
criticam, mas nom muito alto; a radicalidade do discuso independentista achou
ouvidos entre quem descobre que com o sistema vigente nom tem nada a ganhar
e sim muito a perder. Dependerá da habilidade da esquerda independentista
para convencer e organizar esses sectores a possibilidade de articular umha
alternativa política mais ampla.
Em quarto lugar, seja
como for, resultou evidente que nem tam sequer a maquinaria ideológica
do Estado espanhol é quem de ocultar as agressons contra as camadas
populares e, com certeza, que estas nom estám dispostas a aturar as
agressons sem dar umha resposta. O estudantado galego ergueu a sua voz e soubo
pôr no seu sítio cada quem, a um lado ficárom os partidários
do pacto: PSOE e BNG, e todo o ronsel de organizaçons sectoriais afins
tanto de professarado, sindicais como estudantis; no outro quem está
por um ensino público e galego, e portanto, por umha sociedade mais
justa e livre, entre eles e fundamentalmente, a esquerda independentista.
Portanto, devemos ficar com umha sensaçom de optimismo, já que, se bem nom triunfamos plenamente, o certo é que há mostras claras de que algo está a se mover na consciência colectiva do nosso povo. O movimento contra a LOU demonstrou que ainda há esperanças para a rebeliom.
André Seoane Antelo é membro do CC de Primeira Linha (MLN)
- A necessidade estratégica de articular umha alternativa de esquerda e independentista. C.C. de Primeira Linha (MLN)
Os resultados eleitorais
de 21 de Outubro ao Parlamento da Comunidade Autónoma som, com todos
os matizes que considerarmos oportuno ressaltar, umha radiografia aproximada
da situaçom sócio-política de umha estrutura de classes,
Galiza, caracterizada pola desmobilizaçom, a autosatisfaçom
alienante, a indiferença social, e o desinteresse popular com todo
o vinculado com a política. A quarta maioria absoluta atingida polo
PP, a substancial queda do BNG, o ligeiro incremento experimentado polo PSOE,
o estrepitoso fracasso da esquerda espanhola e as tendêncais alcistas
das opçons abstencionista, voto branco e nulo, sintetizam as principais
chaves cognoscitivas para podermos interpretar o sentir generalizado da populaçom
de um país subsidiado, envelhecido, que assiste passivo à destruiçom
das bases materiais da Naçom e as contínuas agressons a que
se vê submetida a sua classe trabalhadora.

A abafante vitória
eleitoral do PP, embora perda 40 mil votos (1%) e um escano, vem determinada
por umha complexa conjugaçom de factores. Nestes doze anos de gestom
autoritária, a direita espanhola seguiu reforçando a rede clientelar
tecida no franquismo, e submeteu todas as estruturas de poder e de gestom,
das de ámbito local e sectorial até às vinculadas com
a administraçom central, à estratégia dos seus particulares
interesses partidários. A grave situaçom sócio-laboral
de amplos sectores populares, num país envelhecido, refractário
às mudanças, e cos níveis de auto-organizaçom
mais baixos do contorno geográfico, salvo umha esporádica e
inconexa conflituosidade em determinados sectores e comarcas nom se exprime
em termos políticos. Seria um irracional paradoxo nom destacar estes
factores para podermos compreender como desde o ano 89, em que Fraga se retira
a Galiza, o país tem experimentado um recuo económico e umha
profunda deterioraçom nas condiçons materiais do Povo Trabalhador,
mas simultanemante a estrutura de poder responsável directa por esta
situaçom tenha acumulado paulatinas adesons eleitorais. @s labreg@s
afectados pola quota láctea e as nefastas conseqüências
da PAC, @s desempregad@s, a discriminada populaçom feminina, os marinheiros
agredidos pola perda de caladoiros e a sobreexploraçom do sector, a
mocidade trabalhadora atingida pola precarizaçom e a eventualidade
laboral, os sectores populares empobrecidos, as facçons da pequena
burguesia em processo de proletarizaçom, até o momento tenhem
sido incapazes de traduzir esse malestar social generalizado com a gestom
de Fraga em protesto eleitoral, e muito menos em apoiar as forças,
como a esquerda independentista, claramente beligerantes com o projecto excluente
e fascistóide do PP.
O férreo controlo
dos meios de comunicaçom, com especial destaque para a TVG, e as sistemáticas
campanhas de propaganda populista que identificam o ex-ministro fascista com
o abnegado e honesto trabalhador que impregna o imaginário colectivo
da psicologia de massas da Galiza rural e emigrante, nom se pode desconsiderar
na hora de debulhar as causas da sua vitória. Mas também devemos
valorizar na análise o nefasto papel jogado pola oposiçom
parlamentar como contribuiçom para a vitória de Dom Manuel.
O desinteresse do PSOE por deslocar Fraga, e a manifesta incapacidade do BNG
por transmitir confiança e ilusom no seu projecto aos sectores tradicionais
do seu eleitorado, nom contribuírom para articular esse maioritário
espaço eleitoral alternativo ao fraguismo sobre o que pretendêrom
sem êxito fazer girar umha campanha caracterizada polo absoluto desinteresse
popular.
O grande beneficiado desta
estratégia foi o PSOE. Tourinho e Vazquez lográrom num contínuo
exercício de contorcionismo político transmitir que desejavam
um governo alternativo ao do PP, mas sem o BNG. O PSOE jogou habilmente a
vaza da renovaçom e, com um discurso equidistante do conservadorismo
do PP e do radicalismo nacionalista do Bloco, conseguiu dotar-se
de um perfil próprio frente a um BNG convertido no seu apêndice
que apelava desesperadamente à responsabilidade e fidelidade do PSOE
com a sua trajectória progressista. Os contínuos gestos de esquerda
do ex-Director Geral de Transportes dos corruptos governos felipistas e as
constantes mostras de nacionalismo espanhol do alcalde corunhês e do
seu testa-de-ferro Méndez Romeu, embora a simples vista semelhassem
antagónicas, formárom parte dumha complementar estratégia
que resultou muito útil na hora de deter a hemorragia eleitoral e alcançar
umha modesta repecuperaçom, logrando 24.000 votos mais (2%), provenientes
basicamente do PP, que a ponto estivérom de recuperar o tam desejado
sorpasso co BNG, ficando a tam só 11 mil votos de distáncia.
O nacionalismo institucional
foi o grande derrotado nestas eleiçons. Abandonando toda a ambigüidade
de outras ocasions, jogando a ser o que verdadeiramente desejam os seus dirigentes,
umha força plenamente incorporada ao quadro jurídico-político
espanhol, o BNG abordou em 21 de Outubro com a prepotente ingenuidade de quem
nom parou de crescer eleitoralmente desde 1985 à custa de renunciar
aos objectivos para os quai foi fundado. A perda de 50 mil votos (2.4%), basicamente
concentrados nas cidades que cogoverna co PSOE, som expoente de umha nova
tendência naqueles segmentos claramente de esquerda e nacionalistas
do seu eleitorado que -perante o seu aggiornamento e assunçom da realpolitik
com a aplicaçom das receitas neoliberais nos espaços que gere
e refugando da sua histórica matriz nacionalista para alargar eleitorado
de centro-direita-, nesta ocasiom optárom por retirar um incómodo
apoio. Sectores da classe operária organizada, da mocidade rebelde
e da esquerda independentista, coincidírom na necessidade de deixar
de emprestar o seu voto a quem governa ao serviço do capital e da Espanha
das autonomias.
A direcçom do BNG
considerava que continuava a ser possível dirigir a sua confusionista
mensagem interclassista a Amáncio Ortega, proprietário de Zara-Inditex,
e aos milhares de trabalhadores/as explorad@s nas suas factorias, que timidamente
podia reclamar autodeterminaçom na Quintá e assistir aos actos
comemorativos do Patron de España no Obradoiro, que podia conservar
o apoio dos sectores mais combativos da classe obreira sem apoiar a greve
geral de 15 de Junho e com um programa ao serviço da patronal e dos
empresários. A pequena burguesia que dirige o autonomismo, esses centenares
de quadros políticos conformados por professores, funcionários
públicos, cargos institucionais, advogados, cujos ingressos mensais
som seis ou sete vezes superiores ao salário mínimo, aos ingressos
médios de um/umha trabalhador/a, plenamente incorporados no universo
psicológico das classes de apoio da burguesia, satisfeitos e acomodados,
habituados aos privilégios e a fartura, perdêrom a percepçom
da verdadeira realidade do país. Nos seus ámbitos sociais nom
há desempregad@s, trabalhadores sobre-explorados polas ETTs, desesperaçom,
emigraçom, ausência de perspectivas. O BNG da pequena burguesia
pretendia dirigir a sua falsa mensagem interclassista, -que na práctica
apenas favorece esse empresariado, por muito autóctone que for, responsável
polas precárias condiçons de vida da imensa maioria do Povo
Trabalhador Galego-, aplicar umha política de direita, governar as
instituçons coloniais com o PSOE dos GAL, o desemprego e a corrupçom,
sem que os sectores mais conscientes e combativos deste povo passássemos
factura.
Aliás, o BNG apostou por abandonar o combate nacional, focando a campanha
entre forças conservadoras e progressistas, equiparando e avalando
Tourinho como expoente da tradiçom galeguista.

Embora os resultados tenham
sido vividos no seu seio com amargura, a direcçom adoptada polo BNG
reforça a sua inexorável acomodamento no campo da social-democracia
autonomisa, inofensiva para o imperialismo espanhol e o capital transnacional.
O posterior aperto de maos de Beiras com Fraga no debate de investidura nom
só simboliza a indigna claudicaçom de um combate: exprime a
plena cristalizaçom dos acordos da Transiçom por parte do BNG
e a sua definitiva incorporaçom na normalidade institucional da democracia
burguesa espanhola.
No 21 de Outubro assistimos a umha mudança significativa no que vinha
sendo umha tradiçom em sectores qualitativos da base social do nacionalismo:
emprestar o voto a quem quotidianamente carece do crédito e a confiança
política como mal menor.
Nesta ocasiom, esses sectores
sociais decidimos optar pola abstençom que incrementou 2.3% (60.000
pessoas), polo voto branco que obtivo 5.000 nov@s seguidores/as, e polo nulo,
que subiu em algo mais de 2.000 sufrágios, conformando um interessante
e heterogéneo espaço de protesto que cumpre ser analisado em
profundidade pola esquerda independentista com o objecto de vertebrá-lo
e coesioná-lo politicamente.
O imediato futuro determinará
se estas tendências, que nom podem ser incorporadas polo sistema, som
meramente conjunturais ou estamos assistindo ao nascimento de um corpo social
que já nom acredita em nengumha das forças política tradicionais,
no seu sentido mais amplo, -pois define, sem excepçons, o conjunto
das forças espanholas (PP, PSOE, IU e EdG), e galegas (BNG, FPG)-,
e aguarda a definitiva configuraçom de umha força com a seriedade
e confiança necessárias para canalizar esse voto de protesto
estrutural.
Nunca a conjuntura, do
ponto de vista objectivo, foi tam boa para a esquerda independentista. Sermos
capazes de aproveitar esta situaçom na actualidade depende basicamente
de nós próprios, da nossa habilidade política, da nossa
capacidade por acertarmos e nom errarmos.
Se bem o novo independentismo, articulado em NÓS-Unidade Popular, desta vez apostou acertadamente por nom participar no processo eleitoral perante a ausência das mínimas condiçons objectivas exigíveis para poder disputar este frente de luita com garantias, tem que dar os passos necessários para dar batalha também neste ámbito de intervençom. Tal como se reflectiu nos resultados, e frente à claudicaçom do autonomismo, ao caduco testemunhalismo e inoperante resistencialismo, logrou sobre o terreno catalisar parcialmente a campanha eleitoral com a exitosa acçom de desobediência civil, de sabotagem, realizada contra Fraga na noite de início de campanha, e ver avalada a decisom adoptada de nom apoiar nengumha das forças políticas que se apresentárom.
- Uruguai, a esquerda hoje, face um novo abrente. Manuel Castro Deangelo
No Uruguai de hoje, a
esquerda passou nos últimos quarenta anos de ser um mero expectador,
minoritário, céptico, que se dedicava a agitar e a denunciar
perante as massas a decadência e a corrupçom do sistema capitalista
que lhe impujo a oligarquia ao nosso povo, a ser um motor que está
ajudando a construir juntamente com o povo uruguaio umha autêntica alternativa
ao sistema neoliberal, decadente, corrupto, sipaio e sem alternativas. Isto
conseguiu-se com um autêntico trabalho de massas, primeiro deixando
de lado velhas disputas sobre vanguardas e vanguardismos, que
nada faziam ao assunto que entravavam o processo acumulativo do povo, e nom
eram entendidas polos trabalhadores/as, logrando dividir, sectorializar e
elitizar a discusom; segundo, unindo todo o unível sob a bandeira e
o programa nacional, antiimperialista, antioligárquico e de ruptura
com as políticas neoliberais na moda que tenhem levado à ruína
o país e empobrecido as suas gentes, alternativa que só a Frente
Amplio pode levar a cabo por nom ter entre os seus militantes, dirigentes,
simpatizantes e votantes personalidades do capitalismo, nem os seus alcaiotes
de turno; terceiro, o sacrifício das velhas geraçons com os
seus mortos, os seus presos políticos e os seus desaparecidos som para
os mais jovens um guia, um facho no caminho que resulta do custo que para
os povos tem a luita pola libertaçom nacional.
Esta uniom de tod@s @s
uruguai@s honest@s por um país melhor e para tod@s só
foi possível devido à grandeza dos fundadores da Frente Amplio,
o sacrificado compromisso diário de milhares de militantes sociais,
políticos, sindicais e cidadaos de a pé, que deixárom
de lado disputas internas e interesses sectoriais, e sobretodo a maré
humana que fai com que a Frente Amplio seja hoje umha coligaçom de
partidos de diversa índole, onde estám sectores tam diversos
ideologicamente como o Partido Comunista, Partido Socialista, o MLN-Tupamaros,
sectores social-democratas, sectores cindidos dos partidos tradicionais (Colorado
e Blanco), Democratas Cristaos, cristaos de base, trostquistas, maoístas,
independentes de esquerda, ex-anarcosindicalistas; sectores que nalgum momento
da sua história durante grande parte do século XX até
chegárom a confrontar-se tanto no plano ideológico como até
na mesma rua, às vezes até de forma violenta, pelejando polo
mesmo espaço sem ter em conta que os factos unem-nos, as palavras
separám-nos, até que a acçom e os factos chegou
a uni-los, porque da outra maneira facilitávam mais ao inimigo o seu
trabalho. Homens e mulheres sem partido, junto de um muito forte movimento
social que se aglutina e se organiza em sindicatos de muita longa trajectória
combativa, solidária e de classe; cooperativas de consumo e inclusive
na actualidade clubes de troca onde se intercambiam trabalhos por diversas
mercadorias ou serviços por trabalho, etc, sem que tenha que intervir
o dinheiro em nengum momento; cooperativas de poupança e crédito
formada por trabalhadores e pequenos comerciantes e dirigidas por eles próprios;
cooperativas de produçom onde prima o trabalho colectivo entre @s sóci@s;
de construçom de vivendas por ajuda mútua em que @s própri@s
vizinh@s construem as suas vivendas; organizaçons sociais em que a
solidariedade aflora, por exemplo nas olas populares onde comem @s desocupad@s,
ou os comedores infantis dos bairros pobres; comissons de bairro que na cidade
de Montevideu estám organizadas nos centros comunais zonais que tem
a intendência da capital, onde mediante voto secreto se elege os/as
vizinh@s que vam reger, administrar, e luitar por tratar de eliminar as carências
da zona sob a sua jurisdiçom, sendo verdadeiros co-governantes do seu
bairro; entidades agrárias que neste momento som o motor da resistência
do campo ao autoritarismo dos governantes da capital, mobilizando grandes
grupos que pola sua dispersom geográfica e social nunca fôrom
motor do mudança para as ancilosadas estruturas agrárias do
Uruguai; destacando os Comités de Base, que som o motor
da esquerda no Uruguai graças aos quais e sobretodo aos militantes
que os conformam hoje a Frente Amplio está capitalizando (ainda nom
como deverá fazê-lo, mais por obstinaçom dos seus dirigentes,
ou o protagonismo de alguns e sumido a vezes em posiçons imobilistas,
parlamentaristas e até fora do contexto histórico que graças
à militância de base está mudando), capitalizando como
deciamos a situaçom de crise extrema que tem levado ao país
à bancarrota cum crescimento nulo nos últimos três ou
quatro anos.
Todas estas organizaçons
sociais junto da central sindical única, classista e unitária
PIT-CNT, central que estava sendo refém de alguns sindicatos que tinham
umha maioria conjuntural que perdêrom no último congresso, central
sindical que embora tenha graves problemas económicos e falta de quadros
e militantes por mor da situaçom extrema que vive o país, está
levando a cabo com um êxito rotundo ao pé de organizaçons
sociais e políticas opositoras ao Governo- um plebiscito anti-privatizador
que está pondo a país de novo em marcha face métodos
de luita que tinham caído um pouco em desuso, mobilizaçons que
estám levando a gente à rua novamente, que por exemplo lográrom
que em duas jornadas populares se recolectassem mais de 125.000 assinaturas
para o plebiscito anti-privatizador, (passando já das 520.000 assinaturas
das 650.000 requeridas), das empresas do Estado; @s trabalhadores/as do campo
mobilizados polas suas fontes de trabalho, os pequenos e medianos produtores
rurais e os sectores estudantis organizados nos seus sindicatos, conformam
parte do povo frenteamplista que se aproxima da tomada do Governo nacional
(que NOM o poder, porque isto é outra cousa muito mais complexa e que
a Frente Amplio nom se coloca), nas eleiçons de 2004, questom que já
ninguém discute e até os mais optimistas agoireiros do Governo
dam por feito, mas nom por isso deixam de atacar e criminalizar a esquerda
como se tem posto de moda após o 11 de Setembro.
Esta vai ser umha tarefa
muito difícil, cheia de obstáculos, e todo um desafio para a
esquerda no Uruguai, e sobretodo um grande desafio para um país tam
pequeno frente ao imperialismo ianque, que nom se pode permitir de nengumha
maneira que um governo com tintes nacionalistas e antiimperialista que questiona
a fundo as políticas do império propondo medidas alternativas
para mudar as políticas neoliberais que levárom a naçom
à ruina sócio-económica, se lhe instale no curral de
trás, o qual pode traer um grave problema aos/às uruguai@s,
porque assim o indica a história do país nos seus últimos
quarenta anos. Nom há que esquecer que a CIA já conspirava e
treinava as forças repressivas do país muito antes do golpe
de estado; como prova disto anda polas livrarias um livro do camarada cubano,
infiltrado na agência, Manuel Hevia (Passaporte 11333) e o do ex-agente
da CIA Philips Agee, (incluso na Internet se podem ver os documentos desclassificados
da CIA) onde relata a ingerência do gabinete da Agência em Montevideu
nos assuntos internos do país, este último facto é relatado
de forma magistral no filme de Costa-Gavras, Estado de sítio, que relata
as ensinanças do professor de torturas e agente da CIA
Dan Anthony Mitrione no país e outros países da Latinoamérica.
No Uruguai, como vemos,
estaria dentro da lógica do império dar cabo com esta moléstia
como sempre tem feito, procurando qualquer pretexto ou conjuntura que lhe
for favorável, (mas isso já é outra história...).
Hoje, tratar de tirar
o país da conjuntura em que se acha é umha tarefa de tod@s @s
habitantes do país, porque este está num estado de descomposiçom
económica e social muito grave, com umha destruiçom quase total
do seu aparelho produtivo, favorecendo à banca e aos grandes capitais,
com umha dívida externa que se aproxima dos 12.000 milhons de dólares,
com as exportaçons quase paradas, com o agro, a indústria, e
quase todo o país endividado em dólares, e devido ao grande
atraso cambiário, à dolarizaçom dos empréstimos
bancários, hoje nom se pode depreciar o peso uruguaio sem acabar de
afundir à populaçom, por isso a política do governo se
baseia em abaixar os custos da produçom fazendo descer os salários,
mantendo de reserva um alto índice de desocupaçom como mao de
obra barata e ofertando o país ao melhor postor com investimentos conjunturais
que hoje estám e amanhá nom.
Mais de 45% das crianças menores de quatro anos som pobres, a taxa de desescolarizaçom nunca se vira no país, 35% de desempregad@s, nalgumhas regions agroindustriais de longa trajectória chega até o 70%, carências graves na saúde, a descomposiçom das famílias agravam o índice de violência de género e o abandono das crianças, corrupçom como nunca se vira (nomeadamente nas perssonalidades do Governo); todo isto e muito mais, impossível de explicar em tam curto espaço, vai levar o Governo que venha em 2005 durante muito tempo a sacrifícios para pôr novamente em marcha a economia, sempre e quando for permitido governar à esquerda, (nom esqueçamos o que se passou no Chile de Allende); por isso hoje o maior desafio que tem a Frente Amplio e toda a esquerda uruguaia é fazer, quando lhe toque, um governo austero, honesto, de muito alto conteúdo social onde se privilegie unicamente as crianças e os/as velh@s, e consiga que nengum lar careça das necessidades básicas, embora na sua falta de experiência cometa erros, porque ninguém é infalível, mas sempre é preferível errar por nom saber ou nom ter experiência que ROUBAR. Para finalizar, como dixo o pai da pátria D. José Gervasio Artigas Nada devemos esperar se nom é de nós próprios.
Manuel Castro Deangelo é membro do Movimiento de Participación
Popular-Frente Amplio-Encuentro Progresista
- Independência para a Palestina, adiante com a resistência armada e popular
Perante o fracasso dos
acordos de paz de Oslo e o incremento da política terrorista de Israel,
o povo palestiniano vem impulsionando desde há um ano a segunda intifada,
a resistência popular contra o colonialismo sionista. Mais de 1.000
mort@s, 35.000 ferid@s, centenares de casas e propriedades destruídas,
milhares de árvores arrancadas, milhares de palestinian@s expuls@s
das suas terras, perto de três mil pres@s nas cadeias de Israel sujeitos
a brutais torturas, constante bloqueio dos territórios autónomos
que provocam sete milhons de dólares em perdas diárias na economia
de umha naçom que luita por subsistir frente à barbárie
do fascismo israelita, som o balanço de mais de doze meses de luita
popular contra o ocupante.
Mas os meios de comunicaçom
burgueses teimam em mostrar unicamente umha das caras da violência,
a legítima e necessária, a praticada polas 14 organizaçons
patrióticas que unidas impulsionam a defesa de um povo armado com pedras,
fusis e coragem contra um ocupante, apoiado polo imperialismo norte-americano
e europeu, armado com avions de combate, tanques e helicópteros. Este
combate desigual persegue dous grandes objectivos, a libertaçom dos
territórios ocupados com o total desmantelamento das colónias
e a criaçom de um Estado independente, soberano e viável com
capital em Jerusalém. Estes objectivos comuns unificam a actividade
das organizaçons laicas e religiosas, das forças revolucionárias
e reformistas.
Ariel Sharon, o general-primeiro
ministro que pratica o terrorismo de estado, que bombardeia com F16 a populaçom
civil, que assassina crianças, pretende que a Autoridade Nacional Palestiniana
se porte bem e detenha os militantes mais combativos da resistência
nacional. Arafat, envelhecido e cansado, julga que metendo em prisom os militantes
da FPLP, de Hamas ou da Yihad, vam permitir-lhe construir esse Estado ao qual
dedicou a sua vida. Mas os factos estám aí. Israel nom quer
a paz, Israel só pretende destruir Palestina. Após perto de
umha década de intermináveis negociaçons e acordos incumpridos,
após mais de meio século de imperialismo, opressom, massacre
e terror, o povo palestiniano, as suas organizaçons de libertaçom
nacional, sabem que o único caminho é a luita armada e popular
para poder dobregar o fascismo sionista.
Desde a Galiza, esquerda independentista é solidária com a heróica luita da Palestina e apoia incondicionalmente a sua justa causa. A derrota do Estado racista e fascista de Israel, tutelado polos norte-americanos, é a única alternativa viável para lograr a paz e a liberdade.
Ali Mustafá assassinado
O secretário geral da Frente Popular pola Libertaçom da Palestina (FPLP), organizaçom revolucionária marxista-leninista, foi assassinado polo terrorismo israelita. Com esta criminal acçom, enquadrada nos assassinatos selectivos de quadros e destacados militantes da resistência nacional, o Estado sionista pretendia descabeçar umha das mais importantes organizaçons da luita pola libertaçom da Palestina, fundada em 1967.
Ali Mustafá foi abatido em 27 de Agosto por helicópteros do exército ocupante quando se achava trabalhando na sede da FPLP em Ramallah.
Dezenas de milhares de
palestinian@s secundárom as mobilizaçons de dor por esta perda,
e centos de combatentes da frente militar da FPLP manifestárom continuar
na luita até a vitória. Semanas depois, um comando da FPLP abatia
em Israel um dos ministros do governo racista de Ariel Sharon.
A luita continua!

Xavier Vilhar Trilho
A remodelação «federal-confederal» do Reino da
Espanha
Edicions Laiovento, Compostela 2001. 475 páginas.
O rigor científico
e intelectual, a boa intencionalidade do autor batem antagonicamente com a
rigidez táctica da sua actual militáncia política no
nacionalismo autonomista à hora de abordar, com valentia e claridade,
a opressom nacional que sofre a Galiza e as outras três naçons
sob a dominaçom do Estado espanhol, -Canárias, Euskal Herria
e Països Catalans-, descartando um posicionamento pola única soluçom
factível e realista a independência nacional- para nom
serem definitivamente assimiladas e destruídas pola dupla pressom que
padecem na actualidade, a historicamente desenvolvida polo imperialismo espanhol,
e a da maré uniformadora do capitalismo na sua fase globalizada.
O professor Vilhar Trilho
neste extenso trabalho opta por reforçar as teses de calculada indefiniçom
sobre o que se levanta hoje o discurso político do BNG e da ambígua
(muribunda) Declaraçom de Barcelona, renunciando à única
opçom realmente válida para que a naçom galega poda sobreviver:
dotar-se de um Estado próprio após ter recuperado a independência
nacional.
A remodelaçom federal-confederal
carece de qualquer fundamento teórico sério, e sobretodo é
um eufemismo com que legitimar e justificar a renúncia ao objectivo
final que persegue qualquer patriota e pessoa de esquerda que deseje realmente
a liberdade do seu país e construir umha sociedade emancipada ao serviço
da imensa maioria. A opçom independentista está vetada ao longo
de umha obra que teima na via reformista do projecto espanhol aprofundando
no federalismo assimétrico como alternativa ao maximalismo jacobino
e imperialista defendido polo PP.
Achamo-nos perante um
livro bem concebido e estruturado, embora excessivamente extenso e contraditório
em certos capítulos, mas que nom logra a utilidade que persegue o seu
autor por mor do seu academicismo doutrinal. Para o discurso autonomista,
hegemónico no BNG, é um texto inservível para a prática
diária e a estratégia adoptada, e para a esquerda independentista
é um ensaio eivado na sua concepçom inicial.
Teremos que continuar
a aguardar por esse necessário ensaio que, sem as cancelas da autocensura
e o auto-ódio, teorize e aposte pola alternativa soberanista.
(Carlos Morais)

Tomàs Callau, Albert
Martinez e Jordi Miró
Còrsega, un altre combat
Llibres del Segle, Gaüses (Empordà), 2001. 190 páginas.
Subtitulado como Les converses
de Matignon i el procés de pau esta obra colectiva, realizada por três
militantes independentistas cataláns, é um interessante manual
que permite umha rápida aproximaçom de umha realidade desconhecida
para a esquerda independentista galega, a naçom corsa e a sua luita
de libertaçom nacional.
O livro está estruturado
em três partes. A primeira é umha síntese muito básica
da história e da geografia da ilha mediterránica, acompanhada
por umha série de reflexons de alguns dos seus particulares fenómenos
sociais, nomeadamente a estrutura clánica tradicional. Também
se dam dados sobre a situaçom do idioma corso, da demografia e da economia.
A segunda parte aborda
a configuraçom do nacionalismo corso desde os seus inícios até
a actualidade, para dedicar a terceira parte da obra às conversas de
paz de Matignon entre o Estado francês e o movimento de libertaçom
nacional corso. Finalmente, este trabalho vai acompanhado de uns anexos documentais
onde se reproduz o anteprojecto de lei para Córsega e o nomes e prisons
em que se acham os patriotas corsos encarcerados.
Esta obra, amena e didáctica,
deve ser entendida como um mero texto iniciático que permite ter umha
visom sintética, embora em certas ocasions peque de certo simplismo,
da luita e dos desafios de umha naçom por sobreviver perante a abafante
pressom colonial de um Estado poderoso e opressor, a República francesa.
(Carlos Morais)

Camilo Nogueira
A memoria da nación. O reino de Gallaecia. Xerais. Vigo, 2001.
322 páginas
Umha nova aproximaçom
do político galego Camilo Nogueira ao ensaio histórico. Mais
umha vez, o tema tratado polo autor é o desmascaramento da historiografia
espanholista que durante séculos ocultou a história dum país,
Galiza, fazendo dele um mero apêndice de Espanha.
A obra poderia-se dividir
em duas partes diferenciadas. A primeira abrange os três primeiros epígrafes
e nela abordam-se os aspectos político-ideológicos mais interessantes
para a compreensom do papel da história como instrumento ideológico
fundamental para a construçom das naçons. Na segunda parte,
a mais ampla do livro, sob o título O Reino da Gallaecia, fai-se um
relato histórico da Galiza desde o período do Baixo Império
até fins do século XV.
Sem menosprezar a importáncia
deste livro, ao fim e ao cabo som poucos os que se publicam no nosso país
abordando a história desde umha perspectiva galega, achamos que, no
tocante à parte mais histórica, às vezes cai-se num excesso
historicista. Quer dizer, o autor aborda o relato histórico centrando-se
nos aspectos político-instituçionais passando muito por cima
a descriçom da sociedade e da economia.
Mas há que ser
indulgentes, já que ao fim e ao cabo nom estamos diante dum estudo
histórico strictu sensu, senom dum ensaio analítico e crítico.
Possivelmente tenha influído nesse excesso de história política
o facto de que a maioria das fontes consultadas fossem obras de autores da
historiografia tradicional espanhola, e que precisamente essa história
tradicional espanhola está a ser criticada nom pola seu método
científico, senom polo seu discurso.
Contodo, no aspecto ideológico,
estamos diante de um livro útil como arma perante a imposiçom
do espanholismo na Galiza, ficando claros muitos conceitos em relaçom
com o papel da história na construçom das naçons e das
naçons na construçom da história.
(André Seoane Antelo)

Francisco Martins Rodrigues
(selec.) e Ana Barradas (trad.)
Marx no seu tempo. Edições Dinossauro, Lisboa, 2001.
170 páginas.
Umha nova achega da Editorial
Dinossauro, promovida pol@s comunistas portugueses da Política Operária,
ao conhecimento de umha das mais importantes figuras históricas da
humanidade, Karl Marx. Desta volta, apresenta-nos um livro em que o genial
pensador alemám nos é mostrado através do olhar das pessoas
que o conhecêrom directamente. Amigos, camaradas, adversários,
polícias... escrevem a propósito de Marx, reflectindo como percebêrom
a sua actividade como cientista e político revolucionário.
A obra aposta pola selecçom
cronológica dos textos, que se agrupam em quatro capítulos focados
no Marx jovem; no período revolucionário do 1848; na etapa da
I Internacional e a Comuna, e nos últimos anos da sua vida. Acompanha-se
também dumha cronologia e um índice onomástico para ajudar
à compreensom duns textos que na sua maioria som cartas que nom tenhem
Marx como destinatário.
Marx é o pólo
de reflexom dumha multidom de pessoas que em boa parte também destacárom
na história. Sobre ele escrevem de Bakhunine a Engels; de Jenny a agentes
secretos da polícia alemá. Multiplos pontos de vista que permitem
a construçom dum retrato do homem e do político.
Mas as possibilidades
deste livro vam muito mais alá, já que nom só permitem
conhecer Marx, senom aprofundar na realidade quotidiana do círculo
de revolucionários e pensadores que transformárom o mundo na
segunda metade do século XIX. Anarquistas, socialistas, liberais, homens
de estado, amigos, científicos, som os co-protagonistas de um livro
imprescindível para um melhor conhecimento da evoluçom vital
do pai do socialismo científico.
Para poder adquirir este
livro ou ligar para a editora, o contacto é o Apartado 1483, 1013 Lisboa
Codex, ou o e-mail: dinopress@mail.telepac.pt
Também se acha
à venda nas livrarias Couceiro e Palavra Perduda, e no local social
A Sereia de Compostela; Couceiro da Corunha; Sargadelos e Fundaçom
Artábria de Ferrol; Alto Minho de Lugo; Torga de Ourense; Michelena
e Paz de Ponte-Vedra; Andel do livro galego-português de Vigo.
(André Seoane Antelo)