
ABRENTE Nº 23
Janeiro-Fevereiro-Março de 2002
CONTEÚDOS
- Editorial: O verdadeiro rosto da UE
- As propostas de reestruturaçom do Estado. O reagir do nacionalismo espanhol. André Seoane Antelo
- Independentismo, burguesia e luita de classes na Galiza. Carlos Morais
- III Congresso de Primeira Linha. Comunismo galego do século XXI
- O botelhom: um problema perfeito para um governo medíocre. Noélia Fernández Marquês
- Catalunha, meio milhom de pessoas contra a Europa do Capital. Albert Hirujo
- Venhem aí as "medidas impopulares"!. Política Operária
- Êxito sem precedentes das mobilizaçons anticapitalistas na Galiza
- URGENTE: evitemos que Armando Ribadulha entre em prisom
- Editorial: O verdadeiro rosto da UE
A presidência espanhola
da UE, durante o primeiro semestre de 2002, está a ser aproveitada
para acelerar os planos estratégicos que o capitalismo tinha previsto
aplicar de forma paulatina contra as liberdades e os direitos da classe trabalhadora
e o conjunto da populaçom perante a grave crise em que este modo de
produçom se acha imerso. Os ataques contra os USA em 11 de Setembro
som utilizados como mera coarctada para que o imperialismo ianque adopte a
nível mundial, sem contemplaçons nem aditivos, a fase terrorista
prevista polos estrategas com o objectivo de aniquilar todos aqueles estados
e organizaçons que nom se submetem aos seus planos ou que questionam
o caos a que nos está conduzindo a mundializaçom. O Planeta
está assistindo à maior ofensiva contra @s trabalhadores, os
povos e as mulheres nunca antes realizada na história da humanidade.
Os USA estám iniciando a anunciada ofensiva global contra a dissidência
mundial desde as coordenadas de um imperialismo ferido, mas com capacidade
suficiente para provocar a devastaçom de importantes áreas planetárias.
O paroxismo da barbárie militarista do capital, inerente à estratégia
em curso, ensaiado no Afeganistám, já está sendo aplicado
simultaneamente em vários pontos do planeta: Filipinas, Geórgia,
Iemen, Somália, e pretende passar a sua segunda fase com o anunciado
ataque contra o Iraque, como parte dessa tríada de estados, juntamente
com o Irám e a Coreia do Norte, definidos como o eixo do mal.
Os ventos de guerra e
destruiçom, que historicamente marcárom o ponto de inflexom,
o irremediável declínio dos impêrios, e portanto o início
de mudanças revolucionárias encardinadas na luita de classes,
definirám e modularám o futuro de toda a acçom política
transformadora, da qual fazemos parte @s comunistas galeg@s. A selvagem repressom,
o progressivo recorte das liberdades formais e dos direitos laborais, unido
à constante deterioraçom das condiçons de vida, serám,
se nom lograrmos impedi-lo, a expressom de umha realidade que até agora
semelhava alheia às sociedades do mundo ocidental, tal como se desenvolvêrom
desde o conflito bélico de 1939-45.
Nesta década que
estamos a principiar, vai-se livrar umha cruenta batalha em que está
em jogo o futuro do capitalismo ou a emancipaçom dos povos, as mulheres
e a classe trabalhadora. O dilema luxemburguiano Socialismo ou barbarie é
insuficiente, hoje a luita so pode estabelecer-se entre Comunismo ou caos.
As declaraçons
do Pentágono sobre a necessária utilizaçom de armamento
nuclear contra os "inimigos exteriores", de armas de destruiçom
massiva e indiscriminada contra povos indefesos, a militarizaçom da
sociedade norte-americana, nom só pretendem ocultar a crise económica
e ecológica estrutural do império e a corrupçom das suas
elites (sendo o caso Enron paradigmático), demonstra com nitidez o
cenário infernal a que nos quer transladar o capital, antitético
panorama desse mundo no que há dez anos os seus apologetas, após
a queda da Uniom Soviética, apresentavam como o final da história.
Mas esta estratégia global tem que ser aplicada a escala local e/ou regional para alcançar os objectivos. No equador da segunda legislatura do governo Aznar, o Estado espanhol acha-se involucrado na aplicaçom maximalista da doutrina repressiva emanada do 11-S, como aluno avantajado da Casa Branca que é.
Espanha e a UE caminham
face o estado de excepçom
A presidência da
UE está a ser utilizada pola oligarquia espanhola para acometer as
reformas legislativas imprescindíveis para lograr superar com êxito
os dous grandes problemas endémicos que arrasta. Consolidar os limites
geográficos do actual Estado como quadro de acumulaçom e expansom
de capital, e superar definitivamente o constante perigo de perpetuar-se na
periferia na sua ambiçom de integrar-se como sub-potência regional
no clube dos estados mais poderosos da Uniom Europeia. A derrota dos movimentos
de libertaçom nacional da Galiza, Euskal Herria, Catalunha e as Canárias
som esssenciais para atingir o primeiro objectivo. Submeter e anular definitivamente
o atrofiado e desvertebrado movimento operário e popular, mas especialmente
desactivar as potencialidades do movimento antiglobalizaçom e as tendências
juvenis a participar nas luitas, lateja no segundo.
Em Dezembro do ano passado,
os ministros de Justiça e Interior da UE aprovárom umha nova
noçom sobre o conceito de terrorismo que só se pode qualificar
como um evidente ataque às liberdades individuais e colectivas das
populaçons da Europa dos quinze. Nesta definiçom grupo terrorista
é "a associaçom de mais de duas pessoas que age de forma
concertada para cometer delitos terroristas", os quais seriam aqueles
que tenhem como objectivo "intimidar gravemente umha populaçom,
forçar indevidamente os poderes públicos ou umha organizaçom
internacional a fazer ou abster-se de fazer um acto qualquer; ou desestabilizar
ou destruir gravemente as estruturas fundamentais políticas constitucionais,
económicas ou sociais de um país ou dumha organizaçom
internacional". A doutrina desta legislaçom tem como objectivo
criminalizar, reprimir e ilegalizar toda actividade política que questionar
a ordem estabelecida, desde os movimentos de libertaçom nacional, passando
polas luitas operárias, até o movimento antiglobalizaçom,
e simultaneamente dotar os estados de ilimitada capacidade para poder combater,
com todos os meios ao seu alcance, as luitas d@s oprimid@s, incluindo o terrorismo
de Estado ensaiado em inumeráveis ocasions na Espanha, França,
Alemanha ou Itália, mediante os GAL, a OAS, a polícia da RFA,
ou a Rede Gládio.
A participaçom
em movimentos sociais que questionam o presente e defendem um outro modelo
alternativo ao vigente poderá ser sancionado como acto terrorista segundo
esta Decisom Quadro. Organizar e realizar umha greve em sectores estratégicos,
participar num corte de estrada, ocupar umha fábrica ou umha faculdade,
boicotar pacificamente mediante a desobediência civil um acto institucional,
ou manifestar-se contra as decisons dos governo, poderá ser considerado
de acto terrorista segundo a noçom aprovada polos quinze.
A Euroordem (Ordem Europeia
de Detençom e Entrega) ratificada em 8 de Janeiro na Comissom de Justiça
do Parlamento Europeu, que elimina os procedimentos de extradiçom e
as garantias jurídicas e processuais d@s detid@s, é outras das
medidas encaminhadas a transformar a UE num vasto território em permanente
estado de excepçom de baixa intensidade.
Posteriomente, na cimeira
celebrada em Compostela (13, 14 e 15 de Fevereiro) polos ministros de Justiça
e Interior, fôrom sancionadas um pacote de medidas e reformas legislativas
que aprofundam no recorte das liberdades e no incremento dos poderes policiais
para reprimir.
Assim, Espanha logrou
adiantar a aplicaçom da Euroordem um ano (Janeiro 2003) a vários
estados (Portugal, França, Alemanha, Bélgica, Luxemburgo e Reino
Unido); endurecer a legislaçom em matéria de imigraçom
com a criaçom de um banco de impressons e fotografias digitais; fortalecer
a Europol, a polícia europeia, especializando-se no combate ao terrorismo
e a imigraçom; alargar a cooperaçom policial entre os estados
membros; e aprovar um pré-acordo de tratado de extradiçom com
os Estados Unidos.
Foi na semana seguinte,
quando os dous grandes partidos políticos espanhóis e o governo
pactuárom iniciar os trámites necessários para reformar
a Lei de Partidos Políticos de 1978 e alguns artigos da lei de Regime
Eleitoral até o extremo de pretender que o governo tenha capacidade
para dissolver corporaçons municipais, com o objectivo de ilegalizar
a Batasuna, no quadro da estratégia de derrotar politica e militarmente
o Movimento de Libertaçom Nacional Basco.
Num Seminário internacional organizado pola Guardia Civil na Toja em meados de Março, vem de impulsionar-se a criaçom de umha "Força Integrada de Polícia" formada por cinco mil efectivos com o objecto de "reforçar a polícia atóctone em caso de conflitos que assim o requererem" ou "substituir as polícias nacionais sempre que a UE o considerar oportuno".
Espanha, a Turquia
da UE
Achamo-nos, pois, numha conjuntura em que se está fraguando a involuçom fascistóide da democracia burguesa espanhola, como regime político prolongaçom da ditadura de Franco, como laboratório social do modelo de UE a que nos querem conduzir as respectivas burguesias. Deriva em que, perante a ausência de massa social crítica, de forças coerentemente de esquerda na Espanha, tam só os movimentos de libertaçom nacional periféricos denunciamos e combatemos. A esquerda parlamentar e os nacionalismos burgueses de Euskal Herria, Catalunha, Canárias e Galiza, ou bem som cúmplices activos desta estratégia repressiva como IU/PCE, PNV e CiU, ou apoiam sem reservas a acçom governamental como Coligaçom Canária, ou no caso galego, evitam abordar a situaçom mais alá de esporádicos e epidérmicos pronunciamentos para nom serem identificados com projectos terroristas, e atingir assim a sua definitiva incorporaçom na Espanha do século XXI. A prática política do BNG nesta questom, como na maioria das vinculadas com o modelo de sociedade policial, está guiada pola hipocrisia, o possibilismo populista e a incoerência.
Nas grandes cidades que
cogoverna mantém umha política de recorte das liberdades e dos
direitos cidadaos instalando video-cámaras nas ruas, perseguindo a
dissidência independentista, proibindo o exercício da liberdade
de expressom; legitimando as forças de ocupaçom, defendendo
com firmeza a sua presença, como em Ferrol com o exército; entregando,
facilitando, apoiando, exercendo de anfitrions na ocupaçom policial
de Compostela durante a cimeira de Fevereiro, etc; proibindo e denegando a
utilizaçom de instalaçons municipais para organizar actividades
alternativas; combinando, de jeito esporádico, alguns pronunciamentos
carregados de retórica em prol dos direitos e as liberdades ameaçadas.
O anémico estado
de direito espanhol está a ser desmontado polo bloco de classes dominantes,
perante a inibiçom da social-democracia e dos nacionalismos burgueses,
que simultaneamente pretendem marcar o ritmo para o conjunto da UE. Espanha
está caminho de converter-se na Turquia da Europa ocidental, na república
bananera em que o capital, após desmantelar as conquistas populares
e liquidar a resistência operária e nacional, aplica sem anestesia
nem limites os seus planos.
Durante a cimeira de Compostela
tivo lugar o ensaio dessa Europa policial que estám a construir as
burguesias e em que Espanha tem um papel destacado. A Operación Añil
blindou Compostela, alterando a sua vida quotidiana, transformando-a numha
cidade ocupada pola polícia, impedindo a livre circulaçom da
populaçom, identificando e retendo milhares de pessoas, criminalizando
as mobilizaçons e ensaiando o novo cenário das manifestaçons
populares: permitidas mas escoltadas por centos de polícias numha atmosfera
de abafante tensom para dissuadir e criminalizar o compromisso com a luita
social.
Para reduzir o impacto
e a massividade das mobilizaçons, o governo espanhol suspendeu o Tratado
de Schengen durante nove dias, quer dizer, a livre circulaçom de pessoas
nos dias prévios à reuniom do Conselho Europeu de Barcelona.
O clima de impunidade com que actuam as forças policiais e os meios de comunicaçom, recuperando as atitudes e as práticas repressivas, os estilos de manipulaçom e intoxicaçom próprios do franquismo, enquadra-se numha calculada estratégia repressiva para descabeçar a resistência, visando evitar assim umha contestaçom popular organizada às medidas de excepçom, quer no plano laboral, quer no social, previstas para abordar a crise económica, a recessom em que se acha o capitalismo.
Organizar a dissidência
As mobilizaçons
e actividades desenvolvidas em Compostela contra a cimeira da UE fôrom
um importante êxito político que cumpre analisar, pois constatam
a existência de um sector social, -especialmente configurado por jovens,
sem militáncia política partidária, nem compromisso social
estável-, enquadrado nos parámetros da esquerda anticapitalista.
Este emergente espaço social antissistémico deve ser impulsionado
e articulado pois é umha peça essencial da corrente revolucionária
que está construindo a esquerda independentista galega.
As imensas dificuldades
para organizar umha resposta unitária e plural à cimeira dos
ministros da polícia e a repressom exprimem a existência de diversas
tendências no panorama político-social da esquerda na Galiza,
-já analisadas no anterior Abrente a raíz das mobilizaçons
contra a intervençom ocidental no Afeganistám-, que cumpre continuar
abordando.
O nacionalismo institucional,
plenamente acomodado ao quadro jurídico-político do capitalismo
espanhol, aplica sem paliativos a doutrina antiterrorista emanada do 11-S,
negando-se a compartilhar espaços comuns com a esquerda independentista.
Mas também, por exigências do guiom e do tempo político
do seu aggiornamento, necessita aparentar continuar nos postulados críticos
primigénios. Se bem inicialmente, nem o BNG, nem as suas entidades
afins, tinham previsto manifestar-se na rua, como tampouco o Estado espanhol
tinha previsto declarar esta cimeira como de "alto risco", a modesta
acumulaçom de forças, a vitalidade e capacidade de iniciativa
da Plataforma galega por umha Europa alternativa modulou a acçom política
de ambos. O BNG viu-se obrigado a última hora, instrumentalizando a
CIG, a convocar um paripé de manifestaçom por umha Europa social,
solidária e dos povos, evitando assim denunciar os conteúdos
específicos da reuniom interministerial, com o objecto de tranquilizar
as más consciências de parte da sua filiaçom, introduzir
confusionismo, e neutralizar a resposta plural e unitária impulsionada
pola esquerda independentista e os movimentos sociais presentes na Plataforma.
Também o ministério de Rajoi tivo que modificar in extremis
a concepçom da reuniom de Compostela incluindo-a na categoria de "alto
risco", deslocando à capital da Galiza o maior operativo policial
da história sob a direcçom do próprio Juan Cotino, máximo
chefe da polícia espanhola.
Mas este adverso panorama,
unido ao sectarismo das organizaçons anarquistas, nom foi quem de evitar
que o independentismo galego fosse capaz de nuclear à sua volta certos
sectores sociais nom homologáveis com o nosso projecto político,
de impedir a organizaçom dumha resposta popular sem precedentes, sentando
as bases para a criaçom no nosso país de um movimento antiglobalizaçom
de parámetros nacionais.
Centos de pessoas acodírom
às actividades do Foro Social Alternativo e mais de quatro mil manifestantes
secundárom as diversas mobilizaçons impulsionadas pola Plataforma
e as organizaçons libertárias, contando exclusivamente com forças
próprias, pois nesta ocasiom, mais alá de simbólicas
delegaçons, nom houvo presença de companheir@s de outros países.
Logrou-no apesar dos sectarismos, das covardias, das pressons, dos oportunismos,
de entidades e grupos que por diferentes motivos, mas sempre guiados polo
denominador comum da doutrina internacional de isolar, estigmatizar e desmarcar-se
do "perigo" antissistémico, optárom por nom participar
ou por abandonar a Plataforma.
Cumpre reflectir no seio
de todos os grupos, colectivos e organizaçons, que objectivamente estamos
interessados em impulsionar o movimento anticapitalista na Galiza, -desde
a pluralidade de discursos, tácticas, estratégias e métodos
de intervençom-, na necessidade de corrigir e superar as atitudes que
impedírom umha resposta mais unitária e portanto mais multitudinária.
O movimento antiglobalizaçom no nosso país nom deve diferenciar-se
do resto do mundo pola impossibilidade de articular mobilizaçons unitárias.
O Seminário Ministerial da UE "Diálogo sobre Consumo", que tem previsto decorrer em Compostela 6 e 7 de Junho, tem que encontrar umha resposta popular unitária em que sejamos capazes de convergir todas as correntes e sectores ideológicos anticapitalistas, sem exclusons. Trabalhemos, pois, nesta direcçom.
- As propostas de reestruturaçom do Estado. O reagir do nacionalismo espanhol. André Seoane Antelo
O balbordo suscitado na
cena pública galega após as declaraçons de Manuel Fraga
a El Correo Gallego, no passado mês de Fevereiro de 2002, obrigam a
fazer umha reflexom analítica, principalmente porque se vírom
acompanhadas do aplauso dos vozeiros das duas organizaçons políticas
actualmente na oposiçom parlamentar, o que provocou nom pouca confusom.
Para qualquer observador/a
pouc@ atent@ poderia parescer que o mundo voltou do revés, de certo
é umha situaçom um tanto peculiar achar um clima de consenso
tam amplo entre a totalidade das forças políticas com representaçom
no parlamentinho. Mas nom podemos passar por alto que o PSOE, o PP e o BNG
convergírom nom num debate político menor, senom na definiçom
de qual deve ser o articulamento institucional de Espanha, o qual nom pode
surpreender porquanto as três forças partilham um mesmo projecto
estatal. Um mesmo projecto ao qual nom se pretende mais que matizar, em maior
ou menor medida, mas do que nom se questionam os seus alicerces básicos:
submissom às directrizes do capital espanhol e manutençom da
"unidad nacional".
De facto, a questom principal
nom é avaliar os pormenores da convergência das posturas de Tourinho,
Fraga e Beiras, senom entendermos porque o presidente da Junta recupera precisamente
agora as propostas de reforma do Senado e da participaçom dos conselheiros
autonómicos nas delegaçons espanholas nos órgaos da UE,
coincidindo, aliás, nas suas formulaçons com as teses de destacados
dirigentes do PSOE de outras partes do Estado.
Para irmo-nos centrando, devemos avançar que o nosso objectivo neste artigo é demonstrar como o capitalismo espanhol está a passar por umha aguda crise em que corre o risco de ficar relegado a umha posiçom ainda mais subsidiária da que actualmente ocupa no palco mundial. A agudeza desta crise é tal que obriga a pôr em cima da mesa um debate que solvente definitivamente o "problema espanhol", quer dizer, que feche definitivamente o inconcluso processo de construcçom da naçom espanhola como projecto estatal burguês. Este é o debate de fundo que se encontra atrás dos fogos de artifício das declaraçons e réplicas que desde o mês de Fevereiro se venhem sucedendo na imprensa galega.
Umha proposta original?
Para percebermos melhor de que é que estamos a falar é preciso fazermos um pequeno relatório histórico que nos situe no contexto real. Em primeiro lugar, cumpre ter em conta que a proposta de modificaçom do Senado com base na sua conversom num foro de representaçom dos governos autonómicos surgiu desde as fileiras do PSOE já no ano 1992, quando este partido ainda geria o governo estatal. Foi o daquela presidente da cámara alta, Laborda, o encarregado de formular um debate político oficial a respeito do tema. Fique pois desbotada a originalidade de Dom Manuel, umha vez que a sua proposta primigénia, conhecida como o projecto da Administraçom Única, é de 1994.

A conjuntura política
do momento, -mediatizada pola degeneraçom em que se viu sumido o PSOE,
a qual cristalizou numha profunda crise interna, da que ainda nom saiu, e
no seu deslocamento do governo em benefício do PP-, impossibilitou
que esta proposta de reforma fosse concretizada. Porém, nom foi definitivamente
abandonada, senom que continuou a ser defendida, com diferentes matizes, por
parte dalguns sectores "regionais" deste partido.
Aliás, as propostas
concretas de modificaçom do quadro institucional, -bastante vagas e
indefinidas-, fôrom acompanhadas dum constructo ideológico baptizado
com o nome de "patriotismo constitucional" ou "patriotismo
democrático".
O desenvolvimento da tese
do "patriotismo constitucional" também estivo, e está,
pragado de vaguidades e falta de concreçom prática, possibilitando
que recentemente, desde o ano 2001, o PP figesse própria esta definiçom.
De facto, o termo "patriotismo constitucional" oficializou-se de
tal jeito que até o próprio Borbom o tem empregado nos seus
discursos.
Mas, que é o "patriotismo constitucional" e por que é apresentado agora na palestra pública de forma tam reiterada? Pois simplesmente é o nome que se está a dar a algo tam conhecido como é o nacionalismo espanhol. Sustento ideológico do imperialismo que precisa dumha iminente posta a ponto para que, se nom ganha, polo menos mantenha a efectividade que demonstrou até o de agora.
O Estado espanhol à
beira da periferia do sistema
A situaçom pola
que passa o Estado, como instrumento ao serviço do capitalismo espanhol,
é de extrema gravidade. Os défices herdados dum processo de
construçom nacional desenvolvido de jeito incompleto passam umha factura
muito alta precisamente agora, no momento em que o capitalismo a nível
mundial está a sofrer um processo de re-ordenaçom caracterizado
pola maior concentraçom de capitais em áreas ainda mais reduzidas.
Para mais, a área
regional do capitalismo em que se insere o Estado espanhol está a concluir
um periodo fundamental na sua construçom. De nom solventar urgentemente
o "problema nacional", o Estado espanhol nom poderá afrontar
os reptos que se lhe exigem para nom passar a ocupar um terceiro plano dentro
da UE. De facto, o risco que se está a correr nom é o de ficar
na actual posiçom de potência de segunda ordem, mas de descer
até um degrau mais baixo situando-se no límite da periferia
do sistema económico mundial.
Estas afirmaçons
contradim a imagem que o governo do PP pretende dar no seio do próprio
Estado, mas acham-se amplamente contrastadas por umha série de indicadores
emanados de diferentes instituiçons para nada suspeitas de sere anti-capitalistas.
Remetemos pois para os informes da OCDE; para o Informe do desenvolvimento
Humano 2000, emitido pola UE; e mesmo para os dados dos inquéritos
do INE para quem quiger avaliar qual é que é a autêntica
situaçom económica pola qual atravessa o capitalismo espanhol.
Mas haveria que apontar que a maioria dos informes estatísticos emitidos
polas administraçons estatais espanholas, caso da EPA, acham-se falseados
de tal maneira que até os analistas burgueses duvidam publicamente
da sua fiabilidade, polo qual recomendamos empregar dados de organismos internacionais,
preferivelmente privados.
Pola nossa vez, simplesmente
queremos salientar umha série de tendências que ao nosso parecer
som absolutamente definitórias: a crescente descida nos benefícios
empresariais no último quinquénio; o incremento do desemprego
e a precariedade laboral; a queda em picado dos indicadores de bem-estar social.
Para além disto, o peso do Estado no seio da UE é cada vez menor.
De facto, o risco iminente de perder a maior parte dos fundos estruturais
de coesom que se recebiam até agora, -fundos que servírom basicamente
para abrandar as tensons sociais derivadas dos processos de "reconversom"
da grande indústria, da pesca e do agro-, será umha realidade
tangível brevemente, quando se incorporarem à UE umha série
de países do leste europeu.
E dizemos que é
umha realidade tangível posto que o mais interessado na cessom destes
fundos de coesom aos países orientais e o capitalismo mais poderoso
do continente, o alemám, que mais dumha vez tem manifestado as suas
críticas à economia subsidiada do Estado espanhol.
Para findar a faena, a
situaçom de preminência de que disfruta o capital espanhol na
Latinoámerica e Marrocos, como potência sub-imperialista, está
seriamente ameaçada.
No caso marroquino é
a concorrência de França, -para mais inri age nos últimos
tempos em aberta aliança com o capitalismo teutom-, quem supom umha
ameaça mais grave ao pretender deslocar a influência espanhola.
Batalha na que o capital castizo pouco tem a fazer diante dum dos principais
pólos de acumulaçom de capital da UE.
Mas na Latinoámerica
a problemática é diferente; se bem o capital espanhol age neste
espaço numha situaçom bastante cómoda, só superada
polo nível de investimento dos EUA, a recente crise argentina tem disparado
o alarme sobre os riscos dumha política económica de espoliaçom
em que a taxa de lucro tende a ser decrescente quanto mais se avançar
nela.
A estes problemas nas
áreas exteriores de influência directa há que somar as
fracassadas tentativas de introduzir-se nos mercados do leste europeu, em
que as intençons espanholas fôrom frustradas polo abafante peso
da aliança dos capitais franco-germanos.
Acrescente-se a esta ineficiência
económica os evidentes fracassos internos na hora de impor às
naçons periféricas do Estado a plena submissom diante da bota
do imperialismo espanhol; bem como as grandes dificuldades para manter em
pé umha estrutura militar acorde com as actuais necessidades do cenário
mundial. E compreenderemos porque é que o bloco de classes hegemónico
no Estado espanhol está tam preocupado por assentar de vez a "unidad
de la patria española", agora sob a formulaçom do "patriotismo
constitucional".
É evidente que, se nom se reforçar a unidade do Estado, ao capital espanhol será-lhe impossível afrontar a corrida para nom ficar fora do pelotom de cabeça do sistema-mundo, já que sem umha abundante dose de ópio nacional as classes trabalhadoras e povos oprimidos nom aturarám as exigências impostas por Madrid.
A incompetência
dum fato de parasitas
Além da difícil
situaçom objectiva, há que agregar-lhe um factor em que ainda
nom entramos, fundamental para compreender as impotências reais da oligarquia
espanhola. Trata-se da cerrilidade mental e da prepotência, historicamente
comprovada, que tem caracterizado os dirigentes, económicos e políticos,
da Espanha. Prepotência assentada na matriz parasita dos terratenentes
mesetários e hoje contagiada ao conjunto do bloco de classes dirigente.
Tem sido esta característica
a que explica que o capitalismo espanhol nom tenham dedicado umha parte importante
dos seus benefícios ao investimento em capital fixo, renovaçom
tecnológica, qualificaçom da força de trabalho, estabilizaçom
e melhoria das condiçons de vida de amplos sectores das massas trabalhadoras,
especialmente no que se refere à manutençom da sua capacidade
aquisitiva, etc... como melhor jeito de preparar-se para afrontar possíveis
crises.
Levando em conta que os
capitalistas espanhóis som especialistas no "jogo em curto",
carecendo da mais mínima capacidade de previsom estratégica,
a ninguém pode surpreender que a questom do "patriotismo constitucional"
e todo o que leva aparelhado seja abordado do jeito que se fai. Ou seja: tarde,
mal e arrasto.
O PP, ao agir como voz
directa dos interesses da oligarquia espanhola, responde portanto às
suas características. Assim, a sua noçom do "patriotismo
constitucional" nom é mais do que umha re-ediçom do clássico
ideológico da "indisoluble unidad de la patria" e da "España:
unidad de destino en lo universal".
De facto, esta "renovada" formulaçom do nacionalismo espanhol,
como já dixemos, nom foi assumido por este partido até datas
muito recentes; e mesmo assim, nom foi acompanhado por nengumha proposta de
reformulaçom do aparelho institucional do Estado; ora bem, sim por
umha ofensiva ideológica espanholizadora, fundamentalmente no ámbito
do ensino, e dumha brutal perseguiçom e acosa das alternativas políticas
independentistas, nomeadamente do MLNB.
Por seu turno, as propostas
do PSOE, com todas as suas indefiniçons, expressom da actual situaçom
de crise deste partido, ainda que no essencial concordam com a ideia da "indisolubilidad
de la patria española" manifestam umha vontade de integrar na
gestom do Estado dum jeito mais directo as burguesias das naçons periféricas,
para além de fazer umha formulaçom do nacionalismo espanhol
mais acorde aos tempos. Quer dizer, eludem o grao grosso da ideologia imperial
e incidem na falácia da "España multicultural e integradora"
.
É evidente que
o PP exprime a vontade da oligarquia, que diante da situaçom de crise
pretende fazer ouvidos xordos; Ao contrário, o PSOE, já desligado
da gestom directa do Estado, converteu-se em porta-voz dos sectores menos
retrógrados da oligarquia e de parte das burguesias periféricas,
coincidindo parcialmente nas suas formulaçons com as morganizaçons
políticas do nacionalismo institucionalizado.
O cenário galego
Eis a explicaçom
da coincidência no cenário político galego das posturas
de PSOE, BNG e PP; partidos que a dia de hoje representam, ou pretendem representar,
a diferentes fracçons da burguesia galega e as suas classes associadas.
Se bem a nossa burguesia tem-se carecterizado pola sua covardia e submissom
diante da oligarquia espanhola, no momento actual a situaçom tem-se
tornado tam crítica que obriga ao capital autóctone a plantar
cara, ainda que seja dum jeito tam tímido como o de reclamar um mínimo
partilhamento do poder político desde o Senado. Lembremos que boa parte
das empressas galegas estám altamente subsidiadas, especialmente em
sectores estratégicos como agro, pesca e grande indústria; o
que pom em perigo a sua sobrevivência de continuarem avante as tendências
actuais de reduçom dos fundos europeus.
Porém, convém ter muito claro que se a oligarquia espanhola
se tem caracterizado polo seu fechamento mental, nom menos certo é
que as burguesias periféricas tenhem-no feito pola sua incapacidade
para sacudirem-se o jugo imposto por Espanha, preferindo ser sempre "cola
de leom que cabeça de rato", por mais que se trate dum leom desdentado
e cego.
Assim, se antes falávamos
da desconfiança que inspiram as incapacidades históricas da
oligarquia espanhola na hora de agir como bloco dirigente dumha potência
capitalista de primeira ordem, nom há que minusvalorizar as incapacidades,
com diferentes matrizes, que tenhem manifestado as burguesias catalá,
basca e galega para impulsionar processos de construçom nacional nos
seus respectivos contextos.
Evitemos pois cair na
ilusom de acreditar no giro "nacionalista" vivido por Manuel Fraga
como precedente imediato da constituiçom da burguesia galega como classe
nacional, já que nom se trata de tal cousa. Simplesmente trata-se da
manobra dumha fracçom subsidiária da oligarquia espanhola, -dumha
"classe regional" (posto que para ser nacional deveria ambicionar
dotar-se dum Estado próprio)-, para manter-se, quando menos, com os
mesmos privilégios de que vinha gozando dentro do Estado como elo transmissor
face o centro da mais-valia extraída ao povo trabalhador galego. Realmente,
a novidade da actual situaçom nom vem da postura defendida polo PP
nem polo PSOE na Galiza, mas porque a estes dous partidos se tem somado um
BNG que cada dia avança mais face a sua plena inserçom no sistema.
Um BNG que aprofunda mais e mais no interclassismo, que como a história tem demonstrado, nom é outra cousa que um enganabobos para que as classes trabalhadoras acreditem na confluência de interesses com os seus exploradores; e que fai denodados esforços para ser reconhecido como força política normalizada: reconhecendo a legitimidade do quadro jurídico-político emanado da segunda restauraçom borbónica e abjurando de posturas, -nom já explicitamente independentistas-, senom mesmo da reivindicaçom do direito de autodeterminaçom.
A viabilidade da proposta
da esquerda independentista
Nom é casual que
enquanto estám a produzir-se estes movimentos dentro das forças
políticas defensoras da "unidad de la nación española",
tenha recrudescido extremamente a ofensiva político-policial contra
o MLNB. Ofensiva que nom é vivida de igual maneira polos movimentos
de libertaçom nacional das outras naçons do Estado devido ao
seu carácter embrionário, como é o nosso caso, mas que
padeceremos de atingirmos um desenvolvimento minimamente exitoso.
Devemos ter em conta que
o projecto político da esquerda independentista é objectivamente
muitíssimo mais viável do que o que oferece o imperialismo.
De certo, a possibilidade de triunfo do capitalismo espanhol no seu objectivo
de conseguir resituar a sua posiçom como potência de segunda
ordem é praticamente nula, mesmo que consiga derrotar as resistências
das naçons oprimidas do Estado. A tendência a nível mundial
à concentraçom de capitais implica, tal é como se tem
avaliado mil e umha vezes, umha reduçom das áreas onde se concentra
o poder, e Espanha vai caminho de ficar na periferia dumha dessas áreas.
Para além disto,
ainda de triunfar qualquer das tentatias de salvar o capitalismo espanhol
da sua debacle, o preço que teriam que pagar os povos, as classes trabalhadoras
e as mulheres oprimidas polo Estado espanhol seria muito elevado.
Polo contrário,
o MLNG apresenta umha alternativa, que por revolucionária, é
muito mais realista. Só superando o quadro do capitalismo, só
estando à frente da construçom nacional o Povo Trabalhador Galego,
é possível eludir a miséria que nos aguarda de continuarmos
na direcçom que Espanha nos impom.
O realmente utópico
é achar umha soluçom de continuidade no quadro actual, quer
seja esta a assunçom do Estado espanhol tal e como o conhecemos, quer
seja umha possibilidade de reforma na linha da proposta de Fraga. Lembremos
que já vai umha década desde que se colocou essa possibilidade
reformista e ainda nunca se concretizou numha proposta real.
- Independentismo, burguesia e luita de classes na Galiza. Carlos Morais
Magín Froiz, Manuel
Garcia Balinha, Manuel Fernandez de Sousa, Roberto Tojeiro Diaz, Amancio Ortega,
José Luís Méndez, Julio Fernandez Gaioso, Manuel Gomez
Álvarez, som alguns nomes e apelidos dos principais proprietários
e administradores do grande capital deste país. Froiz, Finsa, Pescanova,
Gadisa, Inditex-Zara, Caixa Galicia, Caixa Nova, Coren, som algumhas das empresas
e entidades bancárias que dirigem. Eles som um genuíno expoente
da burguesia galega.
Desde a década
de sessenta do século passado, o nacionalismo galego vem construindo
parcialmente o seu discurso sobre a premissa de questionar, ou minimizar nalguns
casos, a existência de umha burguesia própria, situada e assentada
na Galiza. A aplicaçom mimética dos postulados do epidérmico
marxismo proveniente dos países do mal denominado Terceiro Mundo, em
pleno processo de descolonizaçom e guerras de libertaçom nacional,
provocárom umha análise pouco correcta do papel, entidade e
desenvolvimento das classes dominantes autóctones. Se bem esta burguesia
era e continua a ser umha burguesia espanholista, subsidiária e intermediária
da oligarquia financeira e industrial espanhola, carente, portanto, de qualquer
compromisso com a naçom galega, pola sua cómoda integraçom
nos interesses do bloco de classes dominante do Estado, é incorrecto
e absurdo, mais alá das autojustificaçons do interclassismo
reformista, defender que objectivamente possui idênticos interesses
que a imensa maioria da populaçom que explora e domina, o Povo Trabalhador
Galego, sendo necessária incorporá-la à luita pola independência
nacional.

Se bem a burguesia galega
historicamente, salvo contadas, esporádicas e breves excepçons
fracassadas, -PPG, PGI, Coaligaçom Galega-, renunciou a dotar-se de
um instrumento político próprio com que defender os seus interesses,
um partido "nacionalista", que sob a aparente defesa dos interesses
comuns do país, tam só protegesse os seus específicos
interesses de classe, a dia de hoje semelha contar com essa estrutura. Por
mor da evoluçom ideológica e a conseqüente deriva política,
actualmente o BNG, acha-se em condiçons de cumprir esta funcionalidade,
e só falta que a burguesia autóctone acabe por apostar pola
via autonomista que o BNG lhe oferta para que o processo procurado polo BNG
tenha sucesso. A coincidência entre PP e BNG quanto à necessidade
de nom esvaziar totalmente de conteúdo a autonomia galega como actualmente
pretende o PP madrileno reflecte a pugna de ambas organizaçons por
protagonizar a defesa dos interesses da burguesia galega no que di respeito
à sua capacidade de decidir sobre os interesses no ámbito territorial
galego, embora sempre partindo do reconhecimento explícito da indissolúvel
unidade do Estado espanhol. A ninguém escapa que a burguesia galega
tem interesse em que a Junta da Galiza mantenha competências que evitem
à burguesia autóctone ter que negociar em Madrid com outros
sectores mais poderosos da oligarquia espanhola sobre assuntos concernentes
ao seu domínio económico na Galiza, do mesmo modo que as burguesias
basca e catalá defendem por motivos semelhantes as suas rerspectivas
autonomias. Quanto ao BNG, umha dilatada e traumática trajectória
interioriza no seu seio a doutrina política aprovada na Assembleia
do Carvalhinho de 87 e plasmada na Lei de Bases: propostas de hoje para caminhar
amanhá, de 1989, modifica o sujeito da luita de libertaçom nacional
e social, -as camadas populares às quais apelava constamente o Beiras
anterior a essa época-, polo difuso conceito actual de cidadania, que
unicamente mascara os interesses da burguesia e da pequena burguesia, dos
Amáncios Ortega, e do professorado, comerciantes e funcionariado hegemónicos
entre os seus quadros e dirigentes.
Neste original processo, é o BNG quem pretende ceder e entregar o seu capital social e político ao serviço das classes dominantes, pois a diferença de outros países, nom som determinadas fracçons da burguesia as que impulsionam a sua própria força política sem intermediários, senom que perante a mudança de rumo do antigo adversário podem optar por utilizá-lo.
Os antecedentes
A inícios de século,
por mor das peculiares características da estrutura social galega,
um país eminentemente rural que ainda estava iniciando umha tímida
industrializaçom, umha parte da numericamente fraca burguesia financeira
e industrial, que acumulara capital fornecendo escrav@s para a América,
concentrada nos núcleos urbanos costeiros, continuava a ser maioritariamente
de origem foránea, -basicamente catalá, basca, espanhola, francesa-,
característica que contribuiu para dificultar a sua imbricaçom
na realidade nacional do país. Posteriormente, essa pujante burguesia
financeira (Olimpio Perez, Soto, Viñas-Aranda, Pastor, Nogueira, etc),
comercial (Simeón, Romero, Olmedo), a que controlava a totalidade dos
transportes excepto os caminhos de ferro, a que hegemonizava as exploraçons
mineiras, a construçom naval, a pesca de altura, o sector lácteo,
conserveiro, madeireiro, eléctrico, financiou e apoiou sem reservas
o levantamento fascista de 1936, pois necessitava derrotar o movimento operário
e popular, e evitar o paulatino incremento da consciência nacional que
já permitira a aprovaçom do Estatuto de Autonomia em Junho desse
ano. O desenvolvimento da luita de classes e das reivindicaçons nacionais
faziam perigar os seus privilégios. Esta burguesia justificou a selvagem
repressom das décadas seguintes e ao calor das específicas condiçons
sócio-económicas da autarquia franquista sentou as bases da
sua imprescindível concentraçom que permitisse concorrer em
novos mercados a partir da década de sessenta e setenta. O Grupo Fernández,
proprietário de Pescanova, Frigsa, Zeltia, Transfesa, Cementos del
Noroeste, etc, ou o Grupo Rodríguez, em menor medida, proprietário
de Larsa, som conhecidos paradigmas da vitalidade da nova classe dirigente
galega, plenamente inserida no bloco de classes dominante espanhol.
A ditadura franquista permitira esta fabulosa acumulaçom de capital por mor das facilidades concedidas polo Estado para impor condiçons sócio-laborais óptimas para a sobreexploraçom e pola absoluta carência de direitos laborais e democráticos da classe trabalhadora.
A impronta da década
de sessenta
A configuraçom
da UPG em 1963-64, como alicerce do nacionalismo galego contemporáneo,
determinou e condicionou o evoluir e a caracterizaçom do soberanismo
até praticamente finais da década de oitenta. O nacionalismo
hegemónico na UPG, embora de matriz marxista, sempre priorizou as reivindicaçons
nacionias sobre as de classe, instalado numha refractária e utilitarista
concepçom da emancipaçom de género e as luitas nom estritamente
economicistas.
Assim, sem cortar o cordom
umbilical com o galeguismo anterior a Guerra civil espanhola, continuadora
do essencialismo e minimalismo nacional do Partido Galeguista, afogada polo
culturalismo, e modulada pola sua própria composiçom da sua
direcçom: pequena burguesia mesocrática e funcionarial, a UPG
construiu e adaptou, ao longo destas quase quatro décadas, umha visom
da luita de libertaçom nacional constringida a umha idílica
e falaz aliança nacional-popular entre todas as camadas sociais "objectivamente
interessadas" em modificar a situaçom de dependência nacional
que padece Galiza, minimizando a existência de umha burguesia própria
e limitando a capacidade da classe trabalhadora para dirigir a sua própria
luita emancipadora. Esta concepçom, -própria da pequena burguesia-,
caracterizada polo exclusivismo patriótico, sempre subordinou a luita
de classes a umha aliança cos sectores "objectivamente antimonopolistas
e antimperialistas" da burguesia, enquadrada numha caracterizaçom
da Galiza como um país terceiromundista. Estes erros estruturais no
ADN político-ideológico, herdados polo conjunto das cissons
independentistas que tivérom lugar (1976/78, 1981, 1986), permitem
compreender e explicar as causas da deriva actual do BNG.
Os sectores do independentismo
galego que continuam situados nestes idealistas parámetros "patrióticos",
desconsideram que a defesa conseqüente da independência nacional,
-só factível desde a esquerda-, radica na compreensom e caracterizaçom
de nossa luita de libertaçom nacional como a forma que adopta a luita
de classes numha naçom carente de soberania. Ou expressado de outro
jeito, é a classe trabalhadora quem deve estar à frente da libertaçom
nacional, pois é quem padece directamente nas condiçons materiais
de existência as conseqüências da opressom nacional. A luita
contra a exploraçom do capital, responsável da opressom nacional
e social de género, só se pode impulsionar desde umha formaçom
social concreta num contexto histórico determinado. No nosso caso desde
a Galiza de inícios do século XXI. Frente ao cosmopolitismo
burguês e frente o isolacionismo populista do independentismo sem projecto
social, característico da pequena burguesia, @s comunistas galeg@s,
-desde os parámetros do materialismo histórico-, proclamamos
e defendemos que a única construçom possível da Galiza
soberana e emancipada só é factível realizá-la
desde a esquerda. A luita de classes é o único instrumento factível
para elevar a consciência nacional e fazer convergir a luita pola independência
com a luita polo socialismo.
As resoluçons do III Congresso de Primeira Linha som muito claras nesta matéria quando afirmam que "para um pequeno povo como o nosso, para umha naçom trabalhadora e periférica na divisom internacional do trabalho que nos tem destinado o imperialismo, a independência nacional nom só é umha alternativa viável, é umha necessidade ineludível para podermos sobreviver. Sem Estado próprio, Galiza desaparecerá irremediavelmente na maré uniformizadora que está aplicando com violência o capitalismo na actual fase de globalizaçom. A sua classe trabalhadora continuará a sofrer umha paulatina agudizaçom das agressons por parte da burguesia espanhola, do bloco de classes oligárquico mundial, e dos seus lacaios locais, -a burguesia intermediária galego-espanholista-, assim como a deterioraçom das suas condiçons materiais de vida". Eis a causa pola que defendemos que a classe trabalhadora se dote de um estado de seu. "Sem Estado, a classe trabalhadora galega carece do instrumento necessário para frear esta deterioraçom, o espólio que padecem os nossos recursos naturais; sem Estado, nunca poderemos recuperar e reconstruir as desfeitas provocadas polas agressons de quinhentos anos de colonialismo; sem Esatdo próprio nom é viável pôr em andamento a construçom de umha sociedade socialista".
Somos um país
periférico do centro capitalista
Galiza nom é umha
estrutura de classes homologável ao erroneamente mal denominado Terceiro
Mundo, Galiza é um país periférico do centro capitalista.
Pertencemos à reduzida nómina de países do "Norte"
que, representando 23% da populaçom do planeta, dispom de 86% do produto
bruto mundial, face aos mais de 4.000 milhons de habitantes dos países
mais intensamente empobrecidos, para os quais ficam os 14% restantes. Contamos
com umha burguesia própria, -embora pouco desenvolvida-, que se beneficia
e perpetua a situaçom de sobre-exploraçom e colonialismo a que
se ve submetido o Povo Trabalhador.
Burguesia que, com as
suas respectivas fracçons associadas, apenas representa os dez por
cento da populaçom do país, mas que concentra e acumula o capital,
controla e manipula os meios de comunicaçom, dirige as forças
coercitivas, enfim, controla todos os instrumentos, todos os mecanismos de
dominaçom, e portanto, perpetua com facilidade este injusto e desumano
sistema.
Os proprietários
e administradores das medianas e grandes empresas, -submetidos voluntariamente
às directrizes e aos interesses foráneos-, mantenhem umha aliança
simbiótica com a oligarquia espanhola e tenhem praticamente as mesmas
responsabilidades que os magnatas e oligarcas do BSCH, de Telefónica,
Repsol ou Endesa, na situaçom que se acha o PTG.
A política d@s
comunistas galeg@s de prática independentista é muito clara
nesta questom. Frente ao interclassismo do autonomismo que renuncia a defender
os interesses da maioria para buscar o respeito da burguesia e integrar-se
definitivamente no regime da burguesia espanhola; frente aos coqueteios com
estes postulados, emanados das incorrectas teses da deturpaçom marxista
promovida pola III Internacional, presentes em sectores do nosso movimento
patriótico, nom tem cabimento qualquer ambigüidade nesta matéria:
o movimento de libertaçom nacional e social de género na Galiza
tem que ter como único sujeito da transformaçom a classe trabalhadora
em aliança com todos os sectores que configuram o Povo Trabalhador.
Com a burguesia autóctone e com a oligarquia espanhola nom temos nada
em comum, mais alá dum antagónico confronto por serem co-responsáveis
da grave situaçom que padecem a imensa maioria das classes populares
deste país e por condenar-nos a seguir padecendo umha opressom nacional
que adopta a forma de colonialismo interno.
O processo revolucionário
galego nom só deve estar comandado pola classe trabalhadora, deve estar
ao exclusivo serviço dos seus interesses. A pequena burguesia, nas
suas diferentes variáveis, -mesocrática, funcionarial ou comercial-,
nom deve hegemonizar a sua direcçom, nom pode elaborar a linha política
táctica e estratégica porque, polas suas origens de classe,
sempre tenderá a buscar pontes e alianças com o capital. A história
das revoluçons está pragada de exemplos desta capitulaçom,
desta constante traiçom. Daí a peremptória necessidade
de manter um nítido discurso de classe, de defender e procurar a hegemonia
da classe trabalhadora na direcçom política do Partido e do
conjunto de entidades da esquerda independentista, combatendo o discurso populista
do interclassismo essencialista, a sua acomplexada e atormentada relaçom
com o autonomismo, as sua veleidades reformistas, por muita aparência
radical que projectem na defesa de todos os métodos de luita. O independentismo
galego nom deve ser a versom radicalizada do autonomismo, umha fotocópia
a cores do galeguismo de Paco Rodríguez e Beiras.
A obreira dum talher têxtil
clandestino, -que com jornadas de mais de doze horas e salários inferiores
aos 300€, carente de contrato, segurança social e os mínimos
direitos laborais-, nada pode ter em comum com o proprietário da multinacional
Inditex-Zara, instalada em Arteixo, por muito que Amancio Ortega Gaona resida
na Corunha e fale galego. Como tampouco é possível desde postulados
progressistas a existência de um instrumento político que, de
parámetros de libertaçom nacional, poda conciliar num programa
comum os interesses antagónicos da operária e do patrom, porque
a exploraçom, a miséria e as penalidades que padece som as que
permitírom a fabulosa acumulaçom dessa fortuna que a dia de
hoje ocupa o posto vigéssimo-segundo no ranquing das pessoas mais ricas
do Planeta segundo a revista Forbes.
A classe trabalhadora galega deve saber que só mediante umha luita de libertaçom nacional e social de género, ou seja, mediante a conquista da independência nacional, que dote a Galiza de um Estado próprio sob a sua exclusiva hegemonia, poderá superar a exploraçom que padece e conquistar a emancipaçom. Mas também deve saber que esta luita se enquadra numha luita global, mundial, que leva desenvolvendo-se desde há milhares de anos mediante o fio vermelho da luita de classes, que explica e permite compreender o desenvolvimento da história da humanidade. Galiza só poderá ser livre desde a esquerda e com o apoio e a solidariedade das classes trabalhadoras e povos do mundo. O independentismo só será plenamente libertador desde coordenadas internacionalistas e revolucionárias.
Galiza, nas tendências
globais
As tendências actuais
do capitalismo mundializado nom som alheias na nossa estrutura de classes.
Na Galiza continua a deterioraçom das condiçons de vida d@s
trabalhadores/as paralelamente com o processo de acumulaçom e incremento
de ganho da burguesia. No mês de Fevereiro, o desemprego aumentou na
Comunidade Autónoma 1'09% situando-se em perto de 150.000 o número
de desempregad@s, mais de 13% da populaçom activa, especialmente agravado
nas mulheres e na mocidade; a precariedade laboral atinge mais de 33% do mundo
do trabalho; a miséria e a marginalizaçom social nom som fenómenos
isolados, mais de 120.000 lares vivem por baixo do limiar da pobreza; o contínuo
crescimento da sinistralidade e insalubridade laboral, o aumento da economia
submersa; som dados, índices sócio-económicos reveladores
dum panorma social em que a metade das famílias reconhece chegar com
dificuldades a fim de mês e 64% nom é quem de poupar algum dinheiro.
Simultaneamente, a um
ritmo estimado de duas fusons mensais, o capital galego concentra e aumenta
o seu poder económico, político, social e ideológico.
Pescanova vem de anunciar um incremento de ... no seu ganho; o grupo San José
um crescimento de 32%; o grupo Coren do 20%, Amáncio Ortega reconhece
possuir 10.556 milhons de euros; o chantadino Francisco González converte-se
no presidente único do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA) após
despedir mais de 10.000 trabalhadores/as.
Ainda alguém acredita
num projecto revolucionário, ou minimamente transformador, sob os parámetros
do interclassismo?. Nós temo-lo muito claro. Só o povo trabalhador
pode liderar o projecto revolucionário que conduza a Galiza para a
soberania nacional plena.
- III Congresso de Primeira Linha. Comunismo galego do século XXI
No sábado 2 de
Março, sob a legenda Comunismo galego do século XXI, tivo lugar
em Compostela, a porta fechada e com a presença dum reduzido grupo
de convidad@s, o III Congresso de Primeira Linha.
O conjunto d@s delegad@s debatérom e aprovárom a Tese Político-Ideológica
e a Tese Organizativa, escolhendo o novo Comité Central que dirigirá
a nossa organizaçom nos vindeiros três anos.

Na Tese Político-Ideológica,
além de realizar umha análise sócio-laboral do nosso
país, determinando com meridiana clareza que a Galiza é umha
naçom periférica do centro capitalista e nom umha estrutura
de classes homologável ao erroneamente denominado Terceiro Mundo, Primeira
Linha elaborou umha análise da concreta morfologia da estrutura de
classes da Galiza, constatando e quantificando a existência dumha burguesia
própria que se benefícia e perpetua a situaçom de sobre-exploraçom
e colonialismo a que se vê submetido o Povo Trabalhador. Burguesia que,
com as suas respectivas fracçons associadas, tam só representa
10% da populaçom da Comunidade Autónoma Galega.
Neste III Congresso @s comunistas galeg@s reafirmamo-nos na ineludível
necessidade de que o movimento de libertaçom nacional e social de género,
em que estamos inserid@s, deve estar comandado pola classe trabalhadora e
ao exclusivo serviço dos seus interesses, segmento hegemónico
da populaçom galega em pleno processo de expansom por mor da proletarizaçom
de amplos sectores procedentes do campesinato.
Também se realizou umha profunda análise do período transcorrido entre Junho de 1999, -celebraçom do II Congresso e abandono do BNG-, e a actualidade. Um período em que tivo lugar umha profunda mudança no seio da esquerda independentista, com a sua unidade orgánica em NÓS-Unidade Popular e o início da reorganizaçom e configuraçom do novo Movimento de Libertaçom Nacional Galego (MLNG), de que fazemos parte consubstancial e imprescindível. Orgulhos@s de termos contribuido decisivamente para a superaçom da atomizaçom e divisom que o independentismo historicamente arrastava, congratulando-nos por ter feito parte do sector que apostou por clarificar os postulados ideológicos, políticos e organizativos das novas organizaçons do novo MLNG, e conscientes do significado de ter ligado o nosso futuro político aos êxitos ou fracassos da Unidade Popular, Primeira Linha ratificou a sua aposta estratégica de apoiar, consolidar, e alargar o projecto unitário, plural e de massas da esquerda independentista, representado por NÓS-UP, e defende que a melhor forma de fazé-lo nom é diluir o projecto comunista nem enfraquecer a sua estrutura organizativa, mas apostar por adaptar-se à nova realidade que supom a reorganizaçom do independentismo, intensificando a própria vida orgánica partidária para realizar umha correcta intervençom política no conjunto do MLNG.
Em terceiro lugar, o nosso Partido ratificou-se na sua natureza de força política de vanguarda, de organizaçom de quadros, germe do partido comunista patriótico, reorientando portanto o nosso trabalho e intervençom externa. Primeira linha considera que o movimento independentista galego tem que agir como revulsivo permanente ante a falsa normalidade democrática do actual regime policial emanado do franquismo. Tensionar a sociedade com imaginaçom e contundência, evitando a indiferença, provocando adesons e solidariedades, estimulando a participaçom popular, nom reproduzindo hábitos políticos tradicionais, devem guiar a intervençom partidária no seio do MLNG.
Em quarto lugar, Primeira Linha avança as sete grandes características básicas do socialismo galego, como primeiro passo da sociedade comunista. Um socialismo nom patriarcal, respeitoso com a natureza, pluralista e comprometido com a verdadeira democracia e as liberdades individuais e colectivas; que aposta sem ambigüidades pola aboliçom da propriedade privada dos meios de produçom, do dinheiro; que renuncia a dotar-se de exército regular; um socialismo criativo de novos seres humanos afastados de todos os vícios e defeitos de séculos de capitalismo; um socialismo global, internacionalista, comprometido com todas as luitas do planeta.
O Socialismo é, e deve continuar a ser, um dos alicerces e, ao mesmo tempo, umha das metas, da esquerda independentista. Renunciar a este elemento seria caminhar para trás na história do movimento, e significaria nom só umha traiçom ao quem nos antecedeu na luita, mas a nós própri@s e ao nosso povo. Qualquer reforma do capitalismo de parámetros de esquerda é umha falácia, umha fraude aos sectores populares. Primeira Linha defende que é necessário ligar a luita, a mobilizaçom, a rebeldia, a construçom de força social, com umha alternativa global: a comunista.

Finalmente, Primeira Linha analisou a nova ofensiva machista e patriarcal do capitalismo, reajustando a sua linha feminista, corrigindo a estendida tese da tripla opressom que sofrem as mulheres trabalhadoras numha naçom colonizada, -a de género, a nacional e a de classe-, afirmando e demonstrando que estes três factores fam parte de umha totalidade concreta historicamente constituída, de umha única opressom global, que definimos como opressom nacional e social de género.
O acordo mais destacável da tese organizativa que se saldou com a renovaçom dos Estatutos e com a ratificaçom do modelo leninista de partido, foi a modificaçom do nome da nossa organizaçom, desprendendo-se das siglas MLN, ficando unicamente como Primeira Linha.
- O botelhom: um problema perfeito para um governo medíocre. Noélia Fernández Marquês
Nas últimas semanas, assistimos, atónit@s, a um torrente de declaraçons e iniciativas do governo espanhol e de várias Comunidades Autónomas e concelhos, a respeito do chamado "problema do botelhom". Parece que, quase de um dia para outro, todos os políticos, com o sempre nunca bem ponderado esforço dos meios de difusom massiva, tenhem adquirido consciência da gravidade do "problema", e esforçam-se para ver quem di a barbaridade e a obviedade mairo a partir do que eles mesmos denominam "binómio álcol-juventude". O pior é que parece que a funçom nom fijo mais do que começar, e assistiremos durante os próximos meses -seguramente até as eleiçons municipais de Junho de 2003-, a umha competiçom de hipócritas, onde se mistura o temor a sair-se do discurso politicamente correcto, o puritanismo, a repressom, etc... Cumpre reflectir sobre o tema: o botelhom, o "problema do botelhom", oculta muito mais do que a preocupaçom dos políticos governantes pola saúde da juventude, ou polas incomodidades da vizinhança das zonas onde a mocidade se concentra as noites da fim de semana.
A criaçom dum
problema
Qualquer pessoa que saiba
somar duas mais duas e se tome a moléstia de acudir a umha hemeroteca
(ou consultar na internet), obervará que o "problema do botelhom",
nasce com o primeiro trimestre do ano. Antes de Janeiro de 2002, é
complicado topar referências ao mesmo: as referências ao botelhom
durante os dous ou três últimos anos nom podemos dizer que sejam
inexistentes, mas desde logo som anedóticas, e nom tenhem nada a ver
com o que se está falar agora. Aqui temos um primeiro dado que cumpre
analisar: o "problema do botelhom" existia antes de Janeiro de 2002?
A resposta é um rotundo NOM.
E nom porque a prática
do botelhom nom existisse antes dessa data, que existia, mas porque "o
problema" é criado nessas datas. A conjunçom autoridades-meios
de comunicaçom (que tam bem funciona sempre), cria o fenómeno
em pouco tempo: a partir dumha data determinada, em todos os telejornais começam
a sair notícias sobre o tema, entrevistas a vizinh@s, declaraçons
de responsáveis de diversas instituiçons, sociólogos
dispostos a dizer o que os políticos querem que se diga, intrépidos
jornalistas a falar sobre as noites de fim de semana da juventude,... Assim,
até dar grande destaque e títulos de capa a factos que se vinham
repetindo com bastante assiduidade nos últimos anos: jovens ingressados
em centros hospitalares por ingesta massiva de álcol, ou por consumo
de outras substáncias, até chegar à morte de duas pessoas,
jovens, por consumo de pílulas num concerto "tecno". Este
era o feito que faltava para comocionar a sociedade espanhola. "O problema"
está criado, e bem criado.
Mas, por que agora?. O
fenómeno do botelhom vem existindo desde há vários anos
, exportando-se dumhas cidades a outras, popularizando-se entre a juventude
como alternativa aos bares, pubs e discotecas, e criando uns certos costumes
e hábitos que nom tenhem sido mais graves ou perigosos (do ponto de
vista do governo, claro) nos últimos meses. Quer dizer: "o fenómeno"
leva com nós muito tempo, por que é que agora se cria "o
problema"? e quem o cria ou colabora para a sua aceitaçom?.
As declaraçons
dos últimos três meses nom recolhem -salvo escassas excepçons-,
a opiniom da mocidade. Nem as organizaçons juvenis políticas,
nem as estudantis, nem @s jovens dos sindicatos, nem sequer os Conselhos da
Juventude e outras instituiçons mais ou menos conformadas/dirigidas
pola juventude, tenhem sido as protagonistas da polémica. Em todo o
suposto debate, quase nom tenhem voz, nom porque nom tenham dito algumha cousa
-algumha organizaçom houvo que apresentou a sua postura e as suas iniciativas
sobre o tema-, mas porque tenhem sido silenciadas. Nada. Zero. A sua opiniom
nom é a opiniom que interessa. Negando-lhes o direito a que as suas
palavras sejam públicas, cria-se a sensaçom de que nada dim,
nada tenhem a dizer sobre o tema. Som jovenes, ergo som culpáveis.
Ponto.
Também as associaçons
vicinais, -que a priori pareciam neste tema um aliado fiel do Governo-, tenhem
desaparecido do mapa, das pantalhas, das páginas dos jornais, dos microfones
das rádios. Nom som ouvidas. Pode ser que estejam a dizer algumha cousa
ao respeito, mas nom se escoitam. A sua visom, as suas propostas, as suas
alternativas, nom som necessárias, nom som úteis, nom interessam.
Umha vez que cumprírom o papel de "tontos úteis",
e colaborárom na extensom e socializaçom do problema, fam-se
desaparecer. Segundo ponto a ter em conta: a voz d@s protagonistas nom interessa.
Se nom falam as associaçons de vizinh@s, nem @s jovens sobre este tema, quem fala? Há páginas e páginas, horas e horas, dedicadas ao tema polos meios de comunicaçom massivos. Quem os ocupa? A resposta é singela: os políticos, em grande parte, e os jornalistas (alguns, destacados, determinados, concretos, jornalistas: os colunistas e criadores de opiniom), que difundem, alargam, respaldam, socializam, o que di o governo e a domesticada oposiçom realmente existente.
Motivos para criar
um problema
Já vimos que "o
problema do botelhom", tem data de criaçom. Porque se cria agora
e nom antes? Há variantes a ter em conta para achar umha resposta.
Eleiçons municipais de 2003. Em Junho de 2003 haverá eleiçons
municipais, e o Partido Popular necessita chegar a elas em boas condiçons
e com capacidade para ganhá-las. A situaçom económica,
que condiciona a situaçom política e social, nom é para
fazer repinicar os sinos. Nom parecem vir bons tempos, e a construçom
desse instrumento capitalista que é a Uniom Europeia, exige cada dia
que se passa mais esforços: a situaçom de Espanha, contrariamente
ao que di o discurso oficial, nom é nada prometedora, e o Governo é
consciente de que para manter-se no que se denomina "grupo de cabeça"
é necessário aplicar e incrementar medidas e decisons que pioram
a situaçom do conjunto da sociedade. Antes de chegar a umhas eleiçons
com temas de debate aos que seja difícil dar resposta, criam-se artificialmente
os problemas e os debates, apresentam-se soluçons mágicas, e
consegue-se chegar às eleiçons com o rótulo no cartaz
eleitoral de ter solucionado um dos mais graves problemas, senom o mais grave,
da juventude (que ainda nom vota) e dos pais e as maes (que sim votam) da
Espanha moderna de que José Maria Aznar tanto fala. Umha exitosa campanha
publicitária para dar a imagem dum Governo e um Partido que se preocupa
pola sociedade e tem iniciativas políticas adequadas. "O problema
do botelhom" mede-se, na sede do Partido Popular da rua Génova
de Madrid, em votos. E os seus cálculos resolvem que som muitos os
votos que vale. Os necessários, pensam, para poder sair vitoriosos
das eleiçons: o PP resolve os problemas da cidadania, dirám.
Esquecerá-se-lhes dizer que, além de resolvê-los, cria-os.
Umha cortina de fumo. A virtualidade deste "problema" é que é muito atractivo. Reúne todas as características para converter-se num tema estrela da política espanhola. Tem morbo, cria grandes polémicas, permite que qualquer com acesso a um microfone poda opinar, gera expectaçom, ao tempo que insegurança, preocupaçom, até medo nas maes e nos país, que pensam seus filhos e filhas poderem acabar num centro de reabilitaçom de drogodependentes por participarem nesses rituais chamados botelhons. Os meios de comunicaçom cumprem perfeitamente o seu papel, e com a mistura habitual de desinformaçom, mentiras, distorsons e saturaçom, criam umha situaçom perfeita para o governo. Os problemas nom som o desemprego juvenil, a falta de expectativas laborais, o vácuo existencial dumha sociedade lançada ao consumismo exacerbado e ao individualismo como forma de vida, as dificuldades para topar alternativas no tempo de ócio e de lazer, a situaçom do ensino,..., só por falarmos dos problemas da juventude. Nom. O problema é "o problema". E disso é que se pode falar: centos de vozes a criar confussom sobre o mesmo tema. Ruído. Umha estupenda cortina de fumo para tapar o que realmente som problemas graves. Umha polémica que levanta tantas, ou mais, paixons do que o futebol.

A juventude espanhola mais capacitada da História. Com esta grandiloqüência, tam habitual no PP e no seu presidente, referem-se nas campanhas eleitorais à juventude desde o Partido Popular. A juventude mais preparada, a mais lesta, a mais disposta, a mais estudiosa, a mais trabalhadora, a mais Todo. Isso é nas campanhas eleitorais. Porque sabem que é necessário o voto da juventude para manter-se onde estám, é há que vender-lhes a moto. Mas, repetimos, isso é na época eleitoral. Porque de repente, essa juventude preparada, moderna e capacitada, botou-se-lhe à rua ao PP como nom tinha feito nos últimos vinte anos. A LOU conseguiu acordar os sentimentos de rebeliom dumha grande parte da mocidade, e em diversos pontos do Estado (destacando entre eles a Galiza e concretamente Compostela), milhares de estudantes, juntamente com professores e PAS, saírom à rua. NOM À LOU!!!, berravam com clareza, e no Partido Popular nom eram capazes de perceber o que se passara para que tantas pessoas mostrassem um mínimo de vitalidade e rebeldia contra as suas actuaçons. Ainda mais: esses protestos, e sobretodo a juventude, a juventude preparada e capacitada, ganhavam simpatia social e apoios cada dia que se passava. E a direita, tam disposta a resolver sempre os problemas pola força sem preocupar-se por entendê-los, varia o discurso: a juventude já nom é a mais moderna, a mais capacitada, a mais preparada; a juventude som umha récua de bêbados, drogaditos, radicais violentos, agressivos,...: a reencarnaçom do mal.
Se se manifestam contra
a LOU nom é porque lhes preocupe a situaçom do ensino, é
porque som preguiceir@s, maleantes, influíd@s por más companhias,
imitadoras/es da kale borroka, dirigid@s por umha escura mao negra (Manuel
Fraga nom parava de repetir, durante as mobilizaçons da LOU, que os
estudantes estavam a ser manipulad@s). E, com certeza, som umha minoria: perante
a evidência das multitudinárias manfestaçons contra a
LOU, o Governo espanhol esforçava-se, com a ajuda da televisom, em
falar de pequenos grupos, minorias, sectores nom representativos, grupúsculos
radicais incontrolados, etc... Para curar-se em saúde, e prevendo protestos
contra as leis de reforma (contrarreforma) das ensinanças médias
e a FP, o Governo prepara umha boa campanha de imagem contra a juventude:
toda a juventude é bêbeda. Já nom há argumentos
possíveis: como umha juventude drogadita e alcoolizada vai influir
nas decisons dum governo sério, europeu e responsável?.
O puritanismo. No meio de todo esse maremagnum de asneiras, obviedades, falsidades e intoxicaçons, também se escuita a rançosa voz de quem pensa que há que recuperar valores perdidos. Manuel Fraga, presidente da Junta, explicava em 21 de Março no Parlamento autoanémico galego, que "o problema do consumo abussivo de álcol e drogas está agravado na actualidade", relacionando-o "com a crise da família, a fraqueza da Igreja ou a perda de determinados valores éticos" . Segundo ele, este problema tem que solucionar-se "desde a escola, a família ou o controlo da publicidade", resaltando o "desagrado que lhe produz ver os moços e as moças a vomitarem na rua os dias que tem oportunidade de ir pescar cedo". Seguindo com as suas declaraçons, que nom tenhem desperdiço, asseverou que "ninguém pode culpar o PP ou a Administraçom do problema da movida", e lembrou que Tierno Galván, falecido alcalde "socialista" de Madrid, "dizia que havia que deixar algum lugar à gente para se poder colocar" . Nom foi o único a soltar a língua a pascer e, por citar um outro caso, o delegado governamental do Plano Nacional sobre Drogas, Gonzalo Robles, explicava em 7 de Fevereiro, que um grave aspecto do binómio álcol-juventude, era que "nos últimos anos se detectou umha feminizaçom -que Robles aguarda conjuntural- no hábito do consumo", de forma que as moças de 14 a 18 anos que bebem superam os moços . "O problema" é que as moças bebem mais do que os moços, onde havemos chegar!. Nom som, desde logo, os únicos exemplos: recorrendo a imprensa dos dous últimos meses podem-se topar artigos e notícias que aprofundam no aqui exposto. Existe umha corrente de pensamento hiper-puritanista no seio da direita espanhola que tem neste tema umha evidente possibilidade de exprimir-se.
Que quer resolver o
Governo?
Desde logo, é evidente
que em todo isto, o que menos preocupa ao Partido Popular é a saúde
da juventude. A saúde pública, que é um dos argumentos,
é empregada como coarctada. As declaraçons das autoridades nom
deixam lugar a dúvidas: o problema nom é que a juventude beba
nem que beba muito, o problema é que o faga ao ar livre, nas praças
e ruas das vilas e cidades, à vista de todo o mundo. Se bebem em bares,
em pubs, em discotecas, ou nas suas casas, nom é problema. E o problema
é exclusivo da juventude, tal e como o apresenta o Governo, quando
o certo é que os dados mais preocupantes e graves de alcoolismo se
situam a partir dos 40 anos. Também nom se fala da qualidade das bebidas
que se consumem, se estám ou nom em boas condiçons, se som o
que realmente di a etiqueta da garrafa que som, igual que nom se fala da necessidade
de ter umha educaçom e umha cultura no referente a estes temas. Nada
disto está na boca do Governo espanhol: o problema é que se
bebe nas ruas e a soluçom é proibi-lo e aumentar a repressom.
A sua preocupaçom nom é a juventude. Se fosse assim, poderiam
pensar em solucionar um problema muito mais grave, por citar só um
exemplo: recentemente conhecia-se o dado de que quase a metade da populaçom
do Estado espanhol nom lê nada habitualmente. Isso sim que é
um problema grave.
Muita polícia, pouca diversom. Aqui está um dos problemas reais que o Governo do Partido Popular quer resolver: mais polícia, mais repressom. O clima social criado após o 11 de Setembro favorece medidas deste tipo: a soluçom a qualquer problema é a mao dura, a repressom, a proibiçom. O que se persegue é aumentar a presença policial nas ruas, amplificar o controlo social, interferir na criaçom dumha consciência colectiva entre a juventude que possibilite a rebeldia, a resposta aos ataques do poder, a rebeliom. Preocupa-lhes a sua participaçpm no movimento antiglobalizaçom, nas luitas estudantis. E fazer todo isso com os menores custos políticos. A polícia está na rua para proteger a cidadania e evitar que a juventude se embebede e drogue na via pública, di o Governo espanhol.
Quem se atreve a criticar
isso?. É a versom policial das missons humanitárias do Exército
espanhol, com que se pretende limpar e melhorar a sua má imagem. "O
problema do botelhom" possibilita que a pretendida soluçom, mais
polícia, mais repressom, mais controlo social, seja aceitada sem apenas
discusom. Como quando se argumenta que as cámaras de videovigiláncia
nas ruas das cidades som para prevenir a delinqüência, e nom para
controlar a populaçom. Quem nom figer nada de mau, nom terá
nada a temer: quem nom praticar o botelhom, nom deverá ter medo à
polícia . De certeza, a correcçom política imperante
impede que nengumha organizaçom política séria se afaste
deste razoamento.
A saúde pública
e a ordem pública. O Governo e demais coro desta opereta, nom podem
admitir que estejamos perante um problema que tenha qualquer cousa a ver com
a saúde pública. Admitir isso seria admitir um grave problema
na Espanha que vai bem. Nada de saúde pública. As conseqüências
que puder ter a ingesta massiva de álcol, ou de outras substáncias,
forem ou nom legais, nom importam. Nom se trata disso. O Governo tem-no claro:
estamos perante um problema de ordem pública, nom de saúde pública.
Se fosse um problema de saúde pública, haveria que procurar
outras soluçons que nom som as que interessam. Nada de analisar as
causas do botelhom; nada de trabalhar sobre os motivos; nada, certamente,
de medidas de educaçom e explicaçom sobre as drogas, o álcol
e outras substáncias; nada de nada. Se o problema é de ordem
pública (malandros bêbados a sementar o terror nas noites e impedindo
a folga de pacíficos cidadaos), a soluçom será de orde
pública: mais polícia, mais multas, mais repressom. Isso é
o que já estam a fazer muitas comunidades autónomas e concelhos,
e o que outros já preparam. Todo se soluciona com multas e avisando
os pais de quem beba na rua .
E como todo é um problema de ordem pública, a soluçom mais fácil: proibir.
Pretende-se proibir o
consumo de álcol nas ruas. Mas, a quem? Ao conjunto da populaçom?
Só à juventude? Nom se poderá beber nunca na rua? E as
terraças dos bares? E as festas populares (magustos, Sam Joám,...)?
E nas festas patronais? Proibirá o Governo espanhol a tradicional e
típica imagem de centos de pessoas bebendo, berrando e saltando na
Porta do Sol em Madrid nas noites de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro? Haverá
excepçons à proibiçom? E quem decide as excepçons?
Poderá alguém beber umha cerveja na porta da sua casa sem temor
a ser denunciad@? Nom serám demasiadas excepçons?
A História já
nos ensinou que a proibiçom nom evita o consumo (antes ao contrário,
potencializa-o), e fai com que este, ao estar sem regular, seja ainda mais
perigoso e nocivo. A Lei Seca estado-unidense é já um tópico
nesta argumentaçom, mas continua a mostrar a inutilidade dumha medida
dessas características. Inutilidade se o que se pretende é melhorar
a saude pública. Mas o Governo nom pretende isso.
O Estado ingressa todos
os anos grandes quantidades de dinheiro, centos de milhons, provenientes dos
impostos directos sobre o álcol, bem como de outras substáncias.
Como pode ao mesmo tempo dizer que beber é nocivo e ingressar tanto
dinheiro pola venda de dumha substáncia nociva? A soluçom nom
é continuar a aumentar a idade para poder beber , mas educar e informar
a juventude, e o conjunto da sociedade, sobre o tema.
Alternativas de ócio
e tempo livre. Os mais progres esforçam-se em explicar que a soluçom
passa polas alternativas para a juventude. Mas o problema desses programas
de ócio, tanto na moda, é que estám programados, na sua
imensa maioria, sem contar com a juventude e vam dirigidos a umha minoria
de jovens que nada tenhem a ver nem em idade nem em hábitos com os
assiduos do botelhom. É necessária a revisom dos objectivos
desses programas, implicando neles directamente as entidades juvenis, tanto
na sua gestom como no seu desenvolvimento. Trás de si ocultam, aliás,
um discurso paternalista e puritano refractário para umha grande parte
da juventude: a razom de existir dos programas de ócio é, segundo
os seus promotores, evitar que a juventude beba, ou que atrase a idade de
iniciaçom à bebida ou às drogas. Mas a juventude sabe
que nem o álcol nem as drogas som incompatíveis com jogar futebol,
escuitar poesia, praticar aeróbic, ir ao teatro ou aprender a cozinhar.
Em todo o caso, devemos
pensar qual é a alternativa que se oferece. É que por assistir
às actividades programadas polo Concelho, @s jovens vam ter mais possibilidade
de topar trabalho? Vam-se poder emancipar antes dos 30 da casa d@s pais e
maes? Tenhem mais possibilidades de desfrutar dum ensino público, de
qualidade e gratuito? Vam poder aceder a um andar em propriedade ou em regime
de aluger? Em resumo: as alternativas de ócio e tempo livre resolvem
as causas reais de fenómenos como o botelhom? Resolvem a falta de expectativas
vitais da juventude? A resposta é NOM. Para resolver esse problema,
haverá que actuar sobre as causas, e para isso é necessário
dar respostas globais em todos os ámbitos. O botelhom nom é
um problema de ordem pública, é um problema da ordem social
e económica em que vivemos, que cria um sistema realmente injusto,
individualista, insolidário, desestruturado. Se nom desaparecerem as
causas, nengum parche parcial resolverá o problema. Nem a repressom
nem os programas de ócio.
A mentalidade consumista
e evasiva imposta polos grandes meios de difusom e propaganda, e umha sociedade
baseada na defesa e nas regras do mercado por cima das pessoas e dos povos,
provocam que o conjunto da sociedade nom tenha mais aliciente, nem preocupaçom,
do que a evasom e o consumo. A juventude também procura isso, mas nom
dispom de recursos económicos suficientes, e cria a sua própria
alternativa. Nom tenhem dinheiro para desfrutar da evasom em locais fechados,
e ocupam as praças. O botelhom é o reflexo dumha sociedade doente.
Há que modificar, transformar, a realidade. É possivel um mundo
sem botelhom, mas isso será noutro mundo possível, nom neste.
Um mundo onde a economia, a estrutura e a sociedade, a superestrutura, estejam
ao serviço da humanidade, das maiorias, e nom ao revés. As regras
do mercado conduzem-nos ao caos, e o botelhom é umha mostra disso.
Nom podemos permitir a repressom da sociedade, da juventude, a militarizaçom, o reforçamento e sofisticaçom dos corpos repressivos e dos seus métodos, o recorte das raquíticas liberdades formais burguesas que hoje em dia desfrutamos. Devemos denunciar as causas, dar a batalha ideológica, o debate político, e nom apostar por falsas soluçons idealistas que só atendem as conseqüências obviando os motivos, a base material que as provocam.
- Catalunha, meio milhom de pessoas contra a Europa do Capital. Albert Hirujo
Enquanto @s chefes de
Estado europeus se fechavam no seu bunquer-fortaleza, rodeados de todo o tipo
de seguranças extremas perante um possível ataque "terrorista"
ou d@s manifestantes violent@s, as ruas de Barcelona eram tomadas por mais
de meio milhom de pessoas pertencentes aos diferentes e diversos movimentos
sociais que tingem de cor a vida apagada e cinzenta desta cidade.
Na quinta-feira 14 de
Março os sindicatos amarelos da Europa convocados pola CES (Confederaçom
Europeia de Sindicatos) manifestárom-se para solicitar mais Europa
e mais coesom social. Fôrom umhas 100.000 pessoas, entre as que cabe
destacar o bloco de sindicatos nacionalistas conformado pola Confederació
Sindical Catalana (I-CSC), LAB, Intersindical Canária e outros sindicatos
nacionais da Europa, que tentou entrar no bloco da CES, após da CIG
e ELA, mas nom logrou pola "efectividade" do serviço de ordem
de CC.OO e UGT que lhes impedírom entrar na manifestaçom até
o final.
Nos dias 13 e 14, @s estudantes
da Universidade de Barcelona ocupárom a Faculdade de Económicas
dentro da zona de segurança para protestar polo fechamento de várias
faculdades tomadas polo serviço de segurança da cimeira, nom
sem antes "esclarecer, por se alguém o duvidava, que a libertaçom
deste espaço público é um acto de desobediência
civil pacífica", tendo pactuado de antemao a data de saída
da faculdade.
A sexta-feira realizou-se
umha jornada de luita descentralizada polos diferentes bairros barceloneses
e polos povos próximos, dando espaço livre às diferentes
maneiras de entender a luita contra a construçom europeia e a globalizaçom.
Assim, pudemos ver como vizinhos e vizinhas do Raval comiam sardinhas na rua,
como antiglobalizadores reivindicavam umha nova cultura do transporte nom
poluente a passearem polas ruas numha "bicecletada", como os caça-lobbies
denunciavam as multinacionais e os grupos de poder europeus.
Além destas pitorescas
formas de reivindicaçom, também houvo duas convocatórias
de choque: a de Març-Attack, organizada por sectores autónomos,
e a de Gràcia, organizada polo independentismo catalám. Ambas
nom pudérom manifestar-se com total tranquilidade devido à alta
presença e prepotência das forças de ocupaçom espanholas.
O dia saldou-se com umha trintena de detid@s.
No sábado 16 decorreu
a grande manifestaçom, a mais multitudinária das que se conhecem
em Barcelona, e a mais grande das que se realizárom desde que se iniciou
o movimento antiglobalizaçom mundial. A manifestaçom contou
com três blocos com discurso próprio: o bloco da Campanya contra
l`Europa del capital, que inclui diferentes organizaçons e movimentos
sociais cataláns, o bloco da Plataforma catalana contra l`Europa del
capital, integrado por quase todas as organizaçons e colectivos independentistas
e as diferentes delegaçons internacionais dos povos em luita pola sua
libertaçom nacional e social, e o bloco do reformismo do Fòrum
Social de Barcelona. O bloco reformista afinal decidiu desconvocar a manifestaçom
minutos antes de sair, e o bloco independentista nom deu concluído
o percurso polos incidentes e cargas policiais que acontecêrom no final
do primeiro bloco. Ao todo, o dia findou com mais de 60 detid@s.
Da esquerda independentista
catalá, cabe fazer várias valorizaçons ao respeito. De
umha parte, a consolidaçom de um espaço independentista claro
cum discurso próprio no seio do movimento antiglobalizaçom,
pondo ênfase na libertaçom dos povos como garantia para construir
umha Europa livre e solidária e nom dos Estados-Naçom burgueses.
E de outra parte, o futuro que depara ao movimento antiglobalizaçom
catalám e mundial para afrontar os reptos perante o processo de construçom
europeu e de mundializaçom da economia, após a forte entrada
do reformismo para acalar e controlar o movimento.
Longa é a listagem de intervençons do reformismo para controlar
e absorver movimentos tam amplos e heterogéneos como este, e conduzi-los
polo caminho da claudicaçom e a inoperância, formulando o pacifismo
como único método de reivindicaçom, que nom de protesto,
e a assim fácil integraçom dentro do sistema.
Unicamente a madurez e a coerência política da esquerda independentista, em aliança com outros sectores revolucionários, poderá conter as infiltraçons reformistas dentro do movimento e dotá-lo da capacidade transformadora radical perante o engendro, o mostro que está em construçom, que é a Europa do Capital.
Albert Hirujo é
membro da Executiva Nacional de Endavant (OSAN)
- Venhem aí as "medidas impopulares"!. Política Operária
· Reproduzimos a valorizaçom que @s noss@s camaradas potugueses/as da Política Operária realizam dos resultados eleitorais à Assembleia da República do passado mês de Março.
As próximas jornadas do 25 de Abril e do 1.º de Maio deverám ser umha primeira demonstraçom de resistência às medidas que o patronato e a direita anunciam.

1. Em termos eleitorais, a direita representada polo PSD e polo CDS tivo
umha vitória escassa, politicamente precária.
Em sucessivas eleiçons, o eleitorado tem-se dividido em dous grandes núcleos: o da abstençom, que nestas eleiçons representou 38% do total d@s eleitores/as; e o do centro formado polo PSD e polo PS, que agora captou 78% dos votos, isto é, 48% do eleitorado. Nom é demais evidenciar o nível e a persistência da abstençom, que significa, de um modo ou de outro, que 40% dos potenciais votantes virou costas ao sistema político e ao quadro partidário.
2. O patronato apostou
fortemente numha maioria de um só partido na tentativa de obter umha
equipa governante homogénea, mais fácil de conduzir.
A superconfederaçom patronal constituída nas vésperas da campanha eleitoral e toda a direita julgárom, depois da quebra do PS nas autárquicas de Dezembro, ter o caminho aberto para umha ofensiva de política dura. Julgárom poder anunciar sem reservas um programa de confronto com as classes trabalhadoras, agitando os fantasmas da "ineficácia" do Estado e das polícias, da crise dos negócios, do atraso em relaçom à Europa, da baixa produtividade, e por aí fora. Apesar dos esforços, ou talvez por isso mesmo, a manobra falhou.
3. A classe operária
e as classes assalariadas receiam naturalmente as medidas de ataque aos salários,
às pensons e ao emprego que foram anunciadas, mas a maioria nom vê
opçom política realista senom entre a versom de direita moderada
do PS e a versom de direita aberta do PSD.
Nom admira pois que umha parcela dessas classes componha o eleitorado de centro que tem vindo a decidir das vitórias eleitorais. Esse centro, que nas eleiçons autárquicas pendeu para o PSD - facto que parecia anunciar umha onda de direita - assustou-se depois com as ameaças conjugadas do PSD e do CDS. Nom pola chicana em torno dos estádios de futebol, mas por pressentir o ataque às suas condiçons de vida. Parte dessa base eleitoral foi assim perdida polo PSD, provavelmente durante a própria campanha eleitoral.
4. Na origem da queda
do governo PS nom estivo umha crise política grave. Nem grandes protestos
sociais, nem grandes confrontos partidários.
O ambiente nacional e
internacional em que o capitalismo se move é, porém, inquietante.
E isso é que decidiu os meios do grande capital a tentar dotar-se de
umha equipa governante mais eficaz. Grande parte dos subsídios europeus
chegam ao fim ou vam ser fortemente reduzidos. Dos centros de decisom da Uniom
Europeia chegam agora exigências inflexíveis de limitaçom
dos encargos do Estado e pressons para que se apresse a reforma das leis que
protegem o emprego. A viragem dos investimentos para o leste europeu, a agudizaçom
da competiçom UE-EUA, colocam o capital português em situaçom
ainda mais periférica e mais dependente. Um pequeno núcleo de
grandes capitais aproveita das ligaçons ao capital europeu; mas umha
quantidade muito grande de capitais médios e pequenos, sem vida independente
fora da órbita do grande capital, é fustigada polas exigências
da internacionalizaçom. A sobrevivência de um e de outros exige
condiçons mais duras de exploraçom da mao de obra.
Para levar a cabo tal política, a burguesia necessita de maior capacidade para enfrentar protestos sociais. É ponto chave do programa do capital o reforço dos meios de acçom do Estado e particularmente dos meios de repressom. A campanha que explora a insegurança das populaçons para exigir maiores poderes policiais serve esse objectivo.
5. Na falta de umha
base de apoio eleitoral suficiente para legitimar as medidas drásticas
preconizadas polo o patronato, o PSD tivo de recorrer à constituiçom
de umha maioria de direita com o CDS que lhe dê, em termos aritméticos,
base parlamentar para sustentar um governo.
A Convergência Democrática associa as posiçons de direita do PSD com as de extrema direita do CDS. A política que aí vem só pode ser identificada como umha política da direita.
6. A anterior "maioria
de esquerda" em que o PCP e o BE apostaróm e de que o PS beneficiou
quando lhe deu jeito e enquanto pudo, desfijo-se.
Mas nom é garantido
que as ilusons sobre umha outra "maioria de esquerda" nom se renovem.
Agora mais à direita! Com o PCP em crise e com o Bloco de Esquerda
limitado polas suas próprias dimensons e polas suas opçons de
luita parlamentar, o PS vai querer fazer figura, na oposiçom, de única
alternativa à direita, e por essa via concitar apoios. Mesmo sabendo-se
de antemao que com essa postura oposicionista "de esquerda" o PS
nom perderá a sua natureza situacionista, somando os seus votos aos
da direita sempre que puder invocar os "interesses nacionais" ou
o "sentido de Estado".
Fazer depender deste quadro
a oposiçom à direita, seria a renovaçom, em versom ainda
mais degradada, da incapacidade que tem impedido as massas trabalhadoras de
terem na vida política portuguesa umha voz própria e umha presença
independente dos arranjos parlamentares.
A oposiçom à maioria de direita só pode ser conduzida
de fora da Assembleia da República. Os meios de acçom som a
rua, as empresas, as comissons de luita d@s trabalhadores/as, os sindicatos
que optem por umha linha de luita de massas e de classe.
- Êxito sem precedentes das mobilizaçons anticapitalistas na Galiza
Milhares de manifestantes
secundárom as mobilizaçons convocadas pola Plataforma Galega
por umha Europa alternativa contra a cimeira de ministros de Interior e Justiça
realizada na capital da Galiza 13, 14 e 15 de Fevereiro.
A esquerda anticapitalista
galega logrou superar com êxito a primeira prova da sua capacidade para
organizar a resistência e a oposiçom popular a reuniom dos ministros
da repressom celebrada em Compostela, coincidindo com o semestre de presidência
espanhola da UE.
Apesar das datas, em plenas
festas do entruido e com a universidade paralisada por exames; das dificuldades
iniciais para estruturar a resposta popular por mor do sectarismo, miopia
política e covardia de certas entidades supostamente alternativas;
das práticas oportunistas e da instrumentalizaçom da CIG polo
autonomismo; da negativa do governo municipal do PSOE-BNG e da Reitoria da
USC a conceder instalaçons públicas para a realizaçom
de actividades; da ocupaçom policial da cidade; da manipulaçom
dos meios de comunicaçom, especialmente de El Correo Gallego; da perseguiçom
e repressom de activistas nos dias prévios; a maioria das actividades
previstas devem ser avaliadas como um rotundo êxito.
A censura municipal contra
a campanha propagandística na rua foi parcialmente neutralizada com
concentraçons diárias, na semana prévia, na cêntrica
praça da Galiza, denunciando a presença de 4.000 membros das
forças de ocupaçom. O Foro Social Alternativo celebrado na afastada
faculdade de Filosofia concentrou durante três dias consecutivos centenares
de pessoas que seguírom com interesse os debates sobre diversos aspectos
das luitas contra o capital, no que além de diversos representantes
dos movimentos sociais galegos, do sindicalismo, da intelectualidade crítica
e comprometida, participárom companheir@s de Batasuna, Endavant (OSAN),
LAB e Política Operária, proporcionando a imprescindível
dimensom internacionalista a umhas jornadas realizadas da óptica da
esquerda patriótica como país periférico e dependente
que somos.
As duas manifestaçons, convocadas no serám de 13 e 14 de Fevereiro, ultrapassárom amplamente as expectativas, -perto de 1.500 pessoas na primeira e 2.000 na segunda-, apesar do alarme social promovido pola imprensa e as autoridades espanholas (municipais, autonómicas e estatais), das constantes provocaçons dos centos de polícias que "escoltárom" as marchas, e do helicóptero que sobrevoava constantemente as mobilizaçons lançando um poderoso feixe de luz sobre a nutrida representaçom da Galiza rebelde que nem se enrugou, nem se deixou coaccionar pola repressom policial e mediática.
A instrumentalizaçom
da CIG polo BNG
Resulta sangrante o silêncio mantido pola direcçom da Confederaçom Intersindical Galega desde que recebeu, em Dezembro, a carta enviada por NÓS-Unidade Popular para assistir, em regime de autoconvocatória, à primeira reuniom preparatória do que posteriormente se constituiu com