Tornarmos proveitoso o contexto adverso

Eduardo Sanches Maragoto

A aprovaçom pola RAG da reforma da normativa "oficial" já mereceu várias análises de pessoas e colectivos reintegracionistas. Em geral, a opiniom dominante entre nós é que, por um lado, o "acordo" representaria um pequeno avanço quanto à forma da língua (na variedade galega "oficializada"), um pouco mais próxima agora das outras variantes do galego-português no mundo, mas, por outro lado, teria feito retroceder as posiçons mais ou menos pró-reintegracionistas da maioria do movimento normalizador, o qual nom pode ser visto com júbilo, tendo em conta o actual estado da língua e a fraqueza do próprio movimento normalizador no País.

Verdadeiramente, nem houvo mudanças significativas na norma "oficial", polo menos para podermos falar de avanço, nem se produziu um recuo significativo nos postulados do nacionalismo maioritário, pois nos últimos anos já se tinha verificado na prática um abandono da ortografia de mínimos. Nom obstante, é provável que nos próximos anos se venham a redistribuir com mais nitidez os espaços que ocupam os diferentes discursos da língua na Galiza e os seus correlativos políticos, quer dizer, ainda que a sociedade, em geral, nom chegue a ter mui presentes as mudanças operadas na recente reforma, os agentes do conflito normativo podem passar a estar em lugares bem diferentes aos que agora ocupavam no ranking de possibilidades comunicativas com essa mesma sociedade.

Assim, é evidente que tanto o independentismo como o reintegracionismo poderám passar a ser, em exclusiva, detentores do único projecto cultural e lingüístico viável para o País, o único, aliás, diferente do emanado das instituiçons, mas também o é que o terám que defender sós e mais afastados que nunca de qualquer outra proposta, tornando-se o diálogo mais esporádico, e a incorporaçom de nova base social, complicada.

Esta situaçom deveria pôr-nos a reflectir. Havia anos que estávamos a sofrer um imobilismo do qual nada beneficiávamos. Saberemos agora reagir perante umha situaçom adversa, superando-a em nosso favor? Amiúde, temos sobredimensionado a nossa capacidade para influir noutras organizaçons normalizadoras e nacionalistas, talvez porque pensávamos, ingenuamente, que as reticências das mesmas para assumir o reintegracionismo assentavam só na falta de informaçom ao respeito. Ao mesmo tempo, desconsiderávamos a nossa unidade e mesmo as possibilidades de enraizar o nosso projecto na sociedade. Considerávamos que possuíamos um razoado nom apto para todos os públicos, só compreensível no seio do nacionalismo mais conseqüente. Na minha opiniom, é já tempo de passar a instalar-se numha posiçom mais hegemónica dentro do movimento galeguizador, mais firmes que nunca na nossa postura ortográfica e na certeza da nossa razom, mas também mais capazes de trabalhar com qualquer pessoa favorável ao idioma, rejeitando maximalismos e mostrando maior disponibilidade a assimilar os diferentes ritmos desta sociedade quanto a umha questom que, por afectar a identidade da mesma, deverá tratar-se com delicadeza em espaços onde, por enquanto, nunca temos estado.

Qual é exactamente a nossa situaçom?

1. A respeito do poder autonómico, estamos onde sempre estivemos, mas talvez mais isolados. Na verdade, nunca chegámos a representar um problema grave para a Junta, para além de isolados casos de dissidência no ensino. Isto nom quer dizer que a nossa expansom nom pudesse vir a significar no futuro um sério "problema de estado", pois feriria mortalmente as "harmónicas" relaçons entre o galego e o espanhol que a normativa oficial assentou. O reintegracionismo, por sua vez, costumou adoptar a respeito das conselharias que o baniam, umha atitude de vítima, que, se pudo dar os seus frutos no passado, quando gozávamos da compaixom solidária do conjunto do nacionalismo, agora deixa de fazer sentido. A Junta nom só está a fazer bem o seu trabalho de assegurar a mais ou menos litúrgica sobrevivência do galego entre a abafante presença do castelhano, como também o de anular a oposiçom que de vez em quando dava ao reintegracionismo algum fôlego. A reforma ortográfica, a admissom da RAG, do ILG ou do Centro Ramom Pinheiro entre os nom detestados polo nacionalismo e um futuro Plano de Normalizaçom Lingüística, deixam ver que, por um lado, o mundo do BNG deixará definitivamente de fazer oposiçom por nossa causa, e por outro, que a Junta vai passar a desfrutar de certa comodidade e beneplácito em matéria lingüística, situaçom que, evidentemente, nom vam aproveitar para fazer-nos qualquer cessom. Com este panorama, basear a nossa estratégia unicamente na crítica ao estabelecido, topará só com umha realidade impassível à nossa contestaçom.

2. A respeito do nacionalismo maioritário (e afins como A Mesa ou a AS-PG), verdadeiro sector promotor do acordo, o reintegracionismo é, hoje em dia, mais desinteressantes do que para a própria Junta, pois todos os objectivos estratégicos definidos polo nacionalismo institucional para a língua passam por umha prévia relaxaçom do conflito da língua em todos os frentes, e portanto, a presença do reintegracionismo torna-se incómoda. Fazer avançar o reintegracionismo neste mundo, polo menos por vias organizativas, semelha impossível. De facto, nem a pressom do reintegracionismo tem algo a ver com a reforma anunciada, nem poderá originar novas reformas no futuro próximo. Que esta se levasse a cabo só tem a ver com a necessidade do BNG de capitular de umha normativa "fora da legislaçom" e incómoda, que lhe obrigava a manter umha posiçom pública ao respeito. Vincular-se à legalidade é hoje em dia extremamente importante para o BNG e afins, às vezes mais do que desvincular-se daqueles organismos que a questionam. Mas o abandono da tensom ortográfica implicará com certeza outros abandonos. Um Novo Plano de Normalizaçom Lingüística, por exemplo, poderá principiar, entre as conselharias e os organismos nacionalistas, relaçons de simples matizaçom, que substituirám as antigas de confrontaçom. Por outro lado, a comunicaçom com o resto da lusofonia, poderá ficar ainda mais relegada do que estava dentro das prioridades no programa de normalizaçom lingüística. Nesta situaçom, pensar que se pode incidir neste mundo pola via do convencimento ou que a nossa pressom terá qualquer incidência nele, é, na minha opiniom, ingénuo.

3. Falta ver onde estamos a respeito dos e das utentes do galego, nomeadamente daqueles e aquelas mais activas na defesa da língua, que durante anos fôrom vendo como o nacionalismo pára-institucional ia relaxando a velha luita do idioma e se mostrava cada vez mais incapaz de gerar ilusom polo galego. Ao mesmo tempo, fôrom vendo como as nossas argumentaçons se faziam cada vez mais pertinentes no novo mundo das comunicaçons. Em 1999, muitos e muitas intelectuais saíram à palestra para reivindicar a necessidade de afirmar a unidade da língua galego-portuguesa. A resposta em 2003 foi umha reforma que proporcionou mais apoio social às propostas isolacionistas, que reforçou a autoridade da RAG, e que alinhou com a Junta, em matéria lingüística, a principal força política do nacionalismo galego.

É sem dúvida neste sector onde o reintegracionismo terá que centrar os esforços. Som muitas as pessoas com mais ou menos sensibilidade reintegracionista, ou mesmo só preocupadas, sem mais contemplaçons, polo futuro da língua, defraudadas pola deriva dos organismos que por enquanto eram os seus referentes. Som pessoas que talvez nom tenham clara a questom da unidade da língua ou que nom identificam ainda claramente a relaçom entre normativizaçom e normalizaçom. Mas som pessoas com a melhor das vontades, pessoas às quais facilmente chegaríamos se disponibilizássemos plataformas abertas onde actuar, se contássemos com organizaçons preparadas para receberem pessoas que, para além da questom ortográfica, apenas querem achegar o seu grao de areia à causa da língua. Exceptuando casos exemplares como o de Artábria, o reintegracionismo ainda nom estava preparado para isto na altura da reforma, apesar das positivas dinámicas abertas nos últimos anos, lideradas pola AGAL ou o MDL… mas terá que chegar a está-lo, pola língua e polo País.

 

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