Os cans de guarda. Algumhas reflexons a respeito das classes médias e da sua ideologia
Domingos Antom Garcia
"Os
filósofos estám satisfeitos. Estes homes, produto da democracia
burguesa, construem com reconhecimento quantos mitos ela está a demandar:
elaboram umha filosofia democrática. Tal regime parece-lhes o melhor
dos mundos possíveis (...) Estamos perante o final da história:
as meditaçons cardinais estám cumpridas; Descartes, Rousseau
e Kant vivirom xa; os grandes inventos estám consumados, os continentes
explorados, as revoluçons concluídas (...), sentem com bastante
claridade que tenhem a boa sorte de pensar, de ensinar e de viver no que chamariam
de bom grado a sociedade social por excelência".
De Paul Nizam em Os cans de guarda (1932)
"As indefiníveis
classes médias: tornam a encontrar-se sob esta etiqueta o empregado
e o quadro superior, o técnico e o advogado, o mestre e o professor
de Universidade, e mesmo... certos dirigentes de empresa. Um duplo movimento
atravessa todas estas categorias; por um lado, umha parte deles contestam
um sistema do que som vítimas; polo outro, eles consideram-se parte
que recebe dinheiro desse mesmo sistema. Daí o carácter ambivalente
das suas relaçons com a burguesia e assimesmo com as classes populares".
De Alaim Accardo em Le Monde Diplomatique (Dezembro de 2002)
O primeiro texto,
editado recentemente com um prólogo de Serge Halimi, autor de Os novos
cans de guarda (onde denuncia um jornalismo de reverência, dominado
por grupos financeiros e por um pensamento de mercado), pode server mais de
sete décadas depois para delatar estas democracias formais em que estamos
imersos e os seus justificadores ou ideólogos. Lembrar o prologuista
e o seu livro tem por objecto constatar que os mass media som hoje os grandes
produtores da ideologia dominante e também reproduzir umha nota de
redacçom da Revista Análise Empresarial, n° 33 (Abril de
2003) que di: "Este artigo- o titulo do mesmo é "Notícia
dos cans de prensa no governo de Fraga" e o autor o jomalista Gustavo
Luca de Tena- foi redigido para limiar do livro de Serge Halimi "Les
nouveaux chiens de garde". Umha vez conseguidos os direitos por umha
editora galega, e com o original traduzido, o director da mencionada editora
boicotou a sua publicaçom. A ver se o leitor adivinha o porquê".
Sobram comentários.
O fragmento de
Alain Accardo, um dos discípulos mais próximos ao recentemente
finado Pierre Bourdieu, conduz a umha vaga e apressada ideia das clases médias.
Vaga, entre outras razons, porque, como bem analisou há uns quantos
anos Étienne Balibar, é umha identidade, a de classe, muito
real, mais muito ambígua. Acontece além disso que as classes
baixas dum país podem ser médias noutro (a modo de exemplo:
o nível económico e a precariedade laboral na Galiza situa nas
classes médias profissons que na Catalunya pertenceriam às baixas).
É de salientar também a relaçom dialéctica a respeito
das classes altas e baixas.
Essas clases
médias som um segmento de impotência de burguesia, que usam as
baixas e ao lumpen no seu interesse. Em modo nengum pensam em diluir-se nas
classes baixas e dim com farta freqüência que "ainda há
classes", que por fortuna nom somos todos iguais. Os seus ideais, verbalizados,
que nom realizados (dificilmente estám em disposiçom de perder
os seus privilégios por muito que discurseiem sobre democracia e horizontalidade)
encaixam à perfeiçom no mundo existente, nom vam mais alô
de tímidos reformismos, sobreestimam a mobilidade social, vivem sob
a ilusom de revoluçom... No fundo esperam que nada aconteça
que abale a sua situaçom acomodada. Protestan, mais consolidam o sistema,
contribuem para que semelhe que há dissidência e pleno exercício
das liberdades. Mudam o particular em universal. A generalizaçom -Declaraçom
de Direitos Humanos, etc-, é um recurso para canalizar as divergências,
para anular as diferênças, para liquidar o específico...
As verdades absolutas, os princípios incontrovertíveis, som
ideologias compartilhadas com as classes altas de cara a perpetuarem a hegemonia
destas últimas. Colaboram assimesmo com as classes dominantes na conservaçom
da ordem simbólica, diluem a consciência de exploraçom
sob a falácia dos benefícios globais. Mesmo nom chegam a compreender
em muitos casos (e a sua inconsciência muda-os em mais eficazes) os
verdadeiros porquês das desigualdades e da sua reproduçom. A
concorrência é assimilada a um imperativo natural. Podemos perguntar
a nós próprios por que a luita em contra do neoliberalismo (eufemismo
que tenta dissimular o capitalismo selvagem) nom está à altura
da indignaçom que aparentemente amostram. Dam a entender que as cousas
nom mudam porque os mais, nunca eles, som os nom dispostos (mesmo os mais
da sua classe)... Som contra o consumismo, mas os seus hábitos som
esbanjadores; som contra de entropia planetária, embora sejam eles
ínclitos protagonistas; claman, já se indicou, em contra das
hierarquias, mais no seu posto de trabalho e no seu salário nom renunciam
a nengumha delas; o bode expiatório é a direita, mas nom lhes
passa polo miolo que eles podam ser parte da mesma; a sua política
de direitas mascara-se com fraseologia de esquerdas e nom desejam entender
que umha mudança de govemo nom é umha mudança de sociedade...
Concorrem na adesom dum povo ao seu próprio despossuimento (da economia,
da paisagem, do tempo, do idioma. ..). Nom param mentes em pensar que luitar
"no" sistema pouco tem a ver com a luita "contra" o sistema...
Som partidários de todo o tipo de festas, que sempre dim que som para
o povo. Pensam que o povo inculto precisa de mitos e crenças de que
eles estám de volta... É o velho estratagema do poder: o "panem
et circenses" (pam e jogos)... Talvez a social-democracia em versom centralista
e noutras versons seja a expressom mais nítida desta "mediocracia"
(é em relaçom com o capitalismo o que a monarquia constitucional
a respeito das monarquias absolutas, umha maquilhagem do sistema).
De certo que o sistema capitalista nom é o inventor de instituiçons
como a família, a educaçom, a arte, o trabalho, a ciência,
etc., mas perpetua, nom corrige, mais bem agrava, as suas negatividades. O
capitalismo das classes altas em conivência com as classes médias
todo o mercadoriza, muda o bezerro de ouro em ídolo... E nesse trabalho
de produçom simbólica joga um papel destacado a escola, mais
por cima de todo os mass media... Umha escola que cultiva a ilusom de igualdade,
uns media que alimentam a ilusom de pluralismo; e o anterior no seio dumha
política que provoca a ilusom de democracia...
Nessa hipocrisia do discurso mediocrático figuram os sindicatos quando dim estar a defender aos assalariados e os desempregados defendendo as decisons empresariais e os média que apresentam os actos de invasom, de colonizaçom, como um pular pola democracia e as liberdades, pois fundamentalistas sernpre som os outros.
Domingos Antom Garcia é professor de Filosofia