Chechénia: quatro anos de guerra e silêncio
Carlos Taibo

A princípios de Outubro de 2003, cumprírom-se quatro anos do início da segunda guerra russo-chechena postsoviética. Umha guerra que nom tem rematado, e isso por muito que os responsáveis militares em Moscovo anunciem o contrário. Nom só se trata de que a resistência às acçons do exército russo segue a ser feroz nas montanhas meridionais da república secessionista: a guerrilha -bem é certo que a través de atentados polo comum suicidas- parece ter melhorado a sua capacidade de levar adiante golpes nas cidades situadas nas chairas setentrionais do país.

O da Chechénia é mais um dos muitos conflitos de que os nossos meios de incomunicaçom se desentendem. A sua presença nestes fica reduzida a umha circunstáncia bem conhecida: a Chechénia só ocupa lugar em jornais e telejornais quando se revela o espectáculo das acçons militares da resistência (nom as do exército russo, invisível aos olhos dos nossos meios, e isso mesmo ainda que organizaçons como Amnistia Internacional estejam a lembrar as constantes violaçons dos direitos humanos mais básicos protagonizadas por militares que gozam de manifesta impunidade). E ao respeito é preciso agregar que a reapariçom episódica do contencioso checheno da mao da tomada do teatro Dubrovka de Moscovo, há um ano, em nada beneficiou o nosso conhecimento do conflito de fundo. Nos tempos que correm nom é um uso habitual entre nós se preguntar por que un grupo de jovens decide pôr em perigo a sua vida através dumha acçom como a do teatro moscovita.

É inegável, de resto, que o presidente russo, Putin, está a ganhar a batalha mediática para além das fronteiras do seu país. Para isso tem-se servido dumha nada subtil combinaçom de interessadas simplificaçons -o conflito da Chechénia nom é senom o produto do terrorismo mais criminoso, com Al Qaida movendo os seus peons no Cáucaso setentrional- e medidas fantasmagóricas entre as que sobranceiam o referendo decorrido na primavera e as eleiçons deste outono. A custo pode surpreender que semelhante combinaçom de simplificaçons e manipulaçons encontre cómoda aceitaçom nas chancelarias ocidentais: ainda que muitos o esqueçam, estas levam anos a olhar para a outro lado quando se trata de enfrentar umha desfeita, a da Chechénia, de magnitude reflectida nas imagens de Grózni, umha cidade desaparecida como Dresde sessenta anos atrás.

Obrigados estamos a lembrar de novo que comportamentos similares impregnam à maioria dos nossos meios de comunicaçom. Ainda que admitamos que o que impera nestes é, sem mais, a desídia que conduz a recear de tudo o que nom produzir primeiras planas, nom faltam condutas mais lamentáveis. Umha delas proporciona-a a alarmante aceitaçom -habitual nestes tempos- de que o conflito da Chechénia se resume razoavelmente da mao da candorosa afirmaçom de que enfrenta umha inapresentável guerrilha terrorista e a umha maquinaria estatal merecedora de todos os respeitos. Outro achega-o umha cheia de preconceitos xenofobos que convidam a tomar partido contra barbudos e sujos orientais, e em proveito dum civilizado exército federal. A derradeira das aberraçons nom é outra que o desígnio, já glosado, de escapar a umha operaçom que noutras condiçons pareceria inevitável: a de examinar por que se tem chegado até cá e, em paralelo, a de desacralizar os direitos dos Estados e sublinhar a ignomínia de muitos dos seus comportamentos.

Nom faltam as misérias, enfim, en segmentos da esquerda que, significativamente, estám também a virar as costas ao que acontece na Chechénia. Nuns casos som gentes que, surpreendentemente, seguem a mostrar um ilimitado feitiço quando se trata de falar dumha Rússia entendida como o derradeiro baluarte que fica no caminho da hegemonia norte-americana. Noutros o que se percebe é, antes bem, a ideia de que desde 1991 tenhem sido os Estados Unidos quem movêrom, subterraneamente, os fios da resistência chechena. Se tal ideia tivo no passado algum fundamento, nesta altura, e ao amparo da lua de mel que vivem Bush filho e Putin, o seu predicamento parece escasso. E é que, ainda que ninguém com dous dedos de testa pode ignorar que Washington tem procurado fazer-se com o controlo de áreas geoestrategica e geoeconomicamente muito interessantes como é o caso do Cáucaso, isso em modo nengum alcança a ocultar que a principal maquinaria de terror que opera hoje na Chechénia é o exército russo.

Carlos Taibo é especialista em política internacional

 

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