Esquerda e questom nacional na Galiza republicana

Dionísio Pereira

Antes que mais, cumpre umha apreciaçom: fora dumha reduzida corrente que se reclamava do marxismo no seio do Partido Galeguista, corrente sem peso algum no partido apesar de certa tendência inconclusa na Frente Popular, e fora da fugidia experiência da "Unión Socialista Gallega", nom houvo umha esquerda nacionalista propriamente dita na Galiza do tempo da IIª República. As esquerdas obreiras que tomam posiçons sobre a questom nacional, som de obediência espanhola e adoptam um ideário nom nacionalista. Isso nom quer dizer que nos diversos colectivos nom houvesse quem reconhecesse a Galiza como nacionalidade histórica e tivesse em conta as conotaçons sociopolíticas que tal implicava. Casos como o de Jaime Quintanilha no PSOE ou Luís Soto no PCE som conhecidos, mas nom representavam mais do que pequenos grupos de opiniom nos seus respectivos partidos e, aliás, elegêrom umha proposta organizativa nom nacional. Sem mais, comecemos.

Desleixo socialista

Se exceptuarmos Quintanilha e alguns dos seus companheiros da Irmandade da Fala ferrolana, que tentárom infrutuosamente "galeguizar" o PSOE em torno de 1920, a incomunicaçom do universo socialista com o galeguista foi persistente ao longo do tempo. Para os militantes socialistas, o "regionalismo" nom deixava de ser umha instrumentalizaçom política da pequena burguesia; algo artificioso, deturpador dos interesses de classe e negador do internacionalismo proletário. Em contrapartida, para os galeguistas o socialismo era umha ideologia perigosa, quer pola sua falta de ligaçom com a cultura e o idioma galegos, quer polas alternativas colectivizadoras que defendia. Nas Cortes Constituintes, o desencontro renovou-se quando os deputados do PSOE defendêrom a República "integral", frente aos esforços dos galeguistas em prol dum Estado federal. Pouco depois, os eleitos socialistas referendárom a sua hostilidade a todo o que tivesse a ver com autogoverno, rejeitando participar na redacçom dum projecto estatutário. O Congresso do PSOE galego celebrado no outono de 1931 deixou, mais umha vez, as cousas claras: a Galiza nom constituía umha comunidade diferenciada, o sentimento autonomista nom existia na populaçom e o Estatuto era fruto do caciquismo direitista. Por conseqüência, Quintanilha e os seus partidarios ficárom reduzidos à mínima expressom e uns poucos militantes da Agrupación Socialista compostelana, encabeçados polo advogado Joám Jesus Gonçález, abandonárom o partido para articular a USG.
No Biénio Negro, o PSOE dá um giro táctico a respeito do problema autonómico, agora moeda de troca para junguir os nacionalistas ao carro da Frente Popular. De passagem, reconheciam os socialistas o relevo eleitoral e social do nacionalismo galego. Daquela, o PSOE, ou mais bem umha fracçom do partido, vai participar na campanha pró-Estatuto na primavera de 1936, fazendo gala dum tépido sentimento galeguista. No remate do período e olhando ao longe, ficara às claras que a questom nacional fora algo secundário no devir dos socialistas galegos, que nom avançárom um chisco na consideraçom nacional do seu projecto classista, nem mudárom o modelo organizativo de face a umha maior soberania no interior do PSOE.

O galeguismo socialista alentado pola USG nom tivo vida própria, mais que nada pola nula repercussom atingida dentro do PSOE e polo vagaroso dos seus referentes marxistas, que a assimilavam mais do devido ao PG. Contodo, os seus componentes atrevêrom-se a pensar por si próprios e, apesar da sua desfeita logo a seguir das eleiçons de 1933, deixárom um contributo de calado: a certeza "de que qualquer classe social, ou aliança de classes, numha naçom, deve definir o seu projecto político a partir de e para essa naçom e, portanto, deve expressar-se como umha força política nacional" ( ).

O apoliticismo libertário

A percepçom da Galiza como "sítio distinto", é bem episódica no roteiro do movimento libertário no nosso país, se considerarmos a questom dum plano ideológico. A CNT identificou a "naçom espanhola" como quadro primario de solidariedade classista e como cenário territorial único e indivisível da revoluçom futura. Neste esquema, o protagonista era o proletariado espanhol entendido como um todo, no qual o elemento galego actuava por própria conveniência tendo em conta o ambiente social desfavorável onde se desenvolvia. A maiores, se focarmos o tema a partir da mínima consideraçom à cultura e o idioma próprios, a CNT galaica reproduzia o menosprezo que boa parte da populaçom tinha a respeito deles, identificando-os com umha Galiza atrasada e conformista. Nom é de estranhar, pois, que qualquer veleidade nacionalista fosse retrucada com um rígido internacionalismo e entendida como umha quebra na unidade proletária. Se acrescentarmos ao anterior a negativa a toda participaçom política e as consideraçons doutrinais sobre do federalismo proudhoniano, nom surpreenderá nem a rejeiçom visceral das respectivas "Regionales" da CNT e da FAI a respeito do Estatuto, nem a desautorizaçom do, de resto evidente, conservadorismo social de boa parte do nacionalismo galego. Tam só umha pequena minoria dos quadros cenetistas, caso de José Villaverde, aceitárom que certos traços identitários conformariam um facto diferencial inegável, que acharia o seu acomodo num federalismo integral. Aliás, dentro do possibilismo desta porçom de militantes adscritos à corrente mais moderada do sindicato, o Estatuto poderia receber algumha compreensom como passo intermédio descentralizador de cara a um federalismo comunalista e antiestatal. Desta fonte beberám, precisamente, os cenetistas galegos que conformarám em 1934 o Partido Sindicalista e que, na Frente Popular, participarám na campanha estatutária; isso sim, com umha profissom de fé nom nacionalista e sem empregar o galego na tribuna.
Porém, se considerarmos a percepçom da Galiza nos meios confederais dumha perspectiva achegada ao acontecer vital d@s trabalhador@s, sim albiscamos umha progressiva sensibilidade da CRG a respeito do específico espaço social conformado na Galiza; sensibilidade traduzida em adaptaçons organizativas mais ou menos originais e consciência das singularidades da luita de classes no mar e na terra d@s galeg@s ( ).

Comunistas ortodoxos e heterodoxos

Desde 1921, o reconhecimento do direito à autodeterminaçom, mesmo até a secessom, das nacionalidades históricas conformadas pola Catalunya, Euskadi e a Galiza, foi concebido polo PCE como arma de desgaste do Estado burguês e na perspectiva da revolta operária e camponesa que daria lugar à Espanha soviética. Segundo as directrizes da IIIª Internacional, a libertaçom nacional mais que a umha avença com as vacilantes burguesias nacionais, seria devedora da intervençom decidida de todos os revolucionários espanhóis. Seguindo umha estratégia maximalista comum nas três naçons, os Estatutos fôrom daquela anatemizados como negadores da autodeterminaçom e como produtos da traiçom dos partidos burgueses nacionalistas. Agora bem, as críticas de Manuilsky dirigidas em 1932 para o reduzido compromisso real com a assunçom do facto nacional (visível nestes pagos na ausência do galego na imprensa e na propaganda), nom dérom lugar na Galiza aos germes do PCG, tal e como aconteceu na Catalunya e no País Basco com o PCC e o PC de Euskadi: aqui, segundo Santiago Álvarez, o PCG articularia-se quando houvesse condiçons ajeitadas, e isso seica tam só aconteceu em 1968. Logo, com a derrota de Outubro de 1934 e a viragem da Internacional favorável à colaboraçom de classes dentro das Frentes Populares, os comunistas galegos passárom a defender o Estatuto no contexto da Frente Popular e a exercer junto do PG como os seus mais afervorados defensores, durante a campanha estatutária de 1936 ( ).

O pequeno núcleo de trotsquistas galegos integrado na "Izquierda Comunista de España", fijo gala até 1935 dum notório desconhecimento do bulir nacionalista no país. Velaí o texto de Andreu Nin, publicado na revista "Leviatán" a fins de 1933: "Existen en España dos movimientos de emancipación nacional de vitalidad indudable: el de Cataluña y el de Euskadi. El de Galicia, por el momento, no es más que um balbuceo regionalista, falto del calor de las grandes masas y refugiados, por ello, en los cenáculos literarios y en las Academias". Inexistência de cultura própria, engarçamento mecanicista entre ausência de burguesia e falta de consciência nacional, inviabilidade da construçom nacional derivada do atraso económico..., eram lugares comuns nos textos internos da ICE. Logo, após a fusom com um grupo tam activo na questom nacional como o Bloc Obrer i Camperol (sem qualquer presença na Galiza) para dar lugar ao POUM a fins de 1935, os antigos trotsquistas galegos atemperárom a sua postura, apoiando o Estatuto com as mesmas reservas com que aderírom à Frente Popular rachando a sua linha estratégica de independência de classe.

Coda

Caberia concluir com a evidência de que, com todas as reservas que se queira, a resoluçom da questom nacional, a constataçom do facto diferencial, ou a adequaçom à especificidade do seu espaço social, eleja-se o aspecto que melhor parecer, nunca posicionaram de tal maneira as forças operárias (partidos ou sindicatos) na Galiza a respeito dos problemas institucionais, estratégicos e organizativos que entranhavam, como na etapa republicana. Pode-se dicer que, pola vez primeira na sua história, @s trabalhador@s organizad@s emprestavam atençom às propostas que re-situavam a Galiza no seio do Estado espanhol, e reformulavam as ligaçons do proletariado galego com o do resto do território hispano. A expansom social do nacionalismo na Catalunya, Euskadi e Galiza, e a carência dumha corrente de esquerda nacionalista dentro ou fora do Partido Galeguista, condicionárom em sentidos opostos o processo.

 

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