ECOLOGIA AQUI
E AGORA
Antom Garcia Matos
Imos explicar
em poucas palavras os três eixos mais relevantes, estreitamente relacionados
entre si, a ter em conta para umha análise teórica global da
questom ecológica no nosso País no momento presente: a apropriaçom
do discurso ambientalista polo poder, a incompatibilidade do pensamento e
prática ecologistas com o imperialismo espanhol e as profundas conseqüências
ideológicas, políticas e organizativas do pensamento ecológico.
Há uns
anos, assistimos a um encontro internacional itinerante "Juventude e
meio ambiente". Na jornada inaugural em Compostela (Sam Caetano), Fraga
Iribarne, a Guardia Civil, os técnicos-burocratas ambientalistas e
os entusiastas amantes da natureza jungimo-nos numha estampa entranhável
e conciliadora. Por acima de todas as diferenças e contradiçons,
por acima de ideologias e matizes políticos, por acima das relaçons
de poder, um laço invisível de sincera preocupaçom por
salvar a humanidade da catástrofe ecológica nos confraternizava
a todos e a todas, depredadores, repressores, mestres e juventude inconformista.
Este postal serve-nos para ilustrar dalgum jeito o primeiro grande eixo importante
a que queremos aludir, qual é a armadilha da apropriaçom polo
poder espanhol em todas as suas manifestaçons e níveis do discurso
ambientalista. O Estado espanhol acelera mais do que nunca a toma ao seu serviço
da direcçom do processo de formaçom da consciência ecológica.
A questom do
meio ambiente, que nas suas origens foi umha questom radicalmente crítica
da sociedade capitalista avançada e um fenómeno social que representava
grandes repercusons potenciais, na actualidade é digerida e plantejada
polo próprio poder político (e portanto mediático), fazendo
parte do seu discurso, convertida em meta política e em nova capacidade
de um novo consumo. O problema do ambiente é reconvertido, assim, numha
nova fonte de desenvolvimento do próprio sistema. "Parte da soluçom
aos problemas ambientais passa por umha maior participaçom das empresas
que exploram os recursos naturais. Os últimos dous anos, as companhias
privadas melhorárom muito a sua percepçom do problema (...)
As companhias de seguros estám preocupadas, por exemplo, polo aquecimento
do planeta e as entidades bancárias internacionais nom querem financiar
projectos que esgotem os recursos naturais" (Instituto de Recursos Mundiais,
EEUU, autor do relatório da ONU intitulado Worl Ressources 2000-2001).
A partir deste
poder som lançadas contínuas campanhas de "informaçom"
e "educaçom" dirigidas à conformaçom de umha
nova sensibilidade cidadá, que som directamente proporcionais à
multiplicaçom da sua capacidade de destruiçom dos laços
económico-espirituais das pessoas com a Terra, do espólio de
recursos, da transmissom de ideologias e tecnologias que convertem a gente
em escrava do sistema extractivo que define o imperialismo, intervençom
selvagem sobre os espaços do Povo e perda irreversível da biodiversidade,
incluída a cultural-antropológica: Conferência das Naçons
Unidas sobre o Meio Humano (Estocolmo, 1972); Programas das Naçons
Unidas para o Meio Ambiente-PNUMA (1973); Programa Internacional de Educaçom
Ambiental-PIEA (1974); Seminário Internacional de Educaçom Ambiental
(Belgrado, 1975); Conferência Intergovernamental sobre Educaçom
Ambiental (Tbilissi, 1977); Estratégias Mundiais para a conservaçom
da natureza (1980,1990); Congresso Internacional sobre Educaçom e Formaçom
sobre Meio Ambiente (Moscovo, 1987); Conferência das Naçons Unidas
sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento e aprovaçom da Agenda 21 (Rio
de Janeiro, 1992); Foro Global de ONGs e Tratado sobre Educaçom Ambiental
para sociedades sustentáveis e para a responsabilidade Global (Rio
de Janeiro, 1992); Congresso Mundial sobre a Educaçom e a Comunicaçom
em matéria de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Toronto, 1992); Conferência
Internacional sobre Meio Ambiente e Sociedade: educaçom e sensibilizaçom
para a Sustentabilidade (Tessalónica, 1997); Estratégia Galega
de Educaçom Meio-Ambiental (Resoluçom do 3 de Outubro de 2000
da Conselharia de Meio Ambiente)... etc.
Dos laboratórios do sistema político-económico saem todos
os dias dúzias de novos vocábulos pintados de verde, para que
nom nos esqueçamos em nengum momento que o poder pensa e trabalha duro
em chave ecológica: ecotecnologia, ecoeficiência, ecodesenho,
ecoplanta, ecoembalagem, ecogestom, ecoauditoria, ecoexploraçom...
Sem dúvida o conceito de sustentabilidade adensa magistralmente este
esforço do sistema capitalista por apropriar-se das noçons básicas
do pensamento crítico da nova concepçom económica ecológica.
Os defensores da ordem, do produtivismo e crescimento, do espólio de
territórios inteiros, som agora ardentes defensores do desenvolvimento
sustentável , convertido num conceito tecnocrático e reformista.
Se consultarmos atentamente programas políticos, normativas, declaraçons
de intençons..., podemos observar como inevitável e sistematicamente
aparece a palavra sustentável, convertida no termo mais manuseado das
últimas duas décadas, em talismám estritamente necessário
para que o poder apareça correctamente representado.
O segundo eixo citado refere-se à incompatibilidade radical entre o
pensamento e prática ecologistas e o imperialismo espanhol. Nom é
possível nengumha aposta ecológica integral, nengum autêntico
desenvolvimento sustentável, a partir da dependência, da privaçom
da capacidade de decidir e intervir com independência e participaçom
social sobre a nossa Terra. Nom é possível dentro do actual
regime espanhol de assovalhamento e ocupaçom do nosso povo, dentro
do actual sistema político-social e económico de produçom,
de relaçons e de consumo abençoado e garantido polo quadro jurídico-político
constitucional espanhol. O Estado espanhol, como todas as velhas forças
destrutivas da história da humanidade, camufla-se agora numha ideologia
clorofílica que nos apresenta um capitalismo verde que propom umha
continuidade do vigorante sistema económico de exploraçom da
Galiza, de produçom e de consumo, vendido como força integradora,
regulado e reajustado com critérios de crescimento sustentável.
O terceiro eixo
aludido refere-se às profundas conseqüências ideológicas,
políticas e organizativas do pensamento ecológico. Achega um
sistema totalizante, introduzindo conceitos fundamentais: geossistema, globalidade,
dinamismo, interacçom de sistemas, subsistemas e elementos, espaço
(escala territorial), tempo (escala temporal)..., e formula propostas coerentes
sobre a organizaçom da economia -propondo novos modos e relaçons
de produçom-, a sociedade e a política, à vez que umha
nova ética e novas utopias.
Sem dúvida,
o mais interessante é a concepçom dialéctica da natureza
e do conhecimento, rechaçando os métodos mecanicistas tradicionais.
O qual entronca ou vem enriquecer o materialismo dialéctico cujo objectivo
elementar podemos dizer, em poucas palavras, que consiste em abranger todos
os aspectos de um processo, na sua complexidade, as suas contradiçons
e o seu movimento. O pensamento ecológico, como a dialéctica,
proporciona-nos umha maneira nova de conceber as cousas. Permite-nos vê-las
e estudá-las a partir de todos os seus aspectos e nom de um jeito unilateral,
olhá-las no seu movimento e nom de forma estática, imóbel.
Podemos contrapor a este pensamento ecológico-dialéctivo um
pensamento de tipo lêntico, antidialéctico, idealista.
Os quatro traços
mais sobressalientes do pensamento eco-dialéctico num contexto de luita
de libertaçom nacional e social como o nosso som:
- A formaçom
é muito mais que intelectualismo erudito e colecçom de dados
compartimentados ao serviço de minorias científicas qualificadas.
- O conhecimento
teórico-prático e racional da sociedade galega no seu conjunto
(e além dos aspectos político-económicos) está
por acima de noçons importadas, dogmas sagrados e fetiches, tanto no
ámbito da intervençom sócio-política como a respeito
dos instrumentos de organizaçom.
- Todos os fenómenos
naturais e sociais levam sempre implícitas contradiçons internas.
A contradiçom principal é sempre a que existe do começo
até o fim do processo e cuja existência e desenvolvimento determinam
a natureza e a marcha do mesmo. Portanto, na luita de libertaçom nacional
e social galega é aquela em que está em jogo a existência
do Povo, a sua continuidade como sujeito colectivo histórico.
- Os aspectos termodinámicos, de sinergias e assinergias..., som muito relevantes nas dinámicas de organizaçom e luita. Devem primar sempre aquelas metodologias ou estruturas organizativas que nom sejam estranhas e que diminuam o stress interno, as perdas de energia, de equilíbrio e de eficiência do conjunto do Movimento.
Antom Garcia Matos é militante de NÓS-UP em Compostela