Acçom comunista em tempo de maré baixa
Francisco Martins Rodrigues
Como podem os comunistas conseguir que o movimento diário das massas polas suas reivindicaçons imediatas acumule forças revolucionárias, mesmo neste período de triunfo em toda a linha da burguesia? Esta é umha questom central para os comunistas portugueses, escaldados por sucessivas infiltraçons do reformismo, sempre em nome das melhores intençons marxistas.
Acumulaçom de forças revolucionárias é cousa praticamente desconhecida em Portugal. O que temos som muitos exemplos de como se desacumulam forças: à frente de todos, claro, o PCP, fiel ao seu trabalho minucioso junto do proletariado, nas empresas e nos sindicatos, agitando a bandeira da "defesa das conquistas", mas conduzindo as massas de derrota em derrota, devido ao seu respeito supersticioso polo parlamento e pola ordem burguesa; depois, a "nova esquerda" agrupada no Bloco, exibindo as suas causas alternativas ("ampliar a cidadania", "aprofundar a democracia"), que, na prática, apenas dam voz ao descontentamento da jovem pequena burguesia, em busca de um lugar ao sol; tivemos também a aposta das FP 25 nas acçons de guerrilha urbana como meio de "excitar" o movimento popular em declínio, o que as levou ao previsível naufrágio e ao descrédito da via revolucionária; e há ainda muitos simpatizantes da revoluçom, enojados com o panorama reinante de colaboraçom de classes, para os quais todas as reivindicaçons imediatas, parcelares, som indignas de qualquer esforço, polo que se entregam à inacçom declamatória ultra-esquerdista.
Nesse caso, o que se deve fazer?
Os comunistas,
claro, nom tenhem que inventar luitas especiais. Temos que estar presentes
nas luitas reais, por pequenas e limitadas que sejam nos seus objectivos:
contra o desemprego, o trabalho precário, o agravamento constante das
condiçons de saúde, habitaçom, ensino, a sobreexploraçom
e opressom da mulher; nos movimentos contra a impunidade dos capitalistas
e a onda mafiosa e corrupta que é hoje a política burguesa;
nos protestos contra as expediçons militares imperialistas e a montagem
do Estado policial...
Sabemos que a revoluçom só se constrói a partir do movimento
real e nom a partir de modelos por nós inventados.
Fora das situaçons excepcionais de crise revolucionária, as massas lançam se na luita para obter pequenas melhorias dentro dos limites da lei e da ordem; só participando nessas luitas podem os comunistas ajudar os colectivos de trabalhadores a percorrer a sua própria experiência, tomar consciência do antagonismo dos seus interesses face aos da burguesia, criar hábitos de organizaçom, ganhar confiança nas suas próprias forças.
O que falhou entom no trabalho passado dos comunistas? Porque se dissolvêrom as suas intençons revolucionárias iniciais na prática da luita diária, até acabarem por se transformar em reformistas? Vejo, polo menos, quatro causas para isso.
Primeira, a concentraçom preferencial dos esforços, nom nas camadas proletárias onde é maior a carga de antagonismo com a sociedade estabelecida, mas nos sectores semiproletários e pequeno-burgueses, mais instruídos, com maiores hábitos de organizaçom, onde é mais fácil conseguir resultados, mas onde, em contrapartida, tudo vai no sentido do reformismo.
Segunda: a tradiçom muito enraizada no nosso país de que o trabalho proletário se resume às reivindicaçons económicas e que entrega à pequena burguesia progressista a direcçom da luita política. É tempo de compreendermos que a mobilizaçom comunista do proletariado envolve também a luita anti-imperialista, a solidariedade com os imigrantes e o combate ao chauvinismo, a luita para libertar a mulher trabalhadora da sua dupla subjugaçom, os contactos internacionais, a propaganda anticapitalista, etc.
Terceira: na utilizaçom dos sindicatos, comissons de empresa, associaçons diversas, esqueceu-se muitas vezes a contradiçom entre o interesse das bases e a prática do aparelho burocrático, que tende a conciliar com o poder e a ver as acçons radicais das massas como um perigo. Foi assim que muitos comunistas que foram para essas organizaçons com a intençom de "servir o povo" se fizérom reformistas empedernidos.
Quarta: a cedência à miragem de conseguir polo parlamento a visibilidade e peso político que nom se consegue no duro trabalho de mobilizaçom directa das massas. Foi assim que, à medida que a ofensiva da direita destruía as conquistas populares de 74-75, os revolucionários da época transferírom o eixo da sua actividade, do apoio aos sectores mais avançados e aos seus órgaos (comités de greve e ocupaçom, comissons de trabalhadores, de moradores, cooperativas agrícolas, etc.), para a "batalha parlamentar".
Claro que a participaçom nas eleiçons pode ser necessária, mas numha condiçom: termos a certeza de que vamos utilizar as instituiçons burguesas e nom deixar-nos utilizar por elas.
Em resumo, o trabalho comunista entre as massas requer muito esforço e brilha pouco. Temos que nos compenetrar de que, num período de marasmo da luita de classes como o que atravessamos, a autenticidade dos comunistas mede se pola sua capacidade para evitar a tentaçom de ser reconhecidos polos media, ganhar estatuto de "partido responsável", etc. Nom nos deve impressionar a acusaçom de "sectarismo" que os reformistas nos lançam, nem a impaciência dos militantes que nom se resignam a um trabalho apagado e querem resultados palpáveis em pouco tempo. A defesa do interesse profundo das massas significa hoje um certo grau de isolamento, acarreta incompreensons, perseguiçons dos poderes "democráticos", etc., mas só persistindo nesse rumo poderemos desempenhar o nosso papel numha futura crise revolucionária.
O partido comunista, corpo estranho na sociedade burguesa que pretende derrocar, sofre umha tremenda pressom da parte desta para ser digerido e destruído: pressom policial e militar quando necessário, mas também política e ideológica, na actividade legal de todos os dias. Pressom que provém nom apenas do aparelho de poder burguês mas também das camadas pequeno burguesas contíguas ao proletariado e das flutuaçons no seio do próprio proletariado, hoje em grande medida desarticulado e desmoralizado polas derrotas que tem sofrido.
O que está em jogo, no difícil período actual, é manter fidelidade aos interesses gerais e a longo prazo da classe, nom se deixando ir atrás de êxitos conjunturais, pagos com a absorçom polo sistema. Cabe-nos criar na classe baluartes avançados em volta dos quais se poda fixar a resistência dos mais revoltados. Quanto ao encontro do partido comunista com as massas de milhons, esse só será possível na hora da crise revolucionária, quando as massas, chegadas ao extremo, recusam a ordem burguesa e vam ao encontro das propostas dos comunistas. Essa hora poderá estar distante, mas só ela deve servir de norte à nossa acçom hoje.