Capitalismo: a violência por sistema

Noélia Fernandes Marquês

A "feminizaçom da pobreza" é um termo recorrente, mesmo para organismos e governos, mas que se tem convertido num desses lugares comuns empregados para enfeitar um discurso com pinceladas de feminismo. Ainda que a realidade a que fai referência acompanha a humanidade desde há séculos, o certo é que se começa a falar em feminizaçom da pobreza a partir, basicamente, de estudos sobre o chamado Terceiro Mundo, que demonstram que: 1. Quando as mulheres começamos a ser incluídas nas estatísticas, e ao se individualizarem as mesmas, descobrimos que a maior parte das pessoas pobres fazemos parte do género feminino 2. Em famílias nem pobres nem excluídas, a renda nom é distribuída equitativamente e de forma igualitária entre os seus membros, sendo as mulheres as que resultam empobrecidas. Em termos puramente económicos, cobra força a ideia de que o casamento empobrece as mulheres, enquanto enriquece os homens; e 3. Incrementam-se os lares em que as mulheres se convertem nas únicas sustentadoras dos mesmos (maes solteiras, viúvas, separadas, com crianças ou pessoas discapacitadas a seu cargo, etc...), condiçom esta que as converte em especialmente vulneráveis socialmente , ao se verem obrigadas a aceitar trabalhos em condiçons precárias, insalubres, etc., entrando a fazer parte, na maioria das ocasions, da economia submersa .

Estes estudos, que num princípio só se empregavam para analisar a situaçom dos países caracterizados como pobres, subdesenvolvidos, etc., fôrom também cada vez mais empregados para analisar a situaçom no Primeiro Mundo, descobrindo-se assim que as mulheres somos as principais vitimas dum sistema económico baseado na exploraçom humana e na acumulaçom de riqueza em maos dum reduzido grupo de pessoas.

É impossível nom pensar que existe umha relaçom entre o facto de as mulheres sermos as vitimas princípais dum sistema económico e social injusto, que nos empobrece e marginaliza, o capitalismo; e que ao mesmo tempo sejamos também as vitimas dumha violência machista, que só se dá contra um dos géneros, alicerçada polo patriarcado. As agressons sexuais mais brutais, que som as que terminam com a morte dumha mulher a maos dum homem, nom som mais do que a ponta do icebergue, a mostra mais evidente e palpável dumha violência estrutural que conhece diversas gradaçons e sem a qual o sistema capitalista nom existiria. A violência necessária para a sobrevivência da simbiose capitalismo-patriarcado torna-se em ocasions incontrolável e formalmente inaceitável, como nos casos de assassinatos de mulheres. Mas é essa mesma violência que está por trás doutras agressons que as mulheres, polo simples facto de sermos mulheres, sofremos desde o nosso nascimento. Ainda que poda parecer anedótico e trivial, é essa violência que está por trás da marca que se nos fai logo que nascemos furando-nos as orelhas, ou é a que justifica termos de vestir saias, ou brincarmos a ser mamás com bonecas cada vez mais sofisticadas. É essa violência que fai com que nós aprendamos a fazer as tarefas da casa, ou que tenhamos de aceitar trabalhos precários que completem a economia familiar, ou que sejamos as principais prejudicadas polos recortes nos serviços sociais, etc. O capitalismo nom seria possível de nom existir essa violência que marginaliza, empobrece e explora a mulher, e é o patriarcado que a justifica.

É certo que a violência machista afecta a todas as mulheres em maior ou menor medida, independentemente da condiçom social. Mas nom é menos certo que as situaçons de pobreza, exclusom social, marginalidade, agravam, potencializam e consolidam as agressons sexuais contra as mulheres. A violência machista nom é igual, nem tem as mesmas conseqüências nem seqüelas, para umha mulher cigana, desempregada e empobrecida, que vive num bairro de lata nos arrabaldes de qualquer cidade, que para umha mulher integrada socialmente, economicamente autónoma, com um alto nível cultural e com umha moradia e um carro em propriedade. Esta segunda terá mais meios e possibilidades de fazer frente a essa situaçom e poderá com toda a probabilidade afrontá-la arroupada socialmente, o que facilitará a sua recuperaçom. A primeira, subirá mais um degrau numha escala de violência em que já está muito elevada. Estes dous casos exemplificam que toda a violência de género tem as mesmas raízes, achando sempre justificaçom e desculpa no patriarcado, mas que nom é igual que se produza numhas condiçons sociais ou outras. Actuar contra a violência de género como se fosse um todo homogéneo, que nom conhece nem estabelece diferenças, obviando, ou pretendendo premeditamente ocultar a realidade social e económica em que se produz, nom só nom contribui para solucioná-la, mas contribui para reforçar as causas que a produzem: o capitalismo e o patriarcado.

No mundo morrem cada ano oitocentas mil mulheres de forma violenta, metade de todas as pessoas que morrem de forma violenta no planeta . A América Latina e as Caraíbas som a zona com mais altos índices de violência, e onde 70% das mulheres sofre violência machista. Estes dados demonstram que nom é por acaso que metade das mortes violentas ocorridas no mundo tenham as mulheres como vítimas, e que se localizem em áreas empobrecidas e exploradas. No Estado espanhol, conhece-se também umha tendência alcista da violência machista em geral e do assassinato de mulheres em particular, salientando a Galiza como umha das "três zonas" do Estado onde é mais destacado este crescimento . As transformaçons sociais propiciadas polo neoliberalismo continuam a incrementar as tensons familiares, a conflituosidade e, em definitivo, as agressons e violências sexuais e corporais, afectivas e emotivas, que nom só físicas. A família, e especialmente a mulher, no seu papel de mae ou filha, converte-se amiúde no armazém que recolhe a conflituosidade e o mal-estar da sociedade.

Notas

1. Segundo a Rede Europeia de Mulheres, ao ano de separar-se, 60% dos homens tenhem-se enriquecido significativamente, enquanto 50% das mulheres se tenhem empobrecido.

2. O Relatório Foessa, elaborado por Cáritas, "As condiçons de vida da populaçom pobre na Espanha", recolhe entre os factores que explicam o pioramento relativo das mulheres, as condiçons desfavoráveis do mercado de trabalho, ressaltando o aumento de lares monoparentais encabeçados por mulheres, e destacando "a consolidaçom dum severo núcleo de pobreza ligado aos processos de ruptura matrimonial (...). As suas receitas situam-se mais de quinze pontos por baixo do conjunto dos lares e a sua taxa de pobreza é a mais alta".

3. Dados tirados do Relatório Mundial sobre a Violência e a Saúde, da Organizaçom Mundial da Saúde (OMS), dado a conhecer em 12 de Julho de 2003.

4. Relatório da Fundación Mujeres, baseado nas informaçons difundidas pola imprensa. www.rebelion.org Tendencia alcista de los asesinatos de mujeres en España (6/10/03).


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