A boa saúde de Lenine a 80 anos da sua morte

André Seoane Antelo

Vladímir Ilitch Ulíanov, chamado Lenine, morreu vítima dumha embolia cerebral na cidade soviética de Gorki no ano 1924. Depois matarom-no algumhas dúzias de vezes mais, e os seus enterros fôrom oficiados por padres das mais diversas religions e seitas: liberais, social-democratas, eurocomunistas,... em geral, por todos os sectores ideológico-políticos que olham na lúcida obra teórica do genial revolucionário, e de certeza no seu magnífico contributo práctico para a edificaçom do movimento revolucionário comunista, um dos mais formidáveis inimigos que tem o modo de produçom capitalista.

Porém, e do mesmo jeito que acontece a outro ilustre morto recorrente como Karl Marx, Lenine empenha-se em ressuscitar cada pouco tempo para bater na face do último enterrador que pretende deitar umha pá de terra sobre a sua tumba; demonstrando que se bem o seu corpo repousa embalsamado no mausoleu da Praça Vermelha em Moscovo, as suas ensinanzas e o seu exemplo continuam a estar tam vivos como há 80 anos.

É de admirar esta saúde que pudo sobreviver à deturpaçom do ideal comunista durante o período de vigência dos regímes burocráticos do socialismo real, às perseguiçons que @s comunistas sofrêrom e continuam a sofrer em qualquer parte do mundo do capitalismo real, à suposta quebra do comunismo a finais da década de 80 do passado século, e com certeza à apariçom cada certo tempo dum social-reformismo, renovado no seu aspecto externo, mas que no seu interior guarda o mesmo filisteísmo que representárom um Berstein ou um Kautsky, empenhado sempre em demonstrar sem êxito a possibilidade de convívio pacífico entre classes antagónicas.

Porque, se umha cousa é certa, ainda que actualmente os movimentos revolucionários aparentem passar por um dos momentos de maior faqueza nos últimos cem anos, hoje mais do que nunca podemos gritar aos quatro ventos que Lenine tinha razom. E tinha-a, e tem-na, em questons dos mais diversos ámbitos que se podem colocar na perspectiva de transformar radicalmente a sociedade humana a nível mundial.

Mas como precauçom para nom cairmos numha hagiografia do estilo das publicadas pola Editorial Progreso deveríamos começar por explicitar que nom podemos obviar que Lenine é filho dumhas circunstáncias muito concretas. Dum tempo e dumha formaçom social determinada predisposta para a emergência dumha crise revolucionária. Mas também nom podemos esquecer que, no meio dessas cicunstáncias, a individualidade do génio teórico-político do principal dirigente bolchevique foi fundamental como catalisador.

Há quem ponha em questom que Vladímir Ilitch figesse contributos tam fundamentais como as que figera Karl Marx meio século antes de o russo desenvolver a sua actividade. Aliás, isto pode ser certo se tivermos em conta que Lenine nom fai mais, nem menos, que partir da obra do pai do socialismo científico, a seu favor há que pôr que avançou em aspectos escassamente desenvolvidos polo de Treveris no tocante a questons organizativas do próprio movimento revolucionário ou ao estudo das novas condiçons concretas do desenvolvimento do modo de produçom capitalista no período que lhe tocou viver. Deveríamos perguntar a nós própri@s se, nom tendo havido um Que fazer? no 1901, teria sido possível a evoluçom da revoluçom russa tal e como a conhecemos, ou se sem O imperialismo, fase superior do capitalismo, o desenvolvimento dos movimentos de libertaçom nacional durante o século XX seria possível.

Mas, de isso todo, que fica hoje? Essa é a pergunta de obrigada resposta para quem como nós defendemos que o marxismo-leninismo mantém plenamente a sua vigência.

Nestes tempos em que enxergamos nitidamente às limitaçons dumha aposta organizativa carente de direcçom unificada como o chamado movimento antiglobalizaçom, nom podemos evitar que um sorriso debruce à nossa face quando relemos as críticas aos sectores do movimento democrático russo de começos de século a que Lenine chamava espontaneístas. Como nom fazê-lo ao repararmos que as mesmas lérias do ultra-democraticismo papom, que nom fai outra cousa que conduzir o movimento revolucionário para a inoperáncia, já eram defendidas há quase um século por quem naquela altura punha por diante da imperiosa necessidade de transformar a realidade opressiva questons meramente formalistas. Como nom identificá-los com @s mesm@s que hoje consideram que a luita contra o sistema capitalista deve partir espontaneamente dumha virginal sociedade civil, situada para além do considerado puramente político, e em que parecem nom influir cousas tam secundárias como a divisom do género humano em classes ou a existência da opressom nacional. E também, claro, como nom apreciarmos a perspicácia dum Lenine que já naquela altura identificava ao espontaneísmo como umha variedade mais de reformismo e, portanto, um aliado da burguesia no seu empenho por defender a vigência do sistema capitalista.

Junto das críticas ao espontaneísmo, também temos que reconhecer a plena actualidade do que o camarada Lenine dizia a respeito das outras famílias do reformismo, agrupadas naquela altura na IIª Internacional e que hoje podemos identificar entre os diferentes partidos social-democratas, a maioria dos partidos comunistas oficiais e na mao-cheia de organizaçons que após a queda do muro de Berlim erguêrom a bandeira da chamada nova esquerda, que nom é mais do que a velha bandeira do entreguismo e a colaboraçom com a classe opresora para manter submetidas as classes oprimidas, os povos submetidos e as mulheres.

Resulta patético escuitarmos como os altofalantes ideológicos do sistema bombardeiam dum jeito reiterado a mensagem da superaçom histórica do comunismo, mas ocultam que tam velhas como as correctas ideias do marxismo-leninismo som as falácias do reformismo. E nesse caso a experiência histórica sim que tem demonstrado dum jeito nítido que por trás das mentiras da esquerda reformista nom há mais realidade que a continuidade da opressom e o agravamento das condiçons de exploraçom.

Também podemos lembrar como a década de 90 do passado século foi bem fecunda pola emergência das mais disparatadas teorias que anunciavam, entre outros milagres portentosos, cousas tais como a desapariçom dos estados ou a vinda dum período de prosperidade permanente com o trunfo pleno do capitalismo rampante. Hoje, apenas umha década depois, a maioria dessas afirmaçons fôrom matizadas, senom mudadas radicalmente, por quem as proferira tam alegremente. Como explicar da óptica dessas portentosas profecias factos como o recrudescimento das condiçons de vida do proletariado e as mulheres a nível mundial, a cada vez maior degradaçom do meio natural, a contínua emergência de movimentos de libertaçom nacional ou o evidente reforço dos aspectos mais repressivos dos estados capitalistas, tanto dentro como fora das suas fronteiras. Pois onde estes profetas falham é onde as achegas de Lenine e as de Marx, junto com as de quem continuárom o desenvolvimento da dialéctica materialista, batem certo.

Por pôr um par de exemplos suficientemente esclarecedores, referiremo-nos a dous textos elaborados por Lenine e que servem para compreender fenómenos em aparência tam novidosos como a globalizaçom ou a construçom da UE. O primeiro deles já o citamos, O imperialismo, fase superior do capitalismo, brochura escrita a começos do ano 1916 em que se explica dum jeito clarificador o porquê da extensom mundial do capitalismo, o jeito em que esta vai avante, o porquê do desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo a nível mundial, ou o papel do capital financeiro e das grandes corporaçons capitalistas, entre muitas outras cousas. O segundo é um breve artigo publicado em 1915, que leva por título A palavra de ordem dos Estados Unidos da Europa; nele exprime-se acertadamente que umha uniom política a nível europeu, sem mediar umha transformaçom revolucionária socialista, nom seria mais do que um reforço do poder das burguesias dos principais estados europeus para concorrerem com às burguesias do resto do mundo (naquela altura nomeava-se directamente o Japom e os EUA), e por este motivo manifestava-se contra essa uniom europeia. Argumentaçom que resulta impecável se a trasladarmos aos nossos dias.

Poderíamos continuar demonstrando a plena validez da prática totalidade das opinions manifestadas e argumentadas por Lenine no referente ao papel do Estado no sistema capitalista, ao direito de autodeterminaçom para as naçons oprimidas, ou a imperiosa necessidade que tenhem @s oprimid@s de tomarem o poder político para poderem transformar as estruturas económicas e construir um mundo novo mais justo. Mas nom é este o lugar nem o momento.

Isso sim, o que podemos, e fazemos, é animar todas aquelas pessoas que por qualquer motivo nom estiverem familiarizadas com as ideias de Lenine para se aproximarem da sua obra e poderem assim comprovar por si própri@s que o que se di neste artigo é certo. E ainda mais, que se concordarem com o exposto, dem o paso para se organizarem activamente no movimento revolucionário, que no nosso país está representado pola esquerda independentista e pol@s comunistas que no seu seio se organizam em Primeira Linha.

Resumindo, e já para rematar, concluímos que a teimosia que a burguesia e os seus aliados pugérom nos últimos 80 anos para matarem umha e outra vez Lenine, nom é mais do que umha prova da plena vigência e actualidade das suas ideias. Ideias que nom estarám desfasadas até o capitalismo ser destruído pola acçom revolucionária d@s oprimid@s da terra. Até esse momento chegar, estas ideias continuarám vivas e serám invencíveis, porque som correctas.

 

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