A força da nossa classe

No novo século que estamos iniciando vamos assistir ao final do capitalismo como modo de produçom hegemónico. O letal sistema que se começou a implantar a inícios do século XVI na Europa, alimentado das riquezas, recursos e matérias primas espoliadas do continente americano e africano, e da escravidom a que submetêrom as suas populaçons, padece umha doença estrutural provocada pola incomensurável avidez da burguesia para acumular mais e mais capital. Após quase cinco séculos a expansom do capitalismo, semelha ter atingido os seus limites. A concentraçom de riquezas em poucas maos, basicamente nos países do norte, tem provocado a depauperaçom absoluta do proletariado que Marx prognosticava no Livro Primeiro do Capital, ou seja da imensa maioria das massas empobrecidas e famentas do Terceiro Mundo, umha crise ecológica de aterradoras conseqüências constatável na actualidade, mas também a sobreexploraçom das classes trabalhadoras do centro da economia-mundo capitalista.

A queda do bloco soviético a finais da década de oitenta foi um balom de oxigénio que permitiu às burguesias ocidentais aprofundarem na recuperaçom de parte do ganho que tinha redistribuído entre as suas respectivas classes trabalhadoras para combater a influência dos países "socialistas", assegurar estabilidade e paz social. Mas a miragem construída sobre décadas de falácias de consensos sociais, do Estado da providência, da cidadania, da "neutralidade do Estado como instrumento igualitário de regulaçom e defesa dos interesses de toda a populaçom", e nom de dominaçom de umha classe sobre outra, desapareceu, esvaiu-se irremediavelmente. Assim, a década de noventa foi a do início da destruiçom paulatina das conquistas e direitos sociais e laborais que a luita organizada das trabalhadoras e trabalhadores atingira em mais de cem anos de greves, mobilizaçons, sabotagens, levantamentos, insurreiçons, revoluçons. Conquistas que nunca ninguém cedeu voluntariamente, que sempre fôrom fruto de milhares de mortes, de heróicos e anónimos sacrifícios, de dores e brutal repressom, da combatividade dos sectores mais lúcidos e avançados da nossa classe.

A burguesia em 1990 estava exultante. A vitória sobre a URSS e a posterior claudicaçom dos burocratizados e corrompidos partidos "comunistas" oficiais, mas também das "organizaçons revolucionárias" dirigidas pola gouche divine da acobardada pequena burguesia, renegando dos objectivos emancipadores da luita operária e popular, gerou um clima de entusiasmo involucionista, de irracionalidade e dogmatismo burguês, materializado na absurda e acientífica teoria do fim da história. O ser humano já nom necessitava de ideologia, o fracasso do capitalismo de Estado na URSS e nos países da sua área de influência constatava a indiscutível superioridade de um modo de produçom supostamente caracterizado por facilitar a todas as pessoas idênticas oportunidades e imensas possibilidades de atingir poder e riqueza. A divisom das sociedades em classes eram simples e obsoletas categorias marxistas, relíquias do passado que a realidade tinha demonstrado serem falsas. A classe operária estava condenada a desaparecer, a consciência de identidade subjectiva já nom existia ou ficava reduzida a fanatizados núcleos residuais, o novo conceito de cidadania cosmopolita substituía a visom classista de um passado superado pola força da história. A economia de mercado e a democracia burguesa representavam a plenitude da evoluçom humana.

Mas hoje, a mais de dez anos de todas essas insensatezes e despropósitos, a realidade encarregou-se de desmentir dia a dia as falácias dos aparelhos de reproduçom ideológica e manipulaçom de massas do bloco de classes dominante.

As condiçons de vida da imensa maioria social que configuramos o Povo Trabalhador Galego é hoje pior do que há dez anos. Paralelamente, assistimos a um incessante processo de acumulaçom e incremento de ganho da burguesia. As mulheres, a mocidade, @s reformad@s, @s desempegad@s, a prática totalidade de todas as fracçons que compomos as classes subalternas observamos como Amáncio Ortega, Roberto Tojeiro ou Julio Fernández Gaioso som cada ano mais ricos, constatamos como à vez que se deterioram as nossas condiçons materiais de existência as grandes empresas declaram sem o mais mínimo pudor incrementos milionárias de benefícios, como a um ritmo médio de duas fusons mensuais o capital galego ou estrangeiro operante no país concentra e aumenta o poder económico, político, social e ideológico. Como Fraga, Tourinho e Quintana procuram o seu reconhecimento e atençom, compartilham mesa e mantel com os directos responsáveis pola nossa exploraçom, empobrecimento e miséria.

Nesta ofensiva contra o mundo do trabalho, a burguesia leva meses traçando as linhas mestras das medidas imediatas que devem aplicar os novos inquilinos da Moncloa, ou seja PP ou PSOE, em solitário ou com o apoio do BNG quem já manifestou "vontade de participar e dialogar" com ambos partidos para "facilitar a governabilidade de Espanha". António Fontenla, presidente da Confederaçom de Empresários de Galiza (CEG) manifestou a finais de Janeiro a necessidade de recortar os direitos d@s trabalhadoras/es fix@s, justificando a precariedade e eventualidade laboral como positivas para criar emprego. Aos poucos dias, foi o presidente do Cículo de Empresários, um lobby financeiro e industrial madrileno, quem apresentou o decálogo de política sócio-económica do governo espanhol emanado das eleiçons de 14 de Março. Manuel Azpilicueta adiantou a necessidade de suprimir a educaçom e sanidade públicas, de acabar com os subsídios aos meios de comunicaçom estatais e à minaria de carvom, de reduzir as contribuiçons à Segurança Social e o funcionariado público, de rebaixar as indemnizaçons por despedimentos improcedentes nos contratos fixos igualando-os com os temporários, de liberalizar ainda mais o solo eliminando a vivenda social.

Poucas semanas depois, umha juíza de Lugo condenava três sindicalistas da CIG a penas de prisom de entre três e seis anos e multas superiores aos 11.000 euros por participar nos piquetes da greve geral de 20 de Junho de 2002 numha exemplarizante setença de castigo contra a luita sindical e o direito à greve, manifestaçom e expressom da classe operária.

As forças políticas maioritárias desse espaço denominado "galeguismo progressista" às vezes mantenhem umha calculada ambigüidade à hora de condenar sem paliativos as declaraçons terroristas da patronal, a conivência da Justiça espanhola com os interesses da burguesia. Noutras ocasions colaboram activamente com as classes dominantes. A inícios de Fevereiro, condenavam sem matizes a ocupaçom do Concelho de Ferrol protagonizado polo proletariado de IZAR e o posterior legítimo acto de autodefesa contra o empresário fascista e tenente de alcaide Juan Fernández.

Na Galiza de hoje, nom só ganhamos menos trabalhando mais. Padecemos umha maior exploraçom e cada vez som mais @s assalariad@s que carecemos dos formais direitos laborais e sindicais pactuados na Transiçom. O deterioramento das condiçons de trabalho, a eventualidade e precarizaçom dos contratos, o desemprego, a pobreza e exclusom social, os acidentes laborais com umha média de umha morte cada três dia na Galiza, tem sido inexoravelmente acompanhada por um recorte das liberdades formais, por umha criminalizaçom das opçons políticas, sociais e sindicais que a classe trabalhadora mantivo ou construiu sobre novos parámetros.

A realidade do mundo do trabalho na Galiza é hoje umha dramática caricatura da que existia há três ou quatro lustros. A maioria das famílias tenhem dificuldades para chegar a fim de mês. Alugueres abusivos e preços de andares proibitivos figérom com que a vivenda se converta num luxo. A mocidade está condenada a contratos "lixo" por salários de miséria. As mulheres ganham menos que os homens realizando idênticos trabalhos. O endividamento com bancos e entidades financeiras é a única maneira para poder puxar para a frente.

Esta ofensiva da burguesia contra a classe trabalhadora está sendo possível por diversos factores. Sem desconsiderarmos o desarmamento ideológico e a comoçom no mundo do trabalho que supujo a crise do socialismo soviético, actualmente a responsabilidade recai basicamente na cooptaçom que padecem as forças políticas de esquerda e as centrais sindicais maioritárias polos donos dos bancos, fábricas e meios de comunicaçom. As elites dos partidos reformistas e as burocracias sindicais optárom por renunciarem à luita em troca de o capital assegurar e perpetuar os privilégios de que desfruta. Os grandes partidos de "esquerda", os sindicatos maioritários, som empresas que mercadeiam com os votos d@s trabalhadores, que recebem milionários subsídios do Estado burguês contribuindo assim para garantir a ordem social vigorante: a exploraçom nacional e social de género.

Mas, para entendermos as causas desta claudicaçom e traiçom, devemos analisar a composiçom de classe hegemónica nas estruturas de direcçom de organizaçons como o BNG, PSOE ou IU, de CCOO, UGT e CIG, em que a pequena e mediana burguesia funcionarial é maioritária, e portanto mantém umha orientaçom política contrária à luita e o combate, e partidária da negociaçom e contínuas concessons. As castas partidárias e as burocracias sindicais ganham cinco, seis ou sete vezes mais do que o salário mínimo interprofissinal, desfrutam dos privilégios que lhes concede o poder polos seus serviços, e portanto nom vivem nas suas carnes a dureza do presente.

As massas estám dando-se conta do amargo futuro que tem reservado para a classe trabalhadora o capital. Ano após ano, acelerada com a entrada do euro, cada vez som mais as trabalhadoras e os trabalhadores que tomam consciência da grave situaçom que nos aguarda. Porém, décadas de intoxicaçom e criminalizaçom da luita organizada, da alternativa socialista, unido ao profundo descrédito do sindicalismo e da política burguesa, dificultam pôr em andamento umha resposta colectiva de resistência que sobre um programa de acçom imediato sente bases para levantar novas estruturas organizativas ou regenerar as existentes. As massivas respostas do último biénio contra a reforma educativa, a reforma laboral, a maré negra e a guerra imperialista, constata que existem vontade de luita. Mas o reformismo, perante o seu desenvolvimento, impede articular, politizar e globalizar as luitas desmobilizando as massas. O movimento Nunca Mais exemplifica a instrumentalizaçom eleitoralista e o oportunismo do BNG e do PSOE para assumir a conflitualidade se der votos.

Devemos recuperar a plena confiança na imensa força da nossa classe. Devemos romper toda dependência com a direcçom e o discurso da pequena-burguesia. Sem nengum tipo de complexos, temos que situar na centralidade da acçom política a contradiçom de classe, ligando-a à opressom nacional e de género. Umha política de emancipaçom de classe num país oprimido e explorado como o nosso só é possível encabeçando a luita de libertaçom nacional. Na Galiza, a opressom de classe e a opressom patriarcal dam-se através da opressom nacional. Esta é sinónimo de exploraçom capitalista das classes trabalhadoras, de opressom machista sobre as mulheres.

Devemos seguir aprofundando no discurso de classe que deve caracterizar o projecto da esquerda independentista, superando visons essencialistas, etnicistas, vaguidades e abstraçons metafísicas.

A única garantia para evitar derivas reformistas, para combater tendências pactistas, para gorar inclinaçons claudicantes, é construir organizaçons em que esteja descartado o interclassismo, e em que a classe trabalhadora seja claramente maioria na suas respectivas direcçons.

Hoje, quando o capital mantém umha deriva fascista como desesperada manobra para manter os seus privilégios, nom há mais alternativa factível que a luita organizada. Sem autorganizaçom operária e popular, sem autogestom das estruturas de luita, sem exercer a autodeterminaçom, sem praticar a autodefesa, sem umha combinaçom dialéctica dos quatro parámetros, estamos condenad@s a ser mais pobres, mais explorad@s e menos livres.

 

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