Formas
de organizaçom unitária das forças populares de parámetros
nacionais (e II)
Maurício
Castro
Abordaremos nesta
segunda parte as fórmulas ensaiadas na nossa naçom para a organizaçom
unitária das forças populares de parámetros nacionais,
a partir dos modelos revisados na primeira parte deste artigo (veja-se Abrente
nº 30).
Comecemos por
reconhecer a luita agónica que tem caracterizado o movimento nacionalista
galego durante o século transcorrido desde os primeiros ensaios de
organizaçom das forças progressistas nacionais. Umha agónica
luita contra o avançado processo de assimilaçom por parte do
projecto nacional espanhol, processo que se tem agudizado e acelerado ao mesmo
ritmo com que se tenhem vindo a impor as formas mais avançadas de uniformizaçom
capitalista no nosso país. E um processo para o que tenhem contribuído
também decisivamente as forças da esquerda de obediência
espanhola, frente às quais fôrom construídas nas últimas
décadas as forças populares galegas nacionalmente afirmadas
(nas suas versons reformista-autonomista e revolucionária-independentista).
A dimensom restrita
do nosso movimento de libertaçom nacional tem sido portanto um primeiro
obstáculo para activar um verdadeiro processo de libertaçom
nacional com conteúdos revolucionários no plano social. Contudo,
é evidente que referir esse condicionante negativo (a limitada consciência
nacional ainda persistente no nosso povo) nom chega para explicar as dificuldades
e limitaçons das propostas unitárias verificadas na nossa pátria
até hoje. Sem irmos mais longe, outros processos inicialmente minoritários
como o irlandês sim dérom certo no objectivo do agrupamento de
forças para a libertaçom nacional, culminando na consecuçom
da ansiada independência.
Nas próximas
linhas, remontaremos aos anos trinta, em que se verifica o maior desenvolvimento
do movimento patriótico galego anterior à Guerra Civil, detectando-se
na Galiza o aparecimento de diversas forças próprias, que vam
do regionalismo mais morno ao independentismo mais conseqüente, e da
direita à esquerda, forças que nem sempre procuram fórmulas
organizativas de unidade, nem sempre que o fam respeitam o princípio
de autoorganizaçom nacional.
A ORGA (Organización
Republicana Gallega Autónoma) situou-se ideologicamente a caminho entre
o federalismo e o autonomismo. Representante de sectores da pequena burguesia,
contou com umha tendência mais galeguista (Vilar Ponte, Ángel
Casal, Vítor Casas,...) e umha outra mais republicanista espanhola
(comandada polo líder da ORGA, Casares Quiroga). De salientável
dimensom eleitoral, a ORGA acabou por integrar-se, em 1934, no partido da
esquerda reformista espanhola Izquierda Republicana.
O PG (Partido
Galeguista) supom, a partir de 1931, a tentativa unitária do nacionalismo
galego da altura. Na sua fundaçom participam 32 grupos, comités,
pequenos partidos e irmandades de diversos pontos do país. Salientam
o Grupo Autonomista Galego (de Vigo), Labor Galeguista (de Ponte Vedra), Partido
Nacionalista Republicano (PNR, de Ourense) e Partido Galeguista (de Ponte
Vedra). O PG supom, a respeito de formulaçons nacionalistas anteriores,
umha abertura à Galiza urbana e moderna, e portanto umha viragem à
esquerda com o reconhecimento do mundo do trabalho entre as suas prioridades.
A sua expansom organizativa, social e eleitoral será constante até
1936, em que a sua militáncia e dirigência é perseguida,
assassinada e condenada ao exílio.
A fórmula
organizativa é a de um partido interclassista com certa vocaçom
de massas, que chega a incorporar às suas fileiras assalariados, artesaos,
labregos, marinheiros, pescadores e burguesia nacional ao pé de profissionais
liberais, comerciantes e empregados que configuravam o PG nos seus inícios.
A Federazón de Mocidades Galeguistas (FMG) constituiu-se em organizaçom
juvenil do Partido Galeguista, que também impulsionou grupos excursionistas
e desportivos, instituiçons científicas em diversas áreas,
meios de comunicaçom e organismos culturais e editoriais, todos eles
de carácter nacionalista. Em 1935, o PG confirma a sua deriva progressista
e republicana coordenando-se com a da espanhola Izquierda Republicana, e aderindo
a seguir à Frente Popular. As alianças do PG darám prioridade
à consolidaçom da República espanhola e ao seu objectivo
autonomista sobre a independência do próprio partido como força
galega, se bem é certo que as alianças nunca tivérom
carácter orgánico. De resto, a incorporaçom do Partido
Galeguista à Frente Popular corresponde-se com a sua própria
configuraçom interclassista, progressista e republicana.
A DG (Direita
Galeguista) foi umha cisom direitista do Partido Galeguista, de carácter
católico e neo-tradicionalista, contrária à incorporaçom
do PG à Frente Popular. Vicente Risco e Filgueira Valverde fôrom
os seus líderes (ambos acabárom por aderir, em diferente medida,
ao Movimiento Nacional franquista).
O independentismo,
que parte do precedente na emigraçom cubana em 1921 do CRAG (Comité
Revolucionáreo Arredista Galego), organiza-se na década de trinta
na Galiza efemeramente em duas organizaçons: a USG (Unión Socialista
Gallega), fundada em 1932, define-se como galeguista e marxista. Liderada
por Joám Jesus Gonçales, nom consegue afiançar-se e dissolve-se
um ano e meio depois. Em 1933, funda-se a VNG (Vangarda Nazonalista Galega),
liderada por Álvaro das Casas (proveniente do PG). Também nom
devemos desconsiderar a importante representatividade que em 1936 atingírom
as teses independentistas lideradas por José Velo no seio da Federazón
de Mocidades Galeguistas, atingindo 43% de votos na sua III Assembleia Nacional
e mudando o nome para Federazón de Mocedades Nacionalistas (FMN). Porém,
e dentro do seu carácter minoritário, o sector independentista
organizado mais significativo permanece nesta altura na emigraçom argentina,
organizado desde 1925 na Irmandade Nacionalista Galega (ING) e a continuaçom,
em 1930 e até 1938, na Sociedade Nazonalista Pondal (SNP). A SNP pretende
a constituiçom de um partido independentista e de massas na própria
Galiza, objectivo que nom chegará a concretizar-se. Contudo, a SNP
manterá-se à margem da parcial unidade nacionalista representada
polo Partido Galeguista, criticando o seu carácter elitista, autonomista
e possibilista, e defendendo umha linha de massas, de mobilizaçom popular
e de enfrentamento radical contra Espanha, num quadro ideológico antiimperialista
e de assunçom progressiva das ideias da esquerda antifascista, nomeadamente
a partir de 1936.
A guerra civil
desmancha o processo de auto-organizaçom e crescimento social do nacionalismo
galego, que durante décadas fai parte da oposiçom republicana
no exílio, através do Consello da Galiza como representaçom
institucional e da Irmandade Galega como força política, e em
aliança com outros movimentos nacionalistas do Estado espanhol (basco
e catalám) no Galeuzka.
No interior,
a rápida imposiçom do poder golpista na Galiza e a repressom
desatada obriga diversos sectores republicanos, incluídos alguns nacionalistas,
a fugir ao monte e iniciar umha heróica luita guerrilheira que se prolonga
até os anos sessenta. Nos primeiros anos actuam mais desorganizadamente,
a continuaçom maioritariamente dirigidos polo PCE e, finalmente, à
margem de umha direcçom que já em 1948 renuncia à estratégia
armada.
Noutro plano, a estrutura clandestina do Partido Galeguista coordena-se com
outras forças opositoras durante os anos quarenta, acabando por derivar
no projecto culturalista da editora Galaxia (1950) e enfrentado com o nacionalismo
do exílio americano. No plano político, o galeguismo liderado
por Ramom Pinheiro acabará advogando pola integraçom em estruturas
políticas espanholas com implantaçom na Galiza para tentar galeguizá-las.
Esta corrente será conhecida com o nome de pinheirismo.
No entanto, durante
a década de sessenta surgirá umha nova geraçom de galegos
e galegas empenhados na reconstruçom de um movimento político
nacionalista, com umha perspectiva marxista. Assim, em 1963 e 1964 som fundados,
respectivamente, o Partido Socialista Galego (PSG) e a Unión do Povo
Galego (UPG).
O primeiro deles,
o Partido Socialista Galego (PSG) representa inicialmente umha visom política
galeguista, moderada e social-democrata, conseguindo na sua primeira fase
a participaçom de alguns membros do velho Partido Galeguista como Francisco
Fernández del Riego, mas ficando reduzido a umha pequena organizaçom
partidária de quadros. Só nos anos setenta é que irá
aprofundando o seu carácter nacionalista e de esquerda, aproximando-se
no plano ideológico do outro ramo do nacionalismo, a UPG. No plano
organizativo, chega a integrar-se na Federación de Partidos Socialistas
del Estado español.
Quanto ao segundo,
a Unión do Povo Galego (UPG), a sua importáncia será
central no desenvolvimento do nacionalismo galego contemporáneo nas
suas diversas correntes, e em boa parte das tentativas unitárias. Este
novo nacionalismo galego representado pola UPG olha nos seus inícios
mais para o exílio do que para o velho galeguismo interior como referente,
nomeadamente para novos núcleos de galegos que em diversos países
americanos desenvolvem iniciativas culturais e políticas superadoras
do já esmorecente Consello da Galiza. É o caso de Luís
Soto, antigo secretário de Castelao e fervente nacionalista proveniente
da tradiçom da III Internacional, que participa na fundaçom
da UPG e na sua decantaçom como partido marxista.
Em situaçom
de clandestinidade, a UPG fundamentará a sua expansom organizativa
nos anos sessenta no trabalho da frente cultural, com a criaçom de
entidades nas principais cidades e vilas da Galiza, conseguindo progressivamente
também a incorporaçom de novos sectores operários a finais
dessa década e inícios da seguinte.
A estratégia
política impulsionada pola UPG baseou-se durante os anos setenta nos
movimentos frentistas interclassistas de libertaçom nacional de áreas
como a Argélia, Moçambique ou Cuba, mantendo a ETA como referente
mais próximo no Estado espanhol. Simultaneamente, confirmava a sua
concepçom maoísta da revoluçom nacional-popular. A promoçom
de organismos de massas em sectores como o cultural (através das associaçons
locais), o estudantil (Estudantes Revolucionários Galegos -ERGA-, em
1972) e o operário (Sindicato Obreiro Galego -SOG-, em 1975), viu-se
complementada no mesmo ano 1975 com a criaçom de um organismo de massas
suprapartidário que acolhesse e coordenasse os diversos sectores do
Movimento Nacional-Popular numha plataforma para a mobilizaçom social,
com o objectivo estratégico da libertaçom nacional: a Asamblea
Nacional-Popular Galega (AN-PG).
Na concepçom
da revoluçom nacional-popular da UPG nom faltava a necessária
Frente Armada, para cuja construçom investiu esforços durante
a primeira metade da década de setenta. A seguir do golpe repressivo
de 75, em que morre o membro da Frente Armada José Ramom Reboiras num
confronto armado com a polícia espanhola, abandonará-se essa
via que até a altura tinha sido teorizada como parte substancial da
sua estratégia de libertaçom nacional e apoiada polos órgaos
de direcçom do partido.
À morte
do ditador espanhol, e coincidindo com o início da chamada Transiçom,
os partidos políticos começam a formar plataformas de ámbito
estatal que por sua vez criam secçons na Galiza. De maneira paralela,
constitui-se no nosso país em 1976 o primeiro organismo unitário
das forças nacionalistas, embora tenha carácter conjuntural.
O seu nome é Consello de Forzas Políticas Galegas (CFPG) e fica
configurado pola UPG, o PSG e o PGSD (Partido Galego Social-Demócrata).
Os seus objectivos: a ruptura democrática com o regime franquista e
a reformulaçom do Estado espanhol com umha óptica federal, concretizada
nas Bases Constitucionais para a participación da Nación Galega
nun Pacto Federal. O Consello, como organismo interpartidário, conta
com umha Comissom Permanente com representaçom dos partidos integrantes,
que tomam todas as decisons de maneira consensuada. Resulta relevante o reconhecimento
expresso que fai o CFPG da AN-PG como organismo para a institucionalizaçom
do poder popular galego. Além das forças fundadoras, outras
duas se incorporam ao Consello nos meses seguintes, ambas de ámbito
estatal: o Movimento Comunista de Galicia (MCG) e o Partido Carlista da Galicia
(PCaG). A vida do Consello como organismo unitário de forças
nacionalistas (e nom só) será inferior a um ano, após
o abandono da UPG e do PGSD por diferenças com os restantes partidos
sobre a concepçom do CFPG em relaçom com a presença das
forças de ámbito estatal.
Da primeira tentativa
unitária passa-se, no ano seguinte (1976), à crise que origina
a primeira cisom independentista na UPG, a chamada UPG-lp (liña proletaria),
enquanto outro grupo cindido cria o Partido Obreiro Galego (POG). Também
a AN-PG sofre a cisom de sectores próximos do PSG que formam a Asamblea
Nacional Galega (ANG). Por seu turno, a UPG e a AN-PG constituem umha coligaçom
eleitoral denominada Bloque Nacional-Popular Galego (BN-PG) para concorrerem
às eleiçons espanholas de Junho. A finais de ano, a UPG-lp fará
um infrutuoso apelo a BN-PG, PSG, ANG, POG e PGSD para a criaçom de
umha Alianza Nacionalista de Esquerda (ANE), de tipo frentista, e num plano
mais imediato para pactuar umha coligaçom eleitoral nacionalista unitária.
Já em
1978, a UPG-lp transforma-se no Partido Galego do Proletariado (PGP), abertamente
independentista e autoproclamado continuador da originária UPG. O seu
objectivo estratégico é, de novo, a criaçom de umha Frente
de Libertaçom Nacional na linha da estratégia revolucionária
nacional-popular, incluído o correspondente "Destacamento Armado".
Mantém contactos com diversas organizaçons para tratar da criaçom
dessa frente unitária, achando algum eco apenas no PSG, mas sem que
a proposta chegue a coalhar.
Em 1979 assistimos
a umha nova proposta unitária de carácter eleitoral no campo
do nacionalismo: a Unidade Galega (UG), formada polo POG, o PSG, o refundado
PG e militantes do independentista PGP, que atinge uns resultados significativos
nas eleiçons municipais. No ano seguinte, som o BN-PG e o PSG quem
conformam a Mesa de Forzas Políticas Galegas (MFPG), que dará
pé a umha aliança eleitoral nas primeiras eleiçons autonómicas
de 81 e nas legislativas de 82.
O PGP impulsiona
em 1980 Galicia Ceibe-OLN como estrutura frentista com vocaçom de massas
que acabará por ocupar o lugar do próprio PGP após a
autodissoluçom deste em 1981. Entre os anos 1979 e 1980 irrompe Loita
Armada Revolucionária (LAR) como primeira experiência armada
independentista galega ligada à própria Galicia Ceibe-OLN.
No ano 1981, surge também Esquerda Galega (EG), liderada por Camilo
Nogueira (ex-UPG), como continuadora do extinto POG, autodefinindo-se como
"nova esquerda nacionalista". Atingirá umha acta de deputado
nas primeiras eleiçons autonómicas, frente às três
conseguidas pola coligaçom BN-PG/PSG.
Vemos portanto
como, às portas de 1982, ano de congressos e da formaçom do
Bloque Nacionalista Galego (BNG), o movimento nacionalista galego de esquerdas
se acha dividido entre, por um lado, o chamado Movimento Nacional-Popular
(BN-PG, circunstancialmente coligado com o PSG); por outro lado Esquerda Galega
e, finalmente, a esquerda independentista integrada em Galicia Ceibe-OLN.
Tanto o BN-PG como Galicia Ceibe-OLN defendem fórmulas de unidade de
tipo frentista, que levem a umha aliança estratégica interclassista
pola autodeterminaçom, enquanto o PSG prefere umha plataforma de filiaçom
individual e EG semelha nem avaliar como necessária a unidade. Além
disso, detectam-se até três projectos parcialmente diferenciados
quanto à estratégia de libertaçom nacional. Só
Galicia Ceibe-OLN aposta pola soberania nacional plena, incluindo na estratégia
frentista a luita armada, enquanto as restantes defendem fórmulas federalistas,
que no caso de EG e o PSG passam polo reconhecimento e aprofundamento do regime
autonómico espanhol, que as forças integrantes do BN-PG rejeitam
a partir da alternativa das Bases Constitucionais. As posiçons de classe
pesarám também na reorientaçom política e organizativa
que umhas e outras forças experimentem nos anos seguintes.
No mesmo ano
81, o Movimento Nacional-Popular vive umha crise ideológica e organizativa,
em que um grupo encabeçado polo secretário geral da UPG na altura,
Pedro Luazes, defende pôr fim à estratégia frentista e
iniciar um processo de unificaçom de todas as forças nacionalistas
num partido de massas, socialista, revolucionário e "nom dogmático".
A crise acaba com o abandono de Luazes e a expulsom de mais cinco membros
do Comité Central, enquanto a UPG reformula a estratégia frentista
ratificada no III Congresso da UPG de 82, que dará na criaçom
do Bloque Nacionalista Galego (BNG) no fim do mesmo ano. Previamente, as diferenças
reproduzirám-se no V Plenário da AN-PG, vencendo também
a linha frentista.
Por sua vez,
o PSG, também de congresso em 82, rejeita o frentismo na sua concepçom
de unidade nacionalista, apostando por umha "Organizaçom Unitária
dos Nacionalistas", assemblear e de filiaçom individual com reconhecimento
para as correntes de opiniom organizadas.
Quanto à
posiçom do independentismo ante os novos ventos de unidade, Galicia
Ceibe-OLN reunia-se no seu IV Plenário Nacional em Abril de 82, acordando
a sua participaçom no processo de criaçom de umha organizaçom
frentista de libertaçom nacional.
Deste jeito, as três correntes do nacionalismo galego de esquerdas confluem
no início do processo unitário, se exceptuarmos Esquerda Galega,
que o rejeita já de partida.
Depois de um processo que vai de Maio a Setembro de 82, constitui-se o BNG,
formado inicialmente por dous partidos (PSG e UPG), umha organizaçom
sectorial (ERGA) e umha série de colectivos de independentes. A AN-PG
autodissolve-se no seio do novo Bloque e Galicia Ceibe-OLN abandona por diferenças
sobretudo na estratégia eleitoral, igual que o colectivo libertário
"Arco da Vella", ainda que neste caso por motivos organizativos
(defendia um modelo assemblear puro). O BNG constitui-se como frente de partidos
e independentes, de carácter interclassista e com a soberania nacional
como objectivo estratégico (exclui-se qualquer referência à
independência ou à construçom de um Estado próprio).
A UPG manterá-se como força hegemónica no seu interior,
ainda que a sua deriva reformista acabe por arrumar qualquer referência
teórica e prática a aquela revoluçom nacional-popular
com que historicamente enchera de conteúdo político a sua estratégia
frentista.
A reformulaçom
do panorama nacionalista no plano político fica, após a proposta
unitária concretizada no BNG, divida entre o próprio BNG e EG
em pugna por um mesmo espaço (nacionalismo federalista e assunçom
progressiva do quadro institucional imposto polo Estado espanhol), face ao
minoritário independentismo (Galicia Ceibe-OLN), que mantém
a aposta pola ruptura democrática e a independência nacional.
Organizativamente, BNG e Galicia Ceibe-OLN defendem o modelo frentista, enquanto
EG rejeita o frentismo em favor da tradicional estrutura partidária
ao serviço de umha política aberta e desacomplexadamente reformista,
que baseia a sua estratégia na assunçom do quadro autonómico
e nom julga conveniente a unidade nacionalista. O PSG assume só inicialmente
a contradiçom de integrar-se numha estrutura frentista apesar de defender
umha outra fórmula organizativa.
O independentismo
continuará ao longo da década de oitenta procurando fórmulas
de entendimento e integraçom numha frente comum com o resto de forças
nacionalistas galegas, sem que em nengum caso cheguem a dar qualquer fruto
positivo. Por sua vez, o BNG sofrerá diversas convulsons internas no
caminho da sua trasnformaçom em opçom plenamente integrada no
sistema. Assim, o PSG abandonará o Bloque em 1983 após os maus
resultados eleitorais e retomando a sua proposta de plataforma unitária
nom frentista e de filiaçom individual (porém, fica no BNG um
sector cindido constituído em Colectivo Socialista). No entanto, o
PSG nom passará de umha fusom com EG após as eleiçons
municipais desse mesmo ano, constituindo-se em PSG-EG. Galicia Ceibe-OLN,
que tenta primeiro criar umha Mesa unitária formada pola ANG, BNG,
PSG e outros colectivos nacionalistas, aberta à integraçom da
"esquerda estatal rupturista", apresenta finalmente nessas eleiçons
duas listas denominadas Candidaturas de Unidade Popular (CUP), que incluem
militantes da organizaçom independentista, do PCOE e independentes.
A finais do mesmo ano, produz-se umha fractura em Galicia Ceibe-OLN, ante
a proposta de autodissoluçom apresentada na VI Assembleia Nacional
por um sector que resulta minoritário (encabeçado por Méndez
Ferrim) e que abandona a organizaçom mantendo a publicaçom do
vozeiro Espiral. A partir desta altura, Galicia Ceibe-OLN passará a
denominar-se Galiza Ceive-OLN.
Em 1985, começa
a gestar-se a criaçom da nova organizaçom armada independentista,
o Exército Guerrilheiro do Povo Galego Ceive (EGPGC), no quadro do
início de umha estratégia político-militar impulsionada
sobretudo por Galiza Ceive-OLN em paralelo à sua frustrada tentativa
de integraçom no BNG.
No seguinte ano,
sectores à esquerda na UPG mostrarám o seu rechaço à
participaçom "normalizada" do Bloque numhas instituiçons
historicamente deslegitimadas polo Movimento Nacional-Popular, o que provocará
a cisom de um sector importante da UPG durante o seu V Congresso, incluido
o secretario geral Mariano Abalo, para conformar primeiro o Colectivo Comunista
22 de Marzo e, logo a seguir, o Partido Comunista de Liberación Nacional
(PCLN). De orientaçom independentista, o novo partido reivindica a
trajectória histórica da UPG e acabará por ser expulso
do BNG e iniciando umha aproximaçom dos restantes sectores independentistas
(Galiza Ceive-OLN, Colectivos Nacionalistas de Trasancos e de Vigo, Grupos
Independentistas Galegos-GIGA- de Compostela, o colectivo corunhês Iskreiro
e pessoas a nível individual) que culminará em 1988 numha nova
proposta unitária e frentista, desta vez atinente ao independentismo:
a Frente Popular Galega (FPG). Contudo, e no que di respeito à estrutura
organizativa, convém salientar que, pola primeira vez, existia umha
proposta diferente da frentista. Com efeito, Galiza Ceive-OLN propugera a
dissoluçom das organizaçons políticas participantes no
processo, para constituir umha organizaçom unitária com base
na filiaçom individual. No entanto, imporá-se a fórmula
defendida polo PCLN (modelo frentista de partidos).
A experiência
unitária independentista nom terá sucesso e no seguinte ano
haverá umha ruptura condicionada polas divergências quanto à
imbricaçom da actividade armada mantida nessa altura polo EGPGC em
relaçom com o movimento político representado pola FPG. O incondicional
apoio de Galiza Ceive-OLN ao Exército Guerrilheiro baterá com
as crescentes reservas do PCLN, partidário da inequívoca separaçom
entre a organizaçom armada e a política, e incapaz de assimilar
as conseqüências da primeira acçom guerrilheira com resultado
(inesperado) de morte (Irijoa, 1989). Na Assembleia Nacional Extraordinária
de 1989, produz-se a cisom do sector nucleado por Galiza Ceive-OLN, que divide
o movimento popular independentista com a criaçom da Assembleia do
Povo Unido (APU). Nos seus textos constituintes, a APU reconhece-se parte
do Movimento de Libertaçom Nacional Galego (MLNG) e defende a necessidade
estratégica de constituir o que denomina Unidade Popular/Frente de
Libertaçom Nacional, afirmando que na altura nom se dam as condiçons
necessárias para avançar nessa tarefa. Pola primeira vez, a
esquerda independentista renuncia a conformar essa Frente de Libertaçom
Nacional com as restantes forças nacionalistas actuantes (PCLN incluído),
umha vez que nengumha delas satisfai as quatro condiçons que a APU
julga imprescindíveis para tal: a assunçom do papel fundamental
da luita armada, a defesa da autodeterminaçom, a defesa da amnistia
total e a elaboraçom de um programa acorde com os interesses das classes
populares.
A tese da APU
é novidosa se levarmos em conta que, pouco antes, a intençom
do PCLN e de Galiza Ceive-OLN era conseguir, quer a integraçom no BNG,
quer a reformulaçom do mesmo incluindo o independentismo (com a excepçom
do EGPGC). Foi a evidência da impossibilidade dessa tentativa que conduziu
a umha soluçom de compromisso, a criaçom da primeira FPG, projecto
que como acabamos de ver também resultou mal sucedido, o que provavelmente
provocou a mudança na concepçom da "UP/FLN" por parte
da Assembleia do Povo Unido, mais do que o questionamento da natureza interclassista
ou dos objectivos minimalistas no plano nacional por parte da hipotética
Frente.
A partir desta
altura, o BNG continuará a alargar o seu projecto comum interclassista
integrando umha força autonomista de direitas como o Partido Nacionalista
Galego (PNG) e abrindo-se à incorporaçom da ex-comunista Inzar
(força resultante da uniom das espanholas LCR e MC). Por seu turno,
o PSG-EG, eleitoralmente em declínio, ensaia fórmulas de crescimento
incorporando sectores procedentes do PNG e do PG, constituindo umha nova Unidade
Galega (UG) e coligando-se posteriormente com a secçom galega da espanhola
Izquierda Unida, para acabar rompendo a coligaçom e integrando-se no
Bloque em 1994. Encerra-se assim o projecto comum, e culmina umha paradoxal
evoluçom do primitivo Movimento Nacional-Popular que o leva a fazer
seu o programa político do sector reformista representado inicialmente
por Esquerda Galega (assunçom do quadro autonómico, participaçom
normalizada nas instituiçons negadoras da soberania nacional galega,
alianças com a esquerda espanhola e reformismo no plano social), mantendo
no entanto a estrutura organizativa frentista que sempre defendeu o MN-PG,
com a UPG como partido comunista hegemónico.
O carácter
de classe da dirigência e quadros médios frentistas, fruto da
correlaçom de forças resultante dos sucessivos conflitos, cissons,
expulsons, abandonos e incorporaçons no seu seio ao longo dos anos;
as próprias tendências dissolventes verificadas a nível
internacional na esquerda e nos movimentos anti-sistémicos no período
que compreende as décadas de oitenta e noventa; o rendimento eleitoral
da política "possibilista"; som algumhas circunstáncias
que podem ajudar a compreender a deriva política que hoje caracteriza
o BNG nos termos indicados, sem desconsiderarmos as próprias carências
"genéticas" de um projecto abstractamente interclassista,
populista e votado no reconhecimento do Estado espanhol como ámbito
possível para a nossa construçom nacional galega.
Na mesma década
de noventa, em que se afiança a unidade orgánica do anteriormente
disperso nacionalismo galego maioritário, a esquerda independentista
continuará representando umha opçom minoritária e dividida.
A derrota militar do EGPGC em 1991 conduzirá à autodissoluçom
da APU em 1995, permanecendo a sua organizaçom juvenil, a Assembleia
da Mocidade Independentista (AMI), como representante de um movimento em profunda
crise. Quanto ao sector PCLN-FPG, o primeiro desaparece com a transformaçom
da FPG em estrutura partidária, que mantém umha política
testemunhal reduzida ao trabalho sindical e municipal em pontos muito localizados
como a vila de Cangas. Conservando entre os seus princípios a estratégia
frentista, continuará a tentar infrutuosamente a sua integraçom
no BNG.
O panorama independentista
começará a "mover-se" novamente com a constituiçom,
no interior do BNG, de umha organizaçom comunista e independentista
em 1996, Primeira Linha (MLN), que após a sua permanência na
frente como corrente nom reconhecida polos organismos de direcçom,
e face à manifesta hostilidade dos mesmos, optará polo abandono
do Bloque e o início de um novo processo de confluência das dispersas
forças independentistas (AMI, FPG e sectores sem referentes organizativos,
além da própria Primeira Linha). O processo iniciará-se
em 1999 com a unidade de acçom entre as três forças na
CNUEIN (Coordenadora Nacional Unitária da Esquerda Independentista),
a partir da qual se impulsionarám assembleias locais abertas à
participaçom de independentes (criarám-se três, na Corunha,
Compostela e Trasancos), para finalmente iniciar-se o denominado Processo
Espiral em que umha série de foros comarcais promovem, em 2001, a constituiçom
de NÓS-UP como nova organizaçom unitária formada por
nove assembleias comarcais e estrutura de Unidade Popular. Novamente, a unidade
total nom será possível ao autoexcluir-se da mesma a FPG, contrária
à unidade orgánica defendida polos restantes sectores.
NÓS-Unidade
Popular constitui assim, a dia de hoje, um novo e ainda minoritário
projecto unitário que pola primeira vez descarta o esquema frentista
interclassista em favor de umha fórmula de Unidade Popular que aglutine
as classes populares num programa de "libertaçom nacional e social
de género", o que supom a incorporaçom da luita antipatriarcal
em pé de igualdade com os objectivos independentista e socialista.
Definindo-se como plural e unitário, com vocaçom de massas e
funcionamento democrático e assemblear, admite "todas as opçons
e ideologias políticas da esquerda independentista". A partir
de um modelo de filiaçom individual que exclui o reconhecimento orgánico
de correntes ou partidos, admite e reconhece a dupla militáncia e portanto
a autoorganizaçom dos diferentes sectores ideológicos que a
integram, ao tempo que mantém como prioridade "abrir vias de debate
e colaboraçom com o independentismo que nom participou no Processo
Espiral". Ao mesmo tempo, NÓS-UP considera-se parte de um Movimento
de Libertaçom Nacional Galego também em construçom e
formado por diversas organizaçons com as quais deve estabelecer umha
coordenaçom estável com base no consenso.
Portanto, o nacionalismo
galego configura-se hoje num sector maioritário, o formado polo BNG
e as diversas organizaçons sectoriais que dirige, com vocaçom
de plena integraçom no sistema e com umha representaçom eleitoral
que lhe permite gerir importantes quotas de poder municipal e provincial,
outorgando-lhe opçons para assumir o governo autonómico aliado
com o PSOE. No plano sindical, o processo de unidade nacionalista seguido
em paralelo ao das organizaçons políticas, fai hoje da CIG umha
central forte, ainda que minoritária em relaçom com o sindicalismo
espanhol actuante na Galiza, e hegemonizada polo próprio BNG, que tenta
reduzi-la a correia de transmissom da sua estratégia eleitoral.
Por outra parte,
na minoritária esquerda independentista convivem dous sectores: um
mais numeroso agrupado em NÓS-Unidade Popular, que nos últimos
dous anos tem iniciado um processo de acumulaçom de forças com
que pretende tirar o independentismo da marginalidade e o testemunhalismo
através da construçom de umha força social significativa
que o sustente e com base nos princípios acima citados. É salientável,
ainda que nom novidosa, a política de apartheid político aplicada
polo mundo do BNG a este novo independentismo, que por seu turno tem afirmado
inequivocamente o seu afám de romper com a histórica síndrome
de "filho díscolo" ou "pródigo" manifestada
polas forças independentistas contemporáneas a respeito do Bloque.
A segunda organizaçom
independentista, a FPG, mantém certa presença no ámbito
sindical através da CUT e pouca actividade política para além
da sua presença institucional no Concelho de Cangas (um concelheiro)
e da sua testemunhal adesom a iniciativas hegemonizadas polo próprio
BNG, como a Plataforma Nunca Mais, da qual NÓS-UP foi excluida a partir
do veto promovido polo BNG e organizaçons afins. Com a chamada Posiçom
Soto, formulada em 1992, como horizonte estratégico (proposta de unidade
do conjunto do nacionalismo mais as forças da esquerda rupturista espanhola),
a FPG recebeu em 1994 a negativa oficial do Bloque à sua solicitaçom
de integraçom. Talvez o maior aval que poda apresentar este partido,
após mais de umha década de caminho marcado pola quase inaniçom
política, seja a sua subsistência como opçom partidária
que, no entanto, terá de acabar optando entre a ambigüidade permanente
quanto à co-referencialidade do BNG e a aposta em firme pola necessária
confluência do todo o independentismo.
Algumhas conclusons
Depois desta
rápida vista de olhos à trajectória organizativa do fragmentado
nacionalismo galego, podemos afirmar que tem sido claramente proclive a fórmulas
de organizaçom de tipo frentista e interclassista. Contudo, deve-se
matizar que antes de 1936 a opçom maioritária foi a de tentar
agrupar todo o nacionalismo num partido de massas com um programa federalista
e interclassista (o representado polo Partido Galeguista), que na versom defendida
polas entidades independentistas implicaria umha política abertamente
soberanista e contrária à conciliaçom com Espanha. Já
vimos como o PG acabaria fazendo parte da Frente Popular de ámbito
estatal que atingiu a vitória eleitoral em 1936.
No nacionalismo marxista surgido nos anos sessenta, o frentismo interclassista
de
libertaçom
nacional é hegemónico. Com diverso sucesso, a AN-PG, a ANG,
Galicia Ceibe-OLN, o BNG e a FPG fôrom tentativas desse teor. Só
o sector representado polo PSG e por EG rejeitou a partir de certa altura
essa fórmula, talvez como autoafirmaçom face a umha UPG autoconsiderada
como o único nacionalismo possível. A própria APU, que
descartou umha frente conjunta com as restantes forças nacionalistas,
mantivo o projecto frentista como objectivo estratégico, e unicamente
NÓS-UP supom umha novidade organizativa com a sua constituiçom
em Unidade Popular de filiaçom apenas individual, embora aberta à
articulaçom paralela de correntes e/ou partidos nom integrados nem
representados como tais na mesma.
Também
nom devemos desconsiderar a existência de significativos sectores que
no interior do BNG reclamam na actualidade a sua transformaçom em partido
convencional, dando por ultrapassada a fase frentista, ainda que por enquanto
constituam umha minoria face aos defensores do modelo frentista. Sintomaticamente,
os sectores defensores dessa mudança organizativa costumam coincidir
com os que historicamente já rejeitaram o frentismo, sendo a maioria
da UPG partidária de manter ainda a estrutura actual.
Num plano mais
táctico, já vimos como se tenhem ensaiado com freqüência
coligaçons ou alianças eleitorais com quase todas as combinaçons
de siglas possíveis, umhas mais ocasionais e até incluindo organizaçons
sucursalistas (UG-EU em 1993), outras mais repetidas e entre forças
só galegas (UG em 79 e BN-PG/PSG em 81 e 82)...
Digamos, para
ir concluindo, que a história está longe do seu fim, e a luita
pola emancipaçom nacional do povo galego também. Os dificultosos
caminhos por que tem embrenhado o nosso movimento popular na sua luita pola
afirmaçom frente à assimilaçom espanhola, continuarám
a ser transitados num processo inçado de avanços e recuos, e
cujo sucesso ou fracasso determinará a sorte futura do povo trabalhador
galego. De resto, a própria história da organizaçom das
nossas forças populares, que brevemente acabamos de gizar nestas linhas,
deixa constáncia da existência e persistência do povo galego
frente à progressiva, acelerada e criminosa uniformizaçom capitalista.
Pola nossa parte, e para além da plasmaçom organizativa concreta
que poda ter em cada fase, estamos convencidos de que só a unidade
dos sectores populares organizados de parámetros nacionais, revolucionários
e independentistas, com umha perspectiva de superaçom do patriarcado,
poderá dar viabilidade futura ao tam necessário projecto de
construçom nacional da Pátria Galega.