Sobre a interiorizaçom da terminologia burguesa por parte do movimento popular

Alberte Moço Quintela

Introduçom

A linguagem é um produto da sociedade que conforma umha peça básica da sua superestrutura ideológica e, como tal, nas sociedades divididas em opressores e oprimid@s -como a nossa- tem umhas determinadas características e um determinado papel segundo a classe, a naçom ou o género do qual emana e a cujos interesses serve. Do mesmo jeito que a moral, a filosofia, as leis, a religiom ou a política, a linguagem nasce e desenvolve-se como expressom das condiçons históricas concretas dumha determinada classe, adquirindo a forma que mais beneficia os objectivos desta na luita por manter e alargar a opressom ou por a abolir definitivamente.

Assim, opressores e oprimid@s moldam os seus sistemas lingüísticos adaptando significantes e significados às suas necessidades de explicar e entender a realidade que os rodeia nuns casos, ou de a ocultarem e tergiversarem em outros. Enquanto o patrom fala de flexibilidade laboral, as operárias falam de precariedade e exploraçom; o detido chama repressom ao que o polícia chama manter a ordem; a Cámara Municipal vê ordenaçom urbanística onde a vizinhança só encontra especulaçom; a Audiência Nacional define como associaçom ilícita o que nós entendemos por organizaçom juvenil; os partidos do sistema denominam Estado das Autonomias o que as naçons oprimidas chamamos cárcere de povos.

Obviamente, as classes dominantes nom poupam esforços em evitar, na medida do possível, que das camadas populares surjam conceitos e categorias que ponham a nu a verdadeira natureza criminosa do sistema; preocupam-se especialmente com este problema porque a linguagem é o canal básico para a aquisiçom, compreensom e transmissom de crenças e pensamentos. O sistema educativo, os meios de comunicaçom de massas, os intelectuais do sistema e outros instrumentos de alienaçom utilizam e promovem umha linguagem que nega, relativiza ou reforça a dominaçom. Para isto, valem-se fundamentalmente dumha terminologia ambígua que oculta a parte da realidade que pode ser perigosa para os cérebros d@s oprimid@s quando nom de umha que inverte totalmente a realidade, convertendo a exploraçom em progresso e bem-estar, e as luitas pola emancipaçom em terrorismo e injustiça.

Em palavras do inimigo

Enquanto a burguesia desprega todo o seu arsenal para impor às oprimidas e oprimidos umha linguagem inofensiva e submissa; em muitas ocasions, os movimentos populares e as organizaçons revolucionárias respondem com passividade e desleixo, assumindo a forma do discurso dominante, embora procurem combater o seu conteúdo; esquecendo a íntima relaçom dialéctica entre o que se di -ou se pretende dizer- e como se di; caindo presas em certos casos da castraçom intelectual que implica a aceitaçom desta linguagem.

Ponhamos um exemplo. Nom é estranho encontrar, num texto assinado por fontes declaradamente revolucionárias, referências e apelos à "cidadania"; aos seus direitos, reivindicaçons e interesses. Mas, o que é a "cidadania"? O que entende quem comunica e quem escuita por "cidadania"? Provavelmente qualquer cousa semelhante a "todas as pessoas que fam parte da sociedade". Sendo assim, podemos falar de interesses e reivindicaçons comuns a toda a sociedade? Obviamente, nom. Na sociedade capitalista existe umha cisom em classes antagónicas com interesses enfrentados e irreconciliáveis; o aumento dos lucros e o bem-estar dumha pequena fracçom da sociedade implica retrocessos nas condiçons de vida da maioria; resulta impossível a defesa dos interesses comuns de toda a "cidadania", polo simples facto de estes nom existirem. A categoria a que nos referimos é, portanto, umha das inumeráveis armadilhas lingüísticas de que essa pequena fracçom da sociedade se tem dotado para negar e ocultar a natureza classista da sociedade, para afirmar defender os direitos dos "cidadaos", quando só defendem os interesses dos poderosos.

O maior problema surge quando o recurso a estes referentes lingüísticos acaba por anular a nossa capacidade para interpretar correctamente a realidade, quando a linguagem que utilizamos se revela como sintoma da nossa claudicaçom ante o pensamento oficial. Aproveitando o exemplo anterior: como defender a nossa emancipaçom como classe quando inçamos os nossos discursos de termos que situam opressores e oprimid@s ao mesmo nível, compartilhando necessidades e reivindicaçons? Nestes casos, assumir a terminologia que impom o sistema é um bom primeiro passo para abandonar definitivamente a perspectiva revolucionária caindo no interclassismo. Podemos dizer que a terminologia burguesa introduzida no discurso do movimento popular actua como um virus, correndo-o, enfraquecendo-o e esvaziando-o da coerência e fortaleza necessárias para o combate ideológico; inabilitando-o para o seu cometido pedagógico e revolucionário.

Por umha linguagem anti-sistémica

Se antes apontamos como os aparelhos ideológicos do sistema utilizam a linguagem como arma na luita de classes, devemos referir também como a esquerda deve utilizá-la no seu favor. Para tratarmos esta questom -certamente complexa nos seus pormenores-, podemos tomar um ponto de partida bastante simples: se a linguagem dominante tem como objectivo ocultar a opressom e frustrar a rebeldia d@s oprimid@s contra a injustiça, valendo-se da ambigüidade, da confusom e da negaçom da realidade; a linguagem revolucionária deve caracterizar-se por desmascarar e fazer visível essa mesma opressom, assim contribuindo para a tomada de consciência contra a mesma, recorrendo à clareza, à radicalidade, à simplicidade e ao maior rigor científico.

A linguagem da esquerda deve começar por se libertar da terminologia enganosa e ambígua, mas isto nem sempre é fácil. Em ocasions, o engano é evidente -como exemplo, reparemos em que os meios de comunicaçom chegam a denominar "forças de paz" mercenários equipados com armamento químico-; o qual nom deixa de ser preocupante, pois dá umha medida de até onde os oprimidos podem aceitar acriticamente o discurso dominante. Porém, noutros casos, a armadilha encontra-se mais escondida; trata-se de matizes, de possíveis associaçons de ideias, de conexons com partes do pensamento dominante previamente assumidas pol@ "oprimid@ médi@". Outro olhar à "cidadania" poderia ilustrar-nos, mas ponhamos um outro caso conhecido por tod@s; quando a violência contra as mulheres começou a tornar-se um problema socialmente visível, os porta-vozes do sistema apressárom a dar-lhe a denominaçom de "violência doméstica". O termo, que tem umha mínima e necessária correspondência com a realidade, pois fai referência a um tipo de violência que costuma acontecer dentro do próprio lar, do núcleo familiar; encerra um conjunto de significados escandalosamente machistas. Para já, elude referir-se a que esta violência é exercida por homens e padecida por mulheres; com um breve olhar à imprensa burguesa, encontrariamos centenas de titulos referidos à "violência doméstica" nos quais nom há nengum termo que remeta para o carácter de género da questom. Além disso, se aparecer algumha referência a este carácter, os nossos cérebros de oprimid@s sempre podem metê-lo na gaveta do "doméstico": das tarefas domésticas, dos electrodomésticos, da contabilidade doméstica... esses pequenos problemas das mulheres! Inatos à sua condiçom feminina.

Como devemos enfrentarnos a esta terminologia? Por fortuna, os movimentos populares e revolucionários, quando som de verdade, tenhem algumhas ferramentas idóneas para a tarefa: o materialismo histórico e a dialéctica junto ao resto de métodos de análise da realidade e, como nom, a criatividade. Ante umha realidade nova, ou umha velha que pola primeira vez chega às nossas maos, devemos saber deter-nos a analisá-la, a encontrar a sua origem e as suas contradiçons internas, a descobrir a quem é que beneficia e que lugar é que ocupa na luita de classes; para assim construirmos nom só um pensamento ao seu respeito, mas também a terminologia com que devemos denotá-la. Se escolhermos o caminho fácil, o de aceitarmos o que nos vem pré-fabricado polo sistema, as conseqüências podem ser nefastas. Aproveitando o exemplo anterior, o feminismo organizado nom demorou muito a cair na conta das implicaçons da terminologia oficial, e assim fôrom surgindo novos termos para referir essa realidade como "violência de género" em primeiro lugar e "violência machista" (ou "terrorismo machista") posteriormente, que denota claramente aqueles aspectos da questom úteis na luita contra o patriarcado.

Num plano paralelo, devemos ter presente que a linguagem dominante nom só cria significantes para deturpar a percepçom de determinados significados, como também actua em sentido inverso modificando o conteúdo semántico de palavras, expressons e termos. "Democracia", que em tempos significou "governo de todo o povo", significa hoje ditadura da burguesia, capitalismo e Estado policial. Este aspecto do problema, que liga com outras áreas do pensamento nom estritamente terminológicas ou lingüísticas, é se calhar mais complexo ainda no que di respeito à intervençom prática. Sem aprofundarmos muito, diremos que a nossa tarefa é a de outorgar a cada significante o significado que mais beneficie os interesses populares, mas sempre a partir do rigor científico (etimológico, por exemplo). Além disso, e nom só com este cometido, devemos fazer um esforço por preencher de conteúdo real e concreto, por explicar e difundir correctamente, a terminologia que criamos ou utilizamos, para assim blindá-la contra a deturpaçom da linguagem dominante. Em todo o caso, sempre contamos com o recurso de guindar ao lixo as velhas e maltratadas palavras, substituindo-as por outras novas que nos sirvam melhor.

Após o dito, quiçá resulte óbvia a conclusom: a linguagem, longe de ser neutra e comum a toda a sociedade, é um instrumento de dominaçom ou umha arma revolucionária. É um dever e umha necessidade para nós convertê-la no segundo e mantê-la bem repleta de muniçom. Pois nom devemos esquecer que a linguagem que hoje conhecemos é um produto e um reflexo da exploraçom da nossa classe durante séculos; temos toda a legitimidade para fazer com ela o que quigermos.


Alberte Moço Quintela é membro do Comité Central de Primeira Linha



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