PT: Ensinamentos da crise

Os meios de comunicaçom nom cessam de repercutir, dia após dia, conforme os interesses em voga, umha sucessom de escándalos e graves deslizes éticos envolvendo figuras exponenciais da combalida República brasileira, especialmente o núcleo dirigente do Partido dos Trabalhadores, na sua relaçom promíscua com os aparelhos do Estado, por meio de lídimos representantes governamentais, em conluio com membros do Parlamento e segmentos de empresas estatais e figuras do sector empresarial.

Estarrecida, a sociedade indigna-se, especialmente os segmentos populares mais organizados, diante dos sucessivos escándalos de milionários saques bancários feitos por prepostos de deputados e de partidos da base de apoio ao Governo, transportados em malas e distribuídos em quarto de hotel, em troca da sua adesom ao Governo, por ocasiom das votaçons de projectos de lei de grande impacto para a sociedade.

Escándalos que constrangem e dilaceram a sociedade, seja polo inédito volume de recursos movimentados, seja pola freqüência, seja principalmente polo número e perfil dos envolvidos, em particular dirigentes e parlamentares do PT em conluio com o ex-ministro da Casa Civil, principal figura governamental e mais próxima do presidente dessa mal nascida e sempre agonizante República.

Ao mesmo tempo, importa ter presente que o que agora vem a público é a apenas o epifenómeno dessa crise, a ponta do "iceberg", sua manifestaçom mais impetuosa e mais à vista. Ainda que sem deixar de acompanhar atentamente essa avalanche de denúncias, acusaçons, depoimentos, entrevistas, diariamente noticiados polos media, parece impossível um entendimento razoável do carácter, do alcance e das conseqüências dessa crise complexa e multifacetada, se nom nos ativermos aos seus diferentes factores imediatos e menos imediatos, conjunturais e estruturais.

Tentamos extrair desta crise ainda em curso alguns ensinamentos, em busca de ensaiar passos de superaçom.

1- Capitalismo nom rima com ética

O processo de acumulaçom de riquezas, especialmente no modo de produçom capitalista, pressupom o recurso a mecanismos de pilhagem, com ou sem manto legal. Impossível que tenha lugar dentro de um quadro de relaçons eticamente aceitável. A nom ser que se trate da "ética capitalista".

2- Rememorando retalhos da história da sociedade brasileira

A história da sociedade brasileira, à semelhança de tantas outras na América Latina, nas Caraíbas e alhures, tem sido tecida de híbridos fios, de variado matiz. Fios de relaçons solidárias e de dominaçom; e fios de resistência, e também de fios éticos, misturados, ora de decência, ora de umha sucessom de episódios graves e menos graves de deslizes ético-políticos. Aqui vamos deter-nos mais directamente sobre estes últimos e mais recentes.

À primeira vista, para um analista mais atento aos bastidores da política, no quadro histórico da sociedade brasileira, nom haveria motivo para tanta surpresa ou perplexidade. Indignaçom, sim. Os escándalos financeiros e as falcatruas governamentais e político-partidários som, de resto, triste praxe, ao longo da história de nossa República sempre tam mal resolvida, desde suas origens.

Diversamente dos actores de antes, agora som justamente as forças que se reclamam de esquerda, e mais precisamente o Partido dos Trabalhadores e os seus aliados, que protagonizam os escándalos. Justo esses cuja trajectória de conquistas sempre estivo directamente vinculada à bandeira da ética na política.

A trajectória do PT, com efeito, desde suas origens, é marcada por princípios ético-políticos de que dão prova. Se assim é, que factos ou circunstáncias determinárom ou condicionárom essa mudança de postura? Passemos a sublinhar alguns:

-o progressivo afastamento das luitas sociais.
-a crescente ocupaçom dos espaços instituídos.
-o deslumbramento com a máquina governamental.
-aposta cada vez maior nas instáncias governamentais como principal ou exclusiva ferramenta de mudança social.
-o aliancismo como ferramenta de acesso às instáncias executivas e parlamentares do Estado.
-profissionalizaçom da militáncia, agora transformada em agentes partidários e governamentais.
-retracçom ou inibiçom dos seus habituais procedimentos de organizaçom partidária.
-abandono à manutençom do Partido polo conjunto de seus filiados como procedimento político.
-desproporcional contribuiçom financeira a cargo dos eleitos em detrimento da proveniente dos militantes de base.
-progressiva centralizaçom das deliberaçons partidárias.
-abdicaçom dos critérios para filiaçom partidária.
-progressiva alteraçom nos procedimentos de embates eleitorais.
-recurso táctico abusivo ao currículo de seus quadros dirigentes.
-cultura do endividamento como recurso para cobrir gastos de campanhas eleitorais.
-abuso dos gastos em marketing e propaganda (avidez por parecer).
-apelo ao controlo indirecto da estrutura sindical e dos movimentos sociais.
-agravamento do corporativismo, traduzido no compromisso com os "meus" ainda que contra a causa...
-promoçom e exercício da prática de esquizofrenia individual e colectiva...
-mudança de tratamento ou endurecimento em relaçom aos críticos internos ao Partido.
-progressivo e deslumbrante aproximaçom de outros "amigos" e outros aplausos...
-aposta na perpetuaçom do "poder".
-assujeitamento às regras do mercado para além do exigido, em troca de opçom polas políticas compensatórias.
-perda do horizonte de classe (o amplo leque dos excluídos: mulheres das classes populares, vítimas da prostituiçom, trabalho infantil, assalariados, desempregados, sub-empregados, sem-terra, sem-teito, Índios, Negros, portadores de deficiência, jovens vítimas da violência social, migrantes, presos comuns, moradores das florestas vitimadas polos crimes ecológicos com a conivência de representantes de órgaos governamentais...).
-controlo táctico das empresas estatais...

Alguns ensinamentos da crise, em busca de superá-la

O que devemos recolher desse emaranhado de descaminhos e falcatruas, ocorrências fraudulentas, situaçons de impasse, desdobramentos ainda em curso? umha infinidade de liçons. O que se segue é um primeiro esboço, resultante das impressons mais fortes que o momento propicia. Vamos resumir em dous pontos: evidências "esquecidas" possíveis pistas de superaçom.

Evidências "esquecidas"

Também neste item, optamos por expor um leque de pontos ou situaçons que chamamos de evidências "esquecidas", por serem bem familiares a militantes históricos do PT. Para um entendimento mais consistente, convém ter presente o dinámico entrelaçamento que caracteriza o conjunto dessas evidências.

-Pretender luitar por umha nova sociedade para os deserdados da Terra

Isso nada tem de novidade. E, no entanto, é umha de tantas evidências esquecidas polas forças que se pretendem de esquerda. A transformaçom social é obra dos próprios trabalhadores e trabalhadoras. Tentar substituí-los ou dispensá-los do protagonismo é fracasso certo. Nom é a primeira vez, na história...

-Profissionalizar a militáncia

Profundo equívoco do PT e forças aliadas foi distanciar-se das luitas sociais, frutuoso espaço de formaçom e de refontizaçom de seu compromisso com a causa dos oprimidos. Os movimentos sociais e as pastorais sociais eram terreno familiar e propício à formaçom da consciência de classe dos militantes, nos primeiros anos do Partido. À medida que foram abandonando ou se distanciando progressivamente desse espaço referencial, foram também abrindo mao da gratuidade do trabalho político e popular.

Apostar nos espaços e mecanismos institucionais como único ou principal factor de mudança social

O PT nasceu com ímpeto instituinte. Luitava pola construçom de umha nova sociedade. Mesmo recorrendo a mecanismos institucionais como o processo eleitoral, demonstrava disposiçom de ir além da mera democracia representativa. Nisso se assemelha a tantos movimentos populares, ao longo da história.

As conquistas graduais de espaços parlamentares e governamentais fôrom mudando a cabeça dos eleitos e a sua nova base de sustentaçom. Pior: o acesso e o exercício do poder parlamentar e governamental fôrom operando neles, salvo honrosas excepçons, progressiva mudança de postura, até sucumbirem de vez ao fascínio do poder, já nom mais importando os critérios, a nom ser o cuidado de repetir princípios de boca para fora ("Eu nom mudei")...

Apoiar-se no currículo como arma de sustentaçom ético-política

Umha das tácticas mais recorrentes abusivamente utilizadas polos dirigentes governamentais e partidários, quando instados a se explicarem de posiçons antagonicas aos princípios históricos que defendiam até há pouco tempo, vem sendo a de remeterem aos seus críticos ao seu passado de luitas.

"Connosco é diferente" (dizer combater os privilegiados e incorporar seu estilo de vida)

Um ligeiro refrescar da memória dos primeiros tempos de PT ajuda a recuperar o estilo sóbrio dos dirigentes e militantes partidários. Mesmo os que pertenciam a segmentos médios da sociedade comportavam-se de modo singelo, sem pompa. A convivência com os oprimidos e suas luitas ajudava a se guardar um clima de fraternidade, nas relaçons políticas do dia-a-dia. Isso também foi progressivamente abandonado, salvo excepçons.

O deslumbramento polos sedutores atalhos

A cada dois anos, temos eleiçons no Brasil, ora para vereadores e presidentes de Cámara municipal, ora para a Cámara Federal, o Senado e a Presidência da República. Mesmo nas suas origens, o PT também participava desse processo, mas de modo a buscar publicizar o seu projecto de sociedade, manifestando-se crítico com relaçom ao status quo. Nom perdia a cabeça ante os tímidos resultados eleitorais. Atribuía ao processo eleitoral o peso que lhe devia. À medida, porém, que conquistas pontuais, nesse terreno, iam sendo alcançadas, parte significativa dos seus dirigentes passou a mudar de ideia. A proximidade do poder subiu-lhes à cabeça.

Substituiçom progressiva da aposta na busca da verdade pola aposta na verossimilhança. A essa mesma obsessom polos atalhos está associada a progressiva aposta nas tácticas de marketing. Já nom vale a prática como critério da verdade. Nas campanhas eleitorais e na promoçom dos candidatos, o que importa mesmo é parecer, é o investimento na aparência, na imagem que é passada ao público.

Negligenciar o processo formativo continuado. Quem nom se lembra da euforia provocada na militáncia com a iniciativa do Instituto Cajamar, voltada para a formaçom da militáncia, das bases e dos dirigentes. A Secretaria de Formaçom investindo o melhor de si nessa perspectiva. Sonho que duraria pouco, ante a gula polo poder... A certa altura, já nem se falava mais nisso.

Perder o senso da autocrítica. Nom apenas os documentos, como também os espaços formativos eram ocasions propícias em que se acentuava o papel irrenunciável do exercício da autocrítica. Prática que logo se esvaziaria, à medida que deslizes eventuais se fôrom institucionalizando, fazendo os implicados substituírem o recurso à autocrítica polo discurso da racionalidade cínica, como aliás ditava a moda "pós-moderna"...

Atribuir a uns poucos o que é da responsabilidade do colectivo. Diferentemente das experiências iniciais, previstas, aliás, nos textos fundantes do PT, cuja prática habitual era de se discutir e deliberar colectivamente a partir das bases, passou-se a delegar a bem poucos os destinos do Partido.

Apostar nas políticas compensatórias como principal estratégia. Já que, a essa altura, o rumo já terá sido esquecido, a tendência passa a ser a do discurso da racionalidade cínica: "faz-se o possível", "já que o sonho é impossível, vamos tirar proveito do que pudermos"... Neste caso, dá-se adeus às antigas propostas mudancistas, substituindo-as pola cultura assistencialista com nomes sedutores equivalendo simplesmente à estratégia das políticas compensatórias...

Seguir incondicionalmente os rituais da democracia representativa. Sendo assim, nom há outro caminho "possível", a nom ser nivelar-se aos demais "partidos da ordem". Como nom se ousa dizer as cousas polo seu nome verdadeiro, criam-se eufemismos autojustificadores: "Precisamos de ser responsáveis." "Umha cousa é fazer oposiçom, outra é governar."

Recurso ao endividamento partidário. Tal é a gula polo naco de poder (que na verdade é simbólico, já que se cumprem ordens vindas de fora), que facilmente sucumbem ao cativeiro do endividamento... Após as campanhas, as dívidas revelam-se astronómicas, com ou sem que ninguém acredite na lisura do processo.

Apostar na "Reforma Política". Um álibi freqüente de que se tem usado e abusado, em tempos de crise aguda, é o apelo a reformas, ou seja: "aprimorar a legislaçom".

É possível dessa crise recolher pistas de superaçom?

Reavivar o rumo almejado. Caminhos de saída para a crise só haverá, caso sejam capazes de afectar a raiz do problema. Dentro do Capitalismo, estamos cansados de saber, crise depois de crise, que nom há a mínima chance. (…) Só um horizonte alternativo ao Capitalismo pode inspirar credibilidade aos e às que se entregam à busca de umha saída, olhos fixos na viabilizaçom de um projecto alternativo, útero de umha sociabilidade alternativa. Ainda que nom tenhamos condiçons (polo menos subjetivas) de fazer irromper já essa transiçom.

- Retomar os caminhos correspondentes ao rumo
- Inverter, em favor das acçons instituintes junto à classe trabalhadora as actividades hoje consagradas quase exclusivamente à actuaçom partidária convencional;
- Priorizar o recurso aos meios simples;
- alternáncia ou rodízio de funçons;
- combate ao personalismo;
- superaçom da dicotomia trabalho manual/trabalho intelectual;
- promover a uniom e a organizaçom das camadas populares por meio de pequenos grupos

Redefinir constantemente parceiros, aliados e adversários. Tal é a dinámica com que mudam os cenários das sociedades, nessa fase de profunda, célere incessante globalizaçom, que implica constantes redefiniçons de quem som mesmo os nossos parceiros, os nossos aliados e quem som os nossos adversários. Sem isso, podemos estar comprando constantemente gatos por lebres...

Presentificar a memória histórica dos luitadores e luitadoras do Povo. Umha iniciativa legada por quase todas as geraçons de luitadores e luitadoras do povo tem a ver com a disposiçom de fazer presente a densa memória de luitas populares, com os seus respectivos protagonistas. Reavivar a memória histórica é apostar na necessária realimentaçom dos verdadeiros protagonistas, no sentido de conduzirem a bom termo a nossa justa inquietaçom com a classe trabalhadora.

Exercitar a mística revolucionária nos espaços do Quotidiano. Quase todos os graves deslizes tenhem por trás a presunçom de que baste que um militante afirme "pertencer ao PT" para logo sentir-se seguro nos seus compromissos. Se assim fosse, nom passaria de um ritual que se esgota em si mesmo. Isso nom garante nada. O que de facto garante é a renovada disposiçom do coletivo (movimento, sindicato, partido...) e de cada militante, de refazer seus compromissos no chao das relaçons do Quotidiano.

Apostar na formaçom continuada. O processo de formaçom continuada, ou será umha prioridade efectiva para cada militante, ou de nada valerám os seus propósitos de compromisso com a causa dos excluídos. É polo incessante processo de formaçom que os militantes conseguem aprimorar a sua capacidade perceptiva, condiçom para umha intervençom qualificada nas relaçons sociais e humanas de cada dia.

Tal como em tantas outras experiências amargas do passado, nom devemos esquecer que períodos de crise, desde que bem trabalhados (com autocrítica), podem tornar-se propícios para umha retomada, em novo estilo, de rumos e caminhos. Aqui também repousa a nossa esperança.

Alder Júlio Ferreira Calado

 

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