Contra a mística e o idealismo no MLNG

André Seoane Antelo

 

Umha das funçons dumha organizaçom revolucionária é o combate ideológico contra o pensamento único da burguesia, contra a falsa consciência necessária que, empregando os mais variados mecanismos, provoca a alienaçom de amplos sectores populares; mas também deve cumprir a tarefa de depurar ideias incorrectas das formulaçons teóricas do movimento no qual insere a sua intervençom teórico-prática.

No caso do movimento de libertaçom nacional galego, as ideias incorrectas como o esencialismo e o idealismo estám presentes desde os alvores da nossa história política, quando se configuram as primeiras organizaçons que pretendem a conquista da soberania para o nosso povo.

Porém, somos conscientes que essas manifestaçons idealistas nom caírom do céu, senom que respondem à natureza de classe que caracterizou a gestaçom e trajectória do nacionalismo galego, e que ainda hoje está presente nalguns sectores políticos do MLNG.

Nom podemos ignorar que o galeguismo histórico, o que se organizava nas Irmandades da Fala e posteriormente no Partido Galeguista, era um movimento eminentemente pequeno-burguês, integrado, -quando menos no que toca à ampla maioria dos seus quadros dirigentes-, por profissionais liberais. Umha matriz pequeno-burguesa que transladou as suas incertezas, complexos e dúvidas congénitas como fracçom vacilante no meio da luita de classes entre proletariado e burguesia.

Foi este movimento, o galeguismo de pré-guerra, quem assentou as bases dumha teoria política do nacionalismo galego e que influiu grandemente nas formulaçons teóricas que se desenvolvêrom a posteriori, mesmo até os nossos dias. Já noutras ocasions Primeira Linha tem avaliado como a configuraçom da esquerda nacionalista galega na década de sessenta do passado século ficou presa dumhas conceiçons herdadas do PG que bloqueárom o desenvolvimento de postulados nitidamente independentistas como resposta lógica à opressom imperialista. Assim, um dos principais lastros que o galeguismo histórico deixou em herdança aos seus sucessores foi o dumha conceiçom política incapaz de superar o quadro hispánico.

Mas o certo é que essa conceiçom hispánica, teoricamente federal ou pseudoconfederal, mas que na praxe nom superou os parámetros autonomistas, nom deu encontrado abrigo por razons óbvias no seio da esquerda independentista, edificada em grande parte precisamente em contra esse minimalismo pequeno-burguês próprio da Geraçom Nós, ficando restrita ao campo próprio da corrente nacionalista maioritária que a elevou a dogma, o actual autonomismo galego.

Embora essa manifestaçom concreta do idealismo que é o hispanismo ficasse fora do quadro teórico-ideológico do MLNG, nom aconteceu assim com outras heranças de natureza nom menos idealista. Estamos a referir-nos à conceiçom do sujeito nacional e, por extensom, à definiçom de linhas políticas concretas que aparecem prenhadas de erros de importáncia, ao propor umha acçom em que o sujeito material é ignorado para se centrar no apelo misticista e idealista a umha série de lugares comuns como som o sentimento, a Terra, o vexame, o sofrimento...

Nom podemos obviar que, a raiz da queda do sistema soviético nos começos da década de 90, um sector da esquerda independentista, como se o muro de Berlim lhe tivesse caído em cima, viveu umha involuçom ideológica que o retraiu das conceiçons próprias do nacionalismo-popular da década de sessenta para as conceiçons mais avançadas do arredismo defendido pola Sociedade Nazonalista Pondal no Buenos Aires das décadas de 30 e 40 do século passado. E dizemos conceiçons mais avançadas polo que se refere ao contraste entre as formulaçons da SNP e o PG, nom entre este arredismo e as propostas da UPG de 60 e 70, que quando menos introduziam elementos analíticos marxistas nas suas formulaçons e parámetros.

Essa volta ao arredismo, longe de se converter numha anedota própria dumha etapa caracterizada pola perda do norte de muitos sectores e activistas da esquerda a começos da década de 90, continua presente, e onde melhor podemos achar um exemplo dessa conceiçom idealista é na agitaçom dumha palavra de ordem: a defesa da Terra, que um sector do nosso movimento elevou como bandeira, e à volta da qual pretende fazer girar a prática totalidade da acçom política do MLNG. Como nas melhores épocas do bardismo pondaliano, há quem hoje alce a voz para fazer apelos à sacra Terra e à Caste dos Celtas, sem o mais mínimo rubor. Hoje, neste país, há quem, reclamando-se parte da nova esquerda independentista, nom dúvide à hora de falar de vexames e humilhaçons, negando qualquer possibilidade de quantificaçom material da opressom nacional. Há quem ignore, e queira fazer ignorar, que opressom e imperialismo som realidades tangíveis, e só dum jeito secundário sentimentais.

Nom seremos nós que pretendamos negar a especial relaçom que o povo trabalhador galego estabeleceu com um território que vem habitando desde há milhares de anos. Certo é que a nossa configuraçom como grupo étnico diferenciado nom se pode dar como concluída até o surgimento do idioma nacional na Idade Média, mas nom menos certo é que a base biológica populacional da Galiza se mantivo sem grandes mudanças desde polo menos a Idade de Bronze, o que deriva dumha lógica identificaçom povo-terra gerada polo trabalho ao longo dos anos e geraçom após geraçom. Porém, é precisamente esta consciência da especial relaçom entre a terra e o povo o que nos leva a descartar qualquer pretensom de sacralizaçom da ideia da Terra como ente inamovível e eterno.

Ao longo dos séculos, o povo trabalhador galego modificou o seu habitat consoante as suas necessidades roturando terras, escavando minas, introduzindo novos cultivos, etc... Elementos paisagísticos que hoje consideramos naturais, como o monte baixo constituído por tojos e gestas, nom som tam naturais como poderia parecer, senom que fôrom provocados pola acçom humana para extrair um aproveitamento económico da exploraçom do meio.

Evidentemente, as modificaçons introduzidas nos últimos tempos na configuraçom e ordenamento territorial galego, derivadas da imposiçom a marchas forçadas da lógica predadora do capitalismo, nom podem ser comparadas com as mudanças que o povo trabalhador galego provocou em milhares de anos. A agressividade do novo modelo económico, e sobretodo a sua adequaçom a factores exógenos à nossa realidade nacional, para nada preocupados polas nefastas repercussons ambientais que na Galiza pudessem ter, estabelecem umha nítida delimitaçom entre as mudanças no território que se dérom antes e depois da entrada do modo de produçom capitalista na nossa realidade.

Consideramos que quem agita a palavra de ordem da Defesa da Terra como eixo central da acçom política do nosso movimento está a cair no erro de ignorar, por mais que o pretenda negar, a realidade mutável da relaçom que @s galeg@s estabelecemos com o território que habitamos. Se revermos os textos, artigos e discursos elaborados por essa corrente determinada do MLNG, em que a Defesa da Terra é colocada como elemento fundamental das teses teórico-ideológicas da esquerda independentista, nom demoramos a reparar na evidente carga mística que lhe é aplicada. A Terra deixa de ser o elemento material sobre o que assenta, em sentido literal, a vida do nosso povo, para se converter num ente ideal, de carácter imutável, que cobra vida para além da própria existência da naçom como colectivo humano. Como nas conceiçons próprias do idealismo romántico, tam caro a alguns dos grandes autores da nossa literatura nacional como Pondal ou Pedraio, a Terra pom-se por cima de quem a habita.

@s comunistas galeg@s nom podemos compartilhar em modo algum as teses que sustentam esta conceiçom idealista e mística da Terra. Para nós, que defendemos a mais radical e completa forma de humanismo, nom pode resultar-nos mais que estranho e aberrante a configuraçom dum independentismo de matriz telúrica em que o sujeito de emancipaçom deixa de ser a hegemónica colectividade humana que configura o mundo do Trabalho, sendo esta substituída por um ente inconsciente como a Terra.

No nosso empenho pola depuraçom de toda conceiçom idealista das bases teóricas do nosso movimento de libertaçom nacional e social de género, nom podemos dar margem à extensom de conceiçons erradas, alheias ao conhecimento científico emanado da aplicaçom da dialéctica materialista como método de interpretaçom da realidade, que no meio ou longo prazo nom farám mais do que levar ao fracasso a esquerda independentista.

Para @s comunistas galeg@s, o sujeito activo da revoluçom e do processo de libertaçom nacional é o conjunto do povo trabalhador galego, entendido como bloco das camadas populares da naçom galega sob a direcçom da classe operária, e toda reflexom teórica e proposta política que for feita a partir das chaves da esquerda independentista deve ter em conta a categoria do PTG como elemento central. Partindo desta premissa, deriva-se que a importáncia da defesa da Terra, entendida esta como a luita contra as agressons sobre o território e o meio natural provocadas polo capitalismo, amparado na dominaçom imperialista, é subsidiária dos interesses objectivos do PTG e nom ao contrário. Ou como bem di o refraneiro popular "nom se pode pôr o carro diante dos bois". Assim, nom há que cair no erro de elevar o que é secundário numha relaçom dialéctica à categoria de principal, tal e como alguns/has companheir@s do MLNG fam ao colocarem a Terra à frente do Povo Trabalhador.

Estamos a dizer com isto que nom há que prestar atençom à questom da luita contra as agressons ambientais no nosso país? Nom tal. Simplesmente estamos a pôr de relevo que essas agresons contra a Terra nom teriam relevo algum se nom houvesse um povo a viver acima dela.

Aguardamos ter contribuído para esclarecer um dos debates que no seio da esquerda independentista se estám a dar nos últimos anos. Debates que, para além do que alguns elementos situados dentro e fora do próprio MLNG interessados em ocultar umha realidade que lhe pode ser adversa podem dizer, respondem a mais algo do que simples luitas polo poder entre correntes, reflectindo a realidade da existência dum confronto ideológico derivado da extensom da luita de classes também dentro da própria esquerda independentista. A nossa intençom, como temos posto de manifesto ao longo do tempo, abrindo as páginas das nossas publicaçons a opinions nom coincidentes com as do nosso Partido, é a de que estes debates se dem dum jeito franco e aberto, já que entendemos que do contraste de linhas e que podem sair as directrizes correctas que fagam avançar o nosso processo de libertaçom nacional e social de género.


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