Nom se nota nada

André Seoane Antelo

Nom se nota nada!... Assim, com este slogan de penso para a higiene feminina, é como melhor poderíamos definir a política desenvolvida polo bipartido em relaçom ao que se costuma chamar “relaçons laborais”. Um termo próprio do pensamento oficial, politicamente correcto e que, com certeza, procura ocultar detrás da sua aparente neutralidade todas as tensons geradas pola exploraçom do capital sobre o trabalho.

Nom se nota nada que no governo da Junta se sentem representantes de duas organizaçons ligadas historicamente ao movimento operário, umha delas mesmo recolhe o termo “obreiro” nas suas siglas e passa por ser a decana das organizaçons de matriz classista do Estado espanhol. Mesmo passa completamente desapercebido que o Conselheiro de Trabalho, Ricardo Varela, fosse num tempo nom muito afastado um dirigente sindical.

E dizemos que nom se nota nada porque de facto é assim. De compararmos os discursos e as acçons que leva avante o bipartido em matéria “laboral” com as empreendidas no seu momento polo PP, temos que concluir que estám inspiradas pola mesma filosofia. E o que dizemos no cenário da CAG é completamente transportável ao cenário estatal.

Mas deve-nos surpreender este facto? Bom, se fôssemos uns ilus@s que acreditamos na aparente pluralidade política existente no regime espanhol pois poderíamos ser apanhados por surpresa por esta descoberta. Porém, como nom é esse o nosso caso, o certo é que a cousa era previsível mas nom por isso nom deixa de ser denunciável.

Quem conhecer um mínimo da história recente do Estado, sabe que o acordo político que leva à reconfiguraçom do regime franquista na monarquia constitucional bourbónica incluiu toda umha série de sub-acordos que estabelêcerom quais seriam as regras do jogo no cenário económico. Dentro desses acordos, os conhecidos genericamente como “Pactos da Moncloa”, inclui-se um muito concreto que alicerçou as condiçons sobre as quais deveriam girar num futuro as “relaçons laborais”. Dentro da filosofia do acordo entendia-se que haveria umha corresponsabilidade entre o Estado, patronato e sindicatos para manter a pax social, comprometendo-se as organizaçons sindicais assinantes (UGT e CCOO) a manterem as reivindicaçons operárias no termo do assumível. O tempo, -embora se passasse por momentos de certa tensom em 1988, 1994 ou 2002-, tem demonstrado a eficiência do sistema enquanto os pactos assinados trinta anos atrás continuam vigorantes.

De facto a mesma filosofia que emana dos pactos de 1977 é a que inspira a política laboral levada avante polo governo de Tourinho e Quintana. Umha política em que o fundamental é manter as cousas tranquilas para maior benefício do capital, embora nunca se exprima de um modo tam cru.

A questom é tam evidente que até a história quer repetir as mesmas cenas do antigo teatro. Lembremos que nom há nem meio ano, lá polo mês de Fevereiro, Junta, patronato e parte dos sindicatos (CCOO e UGT) assinavam o “Acordo Galego polo Emprego”. Um outro pacto que vinha a manifestar a efectividade do chamado “diálogo social galego”, ou o que vem a ser o mesmo, a transplantar ao cenário autonómico as práticas generalizadas no nível estatal.

Lamentavelmente para os assinantes, e afortunadamente para a classe operária galega, na mesa desse pacto faltou umha pata fundamental por parte sindical, já que a CIG levantara-se no 2006 da mesa de diálogo e acordou nom participar do circo.

Com esta postura da central sindical nacional as “relaçons laborais” na Galiza continuam a manter a sua singularidade enquanto um dos sindicatos maioritários situa-se à margem da lógica do entreguismo pactista. Assim se manifestou de novo a existência de umha profunda contradiçom dentro do nacionalismo maioritário, já que enquanto a expressom política desse movimento tem entrado plenamente na lógica política da transiçom; o sindicato continua fora de tal lógica. Aguardemos que a contradiçom continue a se agravar e nom se permita umha domesticaçom da central sindical.

Mas dizer que com o bipartido nada mudou nom é mesmo que dizer que nom haja mudanças no “ámbito laboral” na Galiza, ou por ser mais correctos na estrutura de classes do nosso país e na sua dialéctica. Por dizê-lo doutro modo e recorrendo a aquela frase do romance “O Gatopardo”, “mudar todo, para nada mudar”.

De facto, ao igual que pretendia explicar o Príncipe de Salina ao seu padre naquela ocasiom, é que através do processo histórico dérom-se umha série de mudanças na estrutura de classes que obriga a fazer umha série de reajustamentos para que as relaçons de poder continuem estáveis. Aconteceu na Sicília do XIX, acontece na Galiza do XXI e de facto acontece em todo lugar e a todo momento.

O que ocorre no nosso caso é que o ajudam a fazer Tourinho e Quintana nom é a edificar umha nova estrutura política adaptada à realidade, mas a consolidar a existente antes de esta ruir polo seu próprio peso.

As mudanças sofridas na estrutura de classes na Galiza nas últimas décadas som muito mais profundas do que pode parecer com umha simples olhadela. De facto, tal é como advertiu Marx no seu momento, a persistência de certos fetiches e mitos sociais, como o de: “Galiza país rural com umha sociedade dominada pola pequena propriedade agrária”, nom som mais que umha prova de que as mudanças na super-estrutura ideológica da sociedade em muitas ocasions vam detrás das transformaçons na infra-estrutura. Assim hoje na Galiza, que é um país habitado maioritariamente por assalariad@s, mantenhem-se maioritariamente hábitos, comportamentos e crenças próprias de umha sociedade de pequenos proprietários rurais.

Mas para entender melhor de que vai o tema revejamos um pouco, mais umha vez qual é a situaçom actual d@s habitantes do paísem relaçom ao seu meio de subsistência. Galiza é umha naçom que sofre um estancamento populacional desde há várias décadas polo que para dar os seguintes dados é melhor empregarmos cifras absolutas que som mais impactantes.

A Comunidade Autónoma tem hoje mais ou menos 2.767.000 habitantes, há dez anos a cifra era apenas 40.000 habitantes menos. No mesmo tempo a populaçom ocupada em labores agro-pesqueiras passou de 230.600 a 103.500; na construçom de 100.890 a 141.100; na indústria de 144.000 a 225.800; e nos serviços de 459.530 a 695.600.

Atendendo a sua relaçom respeito à propriedade dos meios de produçom em 1997 havia 271.800 galeg@s que erám empresári@s, autonóm@s ou membros de cooperativas, dez anos depois o número baixou até 245.000. Polo contrário, em relaçom à populaçom assalariada esta passou de integrar 559.700 galeg@s há dez anos até @s 898.000 que a conformamos na actualidade.

Finalmente, se cruzarmos os dados de assalariad@s e sector ocupacional o que temos é que o peso do salário como fonte de subsistência cresceu para toda a populaçom galega, inclusivamente para aquela que depende da agricultura ou da pesca, por que se bem caiu o total de populaçom dedicada a estas actividades no nosso país o peso da mao de obra assalariada no sector aumentou.

Em definitiva, e para repeti-lo por enésima vez, a Galiza vive nas últimas décadas um processo de transformaçom que a está a converter num país urbano e habitado maioritariamente por trabalhadores/as assalariad@s. Este processo vai acompanhado de umha lógica activaçom económica, que após superar os traumas do desmantelamento das velhas estruturas que sustentavam a indústria naval, a agro-gadaria tradicional e a pesca, leva a umha descida do nível de desemprego e a umha estabilizaçom dos padrons de precariedade.

Logicamente, nom é mérito do governo actual que em Maio de 2007 fosse o momento em que o índice de desemprego da Galiza baixasse até o melhor resultado nos últimos 25 anos. Em todo o caso, nom é unicamente só mérito dele mas partilhado por todos os agentes activos em manter o chamado “pacto social”. O sistema precisou no seu momento manter umhas cifras elevadas de emprego e umha maior taxa de precariedade, hoje as condiçons tenhem mudado.

Por dizê-lo de um modo mais claro, Tourinho e Quintana nom fam mais que continuar o começado por Fraga, da mesma maneira que de Suárez a González, de González a Aznar, e deste a Zapatero nom há mais que continuismo no referido a política económica e laboral. Os actores vam mudando mas o roteiro é sempre e o mesmo, e nom é mais que o ditado do capital.

Hoje Tourinho ufana-se com a descida do desemprego até 8,5%, da queda dos acidentes laborais graves, mesmo da ligeira descida da temporalidade estancada à volta de 30%. Tourinho quando avalia estes dados lamenta a sua persistência mas considera que a via que indica a sua tendência é positiva. E quando se fam análises deste tipo do governo sempre se insiste na ideia de que som bons indicadores para a economia. O que importa no fundo é que a economia corra bem, apenas isso.

Em inícios do mês de Julho deste ano eu próprio lim num panfleto publicitário num escritório do INEM um slogan que vinha a dizer algo assim como “o trabalhador fixo identifica-se mais com os objectivos da empresa”. Evidentemente era umha campanha polo fomento da contrataçom indefinida e o argumento reflectia toda a obscenidade das relaçons capitalistas. O importante nom é garantir que a maioria da populaçom tenha assegurado o seu meio de vida de umha forma estável para que assim poda simplesmente ser mais feliz, mas deve ficar absolutamente claro que a sua felicidade depende do bom funcionamento do sistema capitalista.

Para este governo, como para os que o precedêrom, o bem-estar da maioria da populaçom galega nom é mais do que umha condiçom para garantir o bom sucesso no processo de reproduçom e acumulaçom de capital. Parece como se para tod@s @s que passam polas cadeiras de Sam Caetano @s galeg@s só nos apelidamos Tojeiro, Ortega, Rey, Cortizo ou Froiz.

Os dados estám tirados do web do Instituto Galego de Estatística (IGE) www.ige.eu

 

Voltar a Abrente nº 45

Voltar à página principal

 

 

orthopedic pain management