Consumo de drogas e militáncia revolucionária

André Seoane Antelo

Para podermos focar de um jeito correcto a questom da relaçom que debe existir entre a militáncia revolucionária no MLNG e o fenómeno do consumo de drogas, devemos começar por tracejar umhas linhas que nos permitam, quando menos, ter um desenho aproximativo de qual é a realidade a respeito da questom das drogas no nosso país, em especial no referente à presença, circulaçom, comércio e consumo das consideradas ilegais pola legislaçom espanhola vigorante.

A presença das drogas ilegais na sociedade galega de começos do século XXI é um fenómeno do qual dificilmente nengumha pessoa pode ficar à margem. Hoje em dia, o consumo e venda de substáncias psicoactivas é umha realidade presente no quotidiano da maioria da populaçom jovem do nosso país; e muito para além da imagem tópica do “adicto” ou “adicta” marginalizada, o realmente normal é a maioria das pessoas que consomem drogas desenvolverem as suas vidas dentro de umha absoluta integraçom social, cumprindo com as suas funçons como estudantes ou trabalhadores/as com umha total ou relativa normalidade.

Ignorar isto ou negá-lo de maneira hipócrita nom ajuda em nada a necessáriamáxima compreensom e conhecimento da realidade em que nos movemos com vista a favorecer a sua transformaçom. Assim é que nós, como parte da militáncia revolucionária, devemos ver e compreender como as drogas ilegais fam parte do quotidiano de um amplo sector do povo trabalhador galego, especialmente entre as geraçons nascidas após a década de 60 do século passado.

Mas o emprego de substáncias psicoactivas nom é umha novidade das últimas décadas, muito ao contrário, há milhares de anos que a humanidade conhece os efeitos de determinadas substáncias de origem vegetal e vem empregando-as com diferentes fins: medicinais, rituais ou meramente lúdicos. De facto, mesmo algumha dessas substáncias tem atingido um grau de normalizaçom tam elevado que em muitas ocasions se esquece a sua natureza narcótica e passa a ser situada num nível diferenciado. Este seria o caso do álcool na nossa cultura que, para além de droga, é considerado alimento, bem cultural, motivo de festejo e incluso elemento identitário. Caso semelhante ao acontecido com a folha de coca na zona andina do sul da América, ou em menor medida com o tabaco e a cafeína.

Porém, o modelo de consumo imperante das substáncias actualmente ilegais apresenta outras características que nos obrigam a prestar-lhe umha atençom diferenciada.

A extensom destas substáncias nas últimas décadas responde a umha transformaçom na nossa sociedade derivada da imposiçom do modo de produçom capitalista e dos efeitos sociais a ele associados.

As drogas chegárom de maneira maciça à Galiza, com um ligeiro atraso face a outras áreas mais desenvolvidas do espaço central da economia capitalista, ao tempo que se impunham os valores do individualismo, a concorrência e o consumismo ligados à sociedade emanada do capitalismo desenvolvido.

Na perspectiva de umha vida que nom é mais do que umha sucessom de jornadas laborais em trabalhos alienantes, com breves espaços de lazer intercalados, a via que favorece o sistema como válvula de escape é a da narcose, em que as diferentes drogas som empregadas quer como estimulantes para superar o cansaço, quer como fornecedoras de umha felicidade instantánea e artificial que se pode estender durante o tempo destinado ao tempo de folga. Tenta-se evitar assim que a consciência da frustraçom e da exploraçom, faga com que nos questionemos a justiça do sistema social, político e económico em que vivemos.

Para além do mais, a manunteçom da ilegalidade do comércio da maioria dassubstáncias psicoactivas, afora o álcool e os fármacos subministrados sob prescriçom médica, permite um maior e melhor controlo de quem as consome, para além de favorecer o enriquecimento acrescentado das máfias que controlam a distribuiçom e venda. Máfias que nom som mais do que um outro modelo de empresa capitalista situado na completa ilegalidade, mas que, como todo o mundo sabe, conta na maioria das ocasions com a toleráncia das autoridades.

Em resumo, para fixarmos a posiçom a partir da qual focar a atitude que a militáncia revolucionária galega deve manter diante do fenómeno das drogas, poderíamos resumir a questom nos seguintes aspectos básicos:

1. Amplos sectores do povo trabalhador galego som consumidores/as habituais de drogas ilegais, sem que este consumo adoite supor mudanças significativas na sua plena integraçom como indivíduos normais na nossa sociedade.

2. O carácter maciço do consumo de drogas atende à necesidade de superar as frustraçons que gera entre amplos sectores da populaçom a realidade de umha vida que só assegura incerteza vital, exploraçom laboral e incapacidade de atingir as ilusons promovidas polo capitalismo como objectivos para a felicidade.

3. A manutençom na ilegalidade de boa parte das drogas é umha medida que possibilita um maior controlo social, e serve para ocultar hipocritamente a toleráncia por parte das autoridades políticas para com as grandes máfias. Por estes motivos é que se explica a posiçom táctica do programa político do MLNG, que recolhe a demanda da despenalizaçom do consumo de qualquer tipo de drogas. Da nossa óptica, actualmente a ilegalidade nom evita em modo nengum o acesso a estas substáncias por parte de quem as desejar obter. Muito ao contrário, este acesso é muito fácil, e a ilegalidade só favorece quem consegue grandes lucros pola venda de substáncias sem controlo sanitário nengum, habitualmente adulteradas, e das quais se tira um rendimento económico ainda maior do obtido da comercializaçom de produtos no mercado legal. Lucros que servem para alar gar a gigantesca fatia representada pola economia submersa.

Mas nom podemos entender esta posiçom favorável à despenalizaçom como umha defesa do consumo. Ao invés, embora a nossa posiçom como pessoas revolucionári@s nos obrigue a denunciar a hipocrisia da ilegalidade, porquanto só serve para favorerecer os lucros das máfias e o controlo social por parte do Estado, em simultáneo temos que ser contra o consumo de drogas, ao funcionarem estas como um amortecedor das tensons sociais.

É incompatível manter umha militáncia revolucionária conseqüente em paralelo com umha toxicodependência. Umha adequada prática militante revolucionária tem que manter umha coerente atitude entre os comportamentos vitais individuais e os objectivos da luita colectiva que realizamos. As revolucionárias e os revolucionários temos que combater a destrutiva alienaçom que o consumo maciço das drogas provoca entre a juventude operária e popular, entre amplos sectores do proletariado, mediante umha funçom pedagógica e exemplar. Devemos demonstrar que a implicaçom activa e consciente na luita revolucionária é pracenteira, gera satisfaçom, converte-nos em seres mais plenos e é umha das melhores e mais baratas vias para atingir a felicidade vital.

As revolucionárias e os revolucionários galegos, e de toda a parte, precisam para levar avante os seus objectivos finais de umha plena consciência da realidade que os rodeia. As drogas, quer sejam legais ou ilegais, caracterizam-se precisamente por criarem alteraçons na percepçom da realidade, o que é nefasto para a acçom revolucionária.

Além disso, tentar despertar entre as massas a consciência da necessidade da Revoluçom já é um trabalho dificultoso de por si como para que este se veja agravado pola narcose maciça que acompanha boa parte dos sectores mais novos das camadas populares. Quem dedica o seu tempo livre a exprimi-lo ao máximo em fins de semana, nos quais o tempo é prolongado mediante o recurso à cocaína, as anfetas ou o speed, ou viaja a mundos moles e amáveis criados polas alteraçons favorecidas polo cannabis e os trípis, ou mesmo deixa que a suas frustraçons sejam afogadas por litros de álcool; dificilmente encontrará tempo para tomar consciência da realidade da opressom e da possibilidade de criar um mundo melhor.

Também há que ter em conta o factor repressivo. No fim de contas, temos que ser conscientes de que por trás da suposta perseguiçom policial da comercializaçom das drogas, a maioria das vezes oculta-se umha aberta toleráncia e um absoluto controlo “do que se mexe” em cada localidade por parte da polícia.

Nom fai falta que lembremos agora como em multitude de ocasions os estados tenhem favorecido o acesso às drogas naqueles lugares, e entre os sectores da populaçom, onde o nível de frustraçom e o perigo de conflito social era mais iminente.

Assim, o apogeu da heroína no Estado espanhol correspondeu aos anos oitenta, como correlato da frustraçom das aspiraçons de mudança após a morte de Franco; ou como no plano ZEN, destinado ao esfarelamento da insurgência em Euskal Herria, se favorecia a extensom do consumo da droga entre a mocidade basca; ou como o governo dos EUA animou e tolerou a venda de droga entre a populaçom negra como via de desactivar o poderoso movimento de organizaçom que essa comunidade viveu a partir da década de 60.

Reparemos que a toleráncia por parte das autoridades policiais sobre a distribuiçom e consumo de drogas em determinados ambientes e circunstáncias nom significa umha despreocupaçom com o fenómeno, mas um absoluto e total controlo.

Poderíamos dizer que a atitude policial perante as drogas nom é a de “que venda e consuma quem quiger”, mas a de “que venda quem eu quiger, e que me diga quem é que consome”.

Acrescentemos, pois, mais um motivo para evitar o consumo de drogas por parte das revolucionárias e os revolucionários.

Temos que estar conscientes que, ao comprarmos habitualmente, e mesmo de maneira ocasional, estamos a fornecer umha arma aos aparelhos repressivos do Estado. É praticamente impossível conseguir drogas fora dos circuitos habitualmente controlados e intervindos pola polícia, o que supom que tarde ou cedo a nossa identidade como consumidores/as esteja em conhecimento do Estado. E sendo a posse e consumo destas substáncias um facto ilegal em determinadas circunstáncias, nom fai falta discorrer muito para entender como se pode chegar a chantagear um activista para que actue como delator ou infiltrado em troca de evitar denúncias, ou mesmo em troca de droga.

Mesmo nem sequer é preciso que a polícia chegue a se pôr em contacto com a militante para que a polícia poda tirar informaçom pola via das redes da droga.

Todo o mundo sabe a cautela com a que maior parte das redes fornecedoras de drogas ilegais costumam agir; afinal, dessa cautela depende o seu sucesso num negócio ilegal. Por este motivo, a confiança entre quem consome e quem distribui adoita ser umha condiçom indispensável, e dentro desse nível de confiança as conversas, as confidências “intrascendentes”, som os requisitos para que se chegue a umha boa relaçom, da qual a pessoa que consome pretende conseguir nom ser enganada, e a que fornece impedir problemas com a polícia.

Mas, chegado o momento em que o fornecedor ou fornecedora é detida ou presionada pola polícia, umha das suas principais armas de defesa será a de facilitar informaçom que interesse aos serviços repressivos

em troca de poder manter o seu meio de vida. Assim, “o amigo” que habitualmente nos “passa boas posturas” a um preço acessível, ou que nos “deixa o grama a trinta euros”, pode ser o mesmo que passe o nosso telemóvel e comente todo o que sabe de nós “aos madeiros ou aos picolos”; porque no fim de contas ele, ou ela, “nom quer problemas” e o que lhe interesa é continuar tranquilamente com o seu negócio e “nom ligar às más estórias”.

Tendo estes factores em conta, a nossa atitude frente ao consumo de drogas deve ser a seguinte:

Em primeiro lugar, devemos ser conscientes de que nos dias de hoje o consumo é um fenómeno habitual e maciço, sendo umha estupidez desprezar quem consome e adoptar umha posiçom integrista, já que um amplo sector dos ámbitos sociais objectivamente interesados no nosso programa, e mesmo umha parte considerável da base social real da esquerda independentista, consome habitualmente.

Porém, a toleráncia que devemos manifestar frente a quem consome e a defesa que fazemos da despenalizaçom deve ser acompanhada de um comportamento individual rigoroso que afaste os perigos que para o nosso labor revolucionário supom o consumo. De umha parte, a perda de percepçom da realidade e a tendência à falta de compromisso, e de outra o perigo de infiltraçom, criminalizaçom e fuga de informaçom a favor dos serviços repressivos do Estado.

Trata-se pois de umha situaçom um bocado complexa, já que ao tempo que temos que manter umha relaçom fluida com as nossas companheiras e companheiros de trabalho e estudos, entre as quais o consumo de drogas costuma ser um traço mais de normalidade e quotidianeidade; devemos também ser exemplo de consciência e de como existe umha via de transformaçom da sociedade em que as frustraçons vitais actuais das classes trabalhadoras serám superadas.

Assim, a militáncia do MLNG tem que começar a prestar umha maior atençom ao fenómeno das drogas, vigiar e combater de umha parte as tendências “liberalistas” que encorajam a se despreocupar com o perigo do consumo, ao tempo que evitar cair num “integrismo” que suponha um maior afastamento dos sectores sociais aos quais dirigimos a nossa actividade.

Eis um labor colectivo a que dedicar parte do nosso trabalho, e que possivelmente nos obrigue a estabelecer contínuos adaptamentos tácticos na nossa praxe interna e externa, dada a sua complexidade.

Mas ninguém dixo que fosse fácil transformar o mundo.

 

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