Argentina... a terceira irrupçom social
Roberto Perdia (Coordenador Nacional da Assembleia de Organizaçons Livres do Povo (OLP) da Argentina)

No extremo sul do continente americano, estende-se a República Argentina, num território em que entrariam mais das duas terças partes da Uniom Europeia, a totalidade dos seus habitantes tem umha populaçom menor aos diferentes povos que convivem só no território espanhol.

Juntamente com o Uruguai e o Chile, o povo argentino é o mais "europeu" da América Latina toda. A imensa maioria da sua populaçom é filha da imigraçom europeia. As primeiras vagas de imigrantes, os conquistadores e colonizadores dos séculos XVI, XVII e XVIII, tivérom como emergente os gaúchos crioulos que surgírom da mestizagem entre os povos originários e os seus colonizadores.

O saque das suas riquezas minerais foi a primeira forma de relacionamento que se estabeleceu entre a metrópole e as suas colónias. Os portos passárom a se constituírem num aspecto vital dessa relaçom. Sobre eles, fôrom sendo construídas as divisons territoriais que acabárom por fragmentar o espaço americano numha vintena de repúblicas, muitas vezes enfrentadas entre elas.

Nas primeiras décadas do século XIX, os povos americanos independizárom-se politicamente dos reis de Espanha. O auge do desenvolvimento industrial europeu, que reconhecia nas manufactureiras inglesas o seu ponto mais alto, passou a se constituir no referente de um outro modelo económico e de ligaçom entre a nova metrópole e as jovens repúblicas. A procura de alimentos para os trabalhadores industriais europeus encontrou, na largura das pampas argentinas, umha importante fonte de recursos.

A velha troca de espelhinhos de cores por metais preciosos, da época do saque, foi substituída polas carnes que mandávamos e as manufacturas, nomeadamente têxteis, que recebíamos. Estas contribuírom para destruir as incipientes e modestas tentativas de desenvolvimento autónomo do interior argentino. A resistência dos caudilhos do interior foi quebrada, com a cumplicidade dos dirigentes do porto de Buenos Aires. Na vizinha, mediterránica, República do Paraguai, o seu governo opujo umha forte resistência para defender o direito a um desenvolvimento autónomo. A acçom conjunta dos governos do Brasil, Buenos Aires e a Faixa Oriental (Uruguai), e o apoio da Frota dos Estado Unidos, acabou com essa experiência através de umha guerra, quase ignorada. O heroísmo do povo paraguaio pagou com a vida de praticamente todos os seus varons maiores de doze anos o sacrilégio de tentar a independência económica.

Neste contexto é que nasce a Argentina Moderna e se dita a sua Constituiçom de 1853 que, com modificaçons nom muito significativas, continua a reger a vida institucional dela. Por ela abrem-se as portas do país à imigraçom europeia, necessitavam-se braços para fazer produzir a riqueza das nossas pradarias, em funçom das necessidades do mercado inglês.

Nesta etapa imigratória, as duas correntes mais importantes som constituídas por italianos e os povos provenientes de diferentes lugares do Estado espanhol, particularmente aqueles que vinhérom da Galiza, as Astúrias, o País Basco, a Catalunha e Castela. Seguem-lhes em importáncia os alemáns, franceses, arménios, russos, polacos, sírios, libaneses, suíços e galeses.

Umha interpretaçom sobre os processos de mudança produzidos na Argentina

Na nossa história, tal como na de todos os povos, podemos encontrar fitos que assinalam mudanças na situaçom. Para quem apenas olhar a superfície, essas modificaçons podem ocorrer como súbitas ou espontáneas, mas elas sempre tivérom um longo período de preparaçom. No nosso caso, os pontos de inflexom estám estreitamente ligados a importantes factos de massas ou irrupçons sociais. Em todos eles, os protagonistas fôrom aqueles sectores sociais directamente interessados em mudar o statu quo. A história prova-nos que tal foi possível.

A primeira irrupçom social

A Argentina moderna construiu-se sobre o corpo lacerado da derrota dos povos do interior. Fijo-se sobre as cinzas das montoneras federais que nom pudérom dar entidade aos seus sonhos de organizar o País respeitando as realidades regionais, económicas e institucionais, que eles representavam. O mesmo projecto incluiu o extermínio do índio para permitir o alargamento das "fronteiras agropecuárias", que permitissem incorporar novas terras destinadas à produçom de alimentos.

A partir dessas derrotas, construiu-se o país agro-exportador apoiado nos interesses do porto de Buenos Aires, os donos de grandes extensons de terra e o mercado inglês, ávido de comida para alimentar os assalariados do seu nascente industrialismo. Essa foi a chave de umha rica Argentina oligárquica, que organizou o País consoante os seus interesses.

A política imigratória, umha das chaves do projecto agro-exportador, é um dado vital para percebermos a crise da hegemonia oligárquica.
As formas institucionais do País oligárquico nom conseguiam deter as dissidências internas, nem menos ainda o novo emergente social constituído polos filhos da recente imigraçom, que ficárom instalados como pequenos produtores agropecuários, profissionais e comerciantes.

Nos últimos anos do século XIX, o nosso país foi palco de umha série de rebeldias sociais e cívico-militares que culminárom, em 1916, com o triunfo do radicalismo, um partido representativo desse emergente social, produto da imigraçom. Em 1918, um movimento estudantil universitário, a Reforma Universitária, mudaria a hegemonia e características da Universidade, outorgando umha legitimidade cultural ao conjunto desse novo movimento social.

Os filhos da imigraçom, constituídos como classes médias urbanas e rurais, protagonizárom a primeira irrupçom social que tivo no partido radical a sua expressom política.

Desse jeito, o velho poder oligárquico foi questionado política, social e culturalmente por um novo sector emergente da própria sociedade que tinham desenhado à medida dos seus interesses. Mas as fraquezas do novo projecto impediu avançar na desarticulaçom da rede de interesses económicos sobre a qual se tinha constituído a nossa sociedade. O radicalismo governante acabou atrapado nessa rede que, com o golpe de estado de 1930, voltou a tomar conta do governo.


A segunda irrupçom social

Com o esquartejamento do império británico, que principiou logo a seguir do fim da primeira guerra mundial, o antigo projecto agro-exportador entrou num processo de deterioraçom que rebentou, juntamente com a crise mundial do capitalismo, em 1930.

A impossibilidade de dar continuidade ao velho sonho argentino de ser o "celeiro do mundo" abriu o caminho à nova política de substituiçom de importaçons.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, esta tendência alastrou rapidamente, a necessidade de operários apara as novas indústrias produziu o fenómeno de umha forte imigraçom interna. Ela foi mudando a cara das principais cidades do País, nomeadamente Buenos Aires e Rosário.

Nas redondezas da geografia e da vida social destas cidades fôrom crescendo bairros de trabalhadores. A começos da década de quarenta, o Grande Buenos Aires acolhia cerca de um milhom de pessoas cuja antigüidade no local era de menos de 10 anos.

Também o movimento operário mudava rapidamente na sua composiçom; os velhos grémios conduzidos por socialistas, comunistas e anarquistas nom podiam conter e integrar estes novos trabalhadores.

Mas umha vez, a partir das necessidades do sistema económica geravam-se as forças sociais que criariam as condiçons para umha nova irrupçom social.

Entretanto, nas Forças Armadas, que vinham de longos períodos de conspiraçons ligadas ao radicalismo, salientavam duas tendências. As questons centrais que ocorriam no debate eram a pressom dos EUA para instalar bases militares na área e romper com a nossa atitude de neutralidade farce à Guerra. Os oficiais superiores estavam mais identificados com a política dos Eua. Por seu turno, a oficialidade jovem nom aceitava essa pressom estado-unidense e era proclive a umha política de neutralidade. Esta última orientaçom foi partilhada com a maior parte dos sectores da esquerda, enquanto mantivo a sua vigência o pacto entre a URSS e a Alemanha.

Essas tendências da oficialidade jovem cristalizárom na formaçom do GOU (Grupo de Oficiais Unidos) que, sob a crescente influência do Coronel Juan Domingo Perón, começou a cobrar umha importáncia cada vez maior nas Forças Armadas e no governo surgido das acçons militares de 4 de Junho de 1943, que pugérom fim aos 13 anos de restauraçom oligárquica, conhecidos como a "Década Infame".

O apoio de Perón, a partir da Secretaria de Trabalho e Previsom, às necessidades, reclamos e organizaçom dos trabalhadores, o seu posterior afastamento e detençom na ilha Martín García, fôrom os detonantes imediatos da gesta de 17 de Outubro de 1945.

Emergia, no palco político do nosso país, um novo sectores social e sentava as bases do movimento mais importante do século XX.

Os sectores médios nom conseguírom compreender o novo fenómeno social que estava a gestar-se. As jornadas prévias a 17 de Outubro de 1945 e as eleiçons realizadas poucos meses mais tarde, encontrariam a maioria do radicalismo, socialistas e comunistas, faixas de outros grupos da esquerda e sectores católicos, da mao da Sociedade Rural e o embaixador norte-americano, conformando a chamada Uniom Democrática, contra os interesses da nova maioria social.

Este distanciamente entre sectores médios e os trabalhadores será umha constante da política argentina das últimas décadas, sobre o mesmo pudo-se manter o poder das minorias sociais economicamente poderosas. Os trabalhadores industriais, acompanhados por outros sectores populare, chefiárom o movimento social que se constituiu no protagonista principal da segunda irrupçom social da Argentina moderna, o peronismo seria a sua identidade política.

A construçom da terceira irrupçom social

O Golpe de Estado de 1955, fijo ir por água abaixo o governo peronista. Restabelecêrom-se as ligaçons com o FMI, desenhárom-se a partir de Washington os aspectos centrais da política eonómica dos sucessivos governos argentinos. Umha permanente instabilidade institucional foi a característica até 1973. entom, o retorno de um governo representativo dos interesses das maiorias, precedido por umha forte acumulaçom de poder das organizaçons populares, acompanhado por movimentos semelhantes em boa parte dos países vizinhos, assustou o sistema do "poder estabelecido". A resposta nom se fijo esperar. O Golpe de Estado de 24 de Março de 1976, significou a vontade de restaurar a "ordem imperial". Os militares argentinos, replicando o que aconteceu na nossa envolvente geográfica, instaurárom umha nova ordem, sob a hegemonia do capital financeiro internacional. A gigantesca tragédia vivida, com os seus milhares de mortos, presos e desaparecidos, nom foi o produto de nengumha loucura de indivíduos, corporaçons ou seitas, nem tampouco umha obra do acaso; foi a necessidade de "disciplinar a sociedade" e integrar a regiom nessa nova hegemonia mundial.

O restabelecimento das instituiçons constitucionais, a partir de 1983, sucedendo-se os governos radicais de Raúl Alfonsín (1983/89), justicialista de Carlos Menem (1989/99) e a Aliança do radicalismo com faixas do próprio justicialismo e sectores da esquerda, que entronizou o presidente Fernando de la Rúa (1999/2001), nom mudárom as condiçons estruturais que sustentam o domínio do sector financeiro.

O País endividou-se até limites inimagináveis; assistiu-se a umha substancial abertura da economia que completou a destruiçom da sua indústria, umha massiva desocupaçom serviu como antecedente para umha progressiva fragmentaçom e desestruturaçom das diferentes organizaçons sociais. Milhons de argentinos passárom a ficar excluídos do sistema económico e social. O desapontamento da sociedade manifestou-se como umha crise de representantividade, que foi delegitimando as instituiçons.

A 19 e 20 de Dezembro de 2001, massivas mobilizaçons de sectores médios, trabalhadores e desocupados, acabárom com o governo da Aliança e tornárom clara a inviabilidade do modelo que vigorava.

A partir daí, começou um processo de transiçom, que ainda andamos a transitar. Primeiro foi umha rajada que incluiu cinco presidentes numha semana. A seguir, a situaçom foi ficando estável e chegou-se ao actual governo de Néstor Kirchner, umha variante desta transiçom cujo destino é indefinido. O seu discurso de tom "progressista", rememorando as bandeiras da década de 70, motiva à reacçom dos sectores pró-imperialistas. Se bem que nom tenha modificado a matriz da acumulaçom económica das décadas anteriores e careça da suficiente decisom política e construçom social capaz de sustentar e aprofundar o seu discurso, constitui, por enquanto, o govenro mais próximo das expectativas populares, desde a restauraçom democrática de 1983. além do mais, o resto do movimento popular, fragmentado e sem conduçom, também nom foi capaz de construir umha alternativa social e política superadora.

Já foi assinalado que a primeira irrupçom social tivo como protagonista o emergente constituído polas camadas médias e a segunda polos trabalhadores. A terceira irrupçom já se manifestou na sociedade argentina. Foi essa presença massiva na rua dos sectores médios, trabalhadores e excluídos, nas jornadas de 19 a 20 de Dezembro de 2001.

Assim com o radicalismo exprimiu politicamente a primeira irrupçom e o peronismo a segunda, resta é saber se esta nova expressom protagónica das massas terá umha identidade política específica ou será absorvida polas já existentes. Tal está estreitamente ligado às suas possibilidades de ultrapassar o actual estagnamento acumulando a força suficiente para se constituir numha alternativa capaz de construir um novo tipo de poder popular, o poder do povo socialmente organizado.

 

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