BENIGNO ÁLVAREZ, INTERNACIONALISTA OU PROTONACIONALISTA?
·Santiago Prol


Retomamos com este significativo título o debate que há seis anos tentamos abrir para que estudiosos especializados lhe dessem continuidade. Foi Benigno Álvarez -o emergente líder do Partido Comunista em Ourense nos anos 30 e o dirigente com mais carisma da organizaçom na Galiza de 36- um adiantado na convergência do marxismo e do nacionalismo? Esta pergunta, repetitivamente formulada em círculos nacionalistas e independentistas, colide frontalmente com a opiniom dalguns dos dirigentes mais relevantes do Partido Comunista actual. O histórico Manuel Peña Rey declarava no jornal La Región (13/III/97), quando articulamos a homenagem em Maceda no 60 aniversário do seu passamento, que Benigno Álvarez era comunista e que o comunismo nunca fora nacionalista. Esquecia -intencionadamente?- que hoje existem várias organizaçons políticas na Galiza que se definem nos seus princípios fundacionais e programáticos como marxistas e nacionalistas ao mesmo tempo.
Benigno Álvarez mostrou-se desde o primeiro instante como um dirigente político nada convencional e pouco ortodoxo; com umha personalidade de marcado carácter; um dos que mais mexia dentro da rigidez e disciplina da organizaçom a que pertencia: originariamente um partido de quadros revolucionário, insurreccional e clandestino. A reconfiguraçom táctica e ideológica deste dirigente desde 1932 foi mais do que evidente: Jamais renunciou ao marxismo, mais viu com clareza a necessidade dumha convergência com o nacionalismo dentro dumha mesma organizaçom que só se faria realidade quatro décadas depois, quando a UPG se definiu nitidamente como marxista-leninista e que se veria reafirmada em 74 com a publicaçom dos Estatutos Provisórios. Nesta linha vai X. L. Méndez Ferrim, um dos fundadores daquela organizaçom política. Em 14 de Março de 97 escrevia no Faro de Vigo umha coluna muito clarificadora: "Soto reconhece Benigno como o precursor do encontro histórico entre o marxismo e o nacionalismo, que haveria de coalhar definitivamente, há 25 anos, desde Março a Setembro de 72. Meses que mudárom a política da Galiza: a palavra premonitória de Benigno Álvarez fazendo-se gente... Decididamente os franquistas enterrárom semente em 1937. Já Castelao tinha avisado".
O veterinário de Maceda sabia que o pai do bolchevismo reconhecia o sagrado direito dos povos a dispor de si próprios. Também que nas teses apresentadas polo Comité Central da Terceira Internacional ao II Congresso Mundial do Partido Comunista (1920), considerava-se o direito de autodeterminaçom. Acrescentamos com Afonso Bozzo em Os Partidos Políticos e a Autonomía de Galiza. 1931-36 (Akal, 1976) que a questom nacional galega se incorpora aos documentos e à prática do Partido Comunista com um novo eco com a carta de Dimitri Manuilski ao Comité Central (31 de Março de 1931): "O Partido Comunista deve propagar por todo o Estado o direito da Catalunya, a Bascónia e a Galiza a disporem deles próprios até a separaçom. O objectivo do Partido Comunista é criar, sobre as ruinas do império espanhol, a livre federaçom ibérica de repúblicas operárias e camponesas da Catalunya, a Bascónia, a Galiza, a Espanha e Portugal". Estava, pois, a recolher-se teoricamente, também como autêntica tarefa revolucionária, que este País decidisse por si próprio, algo de que daria boa conta nas suas intervençons públicas ao longo da II República o veterinário de Maceda e nom como um anelo conjuntural e folclorista, tal e como o viam muitos dos seus camaradas galegos.
Benigno já fora um estudante universitário inconformista (1915-1920) na Escola de Veterinária (actual sede do Parlamento Galego). Participara em revoltas estudantis. Durante o curso 1915-16 quase nom pisou as salas por mor da Burelhada. Embora procedia dumha família burguesa de classe média acomodada (seu pai fora presidente da cámara municipal de Maceda desde 1913 até 1919), nos anos vinte simpatizou com movimentos de corte socialista. Em 1930 tivo o primeiro encontrom com o poder. Acusado de agitador, fora detido. Figera umha greve de fame que transcendera por toda a província de Ourense. A 15 de Abril de 1931 -um dia depois de proclamada a II República- Benigno Álvarez aparecia como alcaide de Maceda (presidente da nova Junta Administrativa Local). Pouco antes aproximara-se do Partido Republicano Radical Socialista (PRRS) que se constituira em 1929. Em Maio de 1931, com o médico Carnicero -amigo desde a infáncia-, Luís Soto, o poeta Gómez del Valle, Galhoso Frias, Juan Nóvoa, Clemente Vidal, Jesusa Prado..., articulou o Partido Comunista a nível provincial, do qual foi secretário político até o fim dos seus dias. Nessa época inseriu trabalhos em vários meios. A maioria non iam assinados, pois havia a palavra de ordem de preservar os melhores quadros da cadeia. O Partido Comunista estivera na clandestinidade praticamente desde o seu nascimento a começos dos anos 20; na semilegalidade desde 31 até 33, e só desfrutou dum muito curto período de legalidade desde Fevereiro até Julho de 1936 com o exercício da liberdade de expressom muito controlado desde o poder republicano que os perseguiu implacavelmente.
Benigno já em 1932 propugera aos do Comité Regional em Vigo (Garrote e Aráujo), constituir o Partido Comunista Galego e lograr umha maior implantaçom e identificaçom com o País (a representaçom dos comunistas cingia-se a pequenas células em Vigo, Ourense, Corunha, Ferrol e Ponte-Vedra; entre todos nom chegavam aos 300 filiados). Aquele projecto nom agradara nada aos de Vigo. Tampouco gostavam da publicaçom de El Soviet (23 números) que elaboravam os indisciplinados de Ourense e que imprimiram em Lalim e no Carvalhinho. O primeiro semanário comunista bilíngüe fora retirado várias vezes por ordem governativa e nom passava polo filtro do Comité Regional nem do Comité Central.
No IV Congresso do PCE em Sevilha (17-23 de Março de 1932), Benigno exigiu falar em galego sobre a revoluçom agrária. Era um dos quatro delegados que iam representando Galiza. Assistiam convidados de todos os partidos comunistas do mundo. Um camarada português fijo de tradutor quando lhe tocou o turno de intervençom. Seguimos Luís Soto numha entrevista em Teima (nº 26) em 77: "Para começar, dixo que falava representando Galiza e, portanto, somente podia falar em galego. A gente estava apampanada enquanto escuitava aquilo: Nom podo falar em castelhano porque na minha terra, no meu País, os labregos, os marinheiros, os trabalhadores todos só sabem do galego para falar. Eu, ainda que passei pola universidade, nom podo falar em castelhano porque, senom, acabam connosco para sempre, esmagam-nos... Eu poderia expressar-me em castelhano sem nengumha dificuldade mas, o certo é que me sinto muito melhor falando em galego e defendendo a dignidade do meu povo. Aquilo era algo muito sério... Castelao quando se inteirou da notícia polos jornais, ao dia seguinte, estava no café da Peregrina. Eu estava ali e vim como lhe caiam as báguas de emoçom: Verdadeiramente, bem santo é!, que valentia!, dixo Castelao. E anedotas dessas na defesa da nossa língua houvo muitas...".
Num pleno do Comité Central -a que Benigno pertencia desde aquele Congresso- aprovou-se umha resoluçom para aplicar o princípio de autodeterminaçom para a Galiza, Euskadi e Catalunya. Foi publicado com o título "A questom nacional e o movimento nacional revolucionário na Espanha" (1932). As convulsons da efémera etapa republicana nom permitírom que Benigno consolidasse o seu discurso na Galiza. Naquele congresso ascenderam José Díaz e Dolores Ibárruri ao máximo órgao de direcçom. A viragem da organizaçom comunista devera-se mais às palavras de ordem da Internacional Comunista que às destes dous dirigentes, consoante as conclusons da tese doutoral de Rafael Cruz em O Partido Comunista de España na II Republica (Alianza Editorial, 1987).

Luís Soto em Teima (nºs 26 e 27) assevera que o Partido Comunista tentou conjugar o marxismo-leninismo com o nacionalismo galego desde 32 com Benigno Álvarez à cabeça que, "junto com Antonio Fernández Carnicero, Núñez, Gómez del Valle, Ramón Teijeiro e mais eu, éramos o grupo nacionalista que havia no interior do Partido Comunista da Espanha na Galiza". Soto -outro dos artífices da fundaçom da UPG em 64- centra pois na figura de Benigno Álvarez umha das chaves para o desenvolvimento do nacionalismo e as suas projecçons sócio-políticas no nosso País: "Benigno foi um dos precursores do processo marxista no celme da naçom assovalhada e colonizada que pulula pola libertaçom nacional". Benigno Álvarez toma posiçom ao falar em todos os foros em galego, incluídos os alheios ao País, nos congressos, nas assembleias do Partido Comunista e da Frente Popular. Na página 223 do seu livro Castelao, a UPG e outras memórias (Xerais, 1983) podemos ler: "Benigno Álvarez foi com outros amigos, defensor intransigente das verdadeiras teses que poderiam salvar Galiza. O nacionalismo socialista quer integrar a autodeterminaçom nacional com a construçom do socialismo... Assim xorde umha grande amizade entre Alexandre Bóveda e Benigno Álvarez e umha cordial relaçom de Castelao com os comunistas que defendiam a naçom intransigente".

Também em Teima (nº 31), o jornalista Xavier Navaza comentava a Santiago Álvarez (o luitador antifascista de Sam Miguel de Vila-Martim de Valdeorras e secretário geral do PC na Galiza nos anos 70) que com Benigno inaugurava-se umha posiçom galeguista no seio do Partido Comunista e graças a essa visom política o partido começara a alargar a sua base na realidade galega. Santiago Álvarez reconhecia que havia muitas cousas que lhe escapavam, pois ele só jogava um pequeno papel a nível comarcal em Valdeorras, limitando-se a duvidar da veracidade daquele critério. Apostilava que o Partido Comunista estava alargando-se e que, quiçá ainda nom colhera força suficiente para transformar-se numha organizaçom de carácter nacional galego. No entanto, ao remate da entrevista di: "Eu estou seguro de que, se a Guerra Civil se atrasasse um mês, o Partido Comunista Galego fica constituído". Logo no seu primeiro livro de Memórias (Ed. do Castro, 1985) e com o arquivo do Partido Comunista a nível de Estado ao seu serviço e livre interpretaçom rectificava e contribuía umha versom mais ortodoxa e conivente com a nomenklatura oficial: "...há gente interessada em apresentar Benigno como umha espécie de nacionalista galego e, portanto, um tanto discrepante da linha do PCE. Benigno era, isso sim, um galego de corpo e alma, um galego de corpo inteiro... Existiu ou existe um grupo, partido ou umha personalidade política na Galiza que pugesse na defesa dos interesses do povo galego, da Galiza, e da sua autonomia, mais tenacidade, perseverança e paixom que os comunistas? Há pessoa, partido ou grupo que tivesse defendido essa causa com maior desinteresse? Porque nom havia defender Benigno a causa da Galiza desde a sua posiçom de dirigente comunista, ou necessitava para isso ser nacionalista?". O argumento quase nom resiste, já que logo chega observar a evoluçom que tivo o partido, muito especialmente no tardofranquismo na Galiza (nom havia trégua no confronto com os inimigos da UPG) e nom falemos desde 77 até a onírica realidade actual. Soto, nos antípodas dessa tese e com umha relaçom muito mais fluída e directa com o veterinário de Maceda, insiste em que Benigno Álvarez se questionava quotidianamente se a revoluçom marxista tinha que conquistar-se necessariamente antes que a autodeterminaçom nacionalista.

Mesmamente, o secretário geral do Partido Comunista na Galiza nos anos 80, Anxo Guerreiro Carreiras, afirmava no tomo XXIV da Gran Enciclopedia Gallega: "A aspiraçom de criar o Partido Comunista da Galiza, como partido nacional, era umha velha pretensom dos comunistas galegos desde a época da República. Em 1936 o Partido Comunista já tinha umha forte implantaçom na Galiza e umha notável influência, sobretodo no movimento operário em Vigo e Ferrol e no movimento camponês em Ourense. Um dos seus dirigentes mais destacados era Benigno Álvarez, secretário do Comité Provincial de Ourense, um dos homens que já, em aquela época, via nitidamente a necessidade dum Partido Comunista Nacional Galego".

O Estatuto da Catalunya -que Benigno conhecia bem- supujo umha capitulaçom ao autêntico discurso do povo catalám. O Partit Comunista de Catalunya (PCC) apostava pola reivindicaçom do princípio de autodeterminaçom nacional, inclusive até a segregaçom. Depois da Revoluçom de Outubro de 1934, a questom da emancipaçom das naçons oprimidas passou a um primeiro plano e foi um dos argumentos vaselinizados pola Frente Popular, que apoiava umha forma autodeterminativa de carácter limitativo. Mesmo assim, o Partido Comunista na Galiza, da mao de Benigno Álvarez e de Gumersindo Montero, demonstrou-se como um dos impulsores do plebiscito autonómico em Junho de 1936. A campanha começara no dia 7 na Corunha com a apresentaçom, num duplo acto conjunto, dos principais líderes galegos. Benigno nom estava presente, pois se encontrava em Barcelona, na Conferência Nacional do PCC que aginha se ia refundir, juntamente com a esquerda socialista catalá, os anarquistas e outras forças afins, numha nova formaçom política, o Partit Socialista Unificat de Catalunya (PSUC), que defendia postulados de carácter nacional muito ambiciosos (23 de Julho de 1936). Aquele modelo era -em parte- extrapolável e o veterinário de Maceda seguia-o com muito interesse. Naquelas datas já era o líder indiscutível a nível galego.

Especialistas nessa época -muito de passada- detectam certa influência galeguista no interior do PCE na Galiza (A. Bozzo); com debates internos sobre o galeguismo (B. Máiz); ou quando se fala da criaçom da UPG, que se declara herdeira do pensamento de Castelao e do Partido Comunista dos anos 30 (Beramendi / Seixas). Porém, nom fam referência expressa a quem era a prol da nossa realidade diferenciada. Só Marcos Valcárcel aproxima o nome: "A figura quase mítica de Benigno Álvarez é reivindicada tanto desde a tradiçom comunista como desde a fidelidade galeguista a umha pátria ignorada e mal-tratada". Também o fai o historiador Francisco Carballo num recente livro de Conversas (ANT, 2002) onde afirma que a UPG nasce em 64 influída por Luís Soto que, por sua vez, tinha amizade com Benigno Álvarez.

Num trabalho de opiniom no semanário A Nosa Terra (nº 742) intitulado "Benigno Álvarez na encruzilhada do nacionalismo" considerávamos que na Galiza de 1936 algo se movia face umha relevante transformaçom da nossa vida política, social e cultural de nom ter triunfado o golpe militar e que levava aparências de consolidar-se em pouco tempo. Defendíamos que -no plano político- nos deslocávamos face um projecto marxista autenticamente nosso encabeçado por Benigno Álvarez que, juntamente com Luís Soto e o médico Carnicero polo que se deu em chamar a corrente nacionalista dentro do Partido Comunista, se uniria ao sector mais à esquerda do Partido Galeguista abandeirados -como também apontava Carlos Morais no 1º número de Abrente (Julho, 96)- por Suárez Picalho e alguns jovens das Mocidades Galeguistas como Luís Seoane e Pepe Velo, aos que poderíamos acrescentar Celso Emilio Ferreiro -outro dos fundadores da UPG-, daquela secretário de organizaçom da FMG e que semelhava afastar-se despaciosamente do ideário oficial do PG.

Benigno apostara desde 34, depois dos nefastos resultados para a esquerda em Novembro do ano anterior e da derrota operária na Revoluçom de Outubro, por umha coligaçom democrática na Galiza que defendesse aquela República -que nom o entusiasmava por ser de carácter burguês- frente o fascismo emergente e abandeirasse a consolidaçom daquele Estatuto de Autonomia de direcçom minimalista. Estacionava momentaneamente o programa de máximos dos comunistas que aspiravam a um governo operário e camponês.

Em 36 todo acontecia a umha velocidade de vertigem: Benigno fazia parte da candidatura da Frente Popular pola circunscriçom de Ourense com os republicanos de esquerda, socialistas e galeguistas. O aparelho estatal do PCE impugera um candidato estrangeiro em Ponte-Vedra que logo saiu deputado em Madrid, mas que desconhecia a realidade galega. Benigno Álvarez deixara clara a sua discrepáncia por aquele facto, que demonstrava que o centralismo do Partido Comunista prejudicava seriamente o seu projecto político na Galiza. Ironizava que Adriano Romero Cachinero era "o querido companheiro de Jaén que vinha colonizar o nosso marxismo de pureza e de lealdade". O PCE tinha colocados 21 candidatos em todo o Estado dos quais 17 atingiram acta de deputado. Em Ourense veu a fraude de Calvo Sotelo e no escrutínio oficial Benigno -o único comunista galego- nom chegou aos 20.000 votos. A 5 de Abril atingiu -logo de vários intentos desde 32- criar um sindicato labrego (52 sociedades com sede no Centro Operário da capital) desde umha óptica marxista que luitava pola libertaçom do campesinato, contra o sistema foral, a corrupçom e a exploraçom. Cabo Villaverde em O Agrarismo (ANT, 1998) assegura que esta Federaçom Camponesa, presidida polo carismático veterinário de Maceda, era muito radical com chamados ao boicote a todo trabalhador nom federado e à exigência da confiscaçom e reparto dos bens da Igreja Católica em todo o País. Nas eleiçons de 30 de Abril a compromissários que designariam o novo presidente da República (Azaña), Benigno obtivo 85.535 votos que chocavam frontalmente com os pequenos resultados de havia dous meses. Na Assembleia celebrada nas Cortes do Estado (10 de Maio) -seguimos Benigno Álvarez- foi o único compromissário que exprimiu o seu voto em galego. Também na entrada correspondente da Enciclopedia Galega Universal (Ir Indo. Tomo I) podemos ler: "Tanto no Congresso do PCE em 1932 como neste acto em Madrid, Benigno Álvarez expressou-se publicamente em galego, sendo este um dado mantido como prova de que foi um dos dirigentes que mais pressom fijo para que o PCE acedesse à formaçom do Partido Comunista da Galiza". No 1º de Maio articulou umha exitosa manifestaçom na capital ourensana; um acto popular reivindicativo de carácter miliciano como resposta às provocaçons da direita e dos militares, naquela atmosfera larvada de violência que logo ia estourar. Benigno estava no alvo dos falangistas e de certa oligarquia ourensana desde 1931. Daquela a militáncia do Partido Comunista em Ourense medrava consideravelmente (Rafael Cruz contribui 3.213 filiados para toda a Galiza em Maio do 36). Benigno -com um acertado trabalho de propaganda- fora o artífice do grande número de filiaçons maiormente entre os camponeses, algo insólito no conjunto do Estado. Em Junho fijo campanha em prol do plebiscito estatutário com Alexandre Bóveda com o que já compartilhara comícios em Fevereiro. Ao concluir um dos actos centrais em Ourense, o veterinário de Maceda recriminou a Bóveda que era demasiado brando na reivindicaçom nacional; que tinha que ser mais exigente para com a nossa realidade diferenciada desde todos os ámbitos e perspectivas e que o direito de autodeterminaçom era umha questom inseparável da nacionalidade.

Em 28 de Junho foi refrendado -após várias tentativas- o Estatuto. Entrava no Congresso dos Deputados quando os golpistas decidírom derrubar o governo legalmente constituído da República. Numhas hipotéticas eleiçons ao Parlamento Galego a reorganizaçom política na Galiza ia deparar-nos algumhas surpresas. Orabém, a realidade aqui foi outra: ser comunista ou galeguista semelhava um cancro para la nación española e, segundo o pensamento generalizado entre os militares sublevados, ser marxista e nacionalista, era o clímax da negaçom da inteligência naquela cruzada. Por isso a perseguiçom e aniquilaçom de pessoas como Benigno Álvarez (13 de Março de 1937) foi implacável, sofrendo as conseqüências toda a sua família e a vila que o vira nascer. A repressom na Galiza foi tam bestial e traumática que os esquadrons da morte fascistas fulminárom com teimosia aquela resplandecente geraçom cheia de talento e fundamente vanguardista; a mais magnificente que deu o nosso País no século XX. Internacionalista proletário ou protonacionalista galego? Benigno -perfeitamente identificado com o País- tinha-o claro, muitíssimo mais claro que os herdeiros daquelas siglas que nom soubérom -nem quigérom- evoluir e seguir o seu lúcido vieiro.

Terminamos com Luís Soto que, no último capítulo do seu livro de memórias, lembra com emoçom quatro espelhos onde podem olhar-se todas as pessoas de bem da nossa terra e que devem servir de exemplo a todos os nacionalistas: Afonso Rodríguez Castelao, José Gómez Galhoso, Alexandre Bóveda e Benigno Álvarez, a quem lembra como "um comunista cabal, nacionalista galego esplêndido, que morre no monte e sinala vieiros de internacionalismo proletário vinculado íntima e indisoluvelmente ao nacionalismo que supom o respeito à diferenciaçom sócio-política e cultural da naçom, que tem direito a autodeterminar-se e libertar-se de todas as opressons".

Santiago Prol é historiador. Tem realizado diversos trabalhos sobre Benigno Álvarez e fijo parte da comissom organizadora da homenagem tributada ao dirigente comunista galego em Maceda em Março de 1997.

O texto original foi adaptado seguindo os critérios reintegracionistas com o consentimento expresso do autor.



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