Crise ou crises no nacionalismo galego

Carlos Morais

As origens da esquerda nacionalista galega contemporánea situam-se em 1963-64, coincidindo respectivamente com a criaçom do PSG e da UPG.

Umha das características destes mais de quarenta anos de trajectória tenhem sido as constantes cisons e crises do tronco comum fundacional ou da sua área de expansom e influência sociopolítica. O nacionalismo galego, independentemente do grau de coerência da acçom teórico-prática e dos parámetros políticos defendidos em cada período histórico, tem-se visto sacudido por crises cíclicas aproximadamente cada dez anos. Em 1976-78 nasce o PGP; em 1985-87 o PCLN e a FPG; em 1996-1999 tem lugar a gestaçom e posterior saída de Primeira Linha do BNG. As duas primeiras cisons/rupturas procedem da UPG, porém a que protagonizou o nosso partido restringiu-se unicamente a determinadas organizaçons de "massas" nacionalistas porque, a diferença das precedentes, somos a primeira expressom política do soberanismo galego que nom procedemos da matriz upegalha.

As tensons que actualmente se vivem no interior e na envolvente do ex-partido comunista coincidem com a cadência cíclica dumha década. Estamos, pois, numha nova expressom deste fenómeno, ou será que nesta ocasiom o processo apresenta consideráveis diferenças com os anteriores? Embora ainda seja precipitado responder, tentaremos dar algumhas chaves que contribuam para compreender os acontecimentos e prognosticar a sua evoluçom.

A crise do nacionalismo galego

Um dos grandes paradoxos do sistema político institucional autonómico é a presença do BNG no governo da Junta da Galiza, coincidindo com umha etapa de agudizaçom e consolidaçom da hemorragia eleitoral iniciada em Outubro de 2001, e das tensons internas derivadas da precipitada adaptaçom a umha imprevista conjuntura.
Os resultados negativos dessas eleiçons autonómicas, frustrando as aspiraçons de deslocar Fraga da Junta, encabeçando um governo de coligaçom com o PSOE, supugérom um ponto de inflexom erroneamente abordado pola UPG no referente ao diagnóstico e medidas a adoptar para corrigir e ressituar as perspectivas do nacionalismo.

A traumática e forçada mudança do liderança pública, após ter gerado umha artificial estratégia de erosom, assédio e queda da figura de Beiras, tinha basicamente dous objectivos: deslocá-lo do epicentro da direcçom para o substituir por um maleável político de marqueting desideologizado, protótipo dos manuais universitários das faculdades de ciências políticas, empregando para este fim um transitório homem de palha, até que a UPG ache a pessoa de confiança adequada para ocupar essa responsabilidade que sempre delegou num "independente" desde a refundaçom de Riazor.

A posterior orientaçom da campanha eleitoral de 2005, os maus resultados atingidos, o discurso adquirido polo BNG, regionalista e centrista, os termos do acordo de governo com o PSOE, a distribuiçom e reparto de poder e responsabilidades na administraçom autonómica, e a carência de coragem e vontade para aplicar políticas nacionais e de esquerda, tenhem provocado umha agudizaçom das contradiçons internas, das quais tam só podemos estar assistindo aos primeiros episódios. Diversos agentes e sujeitos alimentam, de postulados políticos e ópticas ideológicas diversas, os movimentos questionadores do actual BNG sob orientaçom do tandem Quintana-Paco Rodrigues. Se até o momento a discreçom e a prudência estám a caracterizar o processo em curso, diversos episódios dinamitárom o tradicional hermetismo.

Porém, nesta ocasiom, vamos centrar-nos basicamente nos que procedem do mundo da UPG, sem desconsiderarmos e mesmo reconhecermos importantes coincidências no diagnóstico elaborado polo camilismo com as posiçons que Primeira Linha vem mantendo desde 1996, e que nestes anos fôrom simplesmentes desqualificadas ou desconsideradas polo conjunto do autonomismo.

A UPG nom é um partido comunista

Salvo incautos e ingénuas, alimentad@s nas obsoletas descriçons dumha imprensa tam reaccionária que, por espúreos interesses e visceral anticomunismo e chauvinismo espanhol, continua a empregar parámetros da guerra fria, carentes de matizes, incapaz de diferenciar a palha do grao, identificando-a como núcleo duro, radical partido marxista-leninista, etc. Salvo para esses, é indefendível a dia de hoje considerar a UPG um partido comunista.

Quiçá, salvo reduzidas etapas de discutível limitaçom temporária, nunca agiu como tal.
As deficiências congénitas nas bases ideológicas fundacionais, a nefasta escola teórico-prática elaborada nas últimas quatro décadas, incapaz de construir umha sólida base social alicerçada sobre valores de esquerda e autodeterministas, a composiçom pequeno-burguesa hegemónica nas suas direcçons simultánea à paulatina perda de contingentes operários, o pactismo que emana desta correlaçom interna de forças, os conservadores parámetros a que tem conduzido o nacionalismo galego, impossibilitam defini-la ou considerá-la umha organizaçom revolucionária guiada polos princípios do materialismo histórico e dialéctico, sem cairmos num exercício de fanatismo dogmático ou interpretar umha comédia televisiva.

A actual UPG é basicamente um acomplexado partido mornamente patriótico, com umha matriz progressista. Mornamente, porque sempre renunciou a dotar a Galiza dum Estado próprio, objectivo natural dum processo de construçom nacional.

Progressista porque independentemente da retórica empregada em cada etapa histórica, -oscilando entre o frentismo anti-imperialista dos sessenta, passando polo verniz maoista dos primeiros setenta, aplicando rigidamente as teses dimitrovianas na segunda metade dessa década, exercendo de motor e direcçom do interclassismo dos oitenta, até as claudicaçons contínuas do actual BNG: umha força pequeno-burguesa com umha ampla e inquestionável base popular-, a UPG nunca aplicou na Galiza umha conseqüente linha e programa comunista.

Poderá manter umha epidérmica retórica marxista, poderá continuar a empregar fouce, martelo e espiral como símbolos, poderá seduzir bem-intencionad@s jovens tam despistad@s como atraíd@s por essa hábil mística que tantos réditos e prestígio tem dado, mas a actual UPG, -e a de já há muitos anos atrás-, nada tem a ver com a idealizaçom épica das luitas populares de Baldaio, Jove ou as Encrobas, com o heróico sacrifício do Moncho Reboiras, morto em combate de armas na mao (nom com essa virtual biografia de maquilhado teórico que leva anos tentando construir Paco Rodrigues numha das suas habituais manipulaçons históricas).

A dia de hoje, domesticadas forças políticas social-democratas, e mesmo liberais, mantenhem siglas, estéticas e até de forma pontual retóricas "revolucionárias", antagónicas com o que actualmente som, porque continuam a ser úteis no mercado eleitoral. Os corruptos PRI mexicano ou MNR boliviano, o colaboracionista PC do Iraque, o neoliberal Partido da Libertaçom Nacional da Costa Rica ou o entreguista PCE, som paradigmáticos exemplos da carência de relaçom entre o que se afirma ser e o que realmente se é. O hábito nom fai o monge.

A UPG leva décadas adiando sistematicamente agir como força revolucionária, como partido de vanguarda, como consciência crítica das massas mais avançadas, para ser um simples um núcleo de poder, identificador de "acçom comunista" com práticas de controlo, dirigismo, freio da combatividade, obsessons fagocitadoras, tendências liquidacionistas, características da pior cultura estalinista.

A UPG, independentemente das indiscutíveis virtudes e contributos para o desenvolvimento da esquerda nacionalista, tem sido nefasta para a tarefa de construir na Galiza um partido comunista revolucionário.

Actualmente, como partido interclassista, é conformada por um complexo conglomerado de fracçons e pessoas com objectivos e interesses antagónicos, unidas por um delicado e frágil fio condutor, em que se situam honest@s e reconhecid@s luitadores atrapad@s pola inércia, umha casta de submissos burocratas habituad@s a comer da sopa boba da mastodôntica rede funcionarial que corrói as entranhas das organizaçons nacionalistas, passando por políticos profissionais que renunciárom à transformaçom social polos privilégios e estatus social que lhes concede o regime pola sua claudicaçom, até ambicios@s jovens turcos, e nom tam jovens, cuja aspiraçom é fazerem carreira política no seio do BNG para poderem ser deputados, ter um carguinho num governo municipal e agora também no autonómico, ou no pior dos casos acabar de liberado nalgumha das entidades satélites.

A actual UPG semelha mais o accionista maioritário no conselho de administraçom dum clouster de empresas, cuja marca mais conhecida é BNG S.A, que um partido de esquerda. O seu interior é um jardim zoológico das mais variadas e exóticas espécies de oportunismo que oscilam entre as práticas mafiosas do pior amarelismo sindical até indivíduos de duvidosos valores progressistas, com respeitáveis profissionais liberais que conhecem melhor as ementas de vinhos dos luxuosos e exclusivos restaurantes que a obra de Karl Marx.

A actual UPG, assim como o resto de partidos e colectivos organizados e reconhecidos no seio do BNG, som simples lobbies de pressom ao serviço de corruptas e medíocres elites, que a expressom da pluralidade ideológica dum frentismo inexistente.
Hoje, a ideologia está desvalorizada no seu seio. Poderá seguir mexendo-se nessa calculada esquizofrenia em que fôrom educadas diversas geraçons militantes: de noite vitoramos o regime coreano e organizaçons armadas, e de dia, num exercício de transformismo digno objecto de estudo das faculdades de psicologia e medicina, defendemos as leis do mercado e condenamos com mais adjectivos que Acebes a violência terrorista.

A força da UPG, como partido com vocaçom única numha pseudademocracia assemblear com estruturas de poder menores que legitimam um raquítico e limitado pluralismo, reside em que até hoje possuía intacta, -após aparentemente milagrosas recuperaçons fruto da incompetência e fraqueza da oposiçom interna-, a capacidade de negociar com ventagem com o resto dos accionistas, distribuindo estabilidade e influências com base numha hábil política de prémios e puniçons. Até agora, mantinha a iniciativa e um imenso poder para distribuir e repartir postos de responsabilidade com base em confecçons de listas eleitorais, colocaçom de liberad@s, assesores/as, cargos públicos, naqueles espaços institucionais que o nacionalismo véu paulatinamente ocupando, e nas cada vez mais saneadas organizaçons sociais do seu espaço político, por mor dos subsídios governamentais que impossibilitam umha independência política.
Carente de debates ideológicos, de intervençom transformadora, acha-se num paulatino processo de descomposiçom cujo final pode ser ainda muito dilatado. O cabeçalho Terra e Tempo, vozeiro histórico deste partido, é desde o ano passado o meio de expressom da "Fundación Bautista Álvarez".

A crise da UPG deriva e contribui, mas também coincide numha complexa interligaçom dialéctica, com a crise de identidade do nacionalismo institucional, provocada polas dificuldades teórico-práticas para assumir as profundas mudanças operadas na morfologia social e na estrutura económica galega, assim como pola orientaçom autonomista e erróneas respostas que aplica a sua direcçom aos imensos reptos que tem a Galiza e as suas maiorias sociais. Por este motivo, o mais rigoroso é falarmos de crises, em plural.


Perspectivas e limites destas crises

Um dos principais desencadeantes das tensons internas que podem chegar a afectar a sua tradicional hegemonia no movimento sindical nacionalista e nas organizaçons juvenis do seu ámbito de influência, está directamente vinculada com a presença e papel desempenhado polo BNG no governo da Junta.

A arbitrária distribuiçom de responsabilidades nas conselharias "nacionalistas", com a conseguinte marginalizaçom dum importante sector partidário, em combinaçom com a ausência de vontade política para aplicar políticas de esquerda e eminentemente orientadas à construçom nacional da Galiza, assim como a incapacidade para manter umha dupla estratégia que combine participar no governo e exercer de oposiçom impossibilitam e mesmo fai inecessária a existência de organizaçons sectoriais das que até o momento se nutria, tenhem sido a espoleta dos movimentos em curso, traduzidos em abandonos e saídas de destacados quadros e dirigentes.

Nom nos surpreendem estes acontecimentos, sim nos chamava a atençom que a evoluçom do BNG face os inofensivos parámetros autonomistas e social-democratas de direita nom provocassem intensos debates internos por parte daqueles sectores soberanistas e de esquerda, de toda esse contingente militante, em directo contacto e perfeito conhecedor dos retrocessos das condiçons laborais e sociais de cada vez mais amplos sectores do mundo do Trabalho por mor das receitas neoliberais aplicadas, nom adoptasse decisons tendentes a denunciar e frear o colaboracionismo do autonomismo com estas políticas.

A orientaçom do actual BNG é responsabilidade directa da UPG, embora a corte de oportunistas da equipa de Quintana estejam aproveitando o desconcerto da deriva e as expectativas depositadas no bipartido para acelerar os ritmos e o tempo político para superar unilateralmente os parámetros da "acovardada doutrina nacional a meio caminho entre o autonomismo radical defesor do direito de autodeterminaçom e umha irracional patologia anti-independentista" em que vinha agindo, para o substitur por umha força cada vez mais parecido com a ORGA de Casares Quiroga do que com o PG de Castelao e Bóveda. O BNG de Quintana tem um discurso similar ao de Coalición Galega no plano nacional, e no social está à direita das correntes social-democratas tam em voga nos Foros Sociais em que participa. O seu discurso está dirigido ao empresariado autóctone, às classes médias, mas também para seduzir o grande capital, e nom à essa indefesa imensa maioria social de assalariad@s que hoje conforma o povo trabalhador galego.
A UPG que durante décadas qualificou a ANG, logo POG, depois PSG-EG, de pseudonacionalista, a UPG que denunciou o almorço de Camilo com Fraga em 1989, e tentou desmarcar-se hipocritamente da ceia de Beiras com o ex-ministro franquista doze anos depois, a que mantinha avançadas posiçons na negativa a assumir a arquitectura institucional do actual regime capitalista espanhol e hoje contribui para reforçar a falsa normalidade democrática com base em silêncios e capitulaçons, já nom existe. Simplesmente, foi devorada pola história.

Somos concientes que esta crise, por enquanto, ainda nom adoptou, e mesmo pode chegar a nom fazê-lo, a forma de ruptura organizada para posteriormente constituir um novo espaço político. No entanto, nem vamos realizar estravagantes qualificaçons que noutras conjunturas o independentismo realizou sobre a criaçom do PCLN, nem tampouco podemos, para além da lógica satisfaçom que produz assistir a rupturas e movimentos com práticas políticas contrárias aos interesses da classe trabalhadora e da Galiza, depositar falsas expectativas sobre a necessidade de reforçar o espaço sociopolítico do soberanismo de esquerda.

O que sim é evidente é a impossibilidade de orientar a CIG numha coerente prática a prol da defesa dos interesses imediatos da classe trabalhadora galega, ligando-os necessariamente à recuperaçom da soberania nacional, sem se dotar dum novo referente político que contribua para reforçar umha estratégia de resistência ao planos que nos tem reservados Espanha e o capitalismo. Logicamente, a recente história do nacionalismo galego constata que estes movimentos ou bem acabárom fracassando estripitosamente ou bem nom atingírom nem os mais modestos objectivos perseguidos. Mas nunca se toma duas vezes banho no mesmo rio. Contodo, sem um referente político e social definido e amplo é inviável praticar sindicalismo de classe.

O crescimento e prestígio experimentado pola CIG neste lustro estivo directamente ligado à sua acçom sindical diferenciadora do pactista e corrupto sindicalismo espanhol. A orientaçom que adopte a respeito do pacto social que promove o Governo autonómico, à sua política socio-económica, no debate estatutário, reforma laboral, será determinante para o futuro imediato da(s) crise(s).

A coincidência na luita, a altura de miras superadora dos naturais conflitos entre as diversas correntes que conformamos o plural movimento social em prol da construçom dumha Galiza soberana a partir da esquerda, deverá sem precipitaçons abrir caminhos de diálogo sem condiçons mais alá do respeito mútuo, e da inegociável independência política da classe obreira, sem tutelagens, nem subordinaçons à pequena-buguesia.
O tempo dirá se a urgente unidade operária e popular da fragmentada e confrontada esquerda nacional poderá ser um viável objectivo a que tod@s apelamos, mas que nunca passa dos desejos retóricos. Embora devamos manter umha natural prudência, o que é umha evidência e que estamos no mesmo lado da barricada.


Carlos Morais é Secretário Geral de Primeira Linha

 

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