O PENSAMENTO
POLÍTICO DO CHE
O dever de todo revolucionári@ é fazer a revoluçom
· Carlos Morais
O trigéssimo quinto aniversário da morte em combate de Ernesto Che Guevara
ainda nom foi quem de ocultar o magnetismo cativador da sua figura de revolucionário
coerente e idealista entre amplos sectores populares do conjunto do planeta.
De facto, a foto de Korda continua a ser um dos primeiros contactos simbólico-material
com o pensamento emancipador da esquerda e a revoluçom para milhares de
jovens, embora para um destacado sector dos mesmos, infelizmente maioritário,
nunca chegue a ultrapassar a epidérmica concepçom de herói de banda desenhada,
aventureiro romántico, exemplo mitificado de sonhos altruistas da adolescência,
...
Mas este artigo nom pretende abordar a utilizaçom comercial da sua imagem,
a leitura superficial do seu compromisso militante, nem tampouco difundir
a sua desconhecida trajectória vital, mais bem pretende adentrar-se
nas principais chaves do seu pensamento político, em permanente evoluçom,
e do seu legado teórico, questionando os principais dogmas construidos à
sua volta.
A sua intransigente coerência fijo dele umha figura incómoda para as correntes
reformistas nas suas diversas variantes estalinistas, maoistas ou marxistas-leninistas,
que, ao igual que o capitalismo, tendêrom a apropriar-se da sua limpa imagem
de poster, promovendo a “adoraçom” inóqua e santoral de justiceiro, convertendo-o
em representante da rebeldia juvenil, mas sempre esvaziando o seu conteúdo
subversivo, projectando a sua fasquia digerível, ocultando o seu verdadeiro
ser: dirigente comunista involucrado directamente, até as últimas conseqüências,
na luita contra o imperialismo e pola libertaçom dos povos e das classes
trabalhadoras. Lenine em O Estado e a Revoluçom, referindo-se à figura
de Karl Marx, explica perfeitamente este tipo de atitudes, quando alerta
como “As classes opressoras, durante a vida dos grandes revolucionários,
retribuírom-nos com incessantes perseguiçons, acolhiam a sua doutrina com
a fúria mais selvagem, como o ódio mais feroz, com as mais furibundas campanhas
de mentiras e calúnias. Depois da sua morte tenta-se transformá-los em ícones
inofensivos, canonizá-los, por assim dizer, conceder ao seu nome umha certa
glória para “consolar” as classes oprimidas e para as enganar, castrando
o conteúdo da doutrina revolucionária, embotando o seu gume revolucionário,
vulgarizando-o”.
A etapa política da vida
do Che, a diferença de outras muit@s dirigentes revolucionári@s, caracteriza-se
pola sua brevidade, pouco mais de treze anos, os que medeiam entre a vitória
de Arbenz na Guatemala de 1953 e a sua morte em Bolívia em 9 de Outubro
de 1967, aos 39 anos de idade.
Para podermos compreender
porque um argentino da pequena burguesia acaba convertendo-se num dos máximos
dirigentes da revoluçom cubana, teórico da luita de guerrilhas, animador
dum “modernizado” internacionalismo proletário, e expoente da corrente mais
combativa e anti-autoritária do marxismo dos anos sessenta, cumpre realizar
umhas pequenas notas aclaratórias da sua formaçom primária. Infatigável
leitor desde a infáncia, mantivo sempre umha insaciável sede por conhecer
e aprender. Na sua pesada mochila da selva boliviana portava a História
da Revoluçom Russa de Trotsky, entre outros livros. A formaçom nos romances
de aventuras clássicas (Salgari, Dumas, Stevenson, Verne) fomentárom a sua
posterior insaciável paixom pola arqueologia, polas culturas indígenas,
por viajar, até converter-se num perito conhecedor da realidade social latino-americana
em que alicerça a sua singular visom continental e internacionalista da
luita revolucionária. Posteriormente, realiza intensas leituras da literatura
francesa, de Verlaine a Sartre; da espanhola (utiliza fragmentos de Dom
Quixote para a formaçom de recrutas na Sierra Maestra), da latino-americana
e conhece os principais romances indigenistas. Os refugiados republicanos
exilados na Argentina contribuírom para reforçar a sua formaçom antifascista,
transmitida inicialmente pola família: os pais pertenciam aos sectores progressistas
da pequena burguesia argentina.
As viagens realizadas a inícios da década de cinqüenta pola América e
o contacto directo com a situaçom de opressom e miséria das massas populares
do continente, e especialmente as vivências e experiências de processos
de transformaçom social: o realizado na Bolívia de Paz Estensoro em 1953
e na Guatemala de Jacobo Arbenz (1951-1954) determinárom a sua evoluçom
política e o seu compromisso com a luita antiimperialista de parámetros
marxistas.
Além dos textos que pudesse
ter conhecido na biblioteca familiar, o primeiro contacto com o marxismo
tem lugar em 1952 em Lima, embora o estudo minimamente metódico do materialismo
dialéctico nom tenha lugar até a etapa que abrange o processo de transformaçom
social e reformas democráticas da Guatemala e os preparativos mexicanos
para iniciar a luita guerrilheira em Cuba, ou seja, o período 1954-56.
Posteriormente, entre 1963-64,
fruto das necessidades que provoca o profundo debate que tem lugar em Cuba
sobre a orientaçom da economia e a construçom do socialismo, o Che volta
a realizar estudos sistemáticos da obra e do pensamento marxista, embora
continuassem a ser muito parciais, pois desconhecia a maioria da obra de
Trotsky ou Rosa Luxemburgo.
A sua inicial relaçom com os comunistas do Partido Guatemalteco do Trabalho
modula a sua adesom acrítica ao modelo soviético
[1]
, posteriormente reforçado pola influência que nos primeiros
meses da revoluçom cubana recebe dos quadros do velho PSP, a secçom cubana
do estalinismo.
Um maior conhecimento da
obra marxista e as viagens que, como embaixador da revoluçom, realiza posteriormente
polos países do leste, a URSS, China e Jugoslávia, afastam-no do dogmatismo
reformista dos modelos imperantes naquelas sociedades, situando-se numha
heterodoxa corrente de difícil classificaçom, caracterizada polo questionamento
e a crítica radical daquelas experiências
[2]
. As suas contundentes críticas a Moscova e Pequim provocárom
que fosse erroneamente tildado de maoista, trotsquista, ou bakuninista polas
respectivos aparelhos de propraganda desses regimes. O Che, desde a vitória
de Playa Girón e o posterior desfecho da crise das Caraíbas em Outubro
de 1962, -quando os soviéticos imcumprem os acordos e negoceiam directamente
com Kennedy, humilhando a soberania nacional cubana-, abandona a ingénua
visom idílica dumha URSS e uns “países socialistas” dispostos a “entrar
em guerra para defender Cuba”.
Porém, este processo contraditório,
-fruto dum desconhecimento profundo do marxismo-, provoca que no período
1962 a 1967 podamos continuar observando nos seus escritos e declaraçons
certas oscilaçons e incoerências na sua avaliaçom e caracterizaçom dos modelos
dos países do leste
[3]
. Como em todas as suas facetas vitais, viveu com intensidade
o profundo debate e contradiçons do denominado movimento comunista internacional
da década de cinqüenta e sessenta, mas sempre com umha concepçom criativa,
ética e anti-autoritária do poder; assim, em Maio de 1961, numha circular
interna do Ministério que dirige proíbe “as indagaçons praticadas pola
administraçom sobre a ideologia dos trabalhadores, já que tal prática resulta
umha limitaçom da plena liberdade do homem” ou, também nesse mesmo ano,
denuncia a impossibilidade d@s cuban@s da “Voz Proletária” de publicar “A
Revoluçom permanente” por parte de sectores do aparelho estatal.
As suas evidentes carências
teóricas fôrom solventadas muitas vezes pola grande intuiçom que possuia
e polas intensas conviçons éticas do seu compromisso revolucionário. A sua
confiança ilimitada na força material e capacidade de mobilizaçom das massas,
e no fomento e superioridade dos estímulos morais sobre os materiais, -cujo
paradigma mais conhecido é o stakhanovismo soviético (difusor do
egoísmo, a corrupçom e a consciênca burocrática)-, é o núcleo duro da sua
concepçom do homem novo
[4]
, movido por motivaçons alheias ao materialismo capitalista,
a qualquer resquício de mercantilizaçom na construçom da nova sociedade
socialista. No citado ensaio O Socialismo e o home em Cuba
[5]
podemos ler “nos momentos de perigo extremo é
fácil potenciar os estímulos morais; para manter a sua vigência, é necessário
o desenvolvimento dumha consciência em que os valores adquiram categorias
novas. A sociedade no seu conjunto deve converter-se numha gigantesca escola”.
A consciência revolucionária, a ideologia, a educaçom política das massas
jogou um papel essencial no sua pensamento. Mas, a diferença de outros dirigentes
e doutros processos, o Che demonstrou e defendeu com a sua prática a coerência
no que acreditava, mais alá de palavras de ordem ou retóricas declaraçons
de princípios: o trabalho voluntário, o comportamento exemplar, a generosidade,
a austeridade, a intransigência contra todo o tipo de privilégios e desigualdades,
o combate a qualquer forma de nepotismo ou corrupçom, como elementos genético-estruturais
do modelo de construçom dumha sociedade socialista. Ernesto Guevara estava
plenamente convencido de que “o desenvolvimentoo da consciência fai mais
polo desenvolvimento da produçom que o estímulo material”.
O seu assassinato, a 9 de
Outubro de 1967, após ter sido capturado num desigual combate na selva boliviana,
é o melhor paradigma da sua profunda e inabalável coeréncia vital. Renunciando
aos mais altos postos da revoluçom cubana, abandona a ilha, e após umha
curta, fracassada e ingrata experiência africana no Congo, escolhe o território
boliviano para continuar a luita armada que iniciou quando embarcara em
1956 no Granma.
O Che foi muito categórico
na denúncia da cumplicidade do socialismo real no subdesenvolvimento
dos países do terceiro mundo por manterem um intercámbio desigual
nas relaçons económicas. Solicitando com claridom que os investimentos sejam
libertados do critério de rendibilidade, ou a transferência ilimitada de
tecnologia; também criticou sem ambigüidades, nem sutilezas diplomáticas,
a ausência de internacionalismo genuíno no virtual apoio às luitas destes
povos (“As armas, nos nossos mundos, nom podem ser mercadorias; tenhem
que ser concedidas grátis, nas quantidades necessárias e possíveis”).
A experiência com os soviéticos na crise dos mísseis foi suficientemente
clarificadora, e o Che, como ministro de indústria, era consciente da gravidade
estratégica que para a revoluçom cubana supunha ter susbtituído a dependência
económica dos USA pola URSS.
A respeito da orientaçom
económica da revoluçom (1959-1964) o Che, desde a sua responsabilidade no
MININD, mantivo um forte debate com os quadros estalinistas, os tecnocratas
e os assessores económicos soviéticos, em aspectos fulcrais do modelo a
seguir: o papel jogado pola consciência e o recurso aos incentivos morais;
a necessidade de abolir todas as categorias mercantis na sociedade de transiçom:
desde a gestom empresarial até a autonomia contável das empresas; a participaçom
operária na autogestom e planificaçom industrial e económica; a superaçom
da lei do valor. O Che nom aceitava a validez do modelo soviético e defendia
o ensaio dumha via socialista original, denunciando a cumplicidade do “socialismo
real” no subdesenvolvimento da maioria da humanidade
[6]
. Este intenso debate teórico que finalmente perdeu, adquiriu
dimensom internacional com a particiaçom de destacados economistas e
marxistas como Mandel ou Bettelheim.
Posteriormente, na Bolívia,
voltou a constatar na sua própria carne o oportunismo e instrumentalizaçom
das organizaçons estalinistas, concretamente a traiçom da direcçom do PCB
com o projecto revolucionário que estava desenhando.
O Diário de Bolívia,
sendo a mais conhecida e divulgada, nom é, nem muitíssimo menos, a principal
obra de Ernesto Guevara. Sem ser um teórico marxista, pois a sua maior achega
foi o exemplo coerente da sua trajectória vital, “Fazer é a melhor forma
de dizer” tal como escreveu José Martí, o Che tem umha destacada obra
política vinculada à sua acçom diária, à defesa do seu modelo de revoluçom
socialista e à preocupaçom por solucionar os problemas teóricos da sua intervençom
na realidade. De comandante guerrilheiro a ministro de Indústria ou presidente
do Banco Nacional cubano, sempre dedicou esforços ao debate político, ao
estudo do presente, à soluçom teórica dos problemas inerentes da intervençom
política revolucionária, especialmente ao período da compromisso coa revoluçom
cubana.
Além dos manuais amplamente
difundidos sobre a luita armada, -A guerra de guerrilhas (1960) e
Pasajes da guerra revolucionária (1963)-, a obra do
Che é bastante volumosa, -embora nom esteja ainda totalmente publicada (Os
apontamentos filosóficos redigidos em 1966 após a frustrada experiência
do Congo continuam inéditos)-, entre artigos, cartas, discursos, mensagens,
entrevistas, prólogos, conferências.
No já citado ensaio O
Socialismo e o homem em Cuba, realiza umha exposiçom do seu ideal do
partido operário, tipicamente leninista: organizaçom vanguardista de quadros
baseada na selecçom de membros, carácter pedagógico e exemplar da militáncia,
espírito de abnegaçom e sacrifício, mas em nengum momento temos constáncia
dumha verdadeira preocupaçom pola criaçom do partido comunista. Mas sim
por impulsionar organismos supranacionais de coordenaçom de forças e organizaçons
revolucionárias: a OLAS e a Tricontinental. Isto leva-nos a interrogar-nos
se considerava superada a forma partido nacional substituindo-a por organismos
suprapartidários, ou era a resposta concreta a umha situaçom determinada,
-o bloqueio internacional de Cuba-, e aos graves erros teórico-práticos
do estalinismo, plasmados na inviável e errónea resposta anti-marxista
de “construçom do socialismo num só país”, aplicada pola URSS tentou numha
situaçom semelhante.
O Che era consciente das
enormes dificuldades de construir umha sociedade socialista sem a solidariedade
de e com outras revoluçons em marcha. A política internacional da URSS ou
da China nom se baseava no apoio aos movimentos revolucionários, mais alá
dos seus interesses geoestratégicos. Quando lança a palavra de ordem “Criar
dous, três Vietnam” nom está mais que explicitando a necessidade de
gerar focos de confronto directo com o imperialismo para dispersar as suas
forças, conseqüentemente debilitá-lo e assim avançar na revoluçom mundial.
Embora na sua lógica internacionalista
da luita, -intimamente ligada à defesa do direito de autodeterminaçom dos
povos-, a dimensom continental americana nom é umha originalidade do seu
pensamento, sim desenvolve e aperfeiçoa de parámetros marxistas algumhas
concepçons das revoluçons liberais decimonónicas contra o colonialismo espanhol
e a visom do indianismo que conhecia desde criança.
Seguem existindo certas incógnitas
de envergadura a respeito de porque escolhe Bolívia consciente de que parte
das condiçons objectivas nom se cumpriam. O meio centenar inicial de combatentes
de diversas nacionalidades era um foco guerilheiro boliviano ou era um estado
maior que procurava um lugar idóneo para o treino militar de futuros focos
em diversos pontos do continente. Nalguns dos cursos que se impartia aos
combatentes de meia dúzia de nacionalidades ensinava-se quechua, mas os
dialectos de Ñancahuazú pertenciam ao guarani.
O Che foi um fervente defensor
da estratégia de luita armada como o melhor e único mecanismo para a libertaçom
dos povos contra a opressom e a dominaçom. Parte da sua concepçom teórica
tem sido incorrectamente interpretada ao caracterizá-lo como exclusivo promotor
da guerrilha rural e dos camponeses como base social das forças rebeldes,
extrapolando parcialmente a experiência cubana. Mas numha leitura pormenorizada
dos seus textos nesta matéria constatamos que considerava que a base camponesa
sempre deve estar sob a direcçom da classe operária
[7]
. Num artigo apologético dos guajiros de Sierra
Maestra indica com claridom alguns das características dos camponeses, nomeadamente
o seu conservadorismo e profundo carácter individualista: “Este é um
novo milagre da Revoluçom: o acérrimo individualista, que vigia celosamente
os limites da sua propriedade e do seu direito individual, une-se, -sob
o aprémio da guerra-, aos grande esforço comum da luita”
[8]
.
Quando na “Guerra de guerrilhas”
afirma que “o terreno da luita armada deve ser fundamentalmente o campo”
refere-se exclusivamente ao que ele define como a “América subdesenvolvida”.
É consciente, por um intenso conhecimento da realidade latino-americana
da profunda desconfiança das massas camponesas, caracterizadas por umha
mentalidade de pequenos proprietários, para, após alcançar o usufruto da
terra, aprofundar na via socialista.
A questom camponesa ocupa
nas suas reflexons teóricas, nos seus escritos, muito menos espaço que a
atençom emprestada ao proletariado industrial e fabril.
O Che era consciente que
qualquer processo de luita revolucionária e a etpa de transiçom socialista
tem que estar alicerçada numha correcta e sólida aliança entre a classe
operária e camponesa para garantir o seu êxito.
Neste senso, a experiência
dos processos da Bolívia, Guatemala e Cuba, assim como estudo da luita de
classes, provocou que mantivesse sempre umha sá desconfiança sobre os propósitos
progressistas das burguesias nacionais, e portanto suspeitar sobre
a sua participaçom nos processos revolucionários dirigidos polo povo trabalhador.
Frente às revoluçons nacionais-democráticas, o Che mantivo sempre a necessidade
de avançar face a construçom do socialismo, desmascarando as verdadeiras
intençons da burguesia nacional: “As burguesais autóctones perdêrom toda
capacidade de oposiçom ao imperialismo e constituírom unicamente o seu vagom
de cola. Nom há outras mudanças por fazer, ou revoluçom socialista ou umha
caricatura de revoluçom”
[9]
.
O dogmatismo que sempre combateu
[10]
apropriou-se, tal como indicamos anteriormente, de parte
do seu pensamento, fazendo da sua interactiva e original acçom teórica umha
mera caricatura, transformando as suas reflexons de processos concretos
em universais dogmas mecanicistas condenados ao fracasso. O guevarismo,
entendido como essa “corrente marxista” que pretendeu aplicar mimeticamente
a experiência cubana a outras latitudes latino-americanas, com certa influência
na década de setenta, gorou por desconhecer e portanto aplicar incorrectamente
as leis marxistas da dialéctica.
Mas o mehor dos valores do pensamento guevariano que tentamos dar conhecer
neste artigo devem fazer parte do legado comunista das novas geraçons revolucionárias.
Assim o vem fazendo Primeira Linha, sem converter o Che num santoral laico,
mas reivindicando o seu exemplo e a sua lúcida caracterizaçom dos modelos
burocráticos, consciente das imensas limitaçons do seu pensamento em aspectos
fulcrais da transformaçom revolucionária dumha estrutura de classes como
a emancipaçom da mulher, o questionamento da família patriarcal, ou da sexualidade.
[1]
“Jurei perante um retrato do velho e chorado camarada Iósif Staline
que nom descansarei até ver a aniquilaçom destes polvos capitalistas.
Na Guatemala perfeicionarei-me e consiguirei o que necessito para ser
um autêntico revolucionário”. Carta enviada a sua tia Beatriz desde
Sam José (Guatemala), 10 de Dezembro de 1953.
[2]
Em O Socialismo e o home em Cuba (Março de 1965) critica sem ambigüidades
“a escolástica que tem freado o desenvolvimento da filosofia marxista
e tem impedido sistematicamente o estudo deste período”.
Em 1966
comentando o Manual de Economia Política da URSS afirma que o “terrível
crime histórico de Estaline” foi “ter
desprezado a educaçom comunista e instaurado o culto ilimitado à autoridade”.
[3]
Se no artigo “O quadro político, espinha dorsal da Revoluçom” de
Setembro de 1962, analisa as desviaçons burocráticas de quadros revolucionári@s
cuban@s semelhantes aos do aparelho dos países socialistas, meses
depois, no famoso prólogo ao manual de Kuusinem “O Partido marxista-leninista”
editado polo PURSC (antecedente do PCC, fundado em 1975) enquadra-se na
estrita ortodoxia soviética ao defender o papel e exemplo do PCUS e dos
partidos irmaos m-l.
[4]
Num discurso pronunciado 22 de Novembro de 1963 na campanha de electrificaçom
da ilha lança a palavra de ordem “Homem lobo nom. Homem novo sim”.
[5]
Pode consultar-se na Biblioteca Marxista Galega (www.primeiralinha.org)
[6]
“... o desenvolvimento dos países que iniciam agora o caminho da libertaçom
deve ter um custo para os países socialistas ... é umha conviçom profunda.
Nom pode existir o socialismo se, nas consciências, nom tem lugar umha
mudança que dé passagem a umha nova atitude fraterna frente à humanidade.
Nós opinamos que este deve ser o espírito com que se fai frente à responsabilidade
de ajudar aos países dependentes, e que nom tenha que falar-se de desenvolver
um comércio de ventagem recíproca baseado nos preços que a lei do valor
e as relaçons internacionais fundadas num troco desigual, fruto da lei
do valor, imponhem aos países atrasados. Como pode ser “vantagem recíproca”
vender a preços de mecado mundial as matérias primas, que custam suor
e sofrimento sem limites aos países atrasados, e comprar a preços de mercado
mundial maquinaria produzida nas grandes fábricas automatizadas da época
actual? Se estabelecermos este tipo de relaçom entre dous grupos de naçons,
devemos admitir que os países socialistas som, em certo sentido, cúmplices
da exploraçom imperialista.
Pode-se
discutir o facto de que o monto do intercámbio com os países subdesenvolvidos
constitui umha parte insignificante do comércio exterior destes países.
Os países
socalistas tenhem o dever moral de pôr fim à sua tácita cumplicidade com
os países exploradores de Ocidente”. Discurso pronunciado no
Segundo Seminário Económico de Solidariedade Afroasiática, Argélia, 24
de Fevereiro de 1965.
[7]
No artigo “A guerra de guerrilhas: um método” em Cuba Socialista
(Setembro de 1963) esclarece esta questom no parágrafo intitulado “A
necessária direcçom da classe operária”.
[8]
“Lunes de Revolución”, 16 de Julho de 1959.
[9]
Mensagem à OSPAAL publicada pola revista Tricontinental em Abril
de 1967.
[10]
“Pola noite dei umha pequena charla sobre o significado do 26 de Julho;
umha rebeliom contra as oligarquias e contra os dogmas revolucionários”.
Diário de Bolívia, 26 de julho de 1967.