Galiza, colónia espanhola?

A definiçom da situaçom de opressom nacional sofrida na Galiza como sendo de tipo colonial tem adoptado, desde os anos 70, um carácter quase dogmático para o nacionalismo galego, mantendo-se indiscutido até os nossos dias, apesar das importantes mudanças acontecidas na estrutura económica do capitalismo existente na Galiza nos últimos trinta anos.

Essa definiçom tem provocado nom pouca confusom ao tentar aplicar ao nosso país clichés importados doutras realidades bem distantes, empregando idêntica caracterizaçom, nomeadamente em relaçom às experiências anti-coloniais que se desenvolvem a partir da segunda metade do século XX em áreas extra-europeias.

É mais do que evidente que a Galiza de finais do século XX e de começos do XXI tem muito pouco a ver com a Árgelia, o Viet-Name ou Cuba que rompêrom os respectivos jugos coloniais ao longo da segunda metade do século passado, ou até com os actuais contextos de dependência neocolonial em naçons africanas e latino-americanas extremamente empobrecidas. Mas, ainda assim, o confusionismo gerado polo emprego de umha mesma categoria para definir realidades tam diferentes provoca que nos vejamos obrigad@s a matizar a definiçom de Galiza como colónia, ou mesmo a considerar que no nosso país poda dar-se um fenómeno de opressom com alguns traços de tipo colonial, mas nom definível como colonial em sentido estrito, a nom ser que utilizemos umha mesma etiqueta, como de facto tem acontecido, para denominar contextos de dependência económica, política e/ou cultural de grande diversidade quanto à sua génese e desenvolvimento histórico.

Comecemos por lembrar que a dependência da Galiza é bastante antiga –século XVI, numha altura semelhante à da queda de outras naçons em órbitas institucionais e económicas alheias, como no caso da Chéquia ou a Bretanha, por citar dous casos europeus que, com o passar dos séculos, evoluírom de maneira bem diferente. Umha dependência anterior e mais profunda à de outras naçons sem Estado peninsulares, como a basca ou a catalá, o que ajuda a explicar as diferenças na própria articulaçom dos movimentos nacionais em cada um dos povos citados. Umha falta de soberania, enfim, que, embora com raízes anteriores, coincide, no início da sua etapa mais marcada, com a queda nas órbitas imperialistas europeias das primeiras colónias ultramarinas, nomeadamente nos casos castelhano e o português.

Se tivéssemos que assimilar a condiçom dependente da Galiza com as colónias clássicas existentes a partir dessa altura, teríamos que catalogá-la no grupo das chamadas de domínio-ocupaçom, em que umha elite colonial trata da gestom do território conquistado com fins eminentemente económicos, e secundariamente também políticos e culturais. É claro, portanto, que o modelo galego nom corresponde com o denominado de povoamento, em que os colonos substituem a populaçom originária de maneira significativa como na áfrica do Sul ou na América Latina, ou até total, como no Norte do continente americano, por exemplo.

No entanto, a assimilaçom da Galiza ao conceito de “colónia de domínio-ocupaçom” bate com algumhas importantes contradiçons. E nom apenas pola continuidade geográfica existente em relaçom à “metrópole” ou polo envolvimento, desde muito cedo, das elites galegas no aparelho de poder colonial, mas sobretodo pola própria perspectiva com que esse poder central foi progressivamente encarando a integraçom da Galiza no seu projecto de “mercado único nacional”, prévio na sua concepçom à expansom colonial numha estratégia imperialista fracassada ou em vias de fracasso já no século XVII.

É verdade que a Galiza tem sofrido o papel de fornecedora de matérias primas e alimentos em favor do fortalecimento do Estado unitário, identificando-se assim a sua opressom económica com a tipicamente colonial. No entanto, o nosso país é visto como parte da nova naçom em construçom a partir de um centro geográfico que já dominava o Estado absolutista precedente ao surgimento desse Estado-Naçom, e que já agrupava as diversas naçons peninsulares (incluída, durante os chamados “sessenta anos de cativeiro”, a portuguesa, no século XVII) sob um poder político ainda precariamente unificado, que incorporava as classes dominantes galegas.

Inglaterra, Holanda e França som os modelos referenciais, concebendo-se a pátria em construçom como “corpo orgánico” fundamentado na tradiçom genealógica e sangüínea, procedendo-se à nacionalizaçom da Igreja e do ensino, à imposiçom de um só idioma e, sobretodo, à criaçom de um único mercado como base da construçom do novo Estado-Naçom no contexto do auge capitalista. Assim, a partir sobretodo do século XIX, o processo unificador espanhol, bem como outros análogos na Europa, enfrentará conflitos funcionais (entre os papéis da Igreja e o Estado a respeito, por exemplo, da educaçom), de classe (entre a burguesia, o campesinato e o nascente proletariado), territoriais (entre o centro dominante e as periferias por vezes subordinadas, como a Galiza ou a Andaluzia, e outras nem tanto, como o País Basco ou a Catalunha), e culturais (com o surgimento de movimentos de reivindicaçom das culturas “sacrificadas” polo processo centralizador hegemonizado pola língua castelhana, a partir daí propriamente “espanhola”).

É evidente a diferença entre os casos catalám e basco, política e culturalmente dependentes, mas economicamente dominantes a partir sobretodo do século XIX, e o caso galego. Os dous primeiros pertencem claramente à categoria das naçons sem Estado que reclamam a sua soberania política para equipararem o seu poder político, a sua identidade, cultura e língua nacionais, com o nível de poder económico já conseguido polas respectivas burguesias. A Galiza ocupou sempre um papel economicamente subsidiário, desarticulada em funçom das necessidades e privilégios das classes dominantes espanholas, que conseguírom integrar a nascente classe burguesa galega no seu projecto nacional. Umha classe burguesa que deixou permanentemente sem desenhar, e muito menos aplicar, um plano de desenvolvimento capitalista de carácter endógeno para a Galiza. Nos casos basco e catalám, o submetimento principalmente económico fica longe das coordenadas coloniais, mais identificáveis no caso galego, ainda que só na versom denominada “interior” que afecta a outros territórios periféricos nom nacionais do mesmo contexto estatal espanhol.

Nos aspectos político e cultural, a necessidade de umha única língua e de um universo cultural e simbólico comum fornecido sobretodo pola língua histórica castelhana junto a conteúdos culturais andaluzes manipulados, trivializados e colados com elementos da tradiçom culta propriamente castelhana, criárom artificialmente a argamassa dessa “cultura espanhola” em que a nossa tradiçom e personalidade lingüística e cultural nunca tivérom cabimento. Tal como aconteceu noutros processos de construçom de modernos estados-naçom europeus, o poder centralizador evitou qualquer reconhecimento às culturas periféricas, catalogando-as como atrasadas, conservadoras e inservíveis para o projecto “modernizador” que dizia representar.

Ora bem, se formos analisar os contextos propriamente coloniais, veremos que a opressom nacional tem, no plano económico, umha natureza abertamente extractiva e espoliadora em favor das classes dominantes –e secundariamente também das subalternas— da metrópole. Também as terras som adquiridas pola minoria dirigente estrangeira, que detém o controlo de todas as molas da economia colonial e evita que os lucros podam ser reinvestidos no progresso do território colonizado. Essa dinámica acaba por tornar insuportável o empobrecimento das colónias, que normalmente através do papel da classe crioula intermediária aproveita momentos de crise nas metrópoles para aglutinar o descontentamento popular em movimentos de emancipaçom nacional.

A maioria do povo colonizado, no modelo clássico, chega a sofrer estatutos de inferioridade, quer jurídica, quer simplesmente factual, com base em caracteres raciais, religiosos, lingüísticos ou, em geral, étnicos. Nom raro, chega a legalizar-se o trabalho escravo e a segregaçom social de base etno-racial, existindo umha clara diferenciaçom entre as elites governantes, incluídas as minorias crioulas, e a maioria da populaçom da colónia. Em ocasions, dá-se mesmo um repovoamento da colónia, nomeadamente nas classes dirigentes, directamente procedentes da metrópole, que em casos extremos chega ao extermínio da populaçom originária.

Nengumha dessas características se verificárom na Galiza desde o século XVI, polo menos de maneira comparável a como aconteceu nas colónias africanas, americanas ou asiáticas. Na Galiza, nunca houvo patrimonializaçom étnica do aparelho administrativo polo poder exterior, para além da chegada de algumhas elites da administraçom espanhola, militares e técnicos a pontos concretos e, mais recentemente, grupos burgueses cataláns e maragatos que contribuírom para a fraca industrializaçom de determinados sectores costeiros no século XIX. Umhas minorias que, ao contrário do acontecido nas colónias clássicas, nom se mantivérom em geral como núcleos alheios às elites autóctones. Ao contrário, deu-se umha integraçom de maneira geral, com a excepçom parcial do estamento militar.

Da mesma forma, @s galeg@s sempre pudérom, com a única condiçom de deixarem de “exercer” como tais, aceder a postos técnicos e de poder nom apenas no próprio território, mas também noutros do domínio espanhol, ao contrário do que costuma acontecer com a populaçom das colónias, condenadas a um estatuto inferior em relaçom à populaçom da metrópole.

Por dizê-lo de um jeito breve, na maioria das colónias, a metrópole nom tinha interesse nengum por assimilar o povo colonizado, pois só buscava o seu espólio económico. No nosso caso, a intençom de assimilar é mais do que evidente, já que em todo o momento o Estado pretendeu que @s galeg@s fôssemos espanhóis e espanholas.

A própria configuraçom territorial da colónia clássica costuma responder à arbitrariedade do processo de domínio e ocupaçom, juntando grupos étnicos diferentes ou dividindo os que formavam umha unidade. Essa circunstáncia costuma influenciar os próprios processos de descolonizaçom, chegando-se a aceitar a língua colonial como elemento do novo Estado (caso das colónias espanholas, portuguesas e algumhas inglesas), ou surgindo graves conflitos inter-étnicos no interior da nova entidade descolonizada, decorrentes da proeminência de um grupo sobre outro(s). Pensemos nos conflitos dessa natureza arrastados até hoje mesmo em numerosos pontos dos continentes africano ou asiático, principalmente.

Na Galiza, a arbitrariedade territorial do poder espanhol limitou-se a consagrar modernamente a separaçom administrativa das comarcas do leste, aproveitando umha segregaçom anterior de base nobiliária e/ou religiosa. Além disso, a divisom quadriprovincial do século XIX, de inspiraçom francesa, serviu para aplicar ao nosso território o modelo administrativo da que aspirava a ser “racional e moderna naçom espanhola”.

Houvo, sim, umha permanente orientaçom da actividade económica para os interesses das elites espanholas, integradas também por representantes da classe dirigente galega, o que fijo com que a partir dos anos setenta, e tomando o conceito de Robert Lafont, a nossa naçom fosse definida polo novo nacionalismo de esquerda como colónia interior. Nela, segundo a teoria do autor ocitano, reproduzem-se, apesar da continuidade territorial e da falta de consciência da própria condiçom colonial, nom poucos fenómenos socioeconómicos definitórios do colonialismo, como alguns dos já referidos mais acima.

Quanto à falta de autoconsciência da própria condiçom inferiorizada e dependente, deve-se nom apenas ao carácter antigo do início da assimilaçom (também decorrente noutros contextos de colonialismo clássico), mas sobretodo à aludida incorporaçom das naçons contíguas da castelhana ao novo projecto nacional em construçom, que por seu turno trivializa e despreza a gestalt –conjunto de traços identitários– de cada um dos territórios que tenciona assimilar. Todo isso, junto à deserçom da classe dominante autóctone, favorece no povo galego a chamada autocolonizaçom e, logo a seguir,os conseqüentes auto-ódio e síndrome do colonizado, perfeitamente detectáveis na atitude de autocensura no uso do idioma próprio, marginalizado de qualquer pretensom de progresso económico e social, ou na afirmaçom “excessiva” de espanholidade verificável como fugida da condiçom simbolicamente inferior da identidade galega, repetidamente incutida nas classes populares galegas –e nem só– polos defensores da nova identidade imposta.

Nem segregaçons sociais maciças, nem umha bateria legal específica fôrom ensaiadas no submetimento nacional da Galiza, umha vez que a pretensom foi sempre integrar a populaçom galega na cidadania espanhola, mesmo que fosse como zona empobrecida e fornecedora de riquezas às áreas do incipiente progresso capitalista, nomeadamente a metrópole madrilena. É certo que houvo castigos colectivos sofridos especialmente polo nosso povo em conseqüência da opressom nacional e social padecida: a emigraçom foi umha das conseqüências dessa marginalizaçom económica de base territorial. Umha condena que, contodo, foi também paga por outros sectores consensualmente considerados “espanhóis”, como a populaçom estremenha, e aos quais ninguém se refere como sendo povos “colonizados”.

Ao contrário do acontecido em colónias como a cubana ou a argelina, que sempre vírom reconhecida a sua singularidade, ainda que fosse para a seguir ser-lhes negados os direitos subsqüentes, à Galiza negou-se-lhe de raiz e sistematicamente a existência de traços identitários próprios, para já nom falarmos dos direitos colectivos correspondentes, forçando a nossa integraçom como espanhóis e espanholas com todas as conseqüências, e ajudando a tal fim realidades objectivas como a homogeneidade racial e religiosa, além da relativa proximidade cultural com o protótipo espanhol, nomeadamente se comparada com as distantes culturas nacionais das colónias ultramarinas.

A ridicularizaçom e a violência simbólica contra os galegos e galegas nom “homologad@s” serviu durante séculos como forma de pressom para forçar umha assimilaçom ainda hoje nom conseguida por completo. No caso das colónias clássicas, as diferenças eram mantidas como forma de marcar o domínio e a submissom, ficando reservado a uns poucos o “privilégio” de se integrarem na cultura e língua da metrópole.

Voltando ao plano económico, o paradigma colonial também pode ser questionado parcialmente se tivermos em conta que a crescente participaçom, na etapa contemporánea, do capital de origem galega em sectores como a energia, as indústrias de enclave, etc… dista muito de ser marginal, e tem nalguns casos mesmo umha importáncia primordial, como é o da energia eléctrica. Lembremos que a principal empresa de produçom de energia eléctrica no nosso país, a Unión FENOSA, tem a sua origem num processo de concentraçom empresarial cingido à Galiza e que nom desloca o seu centro de decisom fora das fronteiras naturais do País até que nas últimas décadas do XX fusiona o seu capital com o da eléctrica madrilena Unión.

Parece claro que as limitaçons para o desenvolvimento económico autocentrado no nosso país hoje em dia respondem mais às dinámicas próprias do modelo de capitalismo globalizado do que a um suposto modelo colonial clássico, o que nom nega a evidência de que, em condiçons de independência política, exisitiriam maiores possibilidades de defender umha relativa soberania e orientaçom económica favorável à maioria da populaçom hoje inexistentes. Contodo, na actualidade, um bom número das grandes empresas presentes na Galiza tenhem o seu centro de decisom fora do nosso território, mas nom é menos certo que esta é umha situaçom vivida em multitude de latitudes em diferentes naçons e territórios que nom som qualificados como colónias, incluídos alguns que contam com estados teoricamente soberanos, que por vezes nom passam de meros contextos neocoloniais.

Além do mais, o papel que jogam na concorrência mundial empresas como INDITEX, PESCANOVA ou FINSA, todas elas de capital galego, com as suas sedes centrais no nosso território e um importante nível de exportaçom da sua produçom têxtil, alimentar e madeireira, colocam sérias dúvidas sobre o acomodamento a um suposto modelo colonial ortodoxo. Para além de termos em conta que, na prática totalidadedas grandes empresas presentes no País, há umha participaçom mais ou menos importante do capital galego, existindo umha drenagem de lucros em todo o caso parcial, e nom absoluta.

Da mesma forma, haveria que pôr em questom parte da asseveraçom de que as “indústrias de enclave” som “aquelas que existem na geografia e nom na economia”, já que toda a grande indústria tivo umha incidência maior ou menor na economia do país como testemunha o desenvolvimento da indústria auxiliar do automóvel e o naval, a extensom maciça do cultivo de eucaliptos para a celulose (cultivo que reporta nom poucos lucros a um grande número de pequenos proprietários), ou mesmo ao pequeno desenvolvimento da indústria do alumínio liderada polo Grupo Cortizo.

Acrescentemos ainda o papel que a Galiza joga no cenário mundial como parte da minoria demográfica que, no seu conjunto, se lucra da exploraçom e predaçom de recursos naturais e das condiçons de mercado manifestamente injustas impostas polo imperialismo vigorante, que mantém umha maioria de países e habitantes empobrecida face a umha minoria de populaçom e países “desenvolvidos”. Grandes firmas multinacionais de base galega como as já citadas, e agentes capitalistas de capital total ou parcialmente galego exploram mercados empobrecidos, dependentes, coloniais e neocoloniais, chegando os lucros nom apenas à classe dirigente galega, mas também –em menor medida, é claro– aos restantes segmentos sociais que configuramos a Galiza como naçom dependente e submetida a um papel periférico num dos principais centros do capitalismo mundial.

Ainda aprofundando mais na questom, temos que reparar que após a integraçom do Estado espanhol na actual UE muitos dos desenhos macro-económicos aplicados no nosso país som impostos a partir de Bruxelas, sendo Madrid um simples degrau numha escada muito maior. Assim, e apesar da evidente subsidiaridade do capitalismo espanhol em relaçom ao alemám e o francês, ninguém falaria da relaçom existente entre Espanha e o aparelho da UE em termos de dependência colonial, e nom só por nom existir umha dependência política do género da existente na Galiza a respeito de Espanha.

A todo o dito, poderíamos agregar como os defensores mais intransigentes da aplicaçom do modelo colonial à realidade da Galiza acabárom por se integrarem, com armas e bagages, nos aparelhos de poder espanhol, aceitando inclusive o modelo institucional imposto, incluída a partiçom territorial e administrativa e a falta de reconhecimento dos direitos nacionais que inspiram a totalidade de textos jurídicos que dam corpo legal à nossa dependência. É verdade que há já bastantes anos que os teóricos desse “colonialismo interior” aplicado à Galiza abandonárom qualquer teorizaçom que nos equipare a contextos como o argelino, o moçambicano ou o vietnamita dos anos 60-70, mas a sua atitude e comportamento político actuais desmascaram até que ponto a sua posiçom histórica nom passou de umha posse adaptada às modas da esquerda na etapa das luitas de libertaçom nacional no chamado Terceiro Mundo.

De resto, nom podemos deixar de detectar algumha manifestaçom da síndrome do colonizado na renúncia explícita da expressom maioritária do nosso nacionalismo à construçom de um Estado galego independente. De que serve afirmar a identidade entre a Galiza e outras naçons prototipicamente colonizadas, se depois se renuncia a aplicar a mesma soluçom que elas dérom à sua dependência colonial? É verdade que a independência formal nom garante per se a soberania económica mas, como seria possível afrontar um processo de descolonizaçom sem incluir a luita pola independênica política? Eis um dos calcanhares de aquiles do programa “nacional-popular” historicamente defendido na Galiza pola UPG, que formula o carácter colonial da nossa dependência para, a seguir, evitar tirar as conclusons a que chegárom todas e cada umha das colónias referenciais: a luita pola independência, através de um processo de autodeterminaçom, como única alternativa para a emancipaçom nacional, no caminho do socialismo.

Pouca credibilidade transmite quem pretender dar mostras de ortodoxia na definiçom dos males da naçom dependente, e nom apresentar umha alternativa à altura dos mesmos, limitando-se a aspirar à “reformulaçom” do Estado que submete a colónia, em termos de umha impossível “co-soberania”, e aspirando finalmente a partilhar projecto “co-soberanista” com as burguesias autonomistas basca e catalá. Citando o discurso com que os dirigentes da matriz upegalha do nosso nacionalismo se referiam a quem nos anos 70 e 80 já mantinha idênticas aspiraçons, a prática política dos defensores da ortodoxia colonial ficou reduzida nos nossos dias ao papel de “comparsas legitimadoras”, e nom apenas da esquerda reformista espanhola, como se dizia naquela altura, mas também das direitas autonomistas basca e catalá.

Em resumo, o certo é que a Galiza sofre como naçom oprimida importantes limitaçons para o seu desenvolvimento devido à sua sujeiçom a umhas dinámicas políticas próprias de um Estado em que primam os interesses doutras fracçons da burguesia que nom som galegas. É verdade também que o Estado espanhol continua a manter umha estratégia imperialista, ou subimperialista, em relaçom à América Latina e à manutençom, a toda a custa, da unidade do Estado, com o intuito de estabilizá-lo como mercado e espaço simbólico-material de acumulaçom e expansom de capital denominado Espanha.

Mas só na medida que equiparemos a opressom nacional com a dependência colonial é que podemos afirmar que a Galiza é, com efeito, umha colónia de Espanha. Se admitirmos diferenças no modelo de dependência nacional entre uns territórios e outros, recorrendo à etiqueta “colonial” com algum rigor para referir formas extremas de submetimento principalmente económico, acompanhadas de imposiçom política e cultural, conviremos na falta de algumhas características essenciais para equiparar a Galiza com os povos do terceiro mundo que luitárom e/ou luitam pola sua plena descolonizaçom.

Parece cada vez mais claro que a Galiza fica mais longe dos modelos económicos dos contextos coloniais do chamado Terceiro Mundo do que de outros contextos de opressom nacional existentes nas redondezas de um dos pólos imperialistas do centro do sistema capitalista,a Europa ocidental. Poderemos continuar a falar em termos de colonialismo interior aplicado à Galiza só a custo de deixar de parte a cada vez maior distáncia verificável entre os modelos de dependência económica das naçons do centro e/ou das semi-periferias europeias, e a verdadeira extorsom que caracteriza aqueles ainda existentes nas naçons situadas em periferias extremas do capitalismo mundial.

Embora a carga emotiva que arrasta a categoria colónia, empregada já por Faraldo em 1846 para se referir ao nosso país, seja grande, o certo é que de Primeira Linha, como partido comunista que emprega o materialismo histórico e dialéctico para realizar análises científicas da realidade, consideramos que na actual conjuntura histórica, inícios do século XXI, nom se sustém definir, sem mais, como colonial o carácter da opressom nacional que a Galiza padece em relaçom ao Estado espanhol. Na Galiza dá-se umha opressom nacional que apresenta alguns traços de tipo colonial, mas estes som insuficientes para afirmarmos que o nosso país seja, sem maiores precisons, umha colónia espanhola.

 

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