Marxismo e geografia ou a ilegalizaçom do mapa

Xosé Constenla Vega - geógrafo

Imaginai, por um momento que seja, que nos achamos num dos mais de umha dúzia de restaurantes turcos que hoje existem em Compostela. Imaginai, concretamente, que vos achades no mais próximo da catedral de Compostela. Através da sua janela, pode ver-se a Berenguela. A catedral, centro de peregrinaçom secular de milhares e milhares de católicos. Hoje mercadoria da indústria cultural para o turismo de todas as raças, etnias, religions e géneros. E também a Berenguela. Símbolo da ocupaçom árabe no Reino da Galiza. Roubada com sacrilégio polo seguidores mussulmanos de Alá, capitaneados polo Almançor, com o mesmo sacrilégio com que o modo de produçom capitalista trata agora do conjunto arquitectónico e histórico da catedral, confundindo os ritos sagrados com o ócio turístico e fútil. Continuamos no restaurante turco, e entre bocado ao kebab e olhar à Berenguela, enxergamos na televisom do estabelecimento as imagens do julgamento do 11-M através do sinal da CNN+. Tu, que vinhas passeando pola rua, à espera de arranjares um lugar na paisagem urbana para poderes ler um bocado, de repente reparas na contradiçom que supom este contexto. Todo agrandado polo segundo tomo do Capital pousado sobre a mesa.

De outra parte, tratai de elaborar umha cartografia mundial tam rigorosa quanto possível, sabendo que Wall Street continua a ser umha instituiçom central no sistema mundo e, porém, em torno de 40 por cento das acçons e transacçons que lá quotizam correspondem a estrangeiros, e metade da dívida estado-unidense está em maos da China e do Japom. O capital —os seus mecanismos, a sua lógica e o seu processo de acumulaçom— nom tem pátria, mas supom o mais eficaz dos factores que vertebram a configuraçom histórico-geográfica das nossas sociedades.

Se quigéssemos realizar com êxito umha geografia do capitalismo ou, entom, analisar a economia espacial, teríamos de partir da base de que o processo de acumulaçom de capital aparece como algo perpetuamente expansionista e, portanto, permanente fugidio de qualquer género de equilíbrio. Por exemplo, o importante para compreendermos o funcionamento do sistema é a possibilidade de mover de um lugar a outro mercadorias, capacidade produtiva, pessoas e dinheiro, para o que fôrom e som decisivas as condiçons que prevalecem nas indústrias do transporte e das comunicaçons. É sabido, que, durante toda a história do capitalismo, as inovaçons tecnológicas nesse campo alterárom espectacularmente as condiçons de espacialidade (a fricçom da distáncia, de que Harvey fala), gerando todo o tipo de instabilidades na economia espacial do capitalismo. O que Marx denominou “a aniquilaçom do espaço mediante o tempo” (consoante o registo histórico-geográfico do capitalismo), que poderia ser hoje substituído pola “aniquilaçom do espaço mediante o capital” (com toda a responsabilidade dos anos 1980) —muito em relaçom com a releitura elaborada tempo depois por Marshalh Bergmam, materializa-se no impulso para a reduçom ou eliminaçom das barreiras espaciais, junto dos impulsos igualmente incessantes face à aceleraçom da rotaçom do capital. Entom, dando isto por válido, a reduçom nos custos (excepto no transporte de pessoas) e a duraçom do deslocamento demonstrárom-se como necessidades imperiosas do modo de produçom capitalista. Logo, a sua espacialidade possui umha tendência para a mundializaçom intrínseca e, em conclusom, a evoluçom do panorama geográfico da economia neoliberal está a ser impulsionada sem folga por umha quase contínua compressom espaço-temporal.

Por outras palavras, a paisagem geográfica da actividade capitalista está a ser atravessada por contradiçons e tensons que a convertem numha natureza perpetuamente inestável. As tensons entre competência e monopólio, entre a concentraçom e dispersom, entre dinamismo e inércia, entre diversas escalas de actividade derivam todas elas dos denominados processos moleculares de acumulaçom de capital no espaço e no tempo, e todos eles se inserem na lógica expansionista geral de um sistema económico em que domina a acumulaçom incessante de capital e a procura interminável de lucro. Isto dá lugar à pretensom de gerar umha envolvente geográfica favorável às actividades capitalistas num lugar e momento determinados, tam só para ter que o destruir e ter que edificar um contexto (também sociocultural, nom só arquitectónico) totalmente diferente num momento posterior, sem poder saciar nunca a sua perpétua sede de acumulaçom. Deste jeito, vai-se escrevendo a história da destruiçom criativa na envolvente da geografia histórica real da acumulaçom de capital.

Partindo destes imaginários instáveis e contraditórios (geografia da contradiçom e dialéctica da dúvida), quereria fazer neste artigo umha breve disseçom sobre as relaçons que existem hoje entre o espaço, como categoria de análise social, e o capitalismo. Duas questons, polo menos, fam referência à cartografia e à geografia nesta temática de actualidade.

Primeiro. A longa sobrevivência do capitalismo supom um fenómeno largamente estudado pola literatura marxista nas últimas décadas. Porém, as explicaçons oferecidas apresentam conflitos de engrenagem epistemológica e nom deixam fechada por completo a problemática. Tanto Lenine como R. Luxemburg —esta última com o seu fascinante trabalho sobre o processo de acumulaçom de capital— ainda por distintas razons e empregando argumentaçons diferentes, considerárom que o imperialismo (ou certo jeito de produçom e utilizaçom do espaço global) era a resposta ao enigma da longa supremacia do capitalismo (ainda que em ambos os casos parece que essa soluçom era finita e, portanto, carregada das suas próprias contradiçons terminais). A sociologia, com o contributo de H. Lefevbre através da ideia de que o capitalismo sobrevive graças à produçom de espaço, pensou que dera com a chave. No entanto, a geografia crítica ou radical tem repetido desde a década de 1960 que o espaço é um produto social. O que significa isto realmente? Ou noutro senso, o que é que pode proporcionar, que importáncia tem a espacialidade, como categoria de análise, para o debate social da emancipaçom das classes desfavorecidas do sistema?1

No ano 1982, na obra The Limits to Capital, David Harvey propom a teoria de umha soluçom espacial (com maior precisom, umha soluçom espaço-temporal) às contradiçons internas da acumulaçom de capital e às crises que gera. O núcleo dessa argumentaçom, derivada teoricamente da reformulaçom da teoria marxiana da queda tendencial da taxa de lucro, refere-se a umha tendência crónica do capitalismo para as crises de sobreacumulaçom. Estas crises manifestam-se tipicamente como excessos de capital (mercadorias, dinheiro ou capacidade produtiva) e de força de trabalho, sem que pareça existir nengum meio de os amoldar rendivelmente para levar a cabo tarefas socialmente úteis2. Entom, dado que o núcleo da dificuldade para assimilar o excesso de capital reside na ausências de oportunidades rendíveis de investimento; o problema económico fundamental (a diferença do social e político) tem que ver com o capital propriamente dito. Portanto, que jeitos encontramos para evitarmos a desvalorizaçom, estabelecendo formas rendíveis de absorçom de excesso de capital? A expansom geográfica e a reorganizaçom espacial oferecem essa possibilidade, que nom se podem separar, porém, de dilaçons temporárias em que o excesso de capital é investido em projectos a longo prazo que tardam moitos anos a devolverem o seu valor à circulaçom mediante a actividade produtiva que promovem. A expansom geográfica supom com freqüência investimentos em infraestruturas materiais e sociais de longa duraçom (em redes de transporte e comunicaçons ou no ensino e na investigaçom) e, além disto, a produçom e a reconfiguraçom das relaçons espaciais proporcionam umha potente alavanca para mitigar, se nom resolver, a tendência ao surgimento de crises no capitalismo3. “A lógica imperialista do capitalismo (à diferença da territorial) deve ser entendida no contexto da procura de soluçons espaço temporais para o conflito do excesso de capital” (Harvey, 2003). É por isso que é no excesso de capital, mais do que no de força de trabalho, que deve centrar-se e concentrar-se a atençom analítica.

Em todo o caso, a referência que quero oferecer para compreender a relaçom entre a necessidade de implementar a concepçom diacrónica para perceber o funcionamento do modo de produçom capitalista, centra-se no trabalho do David Harvey. Provavelmente nengum teórico marxista sério consideraria Harvey marxista no mais mínimo. O problema está em que a maioria deles nom presta nengumha atençom às questons espaciais e tam só centram os seus esforços na análise e conhecimento da produçom. Assim e todo, pensar no funcionamento do mundo a partir dos instrumentos de ordenamento territorial: os processos através dos quais o capital gera paisagens, as cidades como lugares em que se dirimem conflitos sociopolíticos, a sua cidadania como arquitecta do futuro urbano.

A virtude de ligar geografia, história, economia e política, e face às versons espaciais da tese do gotejamento, do contributo fundamental situa-se no conceito de “acumulaçom por despossessom”: umha remoçada dinámica de cercamento da propriedade colectiva fundada em privatizaçons que habilitam a acumulaçom de capital e deslocam, no desenvolvimento territorial, os dereitos colectivos por direitos individuais de propriedade e lucro.

Em conclusom, a relaçom entre geografia e marxismo estabelece-se a partir da necessidade que existe por compreender as situaçons de conflito que se dam nos lugares determinados –nesse contexto– aqui, em Nova Iorque ou onde quer que seja. Depois há que tratar de compreender as forças que criárom essa situaçom, quem estivo a cargo dessa construçom, como a elaborou e quais som as conseqüências de ter disposto esse ambiente tal como é. Para a geografia crítica, isto supom a peça chave e resulta o que vse ê que fai Marx quando estuda O Capital. Parece duvidosa a opiniom que defende que o agente da história (sujeito histórico) seja a fábrica proletária. Talvez a mutaçom implique também umha espacializaçom do conceito. Devemos pensar, antes, na combinaçom e as alianças entre os bairros, os movimentos sociais em matéria de habitaçom, saúde e educaçom, e os movimentos da classe trabalhadora. O marxismo nunca fijo geografia. Nunca entendeu os desenvolvimentos geográficos nem as cidades. Quando os “marxistas” tivérom poder, nom soubérom que fazer com o desenvolvimento geográfico desigual. Temos atravessado no último século –um período de enormes transformaçons– de umha urbanizaçom que passou de 7% para 50% da populaçom mundial, e os marxistas actuárom como se essa enorme mudança dinámica da populaçom em toda a organizaçom da superfície da Terra nom marcasse nengumha diferença. Assim e todo, seria falso dizer que o marxismo e a geografia nom conjugam olhares atinados para a análise e a diagnose da realidade.

E segundo. O espaço é um producto social. Pode-se admitir que os comportamentos e os processos sociais -individuais e colectivos- influem directamente sobre a configuraçom e a lógica espacial dos territórios. Esta afirmaçom responde ao domínio e à hegemonia exercida ao longo do tempo, no contexto das ciências sociais, pola sociologia, mais sobretodo, pola história. Deste jeito, o espaço constitui umha construçom que responde a umha série de critérios de carácter social [estilo(s) de vida, percepçom ou educaçom]. No entanto, face a esta formulaçom, existe umha outra que situa a importáncia sobre os elementos espaciais na configuraçom dos territórios e das sociedades. Neste senso, é doado identificar que, face à metodologia sociologista que define ao território como umha construçom social, existe umha outra que entende a sociedade como umha construçom territorial. Por outras palavras, através de umha construçom natural, libertadora e consciente do espaço, poderemos configurar marcos territoriais que tendam para o equilíbrio das relaçons sociais e para o crescimento económico integral, equitativo e convergente, assim como para a protecçom do facto diferencial das minorias nacionais.

Esta ideia toma corpo pragmático na vertebraçom espacial da Galiza. Na construçom social do mapa do País, deve influir de jeito notável umha condiçom similar de aquilo que supom o conceito de identidade territorial. Joam Nogué (1998) entende que "a transferência do sentimento de identidade do grupo para o território" recolhe um fenómeno histórico de humanizaçom do espaço. Em todo o caso, até existir umha vocaçom institucional de gerir os recursos do território, a lógica espacial do noroeste atlántico ibérico, entendeu-se como umha conseqüência directa do termo de identidade territorial, enquanto processo mediante o qual umha comunidade social diferenciada impinge carácter a um território através de um jeito genuíno de ocupaçom e humanizaçom do espaço vivido. Eis o vector fundamental que deveria servir para traçar os mapas das naçons.

Em todo o caso, se atendermos à história, existem precedentes na historia recente de modificaçom dos limites político-administrativos do território que dam para pensar. Nom é lugar nem momento de os recordarmos aqui; porém, lanço as seguintes hipóteses:

  1. Se calhar, cumpre observar devagar dous factos que tendem a homogeneizar os comportamentos espaço-temporais no modo de habitar o território na Galiza. Por um lado, o território passou de ser aquilo de que a populaçom tinha consciência global, a se converter em algo que se parece desconhecer, objecto de inevitável e permanente degradaçom e, produzindo-se tal cousa em companhia do desvanecimento dos recursos. No nosso território, estamos a sofrer o efeito combinado de mais de um "desastre": umha urbanizaçom anárquica e irracional do litoral e do sistema de assentamentos; umha especializaçom productiva exagerada e, as mais das vezes, pouco meditada (exploraçons pecuárias de vacum ou repovoaçons florestais generalizadas de nula diversidade); um duro controlo dos recursos financeiros por parte de um sistema alheio às necessidades reais do País; umha miopia política por parte dos responsáveis públicos, excessivamente preocupados por contentarem Madrid, esquecendo-se de exercerem as competências que lhes som exclusivas a partir da divisom autonómica; assim como umha cegueira permanente entre os profissionais da geografia, incapazes (tanto estes como os anteriores) durante décadas de combaterem os riscos negativos de um sistema doente e convalescente.

  2. Talvez cumpra analisar, para compreendermos de vez a nossa identidade territorial homogénea, o jeito multissecular de habitarmos o espaço, com independência do poder político estabelecido, e que se vê reflectido em construçons político-administrativas de condiçom histórico-geográfica. Neste senso, ninguém pode negar a existência e importáncia da freguesia portuguesa ou da comarca galega na vertebraçom das realidades nacionais. De aqui tiramos que o território nom é algo que nos vem dado ou imposto, senom que se constrói, que se fai e que se delimita em funçom dos comportamentos cívico-sociais diferenciados entre eles, mas homogéneos em si mesmos. Este segundo factor deve ser compreendido partindo do conceito de territorialidade humana. De novo Joam Nogué (1998) recorre a Sack (1985) para apresentar umha noçom precisa deste termo. Assim, a territorialidade humana seria umha forma de comportamento espacial, um acto de intencionalidade, umha estratégia com tendência para afectar, influir ou controlar as pessoas e os recursos de umha área, através do seu controlo territorial. Face à situaçom de controlo tributário, fiscal ou militar exercido polos poderes políticos do Estado espanhol, a territorialidade converteu-se no único facto diferencial, levado a cabo mediante umha humanizaçom do território genuína. Deste modo, o território elevou-se a um grau de conhecimento popular, algo de que a populaçom tinha consciência global e local, e, além do mais, era compreendido como um elemento próprio e identitário.

No caso da Galiza, aliás, esta transformaçom supujo umha grave ameaça contra um dos principais factos diferenciais. O território, a Terra –num sentido mais amplo, conforma um dos principais elementos de contruçom identitária. Para a doutrina nacionalista na Galiza, o espaço natural vivido guarda umha forte relaçom com a ideia essencial da existência de umha consciência de identidade colectiva diferenciada com vocaçom espontánea4. Com a chegada dos estados democráticos, a situaçom no mudou em profundidade. O território continua sob um controlo e umha gestom desnaturalizadora, principalmente porque nom se compreende a identidade territorial homogénea no noroeste atlántico ibérico, mais também porque as divisions administrativas do espaço, bem como a construçom de infraestruturas viárias, tenhem um interesse centralizante, mas preocupante para os territórios periféricos.

Ilegalizar um mapa, como plasmaçom visual e gráfica de comportamentos sociais e culturtais legítimos de comunidades humanas que temos comentado, supom, ao tempo, perseguir olhares diferentes sobre a lógica espaço-temporal, criminalizar distintos usos e jeitos de ocupar o espaço, pôr em questom a organizaçom territorial multissecular de um povo e lançar umha ofensiva/missiva contra umha das linhas de flutuaçom do surgimento e apariçom da consciência nacional espóntanea na Galiza: a Terra, com maiúscula, que debulhara Castelao no Sempre em Galiza. Além disto, a perseguiçom aberta volta a ser umha deturpaçom das regras de jogo e umha explicitaçom das diferentes medidas que subsistem. Enquanto opinável, a divisom territorial nom pode constituir umha realidade imutável nem inamovível.

Assim sendo, na actualidade, na Galiza existe umha divisom espacial nom vertebrada na realidade do País, reflectida no mapa político administrativo da actual Comunidade Autónoma da Galiza e, o que é pior, umha estrutura alienante para o indivíduo e que combate directamente a construçom da nossa identidade nacional. É mester que a cidadania galega entenda que nom se pode continuar com o esbanjamento do seu mais estimado património: o território da naçom, –elemento conformador essencial dos nossos sinais de identidade como povo. Neste senso, como cidadaos do comum, livres e conscientes do nosso jeito genuíno de habitarmos e usarmos o território, devemos saudar com agrado e agarimo aquelas propostas que tratarem de naturalizar as relaçons sociais sobre o espaço.


BIBLIOGRAFIA:

BEIRAS, X.M. (1984): Por umha Galiza Liberada. Editorial Galaxia, Vigo.

CASTELAO, A.D.R. (1980): Sempre em Galiza. Ediçons Akal, Madrid

HARVEY, D. (1982): The Limits to Capital. Blackwelh, Oxford.

HARVEY, D. (2003): El nuevo imperialismo. Ediciones Akal, Coleçom Cuesttiones de Antagonismo, Madrid.

1 Durante décadas, a geografia foi considerada a irmá pobre das ciências sociais. Em ocasions, o ostracismo social e académico mesmo lhe outorgava um papel reduzido ao campo estrito do campo das humanidades e do conhecimento geral, descritivo e universalista em geral. Contodo, o território e a cartografia –como expressom visual/material do mesmo- (apesar dos avanços nos campos do SIX ou da teledetecçom) continua a ser considerado como um suporte das relaçons socieconómicas. O próprio X. M. Beiras, no seu Por unha Galiza liberada (1984), concretamente no trabalho “Miséria da ciência económica regional” adverte que “via de regra, o pensamento económico teorizava à margem das coordenadas espaciais da realidade objecto da pesquisa” e continua, “na economia aplicada (...) rara vez se prestava atençom ao facto de as fontes estatísticas subministrarem magnitudes relativas a fenómenos localizados, que quase sempre variam se muda o espaço a que se referem”. Eis a questom chave. O espaço constitui umha categoria de análise em si mesma, superadora das concepçons descritivas e corológicas, que confire pontos de apoio concretos para compreender a lógica do capitalismo e enriquece a argumentaçom do materialismo dialéctico, sendo histórico, mas também geográfico. A falsidade parcial de muitas das teorias económicas que partiam da base desse jeito de determinismo, radica precisamente na desterritorializaçom da sua proposta conceitual/epistemológica. O próprio Beiras refere aquela velha ideia da chaira isotrópica com certa ironia, um lugar onde os condicionantes geográficos nom existem e, portanto, nom influem no desenvolvimento do pensamento económico através de modelos, teorias e leis infalíveis. “Deste jeito, cobrava certeira veracidade a afirmaçom de Henri Guittom de que os economistas construíam um mundo pontiforme, ou, segundo a feliz expressom de Walter Isard, a wonderland of no spatial dimensions, um país das maravilhas sem dimensons espaciais” (Beiras, 1984).


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2 O exemplo mais ilustrativo e óbvio que propom Harvey sucedeu durante a depressom em escala mundial dos 1930, quando o emprego da capacidade existente caiu a um mínimo histórico, as mercadorias existentes nom se podiam vender e o desemprego atingiu quotas jamais igualadas. Aquilo conduziu à desvalorizaçom e, nalguns casos, até a destruiçom de excesso de capital, ao tempo que os trabalhadores sobrantes ficabam reduzidos a umha situaçom miserável.

3 Deste modo, durante a década dos 1930, o governo estado-unidense tratou de responder ao problema da sobreacumulaçom emprendendo obras públicas orientadas para o futuro em lugares até entom subdesenvolvidos, com clara intençom de reduzir o excesso de capital e força de trabalho entom existentes (Harvey, 1982 e 2003).

4 No Sempre em Galiza, Castelao recorre à concepçom stalinista do termo de naçom. Neste senso, admite que nom há nacionalidade sem território próprio, ou nas suas palavras, “Para nós, os galegos, a Terra (assim, com maúscula) é a Galiza. O que nos junta numha comunidade espiritual é, principalmente, o amor à Terra. E quando dizemos –a nossa Terra- queremos dizer –a nossa Naçom-. A Terra é a Mátria” (Sempre em Galiza, 1943, páx. 40).

 

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