DEPENDÊNCIA E MARÉS NEGRAS. ATÉ QUANDO?
Maurício Castro

O acontecido nestes meses perante os olhos atordoados de galegos e galegas nom é nengumha novidade. Desde 1970, seis desastres ecológicos e económicos semelhantes, mais outros dous por vertidos de produtos químicos, venhem golpeando periodicamente o nosso país ante a passividade da Administraçom espanhola. E o que pode ser mais grave: nada indica que, de manterem-se as actuais coordenadas institucionais e a actual lógica de dependência galega, no futuro deixem de suceder-se agressons semelhantes, nom sendo que se verifique a intercessom divina anunciada polo velho fascista Manuel Fraga.
Das cinqüenta maiores marés negras produzidas por derramamento de hidrocarburos aos mares do mundo nos últimos 30 anos, seis produzírom-se na nossa naçom; quer dizer, mais de 10% para um país cujas dimensons suponhem bem menor percentagem das costas do Planeta.
O que sim pode vir a ser umha novidade no caso do Prestige é a maior sensibilizaçom social atingida quanto às directas responsabilidades políticas das instituiçons espanholas, o seu desprestígio e a necessidade de ganharmos em soberania nacional como melhor soluçom aos reptos de fundo calado que enfrenta a naçom galega. A sua viabilidade ambiental e económica som só dous desses reptos, dramaticamente incorporados à ordem do dia pola crise do Prestige.
Fagamos um breve repasso. Desde que, em 5 de Maio 1970, o Polycommander inaugurou a terrível listagem com as suas 50.000 toneladas de crude derramadas frente às Ilhas Cies, seis grandes marés negras e dous derramamentos de produtos químicos altamente poluentes assolárom o litoral da Galiza:
Em 12 de Maio de 1976, o petroleiro Urquiola partiu em dous e ardeu perante a Corunha, com quase 120.000 toneladas de petróleo bruto (mais 15.000 da carga permitida). A maré negra atingiu 100 km de costa galega; em Dezembro de 1978 foi o petroleiro grego Andros Patria o que deitou 50.000 toneladas de crude perto de Fisterra; em 11 de Outubro de 1980, o Scaptrade derrama 32.000 toneladas de crude frente a Ribadeu; já em 1992, o Mar Egeu, com bandeira grega, arde ante o porto da Corunha, e provoca um derramamento com as suas 79.000 toneladas de crude, alastrando a maré negra até 200 km. de costa; e dez anos depois, assistimos a um novo grande desastre ambiental que acelera a destruiçom do já depauperado litoral galego, um dos principais esteios económicos da nossa naçom. Desta vez, o buque Prestige afundiu a 250 quilómetros da costa galega, provocando sucessivas marés negras de fuelóleo que se espalham por todo o litoral galego perante a passividade e a negligência das autoridades espanholas que ainda administram a sorte da nossa terra. Estamos a falar de mais de 80.000 toneladas de fuelóleo, substáncia mais suja e difícil de limpar, além de altamente cancerígena, 65.000 toneladas das quais continuam no fundo do mar a ameaçar o nosso futuro imediato.
A isto todo cumpre acrescentarmos a alta toxicidade dos 2.000 bidons de pesticidas largados polo Erkowit, em Outubro de 1970, e do tristemente célebre do Casón, em Dezembro de 1987, que deitou ao mar mais de 3.000 bidons de produtos radiactivos ainda indeterminados mas altamente perigosos, provocando a morte de 23 tripulantes e doenças respiratórias à cidadania de Fisterra, Corcubiom e Cee.

A nossa crise nacional no contexto mundial
Frente a quem pretenda acusar-nos de vitimistas, reconheçamos que a Galiza nom é o único país a padecer as conseqüências de um tránsito marítimo incontrolado ao serviço do lucro das grandes empresas do centro capitalista. Calcula-se que por volta dos cinco milhons de toneladas de petróleo se deitam ao mar cada ano, 10% das quais procedentes de grandes petroleiros. A Bretanha, naçom sem Estado dominada por França, é um exemplo de litoral empobrecido por efeito das marés negras, sofrendo três grandes derramamentos, um já em 1967 (123.000 toneladas de petróleo), um outro em 1.978 (223.000 toneladas de crude) e o último em 1999 (10.000 toneladas). A República Sul-africana, com outros três grandes desastres (em 1972, 1983 e 1994) é outro dos países mais castigados.
Mas só o Brasil iguala em termos absolutos o recorde galego em número de sinistros desta natureza. O grande país sul-americano sofreu nom menos de seis marés negras de grandes dimensons nas suas águas, incluindo rios como o Amazonas, Sagrado e Barigüi. Contodo, comparem-se os 8.000 quilómetros de linha costeira brasileira com os pouco mais de 1.200 km. do nosso litoral marinho, em que já vivemos outras cinco grandes agressons como a actual, além das duas citadas de carácter químico. A Galiza torna assim o país com maior quantidade de sinistros em termos relativos e o de maior percentagem do próprio litoral castigado por derramamentos incontrolados de hidrocarburos e outros agentes químicos de todo o globo.
Ante isto, lembremos agora o presidente espanhol José María Aznar a fingir indignaçom ante as cámaras, aos poucos dias do acontecido com o Prestige, apesar de ser o representante institucional de um Estado, o espanhol, cujos buques também derramam petróleo sem controlo nas águas do maltratado Planeta. O Urquiola, o primeiro superpetroleiro que encalhou nas nossas águas, é um bom exemplo, mas também há outros como o "Castillo de Bellver", que deitou ao mar, em 1983, 250.000 toneladas de crude frente ao cabo de Boa Esperança, na costa sul-africana, causando um dos maiores desastres ecológicos da história. Nom é verdade, portanto, que sejam só os despectivamente chamados "países terceiro-mundistas" que estám por trás das marés negras. Firmas e instituiçons francesas, russas, gregas, norte-americanas, japonesas e, naturalmente, espanholas, fam parte da listagem de responsáveis polas mais graves marés negras da história. De resto, é a presença de buques mono-casco nas frotas de estados como o Espanhol e outros europeus que explica os continuos atrasos da UE na aplicaçom de umha legislaçom que puna a circulaçom dessas bombas flutuantes. Frente a tais interesses, que peso poderá chegar a ter a "Comunidade Autónoma de Galicia" como simples apêndice regional de Espanha?
Além do mais, as grandes companhias petroleiras vem-se implicadas todos os anos em flagrantes delitos ecológicos como os que comentamos, sem que sejam tomadas medidas para evitar novos desastres. Ninguém ousa tocar os interesses dos oligarcas mundiais do sector, que costumam estar por trás destes atentados. No caso concreto do Prestige, ao parecer, o influente sector petroleiro russo é responsável. Nom esqueçamos que no genocídio do povo Tchetcheno protagonizado polos russos subjaz a rapina enérgetica dos hidrocarburos. Nem que o sector energético russo é aliado estratégico do homólogo sector ianque e apoiante da sua agressiva estratégia militar contra o Afeganistám e o Iraque, à qual assistimos na última década e que provavelmente volte a concretizar-se numha iminente guerra imperialista contra este último país. De novo, a espoliaçom energética determina a génese e desenvolvimento destas agressons.
Num cenário de capitalismo e caos mundializado, a crise agora padecida pola nossa naçom nom deve portanto ser analiticamente isolada do seu contexto, definido por um modelo energético como o que o petróleo representa; definido também polo princípio económico do máximo lucro com o menor gasto; pola crescente concentraçom e deslocalizaçom de capitais e empresas; pola guerra de rapina; pola cada vez mais evidente posta das administraçons públicas ao serviço das necessidades dos amos do mundo.

Porquê na Galiza?
Se a desconsideraçom do contexto mundial em que nos situamos e da sua natureza capitalista seria um erro na avaliaçom de umhas catástrofes que nos querem vender como "naturais", nom menos grave seria esquecermos em que países acontecem, de maneira reiterada, semelhantes desastres. No nosso caso, trata-se de um país, a Galiza, que vê circular -sem controlo- 50.000 buques diariamente frente às suas costas; com precedentes como os já citados, apesar do qual os sucessivos governos (PSOE e PP) evitam o controlo desse tráfego marítimo e descartam a aquisiçom de meios para a luita contra a poluiçom que periodicamente ocasiona. Nem um só buque anti-contaminaçom. Nem um só rebocador eficaz ante eventualidades como a actual. Contrastemos estes incontestáveis dados, por exemplo, com os correspondentes ao multimilionário investimento anual em material bélico por parte do próprio Estado espanhol.
Sem dúvida, muitos galegos e galegas terám chegado nestes meses de maneira empírica a assumir a necessária consciência de que a dependência actual do nosso país nos sai muito cara, ambiental e economicamente. Quem poderá duvidar ainda que um Estado galego soberano em nengum caso renunciaria de maneira tam gritante à defesa dos interesses da maioria social galega e do seu meio natural? Com certeza, só aqueles galegos e galegas que, hasteando a sua inquebrantável fidelidade a Espanha, gerem desde instáncias autonómicas a política espanhola na Galiza. A sua responsabilidade na destruiçom da natureza galega caminha de maos dadas com o seu compromisso no submetimento económico, no genocídio cultural, na espanholizaçom definitiva da nossa terra. É o caso de destacados elementos galego-espanhóis como os Arsenio Fernández de Mesa y Díaz del Rio, actual delegado do Governo de Espanha na Galiza, ou os Fernando Fernández Tapias, por citar só dous nomes -um dirigente do PP e um armador- que, segundo se tem apontado de diversos ámbitos do próprio sistema, estám pessoalmente implicados nos interesses políticos e económicos que condicionárom a errática resposta governamental ante a crise do Prestige.
Mas também demonstra a sua negativa a assumir a condiçom nacional até as últimas conseqüências quem com base na sua posiçom social acomodada dá forma ideológica aos seus complexos e cobardias, levemente maquilhados em posiçons políticas de "oposiçom responsável" e dita "nacionalista galega". Esses critérios gerírom e freárom a revolta espontánea da populaçom galega neste conflito, limitando as suas ambiçons aos seus próprios objectivos eleitorais e reformistas, e combatendo a radicalizaçom das respostas populares. Isso explica a oposiçom frontal do BNG e das restantes siglas do seu ámbito à participaçom da esquerda independentista no movimento de massas, confirmada na sua exclusom da Plataforma Nunca Mais com os votos de qualificados representantes do nacionalismo galego maioritário.

Algumhas conclusons
A agressom do Prestige, permitida e só possível pola cumplicidade do Estado espanhol, tem como estamos a ver umhas características especiais que a singularizam frente a outros desastres anteriores. Recapitulemos algumhas delas:
No plano ambiental, e para além da desfeita já consumada durante estes meses de contínuas e sucessivas marés negras a tingir o litoral galego, o afundimento do Prestige expujo-nos a umha ameaça de poluiçom quase incessante, e a umha bomba-relógio carregada com 65.000 toneladas de fuelóleo que podem emergir enquanto a corrosom e as condiçons marinhas fagam o seu trabalho. Ante esta ameaça, o Estado espanhol continua sem dar mais resposta que umhas soldaduras que nem conseguírom selar as numerosas saídas de hidrocarburo que a dia de hoje continua a cuspir o buque em direcçom à Galiza. Resta também avaliar os efeitos da prolongada exposiçom directa ao fuelóleo por parte de centenas de pessoas que trabalhárom em condiçons de precariedade absoluta recolhendo a viscosa substáncia preta nas nossas costas.
No plano político, a generalizada e massiva mobilizaçom popular nucleada pola Plataforma Nunca Mais nom tem precedentes na nossa história, como tampouco a titánica tarefa dos contingentes de trabalhadores e trabalhadoras do mar a combater directamente, ante a nula resposta institucional, as marés negras com as suas próprias ferramentas de trabalho. O próprio papel manipulador e desmobilizador dos mass-media do sistema tem desacreditado a sua funçom até níveis nunca vistos, dando aliás maior valor à capacidade de resposta de importantes sectores da sociedade galega. Todo isto marcará as consciências de novos sectores populares no referente à ineludibilidade de que a Galiza se autoorganize, se construa como naçom, única garantia de que nom sucumba de vez sob a genocida tutela espanhola.
Contodo, cumpre sermos realistas ao reconhecer que, mais umha vez, a inexistência de um movimento político independentista e revolucionário forte, organizado e à altura das circunstáncias, deixará que a importante revolta vivida no nosso país nos últimos meses passe sem ter cumprido nem os objectivos mais imediatos do movimento popular: a queda do Governo autonómico e a depuraçom das responsabilidades políticas e penais correspondentes. Nom esqueçamos que o reformismo representado polo BNG e a sua constelaçom de entidades satélites continua a hegemonizar os movimentos populares e portanto a geri-los consoante os seus interesses de conciliaçom com o inimigo nacional, Espanha e o seu Estado; e de classe, a grande burguesia espanhola e galego-espanhola.
Convém, portanto, tomarmos boa nota do que estivo a acontecer nestes últimos meses ante os nossos olhos, e tirarmos as liçons que a crise nacional nos deixa. Ao pé da massiva e contundente resposta das massas populares, umha direcçom oportunista e eleitoralista conseguiu em boa medida reconduzir a raiva para os seus objectivos partidistas, que nom som os da mudança qualitativa que conduza a maioria social galega à sua emancipaçom nacional e social, senom os de possibilitar a "alternáncia" acedendo à gestom da Junta da Galiza.
Isso explica que a direita espanhola governante, o Partido Popular, tivesse tempo nom só para encaixar os golpes, como mesmo para respostar com novas leis, campanhas de descrédito, mais polícia e criminalizaçom do movimento popular, juntamente com umha permanente manipulaçom mediática ao serviço dos interesses governamentais.
Quanto a nós, a fraqueza das forças independentistas e revolucionárias ficou patente na limitada capacidade de influência na orientaçom dos acontecimentos, se bem a presença nas mobilizaçons, a socializaçom de um discurso rupturista em certos sectores e as atitudes de uns e outros frente à nossa presença nas ruas deve ajudar o nosso movimento a madurecer, fortalecer-se e aprender de uns acontecimentos que marcarám o futuro imediato da nossa naçom.



Voltar a Abrente nº 27

Voltar à página principal