A NECESSÁRIA LEITURA POLÍTICA DO (DES)ACORDO NORMATIVO. Publicado no nº 22 de Abrente (Outubro de 2001)

Maurício Castro

Qualquer que ler o título deste artigo poderá pensar que já está bem de politizar a língua. Permita-se-me adiantar-me respondendo que num país como o nosso, como em qualquer outro cuja soberania é disputada, o conflito político está presente em todas e cada umha das manifestaçons da sua vida social e em todos e cada um dos seus signos de identidade nacional questionados. De facto, a decisom tomada pola Real Academia Galega (RAG) em 17 de Novembro é umha mostra evidente de como a política pesa na questom da língua; igualmente, a própria proposta universitária respondia de jeito bem claro a umha outra pulsom política. Se a primeira foi condicionada polo Partido Popular desde a Junta da Galiza, a segunda ajusta-se como umha luva às necessidades políticas do Bloque Nacionalista Galego neste momento histórico. Enquanto o Governo autonómico, por meio dos seus qualificados porta-vozes, nom oculta a sua satisfaçom pola resposta da RAG, boa parte da base social favorável à normalizaçom do idioma lamenta o resultado, semelhando nom perceber o condicionante político da proposta resultante da negociaçom auspiciada pola Asociación Sócio-Pedagóxica Galega (AS-PG) e como essa proposta representa a derrota histórica do sector conhecido como “de mínimos”. Se a questom fosse assepticamente lingüística, a decisom nom mereceria sentimentos políticos enfrentados de satisfaçom no PP, nem frustraçom nos deputados da primeira força da oposiçom. Nestas linhas, pretendemos pôr em evidência a filiaçom política da proposta e da sentença, os interesses materiais que ambas partes ocultam e qual deveria ser em nossa opiniom a posiçom dos sectores mais conscientes da comunidade lingüística galega ante este conflito.

Umha vista de olhos à história

Se figermos algo de pré-história, lembraremos que antes de Alianza Popular impor em 1982, por decreto, o padrom lingüístico actualmente em vigor, umha comissom lingüística presidida polo professor Carvalho Calero, a pedido da Junta pré-autonómica, elaborou em 1980 umha normativa que pretendia já o consenso entre reintegracionismo e isolacionismo. Deve ser no seu súbito e injustificado rechaço polo poder político em favor das normas propostas polo ILG que procuremos a causa da posterior fractura social entre as orientaçons reintegracionista e isolacionista. Convém sublinharmos, além do mais, que naquela comissom presidida por Carvalho Calero participárom lingüistas representativos das duas tendências, entre os que podemos citar Antom Santamarina polo ILG, o notório isolacionista e pró-franquista Filgueira Valverde ou o filólogo espanhol, nada suspeito de subversom lusista, José Luís Pensado.


Quem revisar vinte e um anos depois aquelas normas de 80 comprovará a sua maior ambiçom na consecuçom de um galego pulcro e reintegrado do que o gorado acordo de 2001, um acordo este último promovido, como se sabe, polo próprio ILG, a AS-PG e os departamentos de Galego da Corunha, Vigo e Compostela; um acordo, de resto, que no plano estritamente lingüístico pouco mais acrescentaria do que recomendar as soluçons da chamada “banda alta” da actual norma oficial, e nem sempre. A primeira conclusom que tiramos, portanto, é que a Galiza nom só perdeu vinte anos ancilosada na espanholizadora norma proposta polo ILG em 82, senom que a suposta alternativa que proponhem o ILG e os departamentos de Galego em 2001 fica muito por baixo da verdadeira norma de consenso de 1980.
Aliás, cabe sublinhar que o isolacionismo, promovido durante estas duas décadas polo poder político espanhol, tivo no Instituto da Lingua Galega (ILG) o seu representante máximo até nom há muito, responsável pola orientaçom extremamente sectária, por anti-reintegracionista, das normas de 82 (com as suas posteriores revisons, a última de 95). Quanto ao reintegracionismo, recorde-se que contou de umha parte com os “pragmáticos” chamados “de mínimos”, sector política, sindical e culturalmente afim ao BNG. Este sector exerceu durante estes anos de reintegracionista no mundo das ideias, mas com umha prática contraditória, nomeadamente se levarmos em conta que em princípio se proclamou “de mínimos” em funçom da existência de uns “máximos” para os que tender. Os sectores que assumírom esses máximos, constituídos em autêntico destacamento de vanguarda a partir do nascimento em 1981 da Associaçom Galega da Língua (AGAL), levárom nestes anos bem paus da oficialidade, ao tempo que deparárom com um muro de contençom construído polas organizaçons do nacionalismo maioritário, refractário a apoiar a sua expansom com a sempiterna escusa de que “o povo nom está preparado”. Com a perspectiva que dá a passagem dos anos e involuçom dos noutrora defensores desses mínimos, aquela negativa a promocionar os máximos desde os mesmos inícios da sua existência —chegando a promover a cissom em organismos com maioria reintegracionista pró-AGAL como a AS-PG histórica, foi um primeiro indício da mais recente disposiçom das organizaçons e colectivos ligados à expressom maioritária do nacionalismo galego para integrarem-se na orientaçom isolacionista que define a normativa oficial.

Quem é quem no actual (des)acordo normativo

Com efeito, a passagem do tempo e a influência das forças presentes no decorrer histórico fijo com que aquele quadro inicial tenha derivado em 2001 num cenário em que a maior parte dos diversos actores passárom a representar novos papéis.
A estrela desta nova representaçom é o mundo que rodeia e representa socialmente o BNG, que nom só nom avançou em direcçom aos “máximos” referenciais de partida, senom que se acha empenhado em abandonar os “mínimos” em direcçom a um isolacionismo mal maquilhado. Foi, de facto, da principal força da oposiçom parlamentar que partiu a iniciativa por um acordo de concórdia que, mais umha vez, pretendeu deixar o reintegracionismo fora de jogo.

Mas, por que tam repentino interesse em superar as historicamente irreconciliáveis diferenças com o doestado oficialismo?. A resposta deve procurar-se na premente necessidade política que tem o BNG de integrar-se de vez no mundo institucional e de normalizar por completo as suas relaçons com o mesmo. Razons complementares som as pressons de sectores editoriais e culturais afins, entre os que salientam A Nosa Terra e a Asociación Sócio-Pedagóxica Galega, fartos de nom receberem um peso da sectária política lingüística oficial com a escusa de umhas pequenas diferenças na escrita. Nom esqueçamos que livros de texto, colecçons em fascículos e outro material audiovisual diverso vinham sendo já publicados na norma oficial por muitas dessas entidades satelizadas polo BNG, entre elas a própria AS-PG, promotora a um tempo das negociaçons a que vimos aludindo e da histórica normativa “de mínimos”. Significativa da renúncia estratégica transparecida pola iniciativa do sector “de mínimos” é a assunçom por parte do semanário ligado ao BNG, A Nosa Terra, da normativa oficial com imediata posterioridade ao fracasso do dito consenso. O conflito normativo é, cada vez mais, um incómodo estorvo para a normalizaçom institucional da principal força da oposiçom, um dos restos delatores da radicalidade caracterizadora da sua política no passado, e na actualidade representa apenas um empecilho no seu ascenso aos escritórios de Sam Caetano e no fortalecimento económico da rede de organismos sociais e empresariais que lhe som fiéis. Nom podemos aqui deixar de parafrasear um dos vultos do mundo intelectual que nestes anos mantivo a ficçom dos “mínimos reintegracionistas”, que recentemente publicava um artigo em que num acto de honestidade intelectual e pessoal reconhecia que a proposta de reforma procurava “unha solución que permitise (que nos permitise) aos que estamos vencidos e derrotados poder apresentar unha digna escusa ao noso descanso... mas nen iso se nos permite” (1).

A tentativa contou, aliás, com a participaçom activa do que duas décadas atrás fora principal agente do oficialismo lingüístico na sua estratégia espanholizadora: o ILG.

Porém, e como o tempo nom passa em balde, o célebre Instituto universitário compostelano perdeu boa parte da sua influência no mundo cultural financiado pola Junta da Galiza. Naturalmente, a perda de protagonismo do noutrora principal representante “científico” do PP tem a sua explicaçom, na medida em que o espanholismo imperante na Junta arrumou as veleidades galeguistas do Instituto em favor de um flamante Centro Ramom Piñeiro para a Investigación das Humanidades que absorve de uns anos para cá o grosso dos dinheiros que antes desfrutava o ILG para as suas “investigaçons”. Na direcçom deste Centro e nas suas redondezas movem-se alguns dos académicos contrários à proposta de acordo normativo, como Constantino Garcia, Jesus Ferro Ruival ou Manuel González. A perda de protagonismo (e de recursos económicos) do ILG determinou o alineamento de boa parte dos seus membros, que nom gozárom de cadeira no novo Centro, com o principal partido da oposiçom, um BNG que, como sabemos, nos últimos anos segue umha política de portas abertas para determinados sectores historicamente por ele demonizados, entre os que se encontra o próprio ILG. Poderíamos ilustrar o acontecido com umha popular sentença: juntárom-se a fame e a vontade de comer.
Eis, portanto, como umha rede de interesses políticos e circunstáncias sociais concretas, pouco relacionadas com o córpus lingüístico sobre o que uns e outros “operam”, permitírom um acordo entre a intelectualidade historicamente ligada ao BNG e a de mais recente incorporaçom, a representada por um sector significativo dentro do ILG, após este ter perdido o seu lugar ao sol no mundo dos suculentos subsídios oficiais.

Porém, e apesar do empenhamento dos agentes citados, semelha claro que o núcleo duro do oficialismo, o que detém as rédeas do poder, nom se viu forçado a negociar o acordo normativo. Eis a leitura que devemos fazer da decisom adoptada pola maioria dos membros da Real Academia Galega, que chegou a rejeitar umha proposta aceitada pola maioria dos seus lingüístas, atingindo o culme do esperpento e pondo em evidência o carácter político, e politicamente conservador, da sua sentença. Naturalmente, a RAG está amarrada de perto polo poder político autonómico, e só a disponibilidade deste poderá no futuro garantir umha reforma como a pretendida polo BNG, que verificou no dia 19 de Novembro a autêntica dimensom da sua derrota eleitoral de Outubro. Permita-se-nos acrescentar que o Partido Popular perdeu umha magnífica ocasiom para integrar lingüisticamente o BNG no sistema, e só a bebedeira pós-eleitoral encirrada polo exultante espanholismo do PP nos tempos que correm pode explicar a prepotência excluente de umha direita espanhola que recusa a plena integraçom do morno nacionalismo do Bloco no sistema constitucional a pesar de a proposta representar a sua inapelável derrota histórica. Contodo, convém reconhecermos que o nacionalismo maioritário galego é persistente e continuará a tentá-lo...

E o reintegracionismo?

A AGAL, principal e histórica entidade reintegracionista (embora nom única), demonstrou ao longo destes anos umha maior autonomia política do que o oficialismo isolacionista e as entidades normalizadoras pró-Bloco. Eis o seu principal aval, um autêntico património que, se se mantiver nas suas coordenadas históricas, poderá apresentar algum dia ante a sociedade galega. Um património, a sua plena autonomia a respeito de qualquer instituiçom ou organizaçom política concreta, que deve manter-se a toda a custa, por mais que no seu interior podam participar militantes de quaisquer tendências, como de facto acontece. No caso que nos ocupa, a AGAL mantivo-se à margem das negociaçons e dos seus resultados, numha posiçom prudente e construtiva ao ter julgado que qualquer avanço em direcçom ao reintegracionismo, por tímido que fosse, teria sido positivo para o nosso idioma, sempre que nom servisse de coarctada para a definitiva exclusom social da dissidência lingüística. Infelizmente, tememos que isso é justamente o que teria acontecido de ter-se aprovado a proposta do BNG.

De resto, nom deve esquecer-se que o diálogo que desembocou na proposta que analisamos veu dous anos atrás acalar as vozes que, de diferentes cantos do mundo cultural galego, começavam a generalizar a exigência de umha aproximaçom ortográfica séria a respeito do português. Um dos resultados desta proposta “de consenso” promovida polo BNG foi apagar aquele enriquecedor debate, que nom sabemos em que poderia ter concluído.

Nos próximos meses, provavelmente assistamos a umha campanha que solicite umha rectificaçom à RAG, umha campanha auspiciada polos agentes implicados na negociaçom do acordo e que, como costuma fazer o BNG, tentará identificar os seus interesses partidistas com os do país. Assim, venderám-nos que esse acordo implicará a superaçom do conflito normativo e um avanço determinante no caminho normalizador. Mais umha vez, pretenderám deixar o reintegracionismo reduzido ao papel de convidado de pedra, ante o qual este deverá contar com um discurso próprio, um discurso de calado estratégico que faga ênfase, de umha parte, na necessidade de que se permita a discrepáncia radical com a oficialidade, para além do que cheguem a acordar uns e outros; um discurso que, de outra parte, ponha em evidência a falsa saída que suporia a aprovaçom de umha nova normativa que está a ser apresentada como soluçom final para o idioma, na medida em que só umha orientaçom abertamente reintegracionista como a representada pola AGAL e polos restantes colectivos reintegracionistas servirá para favorecer realmente a normalizaçom lingüística na Galiza, contando com o apoio que supom a presença e potência da nossa língua a nível mundial.

Em todo o caso, para além das negociaçons e, em geral, das políticas de salom, quaisquer medidas e campanhas serám castelos no ar se nom houver por trás um significativo apoio activo da sociedade galega para a causa da normalizaçom lingüística. Eis a principal carência actual que enfrentamos, e eis a primeira causa de preocupaçom que deve ter o reintegracionismo, prévia a quaisquer negociaçons institucionais: promover e articular a consciência lingüística no seio da populaçom galega, com a conviçom de que só a força social garantirá um futuro para a nossa comunidade lingüística, e só a força social impedirá que o reintegracionismo seja deixado de parte nas discussons sobre o futuro do galego.

Um bom jeito de começar a articular essa enfraquecida força social é trabalhar pola unidade de acçom do próprio reintegracionismo, hoje atomizado e sem umha estratégia de actuaçom definida. À margem das suas autênticas motivaçons, o certo é que a dia de hoje a marginalizaçom do reintegracionismo acha fácil escusa na sua injustificável fragmentaçom.

O futuro do movimento reintegracionista, como ingrediente fundamental do movimento normalizador na Galiza, passa pola unidade e a plena autonomia a respeito das diversas opçons partidárias, sem por isso negar as suas implicaçons políticas. Cada passo que se der nessa direcçom será um passo à frente na concreçom das principais necessidades históricas que afronta a nossa comunidade lingüística: o reintegracionismo lingüístico e o monolingüismo social.


(1) Francisco Salinas Portugal: “De normas e concórdias... de tempos e destinos”. A Nosa Terra nº 1012, 13 a 19 de Dezembro de 2001.

 

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