Que fazer com Lenine

X. Antón L. Dobao

As manifestaçons do 13 de Março ante as sedes do Partido Popular forom umha clássica experiência leninista. Lenine é a inovaçom na História, demonstra que a História nom é contínua, que pode ser inventada pola subjectividade e que o acontecimento é mais importante que as instituiçons na transformaçom da consciência. Estas palavras nom som minhas, ainda que as assumo na sua totalidade. Som manifestaçons feitas por Antonio Negri. Começo com elas porque se calhar contenhem umha das melhores expresons do que hoje nos pode achegar o pensamento e a praxe política de Lenine.

Muito provavelmente nom seja eu umha das pessoas mais indicadas para dizer algo com certa coerência a respeito da figura de Vladimir Illitch, sem dúvida a mais importante de todo o século XX. Nunca fum um estudoso sistemático desta nem com certeza possuo os conhecimentos necessários da totalidade da sua obra como para pretender sequer botar algumha raxeira sobre o assunto que se formula. Mais se calhar também nom é demasiado importante atinar a cem por cem nesta série de reflexons que ouso propor, necessariamente fragmentadas, quando a realidade nos continua a superar com as crueldades originadas num sistema que tem a sua razom única de existência na mais arbitrária das exploraçons do home polo home, da mulher polo home, da mulher e do home polo Capital; quando a complexa realidade do proletariado contemporáneo continua a nos superar com os seus alustros de criatividade política (ou bio-política, se pensarmos num poder que nos submete em todos os ámbitos da vida), com as suas intervençons na roda da história, ainda sem os efeitos libertadores desejados, amiúde re-institucionalizadas por velhos aparelhos partidários e sindicais sistémicos empenhados en despossuir a moderna classe operária de toda a sua capacidade e pulsom política. Som precisamente as palavras com as que iniciamos as que incidem nesta ideia. Porque, independentemente da relaçom que cadaquem tiver com os diferentes matizes do intelectual italiano, especialmente controvertido, discutido e discutível, nem parece muito rejeitável a interpretaçom que nos oferece dos factos aludidos, extensível a muitos actos de resistência que aqui e noutros espaços observamos e vivemos nos últimos tempos. O importante neste caso nom é que um intelectual atento aos sobressaltos do real acerte na interpretaçom de um acontecimento mas que entre o movimento real que acaba por derrubar um governo e a sua articulaçom política segue a mediar umha distáncia enorme, a mesma que se abre entre a espontaneidade e a consciência. E nessa distáncia aberta entre a espontaneidade da vil multitude (por recorrermos à locuçom marxiana) e a consciência para a transformaçom, para derrubar o velho mundo e, contra o comando, começar a construir um mundo novo, é especialmente notória a ausência dumha organizaçom que lhe dê corpo e expresom ao proletariado contemporáneo.

O quê é, daquela, o que hoje, nos albores do século XXI, cento e dous anos depois da apariçom do Quê fazer?, oitenta anos depois da sua morte prematura, lhe pode achegar Lenine nom já ao movimento comunista internacional, se é que tal existe, mas ao proletariado, às classes produtoras, ao projecto irrenunciável de emancipaçom do trabalho vivo. Nom podemos dar umha resposta firme nem prefixadamente convencida, entre outras cousas porque tal atitude ante a figura do revolucionário russo nom casa, apesar das apariências, com a sua trajectória. E mais que nada porque se calhar a história do movimento operário do século XX está ateigada de respostas trascendentes e caminhos previamente fixados que nunca se chegárom a transitar, que com certeza nunca se cheguem a transitar. Nada mais longe da nossa intençom, pois, que contribuir, só que fora minimamente, a que a tradiçom teórica do marxismo perviva como umha caste de escritura religiosa, dogmática, de impossível contraste com a realidade, anunciadora de umha parousia que, como tal, nos empece pensar no comunismo como umha possibilidade cargada de necessidade, umha possibilidade que apenas se actualizará, apenas se fará real se o proletariado a assumir como projecto de libertaçom e se se dispom a conquistá-la. O nosso respeito por Lenine empece-nos, aliás, adorar a sua figura embalsamada. Porque tal acto de reificaçom, de fossilizaçom do seu pensamento e do seu impulso vital e político despoja a obra teórica e prática da pessoa de qualquer possibilidade presente e futura, de toda vigoráncia, ao convertê-la numha simples estátua sem alento. E o comunismo é inconcebível sem alento vital.

De qualquer ponto de vista, a figura de Vladimir Illitch Ulianov interveu na história da humanidade de forma decissiva, determinante. E contodo, nom podemos dizer que seja Lenine umha personage especialmente considerada nom já no campo da burguesia e dos seus mais conspícuos representantes, líderes, intelectuais, jornalistas (lógico), mas mesmo entre numerosos intelectuais, dirigentes e militantes que no curso do século XX e nos nossos dias se reclamam marxistas ou socialistas. Também nom podemos esquecer que nalguns partidos herdeiros da III Internacional se produziu umha renúncia explícita, pública, à figura de Lenine e ao seu pensamento, num acto de umha profundidade mais do que simbólica ao se converter numha sorte de confissom pública de pecados cometidos e o subsequente propósito de emenda futura. Neste acto de renúncia tentárom amostrar-se acessíveis às condiçons que o sistema lhes impunha para fazerem parte cómoda das instituiçons representativas. Tal deserçom sistemática, aliás de transluzir a negaçom radical da tradiçom política destas organizaçons, implicava a confissom dunha confusom incompreensível em quem se concebiam possuidores de umha ciência inobjectável. Mediante a condena explícita de Lenine e a renúncia aos princípios do leninismo (e nom, como devera ter sido, com a sua recuperaçom, libertando-os das deturpaçons e das intemporais interpretaçons a que foram submetidos) davam por bom o ideologema segundo o qual o pior do estalinismo só se podia exprimir na própria perversidade de Lenine e mesmo na sua egocéntrica e totalitária desviaçom dos pressupostos teóricos do marxismo. A interessada confusom entre a obra teórica e política de Lenine e o estalinismo nom foi cousa apenas da burguesia e dos seus meios de produçom simbólica. Muitas das forças de esquerda que revoárom e revoam em redor das instituiçons do capital-parlamentarismo contribuírom activamente a esta operaçom. Demonstravam assim, sem o quererem quiçá, umha nom escassa incapacidade política e teórica que o movimento operário sofreu e sofre em carne própria, a sua incapacidade histórica nom já para dirigir mas mesmo para participar de qualquer projecto de libertaçom real do trabalho vivo.

O próprio Lenine conheceu em vida este processo contra a sua figura nos ámbitos da esquerda. Quiçá ocasionado pola sua personalidade, polo seu ardor e a sua determinaçom no confronto com todo o que ele considerou desviaçom dos fundamentos teóricos do marxismo. Provavelmente ainda hoje segue a pagar os custos de tal ousadia, de agir com a mesma determinaçom contra a história lineal e contra toda a interpretaçom escolástica, fossilizante, interesseira -ou seja, oportunista- do marxismo e dos seus objectivos. Também nom é descartável que ao envilecer a figura de Lenine se pretendesse executar um contraste simbólico entre esta e a de Marx e Engels, confrontando-lhe à interpretaçom de um Lenine tiránico, totalitário, déspota, ditatorial e perigoso, a imagem de um Marx utópico e portanto inofensivo, digerível intelectualmente como filósofo ao velho uso, de quem mesmo se poderiam resgatar certas boas intençons idealistas: justiça social, rejeitamento da exploraçom entendida como abuso e o sonho de um mundo melhor utópico, impossível. Marx e Engels, segundo tal interpretaçom, apenas teriam cometido a ousadia de sonhar um belo sonho impossível e de apoiar a romántica experiência da Comuna de 1871. Lenine, por contra, interveu directamente na história, fijo estremecer o mundo, anunciou que o assalto ao céu nom era um simples sonho irrealizável nem tinha nada de romántico. Demonstrou que em realidade a Comuna era, é, a ameaça vigorante e tentou contribuir a que no imenso império dos zares conquistasse carta de realidade material a Comuna dos Soviet.

Mas nesta altura histórica, 80 anos depois da sua morte, quando já se passárom uns quantos anos desde a implosom e o esborralhamento de um socialismo que apenas foi Comuna nos primeiros anos da Revoluçom, cumpre perguntarmo-nos se o pensamento e a obra de Lenine, para além do reconhecimento da sua figura histórica, pode ter algumha vigoráncia. E cumpre fazermo-nos tal pergunta conscientes do fracasso histórico do projecto que contribuiu a erguer, tendo em conta o pesado pouso que inevitavelmente deixa um século inteiro de constante processo contra a sua figura. Entom, por quê Lenine? Depois de superada a década dos 90, por que este interesse renascido numha figura e numha obra que pareciam estar desterradas para sempre da história e de todo debate intelectual. Por quê Lenine e nom Gramsci ou Rosa Luxemburg, por exemplo, tanto tempo expropriados da sua profundidade comunista e revolucionária. Por quê nom Kautsky, Bernstein ou outros cujas posiçons em teoria seguem vigorantes, re-encarnadas em parte no reformismo socialdemocrata. Nom deixa de ser paradoxal este interesse quando a lógica cultural do capitalismo seródio, à que Jameson chamou posmodernidade, clausurou aparentemente todo desejo de emancipaçom, instaurou o fim da história e apagou os grandes relatos. Nom deixa de ser o mesmo quando a imagem do militante entregado em plenitude à causa da revoluçom proletária nom casa muito com a própria concepçom da militáncia que podemos ter hoje, com a difícil assunçom de conceitos tradicionalmente ligados a Lenine e ao seu modelo de Partido: disciplina, profissionalidade militante, verticalismo, centralismo democrático, consciência externa... Se introduzimos no coraçom dos movimentos que hoje povoam inumeráveis espaços sociais numha resistência horizontal, tantas vezes primária e pouco definida, estes e outros conceitos ligados a interpretaçons que do leninismo se figérom durante o século XX, o seu rejeitamento está garantido por oposiçom irreconciliavel. E contodo, aí volta aparecer, quase triunfante, respeitada, a figura de Lenine. Será que, como indica Slavoj Zizek no título da excelente compilaçom traduzida e editada por Francisco Sampedro, o velho fantasma segue a rondar? Poida que hoje nom possuamos aquela certeza que partilhárom Marx, Engels e Lenine sobre o iminente e inevitável esborralhamento do capitalismo, mas é provável que percebamos o ruge-ruge da velha toupeira a esburacar túneis, agora em íntima irmandade com a serpe ameaçante que escorrega sem pausa ignorando os caminhos marcados.

Pensemos em termos de contrapoder, é dizer, na articulaçom de um poder proletário oposto ao poder de comando do Capital. Falamos de um conceito que apresenta três faces: resistência contra o velho poder, insurreiçom e potência constituinte de um novo poder. A resistência, como desestruturaçom do poder inimigo, sabotage contra as suas determinaçons de comando e a sua estrutura de poder e domínio em todos os poros da sociedade. Insurreiçom como blocagem do contra-ataque reactivo do sistema, sempre violento, sempre tendente a incorporar as resistências á lógica do comando. A insurreiçom, aclaremos, há de ser entendida em qualquer das múltiplas formas possíveis da luita de massas. A potência constituinte organiza desde essa base as novas formas de vida colectiva. A resistência e sobre todo a insurreiçom terám que estar trespassadas por um projecto de vida que se expressa na potência constituinte.

Pensemos agora na expansom de diferentes experiências de resistência por todo o mundo e quiçá comecemos a compreender a relaçom entre estes processos históricos e essa certa rehabilitaçom da figura de Lenine. Estas expressons de resistência som variadas, diferentes, particulares, mas tenhem em comum a sua capacidade de desestruturaçom do comando, batem todas en diferentes órgaos do corpo da besta. Se calhar esse é o momento histórico em que nos atopamos. Pensemos agora na Galiza. No movimento estudantil contra a LOU, expressom de um rejeitamento ao presente e sobre todo ao futuro de precariedade e submetimento ao Capital mais do que de um rejeitamento ao texto de umha lei; na Greve Geral do 2002; em todas as expressons do movimento Nunca Mais; no rejeitamento da Guerra nom só como expressom de imperialismo norte-americano mas também como institucionalizaçom policial e jurídica de umha nova orde global; e também na noite do 13 de Março de 2004 que tirou ao PP do governo da Espanha. Em todo este fio que parece nom ter soluçom de continuidade, que nom a tem sequer com outras expressons de resistência que se produzem por todo o mundo, há contodo umha fractura, um constante começar e terminar que parece convertê-las em simples acçons isoladas e independentes entre si e sem capacidade aparente de qualquer saída que nom passe pola absorçom sistémica. Som todas elas pontos inconexos que nom dam lugar a momentos de insurreiçom nem actualizam num projecto de transformaçom a potência constituinte que contenhem. O sistema demonstra capacidade para engolí-los, e em muito grande medida é assim graças à canalizaçom dessa subjectividade antagonista a maos das forças políticas do sistema. No caso da Galiza é interessante ver como as organizaçons políticas e sindicais sistémicas agírom com estas expressons do que em algum momento denominamos cidadania constituinte. Primeiro, fragmentando, fixando temporariamente e constrangindo essas manifestaçons de espontaneidade de massa. Noutras palavras, subtraindo-lhe toda unidade política, tentando converter a sua potência transformadora em orientaçom eleitoral, reconduzindo a sua carga política ao ámbito institucional. Assim, a luita contra a LOU nom podia passar de ser estudantil; a greve geral, sindical (luita económica); a luita contra os efeitos do Prestige, só ambiental e em parte económica; a oposiçom à guerra, só pacifista. As organizaçons que assaltárom a direcçom destes processos de resistência fôrom radicalmente anti-leninistas. Quebrárom a totalidade política e social e, mediante essa fragmentaçom, facilitárom a absorçom sistémica dos momentos de resistência. Obviamente, nom foi possível opor-lhe ao contra-ataque momentos de insurreiçom que permitissem avançar na construcçom de contrapoder do proletariado contemporáneo.

Este quadro esquemático e superficialmente exposto nom é exclusivo da Galiza. Com as devidas excepçons podemos arriscar-nos a dizer que desde o nascimento do chamado Povo de Seattle o mundo inça-se de movimentos de resistência, muitas vezes prolongados no tempo, quase sempre heróicos, mas ainda incapazes de articular umha insurreiçom que desenhe com maior claridade os contornos da potência constituinte que o proletariado incorpora na sua produçom de subjectividade. E aqui é onde aparece a figura de Lenine. Nom para convidar-nos a que a visitemos no seu tempo e no seu lugar, nom para que reproduzamos receitas infalíveis de um tempo e de umhas condiçons sociais, produtivas e de composiçom de classe, de desenvolvimento da luita de classes, que já nom som os nossos. Aparece exigindo que a incorporemos ao nosso tempo, às nosas fábricas vitais e sociais. É neste momento histórico em que as resistências começam a se perguntar quê fazer quando cumpre que Lenine nos visite.

Estamos a falar de organizaçom. Em parte sim, mas nom só. Falar de organizaçom, de Partido, é imprescindível porque esse terá que ser o espaço, o instrumento que intervenha como umha alavanca na articulaçom do contrapoder, que apague a distáncia entre a espontaneidade e a consciência, que lhe dê corpo consistente ao sujeito proletário determinado a fazer saltar a máquina do comando capitalista e organizar um projecto em que a exploraçom do trabalho vivo seja apenas umha má lembrança do passado. Se essa encarnaçom se vai produzir de fora, como só podia ser no tempo e na Rússia autocrática do Lenine do Quê fazer?, ou bem do interior do corpo ainda fragmentado do proletariado contemporáneo é algo que nom podemos saber com certeza. Nom ficará mais remédio que ensaiar umha e outra vez. Umha análise da composiçom actual do proletariado poderia-nos levar a insistir na necessidade de que a consciência penetre as massas impulsionada desde o exterior, mas nom podemos obviar que no nosso tempo o desenvolvimento das forças produtivas é capaz de originar níveis de consciência colectiva antes impensáveis. O partido, en qualquer caso, nom pode ser umha entidade que, como o Estado, esteja separada da classe e se situe por cima do proletariado para dirigir com autonomia cada um dos seus movimentos. É o instrumento que o próprio proletariado terá que descobrir nas suas luitas igual que em 1871 descobriu a Comuna.

Em qualquer caso, a presença de Lenine nos nossos tempos nom se pode desligar da compreensom de três questons fundamentais. Por umha banda, a composiçom de classe do proletariado contemporáneo, que já nom só abrange @ trabalhador/a industrial, nem sequer apenas @s trabalhadores/as formais, mas todo o exército diverso obrigado a produzir nesta fábrica vital em que o capitalismo converteu as nossas sociedades contemporáneas. Falamos de trabalhadores/as precari@s, materiais e imateriais, desempregad@s, excluíd@s, mulheres que trabalham nos seus fogares e demais produtores/as sem salário e com extremada mobilidade profissional, etc. Tod@s, de umha maneira ou de outra, mesmo além de a relaçom salarial estar suspensa ou adiada, som permanentemente mobilizad@s polo Capital para produzirem mercadorias materiais e simbólicas. Tod@s som proletariado. Hoje, a tarefa fundamental consiste na identificaçom deste sujeito colectivo, na consciência de que todas as suas diversidades fam parte da mesma unidade. Em segundo lugar, é preciso compreender que qualquer transformaçom radical requer um salto histórico, umha quebra infligida no rolar aparentemente monótono dos processos históricos. O ponto em que se força esse salto é um acontecimento, tantas vezes inesperado, que a genética do antagonismo entre classes e o desenvolvimento das forças produtivas anunciam. A intervençom no acontecimento para desviar a normalidade aparente do curso das cousas e criar história, inventá-la, é umha das mais importantes achegas que Lenine nos oferece na actualidade. Nesse ponto, nesse acontecimento, que se calhar nom é tanto o elo fraco como o lugar no que a classe operária acumula mais força, como assinalava Mario Tronti há 40 anos, o proletariado corporeizado pola sua organizaçom interrompe o processo histórico, desestrutura os mecanismos de poder, toma a iniciativa do ataque contra o comando e articula já as formas nas que se expressa o seu poder constituinte. Em terceiro lugar, cumprirá trazer ao primeiro plano os conceitos da obra e da praxe leninista. Isso quer dizer desfossilizá-los, recuperá-los. Esta acçom programática implica necessariamente o retorno do pensamento marxista às suas dimensons originárias, que som revolucionárias, sobra dizê-lo. Nom falamos de umha nova sorte de revisionismo. Todo o contrário; falamos da necessidade de desmistificaçom do marxismo e da obra, da praxe e da figura de Lenine. Este esforço programático é inseparável da questom organizativa, a única resposta que se nos ocorre à pergunta que inspira esta intervençom.

Vejamos, para concluir, o que na minha opiniom som apenas algumhas das questons fulcrais que nos formula o leninismo e o marxismo do século XXI.

A luita política como totalidade. Lenine nom concebe a autonomia do político nem a separaçom entre a luita política e a luita económica. “Toda luita económica transforma-se necessariamente em luita política, e a socialdemocracia deve fundir sempre umha e a outra numha luita única de classe do proletariado”. No nosso tempo cumprirá entender toda luita sectorial como luita política dirigida a um objectivo emancipador.

A destruiçom do Estado. O projecto de extinçom do Estado, que nom é máis do que “o produto e a manifestaçom do carácter irreconciliável das contradiçons de classe”, impregnou o projecto revolucionário leninista. A posiçom do proletariado contemporáneo a respeito do Estado é um assunto de debate inadiável, sobre todo num momento em que boa parte das forças da esquerda recuam cara à restauraçom do Estado do Benestar e vem no aparelho estatal un árbitro neutral que promete umha síntese do antagonismo social. Apoiemo-nos nas tam actuais palavras de Lenine: “O proletariado necessita o Estado, repetem todos os oportunistas, socialchovinistas e kautskianos assegurando que tal é a doutrina de Marx e esquecendo acrescentar que segundo Marx o proletariado só necessita um Estado que se há extinguir, é dizer, organizado de tal maneira que comece a se extinguir imediatamente e que nom poda por menos mais do que se extinguir”.

A ditadura do proletariado. A ditadura do proletariado formulada por Marx e recolhida por Lenine nom é mais do que a substituçom do Estado burguês por um meio-estado proletário concebido a partir da experiência da Comuna. Quem quiger saber em quê consiste a ditadura do proletariado, aí tem o exemplo da Comuna, assegurárom Marx e Engels. E Lenine nom se afasta um milímetro dessa concepçom. O poder constituinte antecede ao direito, portanto é sempre ditadura; neste caso, ditadura social da imensa maioria, umha democracia expandida, qualitativamente diferente da democracia restrita que agocha a ditadura do Capital. A defesa da ditadura do proletariado em Lenine está intimamente ligada ao projecto de democracia absoluta para a imensa maioria da sociedade. Por isso esse meio-estado proletário apenas será coercitivo para a pequena minoria que se nega a abandonar os seus privilégios de exploraçom e domínio no lapso anterior à sua extinçom.

No mundo contemporáneo, o desenvolvimento das forças produtivas permite-nos conceber a existência em germe de condiçons de comunismo e a reduçom qualitativa dessa primeira fase do comunismo da que falava Marx e à que Lenine chamou socialismo.

O socialismo e o comunismo. Por essa mesma razom, hoje se calhar já nom pague a pena falar de socialismo como fase de transiçom ao comunismo. Por umha parte, porque durante o socialismo real o horizonte do comunismo foi-se afastando com o fortalecimento do estado e com a progressiva paralisia das forças produtivas. Por outro lado, porque ainda que Lenine distingue umha fase de transiçom socialista e umha fase posterior comunista reproduz o conceito de Marx de primeira fase do comunismo e fase posterior do comunismo, e cifra a duraçom desse tránsito (que nom se pode calcular, segundo as suas palavras) no desenvolvimento das forças produtivas e na dissoluçom do contraste entre o trabalho intelectual e o trabalho manual: Hoje nom está superada a divisom do trabalho, mas as condiçons de produçom social indicam um desenvolvimento das forças produtivas que tende precisamente a esse esvaecimento só impedido polo mando do capital. Poderiamos, portanto, considerar que o Capital, obrigado constantemente, segundo Marx, a revolucionar as forças produtivas, possibilita já condiçons para o comunismo, e só o seu arbitrário poder de mando sobre o trabalho vivo empece a supressom da divisom do trabalho e portanto hoje, aqui e agora, o comunismo.

Crítica da representaçom. A fascinaçom pola democracia burguesa é constantemente atacada por Lenine, que lhe opom umha democracia assemblear baseada nos soviet. Hoje essa fascinaçom é mesmo maior. Sem opor-nos de princípio à participaçom eleitoral, entendemos que cumpre despregar umha crítica da representaçom tam radical como a que Lenine fijo no seu tempo e impugnar o diferimento a que é submetida a capacidade de decisom política da multitude. Um diferimento a instáncias alheias que nom podem representar umha totalidade tendente a auto-governarem-se. Hoje, como Lenine no seu tempo, rejeitamos a autonomia do político, puro reformismo, e reclamamos a capacidade de auto-governarnos sem mediaçom.

O direito das naçons à autodeterminaçom. Nom quigem estender-me na referência à posiçom leninista acerca do direito das naçons à autodeterminaçom. Simplesmente quigera apontar neste sentido umha breve questom útil para @s que aspiramos a umha República Galega, a umha Galiza independente: a defesa da igualdade radical de todas as naçons do mundo. Nengumha naçom tem direito a submeter outras naçons nem outras culturas ao seu comando. Esta é umha verdade que só podem defender aqueles/as que acreditem na igualdade de todos os seres humanos e desejam umha sociedade sem classes. O direito de autodeterminaçom, portanto, aparece em Lenine como umha salvagarda desta igualdade, um combate contra os privilégios nacionais. A perspectiva leninista está sempre situada na óptica da unidade do proletariado mundial, e a existência de naçons subalternas só empece essa unidade e essa igualdade. Obviamente, o passo de umha naçom subalterna à categoria de naçom independente tem que implicar a supressom das desigualdades e da exploraçom. Por isso nom somos nacionalistas, nom acreditamos na superioridade da nossa naçom nem da nossa cultura. Somos, simplesmente, independentistas, porque consideramos que toda naçom, toda cultura, toda língua, por pequena que seja, deve conviver em igualdade num mundo livre.

Algumhas conclusons provisórias

É necessária umha organizaçom da subjectividade proletária que una consciência e espontaneidade.

É vigorante o pensamento leninista, mas nom as condiçons que o condicionam. Ocorre o mesmo com o pensamento de Marx. Num e noutro caso, a mistificaçom, a fossilizaçom, incorporá-lo aos nossos dias sem o inserir nas condiçons do nosso tempo é a sua morte.

É transcendental coincidir com Lenine e Marx no objectivo. E é imprescindível agir com a máxima leninista inscrita nas Teses de Abril: aqui e agora, ou nunca. O comunismo nom pode apenas ser um horizonte, como o arco da velha que se nos pode fazer visível em certas condiçons mas sempre é inalcanzável por muito que quigermos achegar-nos a ele. Nom admite espera, exige que lhe saiamos ao encontro e o captemos nos momentos justos.

As condiçons objectivas existem. Se calhar contra o que ocorria na Rússia de primeiros do século XX. Nom assim as subjectivas; é sobre a subjectividade sobre a que agirá a organizaçom.

O modelo de Partido de Lenine está pensado para umhas condiçons e um tempo determinados e muito concretos. Para a autocracia, para agir na clandestinidade, etc. A achega de Lenine nom pode consistir em transplantar esse modelo a hoje como se o tempo nom avançasse. Cumpre captar a sua funcionalidade e recreá-lo nesse sentido. A preparaçom das massas, por outro lado, é muito superior, bem que o proletariado contemporáneo é ambivalente e sofre de desestruturaçom e de um contra-ataque continuado e desvalorizador do poder de comando do Capital. Mas se calhar nunca como hoje som tam certas aquelas observaçons de Lenine no relativo a que a espontaneidade das massas ultrapassa pola frente a organizaçom da consciência. O Partido para este tempo terá que contribuir a acompassar os ritmos de espontaneidade e consciência até confundir ambas questons numha única determinaçom. Desde dentro dos movimentos, nunca reproduzindo a separaçom. O Partido nom pode ser umha instáncia exterior ao proletariado, mas o espaço em que este desenvolve a sua subjectividade e a orienta à destruiçom do mundo velho e à criaçom de um mundo novo.

O comunismo e a extinçom do Estado som projectos inseparáveis. Nunca haverá comunismo mediante o fortalecimento do aparelho do Estado nem reforçando a sua autonomia perante a sociedade.

Galiza, como qualquer naçom do mundo, tem direito à autodeterminaçom. E isso quer dizer, nem mais nem menos, que tem direito à independência.

X. Antón L. Dobao é membro das Redes Escarlata e redactor da revista A Trabe de Ouro


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