O DESPRESTÍGIO DO CAPITALISMO ESPANHOL

Demissom e prisom para os responsáveis

Ilegalizaçom do PP

Três meses depois do início do afundimento do petroleiro Prestige, Galiza continua padecendo a mais importante crise ecológica e sociolaboral da nossa história contemporánea, sem que os principais responsáveis pola catástrofe, -as autoridades espanholas-, tenham adoptado as medidas mínimas necessárias para resolver a existência dum buque afundido a 234 quilómetros da Costa da Morte, que expulsa diariamente das suas entranhas toneladas de veneno em forma de fuelóleo. As marés negras, -já nom sabemos qual é a numeraçom-, som a apocalíptica realidade quotidiana para centenas de quilómetros do litoral dum país que vem sofrendo ciclicamente este tipo de agressons contra o seu ecossistema, contra o meio de vida de dezenas de milhares de trabalhadoras e trabalhadores do mar, e que assiste desamparado ao abandono por parte de Espanha e da UE, apesar das medidas propagandísticas em promessas de investimenos milionários que prevê o Plano especial para Galiza aprovado recentemente polo governo de Aznar na Corunha, com Francisco Vásquez de anfitriom.

Os critérios de máximo ganho em detrimento das necessidades da classe trabalhadora, os povos, as mulheres e a natureza, que caracterizam o modo de produçom capitalista, unido à lógica colonial com que o Estado espanhol trata a nossa naçom, junto dos grandes interesses económicos das companhias envolvidas no caso (armadores, rebocadores, empresas de salvamento), em conjugaçom com a incompetência das autoridades responsáveis e os erros cometidos na gestom do que inicialmente nom era mais que um acidente marítimo, e a irracional política energética do capitalismo, provocárom que desde o 13 de Novembro o futuro da Galiza esteja directamente ligado ao que acontece num cemitério marinho a quatro quilómetros de profundidade.

Nos cálculos do capitalismo espanhol, -que desde as primeiras horas mantivo umha passividade criminosa, cedendo às pressons das potências europeias de afastar o barco para o sul-, nunca se baralhou a hipótese de que um povo como o galego, -historicamente ligado com a submissom e a resignaçom-, tivesse a imensa capacidade de rebeliom, mobilizaçom e resposta, de autoorganizaçom e confiança nas suas próprias forças, -tal como demonstrárom @s marinheir@s e mariscadoras/es da Arousa, Vigo ou Ferrol-, figesse abalar algumhas das estruturas do poder levantadas em mais de um quarto de século pola democracia burguesa espanhola imposta polo franquismo.

A manifestaçom do 1 de Dezembro de 2002, a mais importante das acontecidas na nossa história, foi o primeiro sinal de que nesta ocasiom a docilidade galega nom ia aturar as mentiras, a censura, a manipulaçom, o desinteresse, a descoordenaçom, a desatençom, dumhas patéticas autoridades que negavam a existência da maré negra quando os alcantis e as praias de Mugia, Fisterra, Camarinhas ou Malpica estavam sendo engolidas por umha substáncia viscosa que vomitavam as frias águas do Atlántico; quando perto de metade da frota pesqueira estava amarrada a porto pola impossibilidade de faenar; quando milhares de mariscadoras, de percebeir@s, de marinheir@s assistiam desesperad@s à destruiçom do seu meio de vida; quando desde os próprios grupos empresariais se calculava que o dano na economia ia provocar umha queda do PIB próxima de 5%.

Um quarto de milhom de vozes gritárom demissom nas ruas dumha Compostela intransitável enquanto o governinho autonómico, aterrado pola mobilizaçom social, via rebentar os equilíbrios internos tecidos habilmente desde 1989 entre as diversas fracçons da burguesia autóctone, entre os que consideravam necessário intervir e os que opinavam que era Madrid quem tinha que gerir a situaçom. Em ambas as posiçons, a preocupaçom gravitava exclusivamente nas eleiçons municipais de Maio.

Estes dous cenários marcárom o início dumha nova fase na estrutura sociopolítica galega de cujos resultados incertos tam só poderemos traçar diversas hipóteses, e modestamente intervir para inclinar as nossas forças em prol dos interesses nacionais, de classe e de género que defendemos como revolucionári@s comunistas.

 

As contradiçons do movimento de massas

Nestes três meses vimos assistindo ao desenvolvimento dum amplo movimento de massas que atinge cifras históricas de mobilizaçom social, que realiza dezenas de actividades que envolvem centenas de milhares de galeg@s, mas que polas deficiências estruturais dumha sociedade com uns raquíticos índices de autoorganizaçom, sem dinámica e tradiçom de luita, e por situar-se sob a direcçom hegemónica do reformismo autonomista, nom dá os passos necessários que requer umha situaçom de emergência destas características. As centenas de organizaçons, entidades, colectivos e associaçons de todo o tipo, articuladas na plataforma Nunca Mais, carecem dumha estratégia política definida que supere o pedido e exigência dumha série de medidas básicas que a curto prazo abrandem os efeitos mais negativos da catástrofe. Se bem na tabela reivindicativa aparece recolhida a demissom das autoridades, o peso qualitativo do autonomismo no seu seio provoca que em muitas ocasions o discurso da plataforma esteja por trás das demandas populares. Nos planos do BNG, e das burocratizadas entidades satélites que instrumentaliza, evita-se questionar minimamente o sistema económico, -o capitalismo-, e a dependência nacional que dele deriva, como as verdadeiras e fundamentais causas que provocárom umha catástrofe que com toda a probabilidade voltaremos a padecer. À incompetência da Administraçom, à negligência dos responsáveis políticos circunscreve os detonantes dumha crise que inquestionavelmente está ligada ao caos do capitalismo e ao seu desprezo pola vida. O autonomismo restringe o discurso, e portanto a linha política de Nunca Mais, a reivindicar um pacote de medidas que em qualquer outro Estado do contorno seriam parcial e imediatamente aceitado polas autoridades. O reformismo, profundo conhecedor e também corresponsável da lamentável situaçom do nível de consciência, manipula a ingenuidade e a indignaçom popular desorientando e freando o movimento. Se bem mantém umha intermitente mobilizaçom para nom defraudar as demandas, mediante as habituais manobras antidemocráticas, a ausência de transparência, o verticalismo e a burocratizaçom da plataforma, limita e veta a presença no interior de Nunca Mais das entidades do MLNG voltando a reproduzir as já ensaiadas políticas de aparheid entre o que o regime pode aceitar e o que nom permite. Um deputadinho autonomista impede a entrada d@s representantes de NÓS-UP, AGIR e AMI na reuniom de Nunca Mais e posteriormente numha votaçom irregular, em que várias entidades satélites votam duas vezes, permitesse a incorporaçom de doze novas organizaçons, entre elas os sindicatos espanhóis, mas nega-se a entrada do independentismo revolucionário. Nas mobilizaçons, alguns dos quadros institucionais ou do aparelho burocrático do autonomismo actuam como colaboracionistas da polícia, delatando a presença dos “violentos” ou cumprindo directamente tarefas repressoras.

 

Após injectar o oxigénio político que solicitava Espanha, ratificando assim os acordos de estado assinados, mediante a teatrealizaçom da moçom de censura que salvou a Fraga, e vetando a greve geral que a finais de Novembro ou inícios de Dezembro teria tombado a Junta, pretende capitalizar eleitoralmente a acumulaçom de forças sociais, ainda que paradoxalmente nom deseja umha derrota do PP detonante dumhas eleiçons autonómicas antecipadas que possibilite o velho sonho de cogovernar a Junta cm o PSOE de Tourinho e Francisco Vásquez. Mas o BNG ainda teme mais as massas que espontaneamente solicitam umha radical mudança de rumo e questionam o conjunto da classe política. Apenas utiliza o movimento, a força da rua, para ocultar a sua profunda crise interna e cumprir a tarefa que se lhe atribui, de conduzi-la polos vieiros da ordem institucional a que se subordinam. Assim se entende como num dos momentos mais álgidos da crise o alcaide de Vigo inaugure um museu acompanhado por Fraga e o príncipe espanhol; assim devemos interpretar como a cara pública do autonomismo na capital da Galiza se proteja das inclemências do tempo sob o guarda-chuvas de Fraga presenciando um desfile do exército de ocupaçom; a morna oposiçom, o discurso “prudente” que exerce nas instituiçons; as palavras de Beiras solicitando paciência nas primeiras jornadas.

O seu minimalismo nom só evita furar na superficialidade dumhas “causas” que a dia de hoje estám incorporadas no discurso oficial, igual que a legenda Nunca Mais; também esquivou desde o primeiro momento a reclamaçom de responsabilidades políticas, e impossibilitou solicitar as penais para uns responsáveis que tenhem cara, nome e apelidos. Assim como a esquerda independentista vem solicitando a demissom e prisom de Aznar, Fraga, Rajói, Cascos, e inclusive a do chefe do Estado, o rei espanhol Juan Carlos I, o BNG e os seus satélites impedírom sempre esta reivindicaçom. Mas quando em plena deslegitimaçom social o PP recrudesce a ofensiva do fascismo espanhol para demagogicamente ensombrar as demandas populares, impulsionando um pacote de medidas legais tendentes a estrangular a liberdade de expressom, criminalizar os projectos de libertaçom nacional e social de género, ilegalizar organizaçons, aplicar a cadeia perpétua, mediante um endurecimento do código penal que nos retrotrai para o de 1848, anunciando a construçom de novas prisons e mao dura, o BNG e os seus satélites praticam o autismo e a cobardia política que caracterizam a sua trajectória.

Se Espanha é a responsável pola catástrofe que padecemos, o PP é-o do ecogenocídio do nosso litoral e da ruína, o desemprego e a emigraçom de milhares de trabalhadores e trabalhadoras. Exigir a ilegalizaçom do PP é umha coerente reivindicaçom que se ajusta à gravidade do delito, que situa no epicentro do debate político, que novamente empapa amplos sectores sociais, os eixos dumha política com critérios de esquerda conseqüente. Galiza, por carecer de poder político, da soberania nacional, por ser umha naçom sem Estado, nom pode denunciar nos tribunais e instituiçons internacionais a Espanha polos graves delitos cometidos contra o povo galego, mas sim podem as massas trabalhadoras e populares, mobilizadas e dirigidas com um programa avançado, pedir a ilegalizaçom do PP como primeiro passo para erosionar a sua estrutura de poder. A greve geral como recurso de participaçom e pressom colectiva deve fazer parte dos objectivos imediatos de Nunca Mais para elevar o nível de consciência popular, aprofundar na deslegitimaçom das instituiçons espanholas, transformar o primário sentimento de afirmaçom nacional em consciência nacional, a autoestima colectiva em independentismo sociológico.

O BNG nom só nom introduz o discurso nacional no movimento, senom que o situa no quadro estatal promovendo umha mobilizaçom em Madrid que dilui a dialéctica Galiza-Espanha que implicitamente conforma um dos eixos dos protestos.

 

Combater o eleitoralismo

Centrar o debate do actual movimento de massas em chaves eleitorais é natural na lógica no autonomismo, mas desde o campo da esquerda independentista só exprime umha preocupante desorientaçom, umha miopia política, o vigor do reformismo inerente ao ADN do qual se procede e do que ainda nom logrou despreender após mais de vinte e cinco anos. A proposta que a FPG realizou desde as páginas dum jornal vigués de articular um Pólo Nunca Mais, um revival da Posición Luís Soto, para derrotar o PP nas eleiçons, é um autêntico disparate carente da mais mínima possibilidade, e contrária aos interesses da naçom galega e da sua classe trabalhadora, por quanto propom umha frente popular interclassista sob a direcçom da burguesia autonomista e do espanholismo felipista.

A derrota eleitoral do PP, se bem é umha boa notícia, nom resolve nengum dos graves problemas sociais, nacionais e de género que hoje padecemos como trabalhadores/as, como naçom e como mulheres. Depositar a libertaçom nacional, a transformaçom social e a emancipaçom de género nos resultados dumhas urnas é característico da lógica colaboracionista do reformismo e tem-se demonstrado totalmente inútil se nom for acompanhado basicamente por um processo de autoorganizaçom e mobilizaçom popular.

gerar falsas ilusons é desconhecer a verdadeira natureza do regime e das forças políticas que o sustentam, ou renunciar implicitamente aos princípios buscando a via da integraçom perante as dificuldades dumha situaçom subjectivamente adversa para os projectos revolucionários.

Para evitar novos Prestiges é necesssário construir espaços de poder popular encaminhados a dotar a Galiza dum Estado próprio, com umha sociedade socialista. Isto só é factível mediante um processo revolucionário que recupere a independência nacional. Derrotando o PP nom se dana realmente um regime que conta com vários susbtitutos, PSOE e BNG, para manter inalterável a dominaçom, opressom e exploraçom que o caracterizam. Apostar por esta via tam só introduz mais confusionismo no movimento popular e reforça as teses do autonomismo reformista. Às vezes as àrvores impedem ver o bosque.

 

Algo se move

As tendências e fenómenos em curso que a crise tem gerado em significativos sectores populares revelam que algo se está movendo: massivas manifestaçons, autoorganizaçom dos sectores atingidos, certa permissividade na hora de aceitar métodos de luita nom estritamente legais, deslegitimaçom das instituiçons e da classe política, incremento da consciência nacional e da autoestima colectiva, politizaçom. Mas perante a ausência dum referente político-social com projecçom de massas é difícil que estes sectores cristalizem na configuraçom dum novo espaço político antissistémico, nem que a esquerda independentista seja capaz de incorporá-los ao MLNG. Nom devemos desconsiderar as dificuldades que o movimento tem manifestado para gerar desde o seu interior vozes e núcleos radicalizados que de maneira organizada, de parámetros anticapitalistas e independentistas, incrementem o nível de aspiraçons socialmente compartilhadas, insiram um discurso superador do minimalismo refomista. De momento tam só o independentismo, embora às vezes de forma contraditória, tem defendido umha praxe combativa e um discurso táctico enquadrado em chaves estratégicas.

 

A crise do PPdG 

Mas o Prestige também tem provocado na Galiza um novo cenário no seio da até agora “monolítica” direita espanhola. O cessamento ou demissom de Cuinha em meados de Janeiro nom pode ser interpretado desde o simplismo exclusivista do confronto entre as teses galeguistas e mais centralistas existentes no PPdG. Som diversos os factores que possibilitam a explicaçom dum complexo panorama carregado de incógnitas. A crise nacional desencadeada polo afundimento do petroleiro, e o conseqüente desprestígio social do PP, unido ao crepúsculo biológico e político de Fraga, tem acelerado a corrida sucessória e os movimentos internos para recolocar nas melhores condiçons possíveis os diferentes interesses localistas e particulares das diversas fracçons da burguesia galega que sob a “harmonia” autoritária de Dom Manuel configuravam a virtual pinha da estrutura de dominaçom. O aparelho madrileno do PP, receoso das tendências autonomistas, -embora sempre no quadro da inquebrantável lealdade constitucional-, que até o momento vinha aplicando a direcçom galega, perante um Fraga enfraquecido interna e externamente, considerou que a conjuntura era favorável para recuperar desde Génova o controlo directo do partido, afastando o representante mais qualificado das teses regionalistas. As ajudas e os planos de investimentos que Fraga implorou em Madrid para paliar os efeitos da catástrofe e evitar o único que realmente lhe preocupa na actualidade: passar à história com umha retirada digna, fôrom respondidas afirmativamente por Aznar mediante a imposiçom do controlo orgánico que vinha reclamando. O velho fascista qual Saturno devora o seu filho para assegurar a “glória eterna” do enterro de César no monte Gaiás.

Os movimentos ligados à sucessom de Aznar também jogam um papel significativo porquanto um dos aspirantes, Mariano Rajói, pretende recuperar o controlo orgánico do PPdG que lhe fora arrebatado por Cuinha, para reforçar a sua posiçom de candidato à presidência do Governo espanhol. As intrigas de palácio, a própria luita de classes no seu interior entre a tradicional rede caciquil e clientelar encistada no rural e mais próxima do populismo galeguista, e a velha burguesia e oligarquia urbana ligada mais directamente à Villa y Corte, em constante pugna pola hegemonia, as pressons da Opus Dei, som outros dos parámetros que podem contribuir para compreender a actual situaçom.

Se bem é positivo que o fraguismo comece, contra os prognósticos, a abalar antes do final de Fraga, devemos matizar o entusiasmo natural das massas ao ligar mecanicamente a provável derrota do ex-ministro de Franco com umha soluçom aos graves problemas do país e da suas classe trabalhadora.

 

A ofensiva fascista da oligarquia espanhola

A crise do Prestige, unida à cada vez pior saúde económica do capitalismo espanhol, em plena recessom, incapaz de cumprir os objectivos marcados, e preocupado polos efeitos negativos que para manter a sua taxa de ganho terá o alargamento ao Leste da UE, tem endurecido a ofensiva fascista com que pretendem distrair as classes trabalhadoras espanholas culpando as reivindicaçons nacionais da Galiza, Catalunha e Euskal Herria como responsáveis pola sobre-exploraçom que padecem. Recuperando o discurso mais intransigente do imperialismo espanhol, reformando a legislaçom e os consensos pactuados entre o franqusimo e o reformismo em 1975-81, também pretende amedrontar as reivindicaçons nacionais, as luitas sociais e de género para evitar o incremento da conflituosidade que dificulte a aplicaçom da reforma laboral permanente, o recorte das liberdades, e a derrota político-militar da ETA. Assim se entendem as tentativas de criminalizaçom do movimento popular ligado a Nunca Mais.

Nesta estratégia devemos enquadrar as declaraçons xenófobas e racistas do presidente do Tribunal Constitucional Manuel Jiménez de Parga contra os povos das naçons oprimidas por Espanha, a demagogia populista de “maior segurança e luita contra a deliqüência”, com que o PP pretende ocultar os seus estrepitosos fracasos e incompetências.

A adesom incondicional às teses belicistas dos falcons do Pentágono e da Casa Branca na intervençom miltar contra o Iraque demonstram o fracasso do capitalismo espanhol na UE e pretendem ser utilizadas como umha nova cortina de fume para esconder os problemas internos.

 

 


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