Militarismo espanhol fora da Galiza
ABOLIÇOM DO EXÉRCITO

 

Paco Vasques é o responsável por que o desfile anual que o exército espanhol realiza tradicionalmente antes do Verao, evocando o "Desfile da Vitória" de 1939, tenha lugar nesta ocasiom na Corunha.

Nom é nada surpreendente esta provocadora decisom. O presidente da Cámara Municipal da Corunha está alineado com as teses mais jacobinistas do PSOE, tal como o seu amigo José Bono, actual ministro da Defesa do Governo de Zapatero. Vasques fai parte do mascarom de proa do espanholismo mais intransigente e fanático, negador da naçom galega e defensor de um modelo de Estado centralista e uniformizador. As duas décadas que leva presidindo o a Cámara municipal da Corunha som paradigma da patologia anti-galega de um cruzado do imperialismo espanhol disfarçado de progressismo cosmopolita.
Esta decisom nom pode ser isolada do actual debate sobre a reforma territorial do Estado, a crise do projecto nacional espanhol e as eleiçons ao Parlamento galego deste Outono. Paco Vasques, com esta iniciativa, pretende fixar posiçom, como já fijo com a proposta de modificar a Lei para que a Corunha recupere o topónimo espanholizado, ou de avivar o localismo desintegrador abrindo a velha polémica sobre a capitalidade da Galiza. O PSOE de Paco Vasques está marcando linha frente ao morno discurso galeguista que petende injectar Peres Tourinho à hora de lograr essa maioria alternativa ao fraguismo em aliança com o BNG. Para o PSOE de Paco Vasques, as políticas neoliberais devem ir acompanhadas pola definitiva assimilaçom nacional da Galiza.

Porém, nom é a primeira vez que tem lugar na Corunha esta demonstraçom apologética do militarismo espanhol. Em Junho de 1985, também com um governo do PSOE em Madrid, e já com Paco Vasques em Maria Pita, realizou-se o desfile. Daquela, vários milhares de pessoas convocadas pola esquerda nacionalista, a esquerda radical estatal, e os comités anti-OTAN, manifestárom-se polos arrabaldos da Corunha, perante a proibiçom governativa de conceder autorizaçom no centro da cidade. Muito posteriormente, em Outubro de 1997, o próprio Vasques, além de Felipe González, desvendárom que dias antes desse desfile tinha sido neutralizado um macro-atentado promovido por um sector das Forças Armadas que pretendia voar com explosivos a tribuna matando o Rei, o próprio Felipe Gonzalez e o Estado maior do exército.

Hoje, tal como em 1985, a esquerda independentista e socialista nom pode ficar à margem desta agressom contra a Corunha e contra o conjunto do povo trabalhador galego.

O desfile do exército espanhol na Corunha deve ter em frente o conjunto de forças políticas e sociais que na década de noventa apoiamos abertamente a estratégia de insubmissom, determinante na aboliçom do Serviço Militar Obrigatório, umha história reivindicaçom do movimento obreiro e juvenil.

O desfile de 28 de Maio na Corunha nom pode ser respondido com a passividade e a resignaçom, como um mal que há que estoicamente suportar. A massiva oposiçom à guerra imperialista no Iraque, e antes no Afeganistám, provocou um impressionante movimento de massas que durante meses ocupou as ruas do conjunto do País, denunciando o imperialismo norte-americano e solicitando a saída das tropas espanholas. Hoje cumpre activar essa primária consciência antimilitarista, os anseios de paz que fam parte dos valores da melhor tradiçom da esquerda.

Como comunistas, somos contrári@s aos exércitos da burguesia, aparelhos coercitivos cuja funçom é a defesa da ordem social baseada na exploraçom da força de trabalho, e dos interesses imperialistas para garantir o saque das matérias primas e recursos do planeta. Tal como se recolhe num documento do Comité Central de Primeira Linha publicado no Abrente nº 4 (Abril de 1997) "A apariçom dos exércitos regulares só se pode compreender na sua dupla face: aparelho repressivo da burguesia contra as demandas do proletariado e o conjunto das camadas populares, e como um dos instrumentos básicos de vertebraçom dos Estados-Naçom". Em "O militarismo belicoso e a táctica antimilitarista da social-democracia" Lenine afirma que "O militarismo moderno é resultado do capitalismo. É, nas suas formas, umha manifestaçom vital do capitalismo: como força militar utilizada polos estados capitalistas nos seus choques externos e como instrumento em maos das classes dominantes para esmagar todo o género de movimentos (económicos e políticos) do proletariado".

Como comunistas de um país que padece umha opressom nacional somos contrári@s a um exército, o espanhol, responsável directo pola negaçom do direito de autodeterminaçom, um exército de ocupaçom responsável pola perpetuaçom da exploraçom e dominaçom que padece a Galiza e as suas classes trabalhadoras. A Brigada de Infantaria Ligeira Aerotransportável "Galicia VII", popularmente conhecida como BRILAT, com sede em Figueirido, representa a nova cara das forças de ocupaçom. Maioritariamente conformada por tropa de origem galega, mas ao serviço de um projecto nacional contrário aos interesses do seu povo. Semelhante às RUC da Irlanda do Norte, os harkis na Argélia ocupada pola França, ou os sipaios na Índia.

Como comunistas comprometidos com a emancipaçom da mulher, nom podemos justificar a existência dos exércitos regulares, escola do machismo, do desprezo polas mulheres, responsável por agressons e violaçons em massa como arma de guerra.

Mas o exército ao qual nos temos que enfrentar é um exército peculiar com umhas características específicas. O exército espanhol nunca ganhou umha guerra exterior, é herdeiro da vitória militar sobre a classe obreira, as naçons sem Estado e as mulheres em 1939, o que sustentou a ferro e fogo a sanguinária ditadura franquista até 1976, o que participou em dúzias de conluios e tentativas de golpe de estado para limitar ainda mais as tímidas conquistas democrático-formais atingidas na transiçom do fascismo para o actual regime juancarlista. É um exército que funciona como um poderoso poder fáctico, tutelando o poder civil. O preámbulo do artigo oitavo da Constituiçom espanhola concede às FAS as funçons de "garantir a soberania e independencia de Espanha, defender a sua integridade e o ordenamento constitucional". Mas, ao contrário do que as forças reformistas declaram constantemente, o actual exército espanhol nom é um exército profissional, apolítico, plenamente submetido ao poder civil, centrado em desenvolver inócuas missons humanitárias nos diferentes focos de conflito. O actual exército continua a ser pola sua doutrina, experiência e trajectória, um exército claramente intervencionista, cujas pressons tenhem sido determinantes na modificaçom de decisons políticas por parte de todos os governos, sem excepçom, desde a morte de Franco. A UCD, o PSOE, o PP, e agora novamente o PSOE, nom só mimárom o exército, como também cedêrom em todas as pressons e chantagens involucionistas acordadas nas salas de bandeiras dos quartéis, perpetuando por activa ou por passiva umha tácita submissom à longa sombra que exercem os generais.

O actual PSOE submete-se às pressons militares

Neste primeiro ano de governo PSOE, o ministro Bono tem realizado clarificadoras declaraçons como porta-voz "civil" do sentir do exército espanhol perante o debate sobre a reforma territorial do Estado que impulsionam os partidos espanholistas e autonomistas, cujo comum denominador alicerça na impossibilidade de exercer o direito de autodeterminaçom. Se em Dezembro de 2004 manifestou nas Cortes que gosta do artigo 8 e nom está disposto a promover a sua modificaçom, um mês depois, em Janeiro deste ano, no discurso, -pactuado previamente com Zapatero-, perante o Rei na "Páscoa Militar" foi eloqüente à hora de lembrar o papel do exército na Espanha actual. "Somos umha das naçons mais antigas do planeta. Na primeira Páscoa Militar, em 1782, nom existiam a maioria das naçons que hoje integram a ONU. Nom existia o Canadá, nem Itália, nem o Brasil, nem a Alemanha, nem sequer os EUA tinham sido reconhecidos. Porém, Espanha já tinha conhecido, desde os Reis Católicos, 10 reis; tinha patrocinado a façanha das descobertas; tinha levado a língua que hoje falam 400 milhons de pessoas para o outro lado do oceano ...". Os conteúdos e o tom deste discurso que Bono tem empregado mais vezes nom só exprime o sentir de um dos homens fortes do actual "governo progressista" que IU e ERC apoiam; lança oportuna e calculadamente mensagens à covarde política reformista sobre quais som os limites que a democracia espanhola está disposta a tolerar. A diferença da Transiçom, quando eram os generais quem emitiam os posicionamentos, agora é o ministro "socialista" que transmite o sentir em forma de intervençons institucionais. Porém os efeitos som bastante semelhantes. O exército segue a ser temido e respeitado. Está adormecido, mas nom morto.

Assim se pode interpretar que o governo do PSOE tenha cedido a umha das demandas "históricas" dos quartéis à hora de implicar as Forças Armadas na luita contra o independentismo, nomeadamente contra a ETA. As novas Directivas de Defesa Nacional aprovadas ou/e em preparaçom polo Governo permitem a intervençom militar para combater as reivindicaçons soberanistas das naçons oprimidas ao nom diferenciar "terrorismo externo e interno", tal como deixou bem claro Rodríguez Zapatero numha reuniom com as Juntas de Chefes de Estado Maior do exército espanhol (JUJEM) simbolicamente realizada a bordo do portavions Príncipe de Astúrias.
O actual clima intervencionista do imperialismo ocidental está a favorecer a participaçom do exército em todo o tipo de "dispositivos antiterroristas", ou seja, no controlo e intimidaçom da populaçom. Os atentados do 11 de Março em Madrid fôrom habilmente utilizados para justificar a presença militar nos aeroportos e estaçons de comboio e nalgumhas instalaçons consideradas estratégicas como centrais eléctricas ou refinarias de petróleo. Esta doutrina antiterrorista pretende militarizar as sociedades com base no recurso ao medo para facilitar o recorte de liberdades e direitos, e assim poder adoptar medidas legislativas favorecedoras do submetimento da classe trabalhadora que evitem a recomposiçom das estruturas de resistência frente à ofensiva neoliberal.

A luita contra toda forma de militarizaçom do território, contra o alargamento dos efectivos militares e policiais, -nom devemos esquecer que a Guarda Civil é um corpo militar-, a modernizando do exército, o incremento dos gastos militares, a construçom de novos quartéis, bases militares e policiais, é umha tarefa de primeira orde numha política de esquerda revolucionária.

Nom há lugar a dúvidas, nem a maquilhagens. O actual exército espanhol nom é muito diferente do que tomou por assalto as praias de Prazeres para construir a fábrica de celulose de Ponte Vedra, o das fragatas preparadas em Ferrol para disparar contra a cidade em plena greve geral polo assassinato de Amador e Daniel, o do 23F, ou o que nos anos vinte do século passado foi pioneiro na utilizaçom de armas químicas contra a populaçom civil durante a ocupaçom do Norte de África e já antes dos campos de concentraçom contra o independentismo cubano na chamada Guerra de Cuba.

Crise do exército, crise de Espanha

Desde o início da sua completa profissionalizaçom em 2000, o exército espanhol nom foi capaz de preencher anualmente o número de vagas previstas para atingir a plena operatividade.

Nestes seis anos, o militarismo espanhol investiu ingentes recursos económicos em propaganda para logar basicamente dous objectivos. Por um lado, lavar a imagem de exército golpista e intervencionista passando a transformar-se num exército humanitário "defensor da paz e a segurança", e polo outro recrutar ao maior número de jovens para alimentar as necessidades do seu funcionamento. Porém, se bem parcialmente logrou limpar entre amplos sectores sociais a imagem que arrastava de vetusto e criminoso exército golpista, tem fracassado estrepitosamente à hora de convenver a juventude de que a carreira militar é umha boa alternativa a um presente caracterizado polo desemprego e a precariedade laboral. Nestes anos, tentou-no de muitas formas: reduzindo o coeficiente intelectual mínimo para poder incorporar-se, abrindo a suas portas a estrangeiros até os 7%, incrementando os salários e concedendo três pagas extras nas unidades mais deficitárias, concedendo facilidades e privilégios em créditos, reduzindo a idade da reforma aos 40 anos cobrando meia pensom, mas compatível com rendimentos por tarefas civis, facilitando a posterior incorporaçom em diversos corpos policiais, etc. Mas, por enquanto, nom logrou os objectivos perseguidos, embora só em 2004 gastasse mais de sete milhons de euros em publicidade.

A realidade é que neste ano tam só há 70.000 soldados e marinheiros profissionais frente aos 120 mil previstos. Mas a situaçom é grave porque, nos dous últimos anos, em lugar de incrementar, tem diminuído a um ritmo de 4% o número de jovens dispostos a fazer parte das FAS.

Esta situaçom é umha evidente expressom da profunda crise do projecto nacional espanhol. Quando numha sociedade nom existe um considerável sector da juventude "disposta a matar e morrer pola Pátria", o projecto nacional sobre o qual se levanta esse Estado agoniza. Eis o que está felizamente a acontecer aqui.

Incremento dos gastos militares

A classe trabalhadora tem mil razons para se opor aos exércitos regulares. No actual recrudescimento da ofensiva do Capital contra o Trabalho, quando o Patronato, o Governo e os corruptos sindicatos tradicionais pactuam a congelaçom salarial, quando a preacriedade laboral nom deixa de alastrar, enquanto se recortam os gastos sociais em educaçom, saúde, pensons, vivenda, protecçom ao desemprego, o Estado espanhol, da mao do PSOE, continua a incrementar os gastos em armamento, situados nos postos mais elevados da Uniom Europeia. Nom há dinheiro para salário social, para alargar o SMI, para mais e melhores bolsas de estudo, mas sim há fundos para investigaçom militar, para comprar novas fragatas, mais avions de combate, mais tanques. Esta é a verdadeira cara do governo de Zapatero.

Umha resposta unitária, plural e firme

O conjunto do soberanismo socialista nom pode ficar à margem desta movimentaçom. A 28 de Maio, nas ruas da Corunha, tem que estar presente a Galiza rebelde, a Galiza que nom se rende, a Galiza corajosa. Devemos recebê-los da única forma possível, mostrando abertamente que nom os queremos.

Para o sucesso desta mobilizaçom que recolhe o sentir maioritario do proletariado cumpre dar umha resposta unitária, plural e firme. Nom se pode estar reunid@ enquanto os responsáveis directos pola opressom social e nacional da classe trabalhadora desfilam impunemente a cem quilómetros do congresso da CIG.


 

Voltar a Abrente nº 35

Voltar à página principal

 

 

orthopedic pain management