Nem espanholismo, nem autonomismo
Adiante com a nova esquerda independentista

 

A nova esquerda independentista que começou a fraguar-se há menos de umha década tem acumulado neste breve período de tempo um considerável capital humano, ideológico, mas sobretodo de acçom sócio-política, essencial para poder lograr alguns dos mais elementares objectivos tácticos que se perseguiam a finais da década de noventa. Embora sejam modestos os logros, som enormes os desafios que temos diante de nós.

A configuraçom do moderno MLNG nascia sob os parámetros da pluralidade ideológica e política, da necessária unidade organizativa em estruturas comuns, e do abandono do consignismo estratégico mediante umha prática centrada na intervençom táctica sobre a realidade concreta. Estes três eixos tenhem sido a chave da evidente consolidaçom, avanço e expansom, experimentado nesta incompleta década. No entanto, subsistem no seu seio umha série de tendências que, por activa ou por passiva, continuam ancoradas na inércia conformista da ausência de objectivos tangíveis, na satisfaçom com a marginalidade grupuscular e no autismo de quem carece de mais horizonte que perpetuar os erros de um passado que cumpre conhecermos para aprendermos dos seus acertos, mas superando sempre qualquer cativeiro nostálgico.

A nova esquerda independentista está a construir um projecto sócio-político global e autónomo, que questiona de raiz o modelo social neoliberal vigorante na Galiza, a dependência nacional, e a específica marginalizaçom que padece metade da populaçom, as mulheres, e de postulados revolucionários procura a sua completa transformaçom. Isto nom só significa sermos um movimento estigmatizado polos aparelhos repressivos do regime; também significa traçar umha demarcaçom clara e inequívoca com a corrente hegemónica do nacionalismo galego, actualmente instalada numha claudicante prática autonomista. Embora na teoria este irrenunciável princípio semelhe ser compartilhado pola totalidade dos agentes que conformamos a esquerda soberanista e socialista galega, a realidade desmente esta afirmaçom.

Um sector do MLNG mantém umha preocupante dependência sentimental, e mesmo política, do autonomismo. Continua fascinado pola mitificada trajectória do seu passado e polos indiscutíveis serviços emprestados à causa nacional galega, nom assumindo que a dia de hoje o BNG e as suas entidades satélites som um contraditório instrumento mais do processo desgaleguizador e alienante que o capitalismo espanhol exerce na Galiza. Sabemos que esta formulaçom gera mal-estar em sectores bem intencionados da base social nacionalista, e também em sectores independentistas; mas, deixando de parte desapaixonados subjectivismos, e aplicando a interpretaçom materialista do marxismo, é um contundente diagnóstico que nom pode ser questionado, nem rebatido, pois está suficientemente contrastado nos factos da gestom municipal das grandes cidades onde governa ou co-governa, e pola prática política nas instituiçons em que tem representaçom.

Existe umha obsessom por lavar a cara do autonomismo, por evitar chamar as cousas polo seu nome, por justificar decisons e comportamentos intoleráveis, por compreender a sua contínua submissom ao regime, por gerar falsas contradiçons dimensionando pontuais posicionamentos que calculadamente procuram criar confusionismo e evitar a perda de referencialidade entre aqueles sectores aos quais ainda nom caiu a venda dos olhos.

Logicamente, o autonomismo acompanha com certa atençom esta realidade mediante indissimulados gestos aos bons independentistas frente aos maus independentistas. Som bons aqueles que, sem terem superado o complexo de Édipo, nom questionam a sua plena integraçom na monarquia imposta por Franco, buscando o aplauso e a compreensom. Que ingenuidade!. Som maus aqueles que optamos por denunciar as ineludíveis responsabilidades do autonomismo pola má saúde do movimento popular, que apostamos por continuarmos avançando no caminho encetado sem solicitarmos autorizaçom a ninguém, sem pensarmos, nem nos preocuparmos, polos seus interesses, nem confundi-los com os da Naçom e do nosso Povo Trabalhador. Nom há que ser muito hábil para compreender que o que realmente se procura é dividir e neutralizar a consolidaçom do novo projecto de mobilizaçom e luita que necessita a classe trabalhadora galega. Mas alguns preferem dançar numha sala fechada aos estritos acordes da velha e elitista orquestra, em lugar de construir umha nova sinfonia para actuar com plena liberdade na intempérie deste povo.

Nom é a primeira, nem será a última vez que, das páginas do jornal comunista do MLNG, esclarecemos o papel jogado polo BNG e o conjunto de entidades supeditadas aos seus interesses, na consolidaçom do pseudemocracia espanhola na Galiza. O actual BNG tem emprestado nos últimos cinco anos grandes serviços ao bloco de classes oligárquico espanhol, renunciando ao exercício de autodeterminaçom, assumindo a arquitectura jurídico-política do regime (Constituiçom espanhola e Estatuto de Autonomia), contribuindo com a sua prática para a normalizaçom democrática, negando a existência de um conflito político, domesticando o movimento popular (o famoso dique de contençom da enxurrada de indignaçom popular -Beiras dixit), colaborando abertamente e sem o mais mínimo pudor na criminalizaçom e repressom da esquerda independentista. Com vinte e cinco anos de atraso, aplicárom a lógica da Transiçom, realizárom idêntico percurso que o PSOE e o PCE no período 75-77. A dia de hoje, a prática hegemónica do BNG nom colabora na construçom nacional: nem no ámbito lingüístico e cultural, nem na denúncia da espanholizaçom, nem na paulatina ruptura quotidiana com Espanha, nem no combate ao neoliberalismo. A direcçom do autonomismo é hispanodependente, é patologicamente anti-independentista.

Tam só o colonialismo mental de filhos pródigos, de quem por um natural temor às adversidades, pola cobarde comodidade, pola lógica ansiedade emanada da solidade política e social, se nega a ver a realidade, explica essa tendência suicida a continuar à espera dum milagre na casa paternal. Mas como os milagres nom existem, nem tampouco é viável que no interior do autonomismo tenha lugar um cataclismo político que modifique a orientaçom imposta pola pequena-burguesia, os sectores que continuam a acreditar nos factos inexplicáveis polas leis da natureza, ou bem se despreendem definitivamente desse cordom umbilical, ou entom devem ser conseqüentes com o seu reverencial seguidismo. Porém, tal como as árvores impedem ver o bosque, a sua composiçom de classe pequeno-burguesa nom facilitará a superaçom desta tara.

Na Galiza, a dia de hoje, nom é factível construirmos o projecto revolucionário que representa o MLNG sem mantermos umha crítica radical e implacável, sem concessons, nem compreensons, ao que significa o reformismo autonomista como cúmplice, activo ou passivo, da preocupante situaçom em que se acha a consciência nacional galega e na desmobilizaçom dos sectores operários e populares.

A esquerda independentista deve seguir avante o seu processo de consolidaçom com umha prática coerente que procure a referencialidade com base na negaçom do presente e num avançado programa de luita, que é o nosso melhor aval, a única alternativa real que podemos apresentar e oferecer ao povo trabalhador galego. Nom devemos nada a ninguém, nom temos dívidas, nem hipotecas, nem mais obrigaçom do que o nosso insubornável compromisso com a Galiza e a sua maioria social.

Eis os parámetros sobre os quais temos de agir. Sobre os que temos que compreender e enquadrar as agressons que nos dirigiu a corrupta burocracia sindical após os sucessos do 1º de Maio em Vigo, quando as forças de ocupaçom espanholas e a polícia local carregou contra a manifestaçom da CIG, espancando operári@s, e praticando três detençons. A repugnante atitude colaboracionista de destacados dirigentes sindicais, dando instruçons de quando havia que realizar detençons, assim como identificando militantes independentistas, nom é nada novo, nem devia surpreender ninguém. A reduzida participaçom nas manifestaçons deste 1º de Maio som fruto da desmobilizaçom social provocada polas falsas expectativas geradas polo Governo de Zapatero, mas também por umha errónea prática sindical que supedita a acçom operária aos interesses eleitoralistas. Quem instrumentalizou a manifestaçons da CIG fôrom aqueles dirigentes que, a partir dos privilégios que lhes concede intervir na tribuna, figérom implicitamente campanha eleitoral polo BNG, saltando a independência política recolhida nos princípios da central, e nom aqueles sectores combativos que questionárom, com umha prática característica da mais avançada luita de classes, a normalidade democrática que nos querem fazer comungar aqueles que há anos deixárom de acreditar no potencial revolucionário do proletariado, e só aspiram a perpetuarem os seus bons salários e privilégios como liberados eternos.

A purga adoptada pola Executiva da CIG, declarando non grata umha força política legal, que só intervém dentro da legalidade em vigor, como é NÓS-UP, além de carecer de qualquer base jurídica e estatutária, é umha esclarecedora liçom da prática criminalizadora e intoxicadora do reformismo. A história da classe obreira galega e internacional está pragada de episódios como este. @s revolucionári@s sabemos que o reformismo, com as suas diversas modalidades e variantes, nom tem limites à hora de contribuir para afogar, e mesmo destruir os sectores mais avançados da classe, em aras de lograr e afiançar a respeitabilidade e confiança da burguesia. A direcçom da CIG vem constatar mais umha vez o que está gravado a ferro e fogo na história da emancipaçom do Trabalho contra o Capital. No entanto, nom devemos resignar-nos, como tampouco devemos assumir umha decisom que nom vai ser factível aplicar. Umha parte significativa da militáncia comunista, e das entidades do MLNG, fazemos parte da CIG, e nem vamos ir-nos, nem vamos permitir que nos expulsem do sindicato.


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As vindouras eleiçons ao Parlamento da Comunidade Autónoma Galega deturpam a realidade do País, a grave situaçom de umha boa parte dos sectores populares, gerando virtuais ilusons. A hipotética perda da maioria absoluta do PP em aras de um governo alternativo conformado polo PSOE-BNG, tem gerado importantes expectativas em amplos sectores populares sob a direcçom da pequena-burguesia, verdadeiro motor dessa mudança de governo seguindo a lógica da alternáncia política. Mas este "atractivo" discurso carece de qualquer base real se analisarmos as experiências dos governos municipais dos grandes núcleos urbanos. As três forças políticas institucionais, -PP, PSOE, BNG-, além das suas naturais diferenças ideológicas e políticas, mantenhem um idêntico fio condutor nos elementos chave, caracterizando-se por nom questionarem o modo de produçom capitalista, nem a dependência nacional da Galiza. Os seus programas podem aparentar ser radicalmente diferentes, mas as suas práticas som bastante semelhantes.
19 de Junho a classe trabalhadiora galega nom joga nada; tampouco vai ter lugar umha batalha decisiva sobre o futuro da Galiza. Porém, sim é importante para consolidar o caminho andado que a esquerda independentista galega obtenha uns resultados que reforcem o seu projecto.

Embora nesta ocasiom nom fosse possível umha única candidatura da esquerda soberanista e socialista, pola ruptura unilateral dos acordos atingidos com NÓS-UP e o PCPG por parte da FPG, é importante nom deixar-se levar por essa superstiçom do Governo alternativo que superará todos os males erroneamente ajudicados à era Fraga, nem polo mal chamado voto útil. A 19 de Junho, o único voto útil é aquele que apoia alternativas radicalmente contrárias à lógica da política espectáculo, da corrupçom, da defesa do modelo capitalista, da opressom nacional da Galiza. Neste caso, o melhor voto, o de resistência e luita, para as mulheres, para a mocidade, para a classe operária e para o conjunto do independentismo é o das candidaturas de NÓS-Unidade Popular.


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