A GALIZA DO
FUTURO
Nom é
a primeira vez que deste jornal comunista, decano da imprensa da esquerda
independentista galega actual, abordamos as profundas mudanças que
está a experimentar a morfologia social do nosso país. Galiza
deixou de ser um país rural para passar a ser umha sociedade em acelerada
urbanizaçom; passou de contar com umha economia eminentemente agrária
para umha industrial e de serviços; de ser um território atrasado
e isolado a ser umha naçom periférica do primeiro mundo ocidental
com uns índices sócio-económicos enquadrados nos últimos
lugares da Europa rica e opulenta.
A dia de hoje,
dum rápido passeio polos principais núcleos urbanos, derivam
duas características que nom podem passar despercebidas: a selvagem
e agressiva destruiçom urbanística provocada pola especulaçom
imobiliária emanada do modelo de "desenvolvimento" irracional
iniciado na década de sessenta, e a cada vez maior presença
de trabalhadoras e trabalhadores provenientes de algumhas das regions planetárias
mais empobrecidas polo imperialismo.
Centenas de imigrantes
do Magreb, da América Latina, da regiom subsaariana, do Leste europeu,
estám a instalar-se nas cidades e grandes vilas, sendo em muitos casos
pasto das máfias do mercadeio de seres humanos, fornecendo os circuitos
da prostituiçom, ocupando postos de trabalho mal remunerados e na maioria
dos casos sem os mais mínimos direitos laborais, padecendo todo o tipo
de desprezos e marginalizaçons.
Para a esquerda
independentista e socialista galega este fenómeno em curso, fruto da
globalizaçom capitalista, nom pode ficar à margem das nossas
análises e preocupaçons. Longe de discursos geradores de infames
estados de opiniom que alimentam o racismo, a xenofobia, o fascismo, devemos
incorporar estes novos contingentes d@s condenad@s da terra no processo de
libertaçom nacional e social de género. A amnésia educativa
e anestesia informativa a que se vem submetidas as multitudes do mundo do
Trabalho geram massas amorfas, indefesas e inofensivas para o Capital, mas
beligerantes e agressivas com aquelas fracçons do proletariado mais
empobrecidas e estigmatizadas polos medos e preconceitos introduzidos polos
poderosos para dividir e evitar a uniom d@s de abaixo.
Para nós,
sermos galeg@s nom está baseado em absurdos essencialismos étnicos
ou raciais, em peculiares características da estrutura craniana, nas
dúzias de apelidos eminentemente galaicos, ou em similares referentes
do reaccionário patriotismo pequeno-burguês. Todo aquele, toda
aquela que vender a sua força de trabalho neste país, independentemente
da sua origem, cor, raça e religiom, e manifeste vontade de integraçom,
é galeg@. É secundário ter nascido em Celanova ou em
Quito, em Ourol ou Bucareste, em Lalim ou Praia; o fundamental é que
fazemos parte da mesma classe, padecemos nas nossas carnes a ditadura da burguesia,
a prepotência e as humilhaçons dos que dia após dia se
fam mais ricos à custa do nosso suor e lágrimas.
O MLNG nom pode
ficar expectante ou passivo perante umha realidade que semana após
semana vai incrementando-se, ocupando espaços e visibilidade nas ruas
e praças. Temos o dever de contribuir para integrá-los na construçom
nacional deste país, de educá-los no respeito pola nossa cultura
e na utilizaçom da nossa língua, evitando que sejam um novo
e eficaz instrumento da espanholizaçom empregado polos que provocam
a sua miséria e sobre-exploraçom.
A dia de hoje, oito em cada cem crianças nascidas na Comunidade Autónoma Galega som de mae estrangeira. A tendência anual constata que este fenómeno está em alta. Longe de alarmismos reaccionários, temos de conseguir ligar com os sectores mais avançadas das diversas comunidades, organizá-los na defesa dos seus legítimos direitos, colaborar na conquista de melhores condiçons de vida, conjugar a conservaçom das suas culturas, tradiçons e línguas com o respeito e plena integraçom na do país de acolhida, convertendo-@s em activistas pola causa galega, pola emancipaçom de classe e de género. Mas todo isto deve ser fruto de um longo labor de persuasom e achegamento, em que nom tenham cabimento atitudes paternalistas, e sim toleráncia e compreensom perante a complexidade e as dificuldades. A Galiza do futuro deve ser construída com base na realidade do século XXI, com base nos valores da esquerda, alheios a modelos alicerçados sobre os diversos pelames das linhas discursivas anacrónicas e enxebristas.
Os falsos
apelos unitários
Os últimos meses constatárom a absoluta inexistência de vontade política por caminhar conjuntamente, por desenvolver espaços comuns de trabalho entre as diversas correntes que configuramos o soberanismo de matriz socialista. Além dos discursos vácuos, dos brindes ao sol, das declaraçons politicamente correctas, da demagogia e hipocrisia dos manifestos, a realidade vem desmentindo e desmascarando os falsos profetas a unidade.
Se em 1999 a esquerda independentista ensaiou com umha prática avalizada polo activo apoio da base social um caminho de unidade, este foi dinamitado do interior por quem de noite desfiava o que aparentemente tecia de dia, para assim sementar confusionismo e legitimar a sua incapacidade, comodidade e cobardia políticas. Após a ruptura unilateral do trabalho unitário por parte da FPG no verao de 2000, tivérom que passar vários anos para que em 2004 se produzisse um início de normalizaçom das relaçons e posterior aproximaçom entre esta força e NÓS-UP, a iniciativa da organizaçom unitária da esquerda independentista. Fruto desta nova dinámica vinhérom o Dia da Pátria do ano passado e a campanha contra a Constituiçom Europeia desenvolvida entre Novembro e Fevereiro deste ano. As divergências ideológicas e políticas entre tradiçons e trajectórias díspares, entre estilos de trabalho e intervençom diversos, nom impediam atingir acordos, cristalizar avanços, multiplicar recursos e amplificar a projecçom social do independentismo. Mas umha sistemática falta de honestidade e clareza, umha doentia desconfiança, furtou seguir avançando na direcçom que o nosso Partido vem defendendo desde o I Congresso, em sintonia com a posiçom maioritária do corpo social que apoia as teses independentistas.
Embora nom se
tenha colaborado na campanha contra o desfile do militarismo espanhol do 29
de Maio, numha nova mostra de complexos e medo cénico a ocupar a rua
para desafiar sem aditivos a prepotência do imperialismo espanhol, para
além da domesticada virtualidade incendiária das inofensivas
colunas de opiniom cargadas de radicalidade meramente estética, os
quatro meses empregados para elaborar umha candidatura unitária do
soberanismo socialista às eleiçons autonómicas, podia
parecer que se avançava em superar as tendências disgregadoras
e cainitas que definem geneticamente os filhos pródigos da evoluçom
autonomista nas últimas três décadas. Mas novamente NÓS-UP
e o PCPG fôrom enganados por umha FPG que durante meses manifestou umha
inequívoca vontade de articular umha candidatura unitária, e
a última hora, quando já estava praticamente fechado o acordo
programático, a legenda eleitoral, o orçamento da campanha e
a distribuiçom d@s cabeças de lista, sem prévio aviso,
sem manifestar o mais mínimo signo de mal-estar, rompeu novamente de
forma unilateral o acordo, optando por apresentar candidatura em solitário.
Além do considerável erro estratégico, da miopia política,
do particularismo partidista desta atitude, a realidade constatou que nom
se sustenta, constituindo umha decisom que só favoreceu os inimigos
da Galiza, os responsáveis pola opressom. Numha conjuntura claramente
desfavorável e adversa, com umha forte pressom polo mal chamado "voto
útil", em que sectores próximos de ambas forças
nom entendêrom porque a esquerda independentista apresentava candidatura
própria e nom contribuía para deslocar o fraguismo entregando
um apoio crítico a quem realmente tinha possibilidades de derrotá-lo
nas urnas; em que pola primeira vez na história duas candidaturas independentistas
e de esquerda concorrem no mesmo processo eleitoiral, a soma de ambas forças,
-apesar das testemunhais cifras em que ainda nos movemos no que a apoio eleitoral
di respeito-, atingem um teito, demonstrando as enormes possibilidades e a
ocasiom perdida à hora de constatarmos até onde teria chegado
o grau de adesom nas urnas, no dia 19 de Junho, de umha candidatura plural
que englobasse o conjunto do socialismo soberanista de ámbito nacional.
Esta atitude
nom fechou as portas a continuar provando e ensaiando o caminho unitário.
Mas a dia de hoje, após a negativa da FPG a secundar umha mobilizaçom
unitária do Dia da Pátria sob a convocatória das Bases
Democráticas Galegas sem a mais mínima explicaçom, com
umha prática antagónica às regras da mais elementar cortesia
política entre organizaçons de esquerda, fecha definitivamente
um ciclo, esclarece o panorama político e força o MLNG a introduzir
na sua táctica os reajustamentos adequados para seguir avançando
e sermos úteis à Galiza e à classe obreira.
Seguir falando, apelando sobre imprescindíveis unidades, justificando posiçons, atitudes, posicionamentos, negativas a colaborar, empregando o desvalorizado argumento da divisom existente, carece actualmente de qualquer consistência.
A nova situaçom
política
O nosso Partido
nom pode deixar de congratular-se por ter contribuido para a derrota da extrema-direita,
por ter sido um activo motor contra os dezasseis anos do autoritarismo fraguista.
Umha destacada parte do povo trabalhador galego optou por apoiar umha maioria
eleitoral, por cristalizar nas urnas a mudança reclamada nas mobilizaçons
operárias e populares, nas massivas adesons às greves gerais,
contra a LOU, a maré negra, e a guerra imperialista.
Porém,
tal como já temos manifestado, nom compartilhamos a euforia das diversas
variantes do reformismo, da pequena burguesia, nom temos pois depositada a
mais mínima expectativa, nem confiança no governo alternativo
atingido polo pacto entre a social-democracia espanhola e o autonomismo galego.
Sabemos que o
novo cenário socio-político aberto vai provocar umha ainda maior
desmobilizaçom popular, vai institucionalizar e domesticar ainda mais
o sindicalismo nacionalista, vai corromper combativos activistas sociais,
e basicamente vai frustrar o desejo de mudanças reclamado pola maioria
social galega.
No entanto, no
longo prazo pode ser positivo para o desenvolvimento e introduçom social
da esquerda independentista perante a crónica do fracasso anunciado
que representará para as reivindicaçons e os anelos das massas
populares o continuísta governo de Tourinho e Quintana.
Nós seguiremos,
como sempre, na oposiçom nacional e de classe, defendendo o direito
de autodeterminaçom e a luita obreira como único caminho para
atingir as reclamaçons mais sentidas deste povo.