Os senhores da injustiça

A democracia burguesa está indissoluvelmente ligada à economia de mercado. A propriedade privada dos meios de produçom e a exploraçom da força de trabalho baseada no lucro que o Capital extrai em mais-valia necessitam umha legitimaçom política-ideológica que facilite a sua reproduçom e, por sua vez, contenha o desenvolvimento da luita de classes. Deste jeito, a democracia representativa que o capitalismo promove no Ocidente procura reduzir ao mínimo e disciplinar ao máximo as forças políticas, em base a um artificial eixo direita-esquerda, conservador-progressista, na procura do bipartidarismo mediante a construçom de partidos interclassistas de massas que aparentem defender interesses antagónicos e, portanto, gerem essa virtual realidade da “democracia”. Os partidos Republicano e Conservador norte-americanos, ou os Laborista e o Conservador británicos som paradigmas do modelo perfeito que promove o Capital.

As modernas e desenvolvidas “democracias ocidentais” sempre tentárom evitar contar nos parlamentos com representaçom de forças genuinamente operárias e populares e, naquelas formaçons sociais que padecem opressom nacional, impedir a presença do independentismo ou soberanismo. Durante o processo de estabilizaçom e consolidaçom do regime pluripartidarista, contribuírom para o acesso da esquerda reformista, com o intuito de facilitar a legitimaçom entre os sectores mais conscientes da classe trabalhadora, e simultaneamente evitar o desenvolvimento de movimentos de massas que empregassem a rua como espaço de acçom e a utilizaçom de formas de luita à margem do que o sistema permite, mas à medida que os eficazes mecanismos de alienaçom de massas iam logrando os seus objectivos de anular a capacidade de luita operária e popular, fragmentando a classe trabalhadora, introduzindo os valores do individualismo, o exercício do consumismo compulsivo, o reformismo nas suas diversas variantes deixou de ser útil e passou a ser, portanto, prescindível.

No Estado espanhol, o PCE foi determinante para atingir os pactos que perpetuárom a reforma do franquismo nesta caricatura democrática mediante a imposiçom da II Restauraçom bourbónica. A partir de um determinado momento, a início da década de oitenta do século passado o carrilhismo e as suas posteriores orientaçons já nom eram necessárias, o que fijo com que promovessem a sua debacle até o converterem no actual testemunhalismo de IU.

Na Galiza, o sistema, após ter fracassado na tentativa de evitar o acesso da esquerda nacionalista ao parlamentinho autonómico em Outubro de 1981, promoveu umha modificaçom do regulamento interno com carácter retroactivo que provocou a expulsom dos deputados eleitos do soberanismo de esquerda, condenando ao ostracismo umha parte qualitativamente significativa do movimento popular que, coerentemente, questionava e nom assumia a estrutura jurídico-política do regime. Esta decisom, unida a umha forte campanha de pressons mediáticas e políticas, debilitou o movimento, quebrou a unidade interna, acelerou as contradiçons que mais tarde provocárom a ruptura e um novo processo de recomposiçom organizativa sobre novas bases político-ideológicas que posteriormente fôrom determinantes na deriva regionalista e social-democrata, junto à plena integraçom no sistema, que caracteriza hoje o BNG.

Porém, o sistema pluripartidarista, um dos dogmas da “superioridade” da economia de mercado ocidental sobre as experiências socialistas, pode ser reduzido à mínima expressom e mesmo ser prescindível, sempre e quando os interesses do grande capital industrial, comercial e financeiro estiverem em perigo polo desenvolvimento da luita de classes promovida polo proletariado organizado. Os fascismos no período de entreguerras, o levantamento militar franquista de 1936, as mais próximas ditaduras do cone sul latino-americano, ou a recente tentativa de golpe de Estado na Venezuela, som exemplos indiscutíveis do carácter meramente instrumental da democracia representativa para a burguesia.

Quem realmente manda hoje no País?

É umha pergunta que muitas vezes formulamos, escuitamos em inumeráveis ocasions e da qual temos obtido respostas díspares. Logicamente, numha naçom como a Galiza, carente de um Estado próprio por nom ser soberana, o poder político formalmente instituído apresenta uns evidentes défices que imposibilitam adoptar decisons numha boa parte das competências naturais de um governo. Mas também a incorporaçom forçada da Galiza à Uniom Europeia por mor da nossa dependência do Estado espanhol merma umha considerável parte da soberania característica de um povo livre e soberano.

Mas, se a Galiza contasse com Estado próprio e nom estivesse incorporada numha superestrutura imperialista como a que hoje representam os 27 estados da Uniom, mantendo no entanto a economia de mercado e a democracia burguesa, quem realmente incidiria na orientaçom das políticas do governo? As pessoas que votárom em determinado partido político seguindo as promessas de um programa eleitoral? O conjunto d@s deputad@s do parlamento após a síntese atingida em debates construtivos e sinceros? Obviamente nom. Aqui radica um dos cernes da democracia real, da democracia socialista frente à pseudodemocracia que nos imponhem.

As forças políticas, na democracia burguesa, salvo contadas excepçons, representam os interesses das diversas fracçons da burguesia, e no seu interior contam com lobbies de poder que representam interesses concretos das grandes empresas, bancos, companhias, e também de ámbito local, em muitas ocasions com contradiçons específicas. Mas nom só, estes partidos som testas-de-ferro e garantes da estabilidade do regime, dos inquestionáveis dogmas em que alicerça: economia de mercado, unidade indivisível da “pátria”, divisom social em classes disfarçada sob “diferenças na renda da cidadania”, porque a prática totalidade dos seus dirigentes, altos funcionários, cargos públicos com responsabilidades directas de gestom mantenhem por origem de classe umha inquestionável adesom ao sistema, ou bem porque se desclassárom, fôrom cooptados mediante elevadas retribuiçons e privilégios que corrompem os superficiais princípios político-ideológicos.

Na Comunidade Autónoma da Galiza, Tourinho e Quintana nom só possuem umha reduzida margem de manobra para aplicarem políticas de esquerda e soberanistas caso tivessem vontade de o fazerem, nom som mais do que simples fantoches dos grandes grupos económicos e financeiros que contribuem implicita ou explicitamente para pagar as suas campanhas eleitorais e, portanto, influem posteriormente nas suas políticas para defenderem os seus interesses. O grande capital é quem condiciona no capitalismo as políticas do conjunto das forças parlamentares, salvo que exista um amplo e sólido movimento popular com representaçom institucional cuja estratégia revolucionária de transformaçom defenda a superaçom do sistema.

O capitalismo do tijolo e do cimento está a agir com absoluta impunidade e descaramento na hora de traçar as políticas urbanísticas da imensa maioria dos concelhos galegos: mudando planos gerais de ordenaçom municipal; requalificando terrenos; promovendo a apresentaçom de moçons de censura perante as resistências ou divergências no momento de concretizar o suborno; destruindo o património arquitéctónico, etnográfico, ambiental e paisagístico da Galiza. Mas isto é possível porque conta com o activo consentimento ou a passsividade cúmplice das forças políticas institucionais.

Alguém que responda com sinceridade e sem condicionantes é capaz de negar que Unión Fenosa, Pescanova ou Fadesa nom marcam o rumo da política de ordenaçom do território, ambiental, urbanística do Governo bipartido?, que PSA-Citroën nom condicionam a política urbanística de Vigo?; Que Amáncio Ortega ou os magnatas de Caixanova e Caixa Galicia tenhem mais peso nas decisons estratégicas em matéria energética, de comunicaçons, na política económica da Junta que tod@s @s conselheir@s junt@s?

É necessário e urgente reagir

A actual democracia burguesa é umha farsa. Os partidos que a alimentam e legitimam (PSOE, PP, BNG, IU) som responsáveis pola actual situaçom de caos que o conjunto do País vive em todos os aspectos. As vindouras eleiçons municipias de 27 de Maio tam só vam significar umha leve recomposiçom interna do mapa político das forças que, áctiva ou passivamente, permitem a desfeita ambiental que padecemos, a destruiçom acelerada do nosso património e a cada vez maior sobre-exploraçom e empobrecimento que padecem a classe operária e a Naçom.

Perante a dispersom e dificuldades na hora de criar umha plataforma sócio-política eleitoral que incorpore no seu interior o conjunto das forças e organizaçons de esquerda anticapitalista e soberanista e atinja representaçom nas Cámaras Municipais, salvo naquelas localidades onde sim foi possível avançar nesta direcçom, as candidaturas Ponte Areas e Vigo de Esquerda, o comunismo galego chama a classe operária, a juventude e as mulheres a nom apoiar nengumha das forças que com um discursos aparentemente de esquerda se apresentam às eleiçons de 27 de Maio. Nom se deve votar nem no BNG, nem em IU, pois as suas políticas som semelhantes às do PP-PSOE: privatizaçom de serviços públicos, desgaleguizaçom social e espanholizaçom das festas, restriçom das liberdades e aumento do controlo social, urbanismo ao serviço das promotoras, construtoras e imobiliárias, perpetuaçom das agressons ambientais; ou seja, mais neoliberalismo e mais projecto espanhol.

Primeira Linha manifesta novamente a sua firme determinaçom de avançar mediante passos firmes e sinceros na recomposiçom dumha esquerda socialista e soberanista que, respeitando a pluralidade ideológica e a independência de classe, logre representar esse cada vez mais amplo sector do povo trabalhador que já nom acredita nas promessas das forças políticas tradicionais.

 

Voltar a Abrente 43

Voltar à página principal

 

 

orthopedic pain management