Casta política cleptocrática

 

Umha das primeiras medidas adoptadas polos deputados e deputadas do parlamentinho autonómico após as eleiçons de Junho de 2005 foi incrementar o seu salário. Nom é umha prática nova, pois a maioria dos presidentes das Cámaras Municipais, após tomarem possessom, acordam reajustar o salário. Porém, é claramente significativa e definitória da ausência de moral pública por parte dos quese “autoproclamam” representantes do povo na actual democracia burguesa.

As deputadas e deputados do PSOE-BNG-PP, em Março de 2006, numha reuniom secreta e sem publicidade, acordárom incrementar o seu salário em 10%, passando a cobrarem um mínimo de 53.604 euros brutos por ano face aos 48.500 e que vinham recebendo. Isto significa que este “pessoal” obtém umha verba mensal de 4.167 e sem a obrigaçom de terem porquê assistir ao parlamentinho. Que bicoca!, cobram quase nove vezes mais do Salário Mínimo Interprofissional (SMI) sem terem que “trabalhar”. Enquanto o absentismo laboral é premiado com os fundos públicos, o capo do patronato galego, António Fontenla, dizia em meados de Outubro que “nom há correspondência entre o que se ganha e o que se produz”, justificando assim os inferiores salários (à volta de 500 e) que um trabalhador galego recebe em relaçom à média estatal. O patrom dos empresários queixa-se da baixa produtividade da classe operária galega.

Mas a Cámara também paga os gastos de “deslocamento” dos deputados e deputadas com dedicaçom plena, quantidade que experimentou um incremento de quase 9%, passando dos 0,23 euros por quilómetro aos 0,25.

Mas, por se isto nom fosse suficiente, estes mesmos senhores e senhoras acordaróm há um par de meses introduzir na Lei da Funçom Pública autonómica a concessom de um plus de 15.000 e anuais com carácter vitalício para todos aqueles funcionários públicos que tenham ocupado cargos na Administraçom Autonómica. Ou seja, mais de mil euros por mês quando umha boa parte da classe trabalhadora, basicamente a juventude, nom atinge esse salário mensal em longas jornadas laborais. E há uns dias concedêrom aos ex-presidentes da Junta um salário astronómico com direito a utilizar carro oficial para deslocamentos e um funcionário público para exercer de administrativo.

O caso dos presidentes de cámaras municipais é similar e em muitos casos mais alarmante. Nos dias de hoje, na Comunidade Autónoma há mais de umha dúzia que superam os 60.000 euros ano.

A isto em muitos casos devemos acrescentar rendimentos extra por fazerem parte de conselhos de Administraçom de entidades públicas ou de outras instituiçons como as peputaçons provinciais ou do Congresso e Senado espanhóis.

Mas isto nom fica aqui. O Presidente da Junta recebe oficialmente umha retribuiçom superior aos 80 mil euros, muito semelhante ao salário de Quintana e algo superior aos 71 mil euros d@s Conselheir@s, embora substancialmente inferior à de Dolores Vilarinho, actual presidenta do parlamentinho, que se bem mantém em segredo o ordenado que recebe, supera os 110 mil euros, similar ao que recebe o presidente de SOGAMA. Mas presidentes de empresas públicas e de organismos mistos tenhem salários ainda mais astronómicos: 120 mil euros os conselheiros da CRTVG ou perto de 200 mil o gerente do Centro Tecnológico do Mar.

Nesta democracia, continuísta do franquismo, o grau de corrupçom da casta política que ocupa a representaçom institucional bate recordes ano após ano. Enquanto os salários médios perdem poder aquisitivo, centenas de milhares de trabalhadores tenhem dificuldades para chegar a fim de mês, padecem contratos precários e eventuais, baixos salários, vem reduzidos os direitos laborais, as pensons de reforma som miseráveis, há mais de cem mil desempregad@s, mais de dez mil jovens emigram anualmente perante a ausência de perspectivas, a casta política carece de pudor para incrementar o seus milionários salários, equiparando-os aos dos executivos e gestores de empresas.

Os próprios dados estatísticos oficiais reconhecem que o salário médio na Galiza é hoje inferior ao do ano 2000, –reduziu-se 2.500 e anuais–, e que continuamos a ter os salários mais baixos do Estado espanhol, só por cima da Estremadura.

As disparatadas remuneraçons dos “políticos” permitem compreender melhor a boa sintonia existente entre eles, as cada vez mais virtuais diferenças da etiqueta. Salvo em questons menores e colaterais, muitas vezes meramente retóricas, na política diária é cada vez mais difícil reconhecer a que partido pertencem quando falam na TV. As categorais esquerda/direita, forças espanholistas ou nacionalistas galegas, é cada vez imprecisa, fica mais esbatida. O discurso é clónico, condicionado polas normas dos manuais de marketing, adaptado às regras do neoliberalismo e do encaixe da Galiza no projecto imperialista espanhol.

Assim, a prática totalidade desta autêntica praga –independentemente das cores políticas que vista, chame-se PSOE, BNG ou PP– age de forma similar.

Os actuais representantes institucionais nom tenhem como objectivo realizar um serviço público à comunidade, defender os sectores sociais que teoricamentam representam. A sua participaçom na política é umha simples coarctada para obter salários milionários acompanhados de enormes regalias e privilégios à custa os fundos públicos. Daí as constantes navalhadas que se produzem nos partidos sistémicos na hora de confeccionar as listas eleitorais. Todo o mundo pretende ocupar os primeiros postos, os denominados “de saída”, para garantir ser eleito. O sistema funciona assim.

Ser político profissional é sinónimo de boa vida, de bons salários sem “bater pancada”, de privilégios, mas também de certo reconhecimento e projecçom social.

Embora o desprestígio desta política seja umha realidade entre amplos sectores populares, nom podemos obviar que boa parte do povo, perante a ausência de alternativas viáveis de luita e mudança, continua a alimentar com o seu voto a impunidade e a carência de moralidade com que age esta minoria corrupta.

Casta que, insistimos, à margem da força na qual milite, coincide plenamente nas grandes decisons e nom questiona o modelo socioeconómico imperante, nem o status de dependência que a Galiza padece.

Os 75 senhores e senhoras que ocupam os bancos do Hórreo, a prática a ser um ritual endogámico carente do mais mínimo interesse popular. Embora tenha sido transmitido em directo pola TV e algumhas emissoras de rádio, o seu acompanhamento foi praticamente nulo.

Só interessava a parte dos 75 deputados e deputadas, dizemos parte porque dúzias deles, tal como se podia seguir polas imagens televisivas, nom atendiam às intervençons, dedicando-se à leitura ou a falar ao telefone, aos jornalistas que cobriam o acto e aos convidados presentes nas bancadas.

Ninguém aguarda quase nada do que as instituiçons autonómicas decidem, e nom só porque consciente ou inconscientemente, o povo sabe da carência de soberania deste parlamentinho amputado e mais decorativo que real.

A seqüencial denúncia contra políticos corruptos que os meios de comunicaçom sobredimensionam, relacionados com subornos, vinculaçons directas com o capitalismo do tijolo e o cimento, a especulaçom urbanística, requalificando terreios e favorecendo determinadas empresas em troca de comissons, é umha necessidade do sistema para se legitimar e criar falsas expectativas sobre a legalidade do regime.

Normalmente, as pessoas detidas caírom em desgraça política no seio dos seus partidos, agírom com excessiva imprudência ou som simples peons sacrificados.

O sistema é corrupto por natureza, nom pode ser regenerado a partir do interior, a sua lógica centrífuga absorve e integra a esquerda reformista e boa parte dos líderes populares, mas a classe trabalhadora, a juventude, as mulheres, os movimentos sociais, as forças revolucionárias nom podemos renunciar a intervir no seio do aparelho institucional. A falta de representaçom a que nos vemos submetidos só consegue é reforçar essas práticas. É imprescindível construir movimento popular, mas também entrar como cavalo de Troia nas entranhas do monstro.

 

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