Desafiemos a voracidade do Capital

A classe trabalhadora leva mais de duas décadas a padecer o retrocesso paulatino das conquistas e direitos adquiridos na luita de classes. Desde que no fim dos setenta a burguesia lançou umha ofensiva para recuperar parte da taxa de ganho que se tinha visto obrigada a ceder a conseqüência da luita operária e popular, passamos de posiçons combativas a ver instalada a nossa classe no actual marasmo e derrotismo.

Boa parte das ferramentas defensivas de classe, os sindicatos, fôrom cooptados ou, no melhor dos casos, amansados polo regime, até os transformar em mais umha peça da engrenagem do sistema. Os “Pactos da Moncloa”, assinados em 1977, e as posteriores reediçons dos pactos sociais que desde aquele momento venhem rubricando legislatura após legislatura os sindicatos amarelos e entregusitas espanhóis, unido à derrota subjectiva com que a nossa classe interpretou a implosom do socialismo soviético em 1991, tenhem provocado o aumento do desconcerto, da frustraçom e da desmobilizaçom no seio do movimento obreiro.

Amputados ou domesticados os principais instrumentos de combate para defendermos os logros atingidos, para evitarmos perder direitos, adquirirmos mais conquistas, a classe operária nom pode ficar inerte à espera de um milagre.

A actual profunda crise do modo de produçom capitalista está afectando directamente às condiçons de trabalho e ao nível de vida da totalidade do povo trabalhador. Contrariamente às promessas eleitorias do PSOE ao longo das semanas prévias ao mês de Março, negando a existência da crise, esta manifesta-se com total crueza, golpeia sem piedade.

Embora Zapatero tenha mentido para ganhar as eleiçons e agora sem o mais mínimo rubor considere opinável a sua existência, a realidade nom deixa lugar a dúvidas. O desemprego aumenta, a flexibilidade e a precariedade laboral continua a subir, as jornadas laborais intermináveis vam-se impondo como algo natural, tal como a reduçom dos dias de férias; os produtos alimentares básicos, o combustível, a electricidade, o transporte, as hipotecas nom param de aumentar. Os salários continuam congelados e a inflaçom dispara. Cada dia que passa é mais difícil chegar a fim de mês. A queda do consumo é um inquietante e eloqüente dado que define a gravidade da situaçom.

Mas o governo espanhol e o governinho autonómico nom só nom adoptam medidas para paliar a crise, como mantenhem similares políticas socioeconómicas neoliberais que agudizam as suas conseqüências e só favorecem os interesses do grande capital.

Zapatero, Tourinho e Quintana governam só para os ricos, pretendendo maquilhar a realidade com retórica progressista. Mas cada vez é mais difícil enganar. As facturas chegam todos os meses, o cabaz da compra é cada vez mais caro e vem cada vez mais vazio. O depósito da gasolina é difícil de encher. Com os números reais das economias familiares, já nom se podem fazer malabarismos.

Mas a lógica predadora do Capital nom tem limites. Enquanto a classe trabalhadora e os sectores populares temos que apertar o cinto, ver reduzir sensivelmente o nosso nível de vida, todos os dias constatamos –porque sem o mais mínimo pudor assim o arejam nos seus meios de (des)informaçom– que os bancos, as grandes empresas, ano após ano incrementam exponencialmente o seu ganho, como os directivos das companhias que aplicam reduçons do quadro de pessoal e solicitam sacrifícios aos trabalhadores e trabalhadoras, como a casta política ao seu serviço, aumentam os seus salários milionários.

Eles comem todo e nom deixam nada!

A burguesia pretende manter os seus lucros à custa da classe trabalhadora. Mas se todo isto nom fosse suficiente ainda quer mais e mais.

A Uniom Europeia, a que nos tinham “vendido” como a Europa social, acabou de aprovar a Directiva da semana laboral até as 65 horas, ou seja, a possibilidade de implantar jornadas de 10 a 12 horas de 6 dias por semana, que devem ser pactuadas individualmente entre o empresário e as trabalhadoras e os trabalhadores, para assim dinamitar a negociaçom colectiva e a representaçom sindical.

Sem nengum voto contrário por parte dos ministros de Trabalho, (o espanhol abstivo-se), agora está em discussom no Parlamento Europeu.

Se finalmente a directiva for ratificada, estaremos a assistir à restauraçom das condiçons de trabalho decimonónicas, pois em 1917 a OIT aceitou a jornada laboral das 8 horas diárias no que foi umha vitória histórica do movimento operário.

A decisom adoptada nom nos deve surpreender. Fai parte da ofensiva estratégica e global das burguesias imperialistas contra o mundo do Trabalho, aplicada na Directiva Bolkenstein que refrenda a transferência de mao de obra de países com salários inferiores; na Directiva do Retorno, um ataque frontal aos direitos humanos das pessoas imigrantes sem papéis, que serám automaticamente conduzidas a cárceres eufemisticamente chamados "centros de detençom", ondem poderám ficar até um ano e meio, quando serám finalmente expulsas por ordem judicial. A partir da expulsom, nom poderám entrar em território da UE durante cinco anos; ou a o Processo de Bolonha que privatiza e mercantiliza o ensino universitário.

Por este motivo, o nom ao Tratado de Lisboa no referendo irlandês é umha boa notícia que constata a oposiçom da classe obreira a um modelo de Europa contrária às promessas e aos dicursos das elites políticas.

Tínhamos razom as organizaçons operárias e populares que nos manifestamos radicalmente contrárias à Constituiçom Europeia de 2005 e apelamos ao voto contrário no referendo. Esta é a Europa do Capital, dos estados, do patriarcado, do imperialismo e da guerra. Nom é nem pode ser o nosso modelo de Europa.

Este é o capitalismo real que nos oferece a burguesia. Chegou pois o momento de começar a reagir. Nom podemos deixar-nos devorar pola lógica do capitalismo. Nom podemos aguardar mais agressons adiando a necessária resposta contundente. Nom podemos seguir continuar a depositar a confiança na casta política corrupta, nas forças vitualmente de “esquerda”, no PSOE, BNG e IU que agitam o medo da direita, para quando chega a hora da verdade na sua gestom institucional aplicarem idênticas políticas e receitas económicas que as do PP.

A classe trabalhadora galega nom pode deixar-se enganar nem instrumentalizar polos êxitos desportivos de projectos nacionais alheios assentes sobre a nossa exploraçom de classe e a opressom nacional.

Contrariamente a participar nas celebraçons, com os símbolos dos nossos inimigos e responsáveis pola crise que hoje padecemos, a juventude trabalhadora, o conjunto do povo trabalhador tem que sair à rua a protestar contra o incremento dos preços, exigir incremento salarial, melhores condiçons laborais, reduçom das jornadas, liberdade e democracia nos centros de trabalho.

Som tempos difíceis. Esta na hora de luitar nom de festejar. Que nom nos enganem. Há que gerar um movimento social com umha tabela reivindicativa clara.

É necessário pressionar o sindicalismo nacional e de classe para que inicie um ciclo de mobilizaçons, com carácter integrador e global, incorporando o conjunto das reivindicaçons sectoriais, que transformem esse mal-estar geral e individual que escuitamos nos centros de trabalho, nos supermercados, nos bares, nos bairros, na rua… num programa concreto de reivindicaçons tangíveis. Nom se pode seguir à expectativa, deixar-se arrastar pola resignaçom.

A CIG tem o dever e, sobretodo, a capacidade, de ser o motor deste processo. Mas como a maioria da direcçom da central nom vai promover um verdadeiro movimento de luita além de inofensivas iniciativas para cobrir o expediente, porque está hipotecada politicamente com o regionalismo que co-governa a Comunidade Autónoma Galega, tem que ser a filiaçom, a militáncia honesta, que pressione para mudar a hegemónica linha pactista, colaboracionista, conciliadora, disfarçada de retórica e inofensivos fogos de artifício.

Há que caminhar face umha greve geral que paralise o País, que exija umha mudança radical de rumo ao bipartido e ao governo de Madrid. Há que castigar o PSOE e o BNG nas eleiçons autonómicas.

A classe trabalhadora necessita luitar para se encontrar de novo consigo mesma, para ganhar confiança em si, para constatar a enorme capacidade de combate que temos se conseguimos agir de forma unida e independente, para evitarmos mais retrocessos e recuperarmos conquistas perdidas.

Às portas das jornadas patrióticas do 24 e 25 de Julho, em que a classe trabalhadora galega, com destaque para a juventude, tem um papel protagónico, a esquerda independentista neste ciclo que cumpre abrir deve ser capaz de ligar o exercício do direito de autodeterminaçom, a necessidade de nos dotarmos de um Estado operário galego, como um objectivo consubstancial ao programa e às reivindicaçons populares.

Voltar a Abrente 49

Voltar à página principal

 

 

orthopedic pain management