Municipais 2003
As tendências eleitorais na Galiza
André Seoane Antelo

Da óptica das organizaçons revolucionárias, as convocatórias eleitorais nos regimes de democracia burguesa distam muito de serem termómetros exactos do estado da luita de classes, ao fim e ao cabo a suposta liberdade sob a que se convocam dista muito de ser real, especialmente no Estado espanhol. Porém, nom se pode obviar que, apesar desta circunstáncia, se bem nom reflectem exactamente qual é a correlaçom de forças políticas, sim permitem fazer leituras aproximativas que ajudam à melhor compreensom de quais som as tendências em marcha numha formaçom social determinada, sempre e quando a analise for para além da simples estimaçom da contagem de votos, quer dizer, nom se cair na extrapolaçom directa a níveis qualitativos do que som simples dados quantitativos. Para que isto nom aconteça, é preciso introduzir nessa análise uns outros dados como a localizaçom geográfica, social e etária do voto, para além de situar uns resultados eleitorais concretos numha perspectiva temporária, histórica, que torne visível a existência de dinámicas.

Tendo em conta estas premissas, resulta óbvia a necesidade de avaliarmos os aspectos mais destacados que podamos tirar dos resultados das passadas eleiçons municipais celebradas em 25 de Maio de 2003, eleiçons que no nosso país fôrom vividas com especial interesse após as experiências de mobilizaçom social desenvolvidas à volta do afundamento do Prestige e a invasom do Iraque, e que fora das nossas fronteiras contavam com a especial peculariaridade de serem as primeiras convocadas com as expressons políticas da esquerda abertzale ilegalizadas, o que levou à esperpêntica realidade de que mais de 150.000 sufrágios emitidos em Euskal Herria fossem considerados nulos dando umha prova mais do autêntico estado de excepçom que está a sofrer aquele país.

Os amplos sectores sociais que se mobilizárom nos últimos meses na Galiza aguardavam uns resultados que supugessem o afundamento da força política do PP, alicerçada eleitoralmente por umha extensa rede de clientelismo de base local. Mas tal debacle nom se produziu, o que para muit@s supujo um facto inexplicável que levou a umha sensaçom de derrota colectiva exprimida em valorizaçons que já som comuns nos apartados de "cartas ao director" dos média oficialistas e nos foros de diferentes webs, valorizaçons do tipo "este país tem o que merece", "@s galeg@s nom temos soluçom", etc. Mas esta percepçom dos resultados eleitorais das municipais de 2003 peca de superficialidade, já que nom considera as especiais características da formaçom social galega e o arreigamento profundo das estruturas políticas da direita espanhola no nosso país.

Mas, para nom começarmos a casa polo telhado, é melhor que primeiro expliquemos quais fôrom os resultados eleitorais na Galiza, antes de tirar conclusons valorativas. Dum jeito quantitativo, sabemos que votou 65,12% do recenseamento eleitoral, produzindo-se um aumento de participaçom de 1,20% a respeito de 1999. Desse tanto por cento de votantes, 41.51% fijo-o polo PP (695.540 votos), ao que devemos acrescentar a maioria das candidaturas independentes, fruto de cissons localistas da direita; 27% polo PSOE (452.456 votos) e 19,43% polo BNG (325.492 votos); o que significou umha queda percentual de quatro pontos para o PP e a suba de dous pontos para o PSOE e um ponto para o BNG, o que traduzido em número de votos supom que o PP desceu em 14.445 sufrágios, subindo o PSOE e o BNG em 57.432 e 35.401 votos respectivamente. O desfase entre os dados percentuais e os absolutos explica-se polo aumento da participaçom. Também há que resenhar o aumento em mais de 4.000 sufrágios dos votos em branco que passárom a ser 28.367, 1.69% do total, e a queda do voto nulo que baixou em case 2.000 votos, ficando em 0.76% do recenseamento com 12.780 sufrágios.

À luz destes resultados, continua a fazer-se visível a existência dumha corrida de fundo entre as três grandes organizaçons do sistema político galego pola consecuçom da hegemonia no quadro autonómico. Tal concorrência estabelece-se nos termos da existência dum partido actualmente hegemónico, o PP, que tem a sua principal base de apoio entre as classes sociais mais acomodadas mas que também recolhe os votos dalguns dos sectores sociais mais deprimidos do nosso país, sobretodo nos concelhos do rural e entre as pessoas de mais idade, que pola sua dependência dos subsídios oficiais som presa fácil das redes de clientelismo. Frente a este partido aparecem duas organizaçons, o PSOE e o BNG, que apesar das suas diferenças contam com umha base eleitoral muito semelhante, basicamente jovem e urbana (com todas as matizaçons que a esta categoria temos que colocar na Galiza), e conformada por sectores do povo trabalhador galego, além de por alguns elementos da burguesia mais liberal.
Entendendo esta dicotomia entre os apoios de um e outro bloco político compreendemos porque é que se está a dar um paseninho, mas constante, crescimento eleitoral do PSOE e do BNG frente ao paulatino recuo do PP. Simplesmente, a morte de boa parte d@s votantes do PP e a progressiva des-ruralizaçom do país, que bloqueia a reproduçom das redes clientelares actuais, joga a favor das forças políticas de oposiçom.

Mas as eleiçons municipais de 2003 trazem-nos a confirmaçom dumha outra tendência, esta referida à dialéctica estabelecida entre PSOE e o BNG, e que há que pôr em relaçom directa com as dinámicas geradas a nível estatal.

Se durante a maior parte da década de 90 era o BNG a força política em alça, o que lhe permitira mesmo chegar a situar-se como principal partido da oposiçom nas penúltimas eleiçons ao "parlamentinho", o certo é que actualmente o PSOE recuperou grande parte do terreno perdido, animado pola superaçom da crise sofrida após a queda do último governo González. De facto, há que entender que a recuperaçom que a sucursal galega do PSOE está a viver nos últimos tempos está a ser animada, e nesse partido é situada estrategicamente no mesmo contexto, pola possível vitória nas vindeiras eleiçons gerais.
Há que entender que, umha vez aceites as regras de jogo marcadas pola legalidade espanhola, o BNG acha-se numha situaçom delicada. Ao assumir como válidas as ditas regras, e portanto reconhecer o enquadramento da Galiza em Espanha, assim como as virtudes dumha política de tintes moderados no social e no nacional, o BNG deu por si (e se nom o fijo, fará-o logo) que concorre polo mesmo espaço político que o PSOE, mas com umha dificuldade acrescida, já que carece do "pedigree" reformista da social-democracia espanhola. Esta falta de "pedigree", acrescentada polas lembrança dum passado de "radicalismo nacionalista" nom mui longínquo, repercutem na imagem social da organizaçom frentista do nacional-autonomismo, o que traduzido a efeitos reais significa que esses sectores sociais, "progressistas" mas moderados, apostem preferentemente polo PSOE. Possivelmente a melhor expressom dessa dificuldade seja a assimilaçom do BNG por parte do PSOE naqueles concelhos em que a coligaçom de governo era presidida pola organizaçom espanhola, entre os que o caso paradigmático se viu na cidade de Lugo onde a atitude do BNG na passada legislatura, totalmente indistinguível do PSOE, provocou umha brutal queda de votos em benefício do sócio maioritário que rendibilizou os quatro anos de governo.
E já que falamos das repercussons das dinámicas políticas estatais na Galiza, também nom podemos obviar um facto, que por ser minoritário nom deixa de ser resenhável. Trata-se do aumento de votos de IU no nosso país, circunscrito a determinados concelhos, mas suficientemente importante para ser considerado, já que situa esta força, com quase 20.000 sufrágios e 11 concelheiros, em diferentes cámaras municipais. Este aumento de votos explica-se pola reactivaçom que sofreu esta força política ao abeiro das mobilizaçons sociais, como bem pudemos comprovar na maioria das manifestaçons nacionais, e pola sua capacidade para recuperar um espaço político que em grande parte foi abandonado polo BNG, como prova a consecuçom de dous concelheiros em Ferrol. Trata-se pois dum outro elemento preocupante no cenário político galego, já que supom a reactivaçom dum certo espanholismo de esquerdas que estava praticamente extinto, e que no passado supujo um notável atranco para o desenvolvimento dum processo revolucionário endógeno.

Aliás, um outro elemento de analise a levar em conta, e que já avançávamos na primeira parte do artigo, é o suposto fracasso dos movimentos sociais contra a guerra e a maré negra nas passadas eleiçons. Tal fracasso só pode ser considerado assim por parte de quem só entende a política no reduzido quadro do jogo eleitoral, cousa que parece que lhe passava a mais de um/ha d@s milhares de manifestantes que assistírom às diferentes mobilizaçons. Porém, nom pode admirar que essa concepçom da política fosse a maioritariamente assumida, ainda que nom a única, já que era a defendida publicamente polos representantes das organizaçons políticas, sociais e sindicais maioritárias, para além de ser a exprimida polos media, o que dada a configuraçom de ambos movimento sociais, caracterizados pola sua falta de estruturaçom autónoma e portanto incapacitados para gerar um pensamento próprio e alternativo.

Se aplicarmos um razoamento correcto neste tema, deveremos concluir que nem o movimento contra guerra, nem o movimento contra a maré negra fracassárom nas eleiçons municipais. Em primeiro lugar porque ambos movimentos nom concorriam, quem si o faziam eram forças políticas que em maior ou menor medida se identificavam com as reivindicaçons de ambos, mas que nom representavam o conjunto dos movimentos. Em segundo lugar, se nalgum lugar há que buscar o fracasso desses movimentos nom é nos resultados eleitorais, mas na capacidade de articular redes de participaçom popular, já que esse sim é o campo de acçom próprio dum movimento social, e é mais que evidente o défice de auto-organizaçom que sofrêrom.

Em relaçom com este tema, também há que dedicar um apartado a ressaltar a existência dum cada vez maior número de pessoas que optam por exprimir o seu rechaço polo sistema com fórmulas de voto diferentes à abstençom. Já ressaltamos anteriormente o aumento do voto em branco, que se situa como a quarta opçom eleitoral na Galiza, mas devemos dedicar um espaço especial a analisar o voto nulo, já que desta volta a esquerda independentista organizada em NÓS-UP apostava por esta opçom, sob a fórmula do voto em negro.

Se bem o número de votos nulos desceu a respeito do ano 1999 em 2.000 sufrágios, além de entender que grande parte desses 12.780 votos nulos emitidos na Galiza nom correspondem às papeletas distribuídas por NÓS-UP, a esquerda independentista nom pode fazer umha analise derrotista dos resultados. Principalmente, porque eramos conscientes de que parte da nossa base social responderia positivamente ao apelo lanzado polo autonomismo ao voto útil, também porque sabíamos que os nossos recursos de propaganda som escassos, o que nos impediria levar avante umha campanha deste estilo com os mínimos necessários, e porque também nom nos escapava que haveria sectores activos politicamente, refractários a respeito das nossas posiçons, que se bem poderiam ter optado polo voto nulo nom o figérom ao identificar-se isto com umha campanha independentista.

Tendo em conta estas questons, a valorizaçom da campanaha do voto em negro deve ser moderadamente positiva. Primeiramente, por ter conseguido estabelecer um discurso próprio da esquerda independentista que afinal resultou estar mais acertado do que muitos supunham, já que, como se demonstrou, nem o PP foi varrido da face da terra, nem, por enquanto, acabou o mundo, sendo preciso continuar a luita dum jeito ainda mais decidido. Também há que pôr em consideraçom que nas localidades onde a esquerda independentista tem presença o voto nulo mantivo-se ou aumentou, polo que há que falar dum relativo sucesso da campanha.

A solicitude do voto em negro foi acompanhada por acçons de sabotagem contra os partidos do regime. Centenas de cabines, painéis publicitários, propaganda eleitoral do PP, BNG e PSOE, entre outros, foi boicotada ao longo do país.

Assim, o panorama traçado após esta cita eleitoral aparece condicionado na Galiza por essa concorrência a três bandas pola hegemonia, em directa relaçom polo que se passe nas vindeiras eleiçons gerais, concorrência em que a maioria deste país joga pouco dadas as escassas diferenças entre os contendentes. O fundamental é que as passadas eleiçons fôrom umha outra prova de que o espaço institucional nom é onde se vai conseguir a emancipaçom do povo trabalhador galego, senom que como muito pode ser mais um arma na luita.




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