UMHA MUDANÇA TRANQUILA, E IMPERCEPTÍVEL
Igor Lugris

Nas eleiçons ao Parlamento espanhol de 14 de Março passado, o PSOE obtivo melhores resultados do que o PP e, ainda que nom conseguisse maioria absoluta, recuperou o Governo, após oito anos de direita espanholista, contando com o apoio na sessom de investidura de grande parte das “esquerdas” presentes no Parlamento, e mesmo de antigos sócios do PP, caso da Coalición Canaria. Assim, Zapatero, quem por arte da mercadotecnia foi convertido em ZP, conseguiu o apoio nom só do PSOE, mas também de ERC, IU, BNG, Chunta Aragonesista e CC, totalizando 183 votos a favor da sua investidura, 148 contra (os do PP), e as 19 abstençons de CiU, PNB, EA e Nafarroa-Bai.

O facto mais destacável dessas eleiçons foi sem dúvida a derrota do PP, que desfrutava até entom dumha muito cómoda maioria absoluta de 183 escanos, e que até quatro dias antes nom pensava em que pudesse realmente perder o controlo do Governo espanhol. A brutal intoxicaçom e manipulaçom informativa que empregou a partir das primeiras horas do dia 11 de Março, após o ataque bombista em diversos comboios em Madrid, tivo o efeito contrário ao desejado, e provocou a imprevista vitória dum PSOE que nem nos seus melhores sonhos pensava poder chegar a colocar a ZP na Moncloa. O PP soubo, foi consciente, desde o primeiro momento, que qualquer relaçom entre o atentado desse dia e a guerra imperialista contra o Iraque teria um efecto negativo para os seus resultados eleitorais, e por isso fijo todo o possível, e mesmo o impossível, utilizando partidistamente a dor, a indignaçom, a comoçom ante a tragédia no seu próprio benefício, querendo capitalizar eleitoralmente os cadáveres e os corpos mutilados. A prática totalidade dos meios de comuniçom seguírom os ditados de Aznar, mantendo a tese única e exclusiva sobre a autoria do atentado que mais convinha ao PP.

Mas Aznar e os seus forçárom de mais a maquinaria, em algum momento rangeu muito mais do permissível, e o encerramento de campanha que o PP procurou (um governo arroupado polas massas botadas às ruas contra o terrorismo separatista), converteu-se no seu pesadelo: um governo contra as cordas com as massas nas ruas exigindo explicaçons, responsabilidades e tombando o grande muro da manipulaçom tecido na Moncloa, e com a participaçom de quase toda a classe política e os grandes meios de comunicaçom, públicos e privados. Os actos de adesom ao Regime convocados polo próprio Governo, com a participaçom das mais altas autoridades do Estado espanhol, e secundadas, indiscutivelmente, polas forças políticas do sistema, nom tivérom o efeito desejado. E saltou às ruas aquilo que desde as primeiras horas após o atentado já circulava pola Internet. As dúvidas, as perguntas, as versons dos meios de comunicaçom internacionais, as evidências, as declaraçons de destacados representantes da esquerda abertzale desmentido a autoria da ETA, ... O maçador, delirante e obsessivo discurso de defesa da Constituiçom, da unidade espanhola, de medidas excepcionais contra o terrorismo, de recorte das liberdades, de fascistizaçom, em soma, nom só tinha cada vez menos sentido, mas provoca o efeito contrário ao procurado: nom fechava fileiras com o Governo, mas aprofundava a fenda entre este e a rua.

A guerra de Iraque foi, finalmente, a questom decisiva nas eleiçons, pois os milhares de pessoas que no dia 13 saírom às ruas à tarde e durante parte da noite, para se manifestarem contra o Governo e em frente às sedes do PP, entendêrom perfeitamente que essa era a causa principal, o motivo, dos acontecimentos do dia 11. E a reacçom desesperada do PP, que nom conseguia entender que fora o que nom funcionara, que fora o que falhara naquele maquiavélico plano, fijo com que muita mais gente, muitos milhares de pessoas, que teriam votado no PP ao dia seguinte, mudassem o seu sentido do voto ou, quem nom tinha acudido a votar, fosse, ou quem teria apostado noutras forças políticas, apoiasse o PSOE como mal menor contra a fracçom mais direitista do espanholismo.

No que atinge à Galiza, o BNG, junto ao PP, foi o grande perdedor, perdendo um terço dos apoios eleitorais, 100.000 votos, e um deputado menos. A sua orientaçom para a completa e total integraçom no sistema, aparecendo como qualquer outra das opçons possíveis, sem se distanciar mais do devido para poder ser aceite no selecto clube das organizaçons políticas “democráticas”, e mesmo constitucionalistas, provoca que, em situaçons como as que se vivêrom nesses dias, umha parte das pessoas que depositavam nele os seus votos, apostem polo original (quer dizer, o PSOE), e nom pola tentativa de cópia, a cores, e com matizes, que o social-democrata e federalista BNG ensaia com Quintana à cabeça.

A esquerda independentista, o conjunto do MLNG, sabe que nom pode ter a mais mínima confiança no governo de Zapatero, o novo rosto da imagem amável e suavizada do espanholismo. A ausência de maioria absoluta, a substituiçom da fracçom fascista da oligarquia pola liberal, a reactivaçom social vivida e que ainda se mantém em parte, a confiança nas mobilizaçons populares, devem ser avaliadas positivamente. Mas quem vai governar é o partido da reforma laboral, da reconversom industrial, da entrada na NATO, da criaçom das ETT’s, dos GAL, da corrupçom, do “pelotaço financeiro”, da especulaçom, do desemprego, da negativa a legalizar o aborto, etc. As falsas expectativas criadas com a derrota do PP, junto ao bom resultado eleitoral dumha esquerda moderna, amável e tranquila, onde também podemos incluir os resultados de ERC, tenhem provocado um cenário virtual que distorce as análises dumha boa parte dos sectores progressistas e de esquerda. O PSOE, que recupera mesmo nomes dos antigos governos socialistas, nom vai ser diferente nem do governo Aznar nem dos governos de F. González. Nem pode mas, sobretodo, nem quer. Os anos 82 e posteriores já demonstrárom que a “mudança” era umha fraude, um palavra de ordem, marketing eleitoral vácuo, que levou à desilusom e desmobilizaçom umha grande parte da sociedade. E Zapatero já era deputado e dirigente socialista naquela altura.

Certo é que algumhas das primeiras medidas do Governo tenhem alimentado essas expectativas de mudança, esse discurso do novo talante, dos novos ares: a retirada das tropas do Iraque, a conformaçom dum governo paritário, com oito homens e oito mulheres com cargos ministeriais, etc... Mas também é certo que umha das primeiras medidas do Governo é promover a ilegalizaçom da lista abertzale e de esquerdas às eleiçons europeias, Herritarren Zerrenda (HZ). Ou que muitos dos nomes que aparecem no novo governo já fôrom ministros ou altos cargos na anterior etapa socialista: Manuel Marín foi membro da equipa que negociou a entrada do Estado espanhol na Uniom Europeia; María Teresa Fernández de la Vega já figurou nos governos de Felipe González, sendo Secretária de Estado da Justiça; Pedro Solbes foi ministro de Agricultura e depois de Economia; Cristina Narbona foi viceministra do Meio ambiente; Elena Salgado foi viceministra da Defesa, da Economia e das Telecomunicaçons; etc. E nom devemos esquecer que Bono, actual Ministro da Defesa, apressou para se entrevistar com Donald Rumsfeld, chefe do Pentágono, para dar explicaçons sobre a promessa eleitoral de retirar as tropas do Iraque e assegurar que o Estado espanhol seguirá a ser um aliado fiel, apesar do desacordo sobre a guerra.

PSOE aprendeu que tem de ter determinados gestos, determinadas atitudes, tomar algumhas decisons de coerência se nom quer perder todos os votos prestados conseguidos no 14-M: votos que eram votos contra o PP, votos que eram votos de IU, ou do BNG na Galiza, votos de jovens, votos contra a manipulaçom. Nom pode perder as eleiçons europeias, ou as autonómicas do próximo ano no Estado espanhol, frente ao PP, e para isso tem que manter como for esses votos prestados, mas sabendo perfeitamente que som votos inseguros e desconfiados. Portanto, fará pequenas reformas e os meios de comunicaçom e organizaçons afins (sindicatos, etc...) magnificarám-nas. Além do mais, pode aproveitar o cansaço e fartura que deixou o PP, e as brutais políticas neoliberais implantadas por este, para que qualquer decisom que tome neste sentido pareça um grande avanço, umha vitória da democracia. Mas, no fundamental, na política económica, na política europeia, no terreno internacional, na política interior, no tema da reforma da constituiçom e as reformas do estatutos, no “problema espanhol”, nom vai haver mudanças significativas. De facto, serám praticamente imperceptíveis. Nom vai enfrentar-se à Patronal, nem aos grandes bancos, nem às multinacionais. Muito menos vai enfrentar-se ao imperialismo ianque e aos desígnios do FMI ou do Banco Mundial. O novo talante será, simplesmente, um novo invólucro para as políticas de sempre.

Igor Lugris é membro do Comité Central de Primeira Linha


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