A esquerda italiana, o motor da "europeizaçom" do país

Marco Santopadre

 

O dono da FIAT e empresário recentemente falecido Giovanni Agnelli, dixo há uns anos atrás: "Nom há nada melhor do que umha política de direita feita por um governo de esquerda". E assim foi. A 21 de Abril de 1996 o "Ulivo", umha coligaçom de centroesquerda, ganha as eleiçons graças a um pacto com a Refundaçom Comunista. Depois de umhas semanas, forma-se o primeiro governo desde os anos '40 em que o maior partido herdança do PCI está no centro do poder. E como dizia Agnelli, o governo Prodi encetou umha politica de direitas muito agressiva que, apesar das contradiçons internas à coligaçom de poder, "europeizou" um país que saía duns 50 anos de governo democrata-cristao. Pola primeira vez, foi legalizado em Itália o trabalho precário, aprovando o chamado "Pacchetto Treu" também com os votos do Partido de Bertinotti, que por um tempo apoiou o governo a partir do exterior, sem ter ministros. Também o governo "de esquerda" participou na agressom militar contra os povos da República da Sérvia e Montenegro; em nome da "intervençom humanitária" os avions de combate italianos inçárom aqueles territórios de uránio empobrecido, destruírom pontes e hospitais, fábricas e escolas. Também a instruçom foi "modernizada" com um plano que impulsionava a autonomia financeira das faculdades e dos colégios, recortando o financiamento público e obrigando os dirigentes a procurarem dinheiro privado. O recorte das pensons começara já havia uns anos, e o seu impulsionador fora um ministro do governo Prodi, o "tecnocrata" Lamberto Dini.

O primeiro governo "de esquerda" da posguerra fijo umha política de direita sem que no país se desenvolvesse um grande movimiento social de protesto, quase sem greves. A razom é fácil de dizer: no governo estavam partidos e ministros supostamente amigos dos trabalhadores e das camadas sociais desfavorecidas, que pola primeira vez podiam olhar com ilusom a Palazzo Chigi. As forças de governo podiam contar com a colaboraçom dos sindicatos maioritários CGIL, CISL e UIL, todos "correias de transmissom" do partido Democrático da Esquerda e dos seus aliados. Enquanto os sindicatos alternativos e de base tentavam romper o clima de "omertá" (lei de silêncio) e concertaçom entre governo, sindicatos e patronato, estes desenvolviam umha politica de "paz social". Mas depois, a Refundaçom Comunista tirou o seu apoio ao governo e pagou com umha cisom su decisom, com o nascimiento do Partido dos Comunistas Italianos. Nas seguintes eleiçons, ganhou o centrodireita de Berlusconi, actualmente no poder graças a um bloco de apoio social que reúne os medianos empresários e os pequenos, a grande distribuiçom com os pequenos comerciantes. A política de Berlusconi, apoiado polos antigos fascistas (agora neoliberais) da Aliança Nacional e pola ultraliberal Liga Norte, encontrou a via aberta polo precedente governo: privatizaçons, recortes do Estado Providência e das pensons, participaçom nas guerras do Afeganistám antes e do Iraqe depois. Nom é a respeito do plano económico que se enfrentam os pólos políticos em Italia: a grande maioria dos partidos, quer de direita, quer de "esquerda", assumírom o neoliberalismo como a única via possível. E nom é por acaso que a maioria das leis se aprovam no Parlamento italiano com 80-90% dos votos. É a respeito do plano internacional que os pólos políticos se dividem: enquanto Berlusconi apoia cautamente o processo de unificaçom europeia e se tem aliado com a administraçom de Bush, o centroesquerda é o autêntico pólo europeísta e modernizador do país. Por isso se explica o nom do Ulivo à invasom do Iraque: nom por pacifismo, mas pola consciência de que a ocupaçom unilateral do Iraqe por parte de Washington é umha tentativa de golpear o crescimiento dos interesses europeus no Oriente Médio. Nom é por acaso que nem os Democratas de Esquerda nem os partidos centristas da coligaçom do Ulivo tenham mobilizado as suas bases sociais para a retirada das tropas italianas do Iraque: o objectivo é deixa-las lá, mas mudando a cor das suas bandeiras, passando da de barras e estrelas à da ONU ou, melhor, à da Uniom Europeia.

Nesse contexto, a esquerda que se define "alternativa" ou até "radical" foi incapaz até agora de configurar um pólo alternativo real ao sistema baseado na simples alternáncia de duas coligaçons que fam a mesma política. Um motivo fundamental é o facto de o actual sistema eleitoral maioritário, embora com umha pequena representaçom proporcional, obrigar os partidos a se unirem em coligaçons que, para ganhar, tenhem de conquistar o chamado "centro" da opiniom pública: os discursos tenhem-se assim que moderar, os objectivos de reforma radical som expulsos dos programas eleitorais e de governo para nom assustar os moderados, etc. Afinal, também os partidos mais de esquerda do Ulivo - Partido dos Comunistas Italianos e Verdes - e a mesma Refundaçom, aceitárom essa regra. Tirar o poder a Berlusconi e à "direita" converteu-se no objectivo principal; de facto, aceitando a cultura política e a linguagem deles para poder tirar-lhes eleitores. Com o resultado de que no país, desde há anos, existem realmente duas coligaçons de direita e os sectores sociais de esquerda estám perdendo a esperança de que algumha mudança seja possível: sobe a taxa de abstençom, a participaçom política e sindical activa baixa enquanto os jovens que se tenhem formado no movimiento nom global por um lado buscam novas formas de fazer política e objectivos mais radicais, mas por outro lado nom encontram nem umha alternativa organizada nem um sistema de valores coerentes. Os que se oponhem à chamada globalizaçom fôrom privados da sua possível identidade anticapitalista e revolucionária por umha cena politica que considera estas categorias velhas, inadaptadas a um mundo globalizado em que o sistema pode ser reformado mas nom posto de pernas para o ar. O melhor mundo possível parece-se sempre mais com o mundo actual.

A chamada esquerda social e extraparlamentar, com umha forte tradiçom no nosso país desde os anos '60 e até os '90, está dispersa e fraca a nível organizativo e político, enquanto os melhores resultados venhem do contexto sindical, onde algumhas organizaçons que até agora tiveram um papel testemunhal ou de resistência - contra a concertaçom, o neoliberalismo, a guerra e a precarizaçom do trabalho - começam a ter umha força tal que já representam umha possível alternativa aos sindicatos oficiais de muitos sectores. Faltando um nível político-organizativo possível pola esquerda alternativa, sobretodo a Confederaçom Unitária de Base e outros sindicatos "de base" mais pequenos por vezes representam também pólos politicos de referência para sectores sociais que vem o conflicto como a única via para defender as suas condiçons e começarem a recuperar terreno após anos de derrotas. Assim, nos últimos tempos está a organizar-se um movimiento de jovens precários que contestam a falta absoluta de direitos por milhons de trabalhadores.

Há as condiçons hoje para que sectores de jovens, de imigrantes e de trabalhadores representados polo sindicalismo alternativo podam reconstruir um espaço politico-social em que poda organizar-se e fortalecer-se umha esquerda radical independente dos pólos políticos existentes e capaz de ler a realidade para a transformar.

Também as luitas pola defesa do território, do ecossistema, da qualidade da vida tenhem aumentado de intensidade e representado umha ocasiom, nomeadamente no Sul, de recomposiçom da esquerda social e radical. Podem ser citados os casos das luitas contra as bases militares na Sardenha, contra as escórias tóxicas e nucleares na Sardenha e Basilicata, contra as incineradoras na pequena cidade de Acerra, perto de Nápoles, etc.

Mas, cumpre reconhecê-lo, a nível organizativo, a esquerda alternativa e radical nom anda bem. Ficam longe os anos em que à esquerda do Partido Comunista havia umha longa lista de organizaçons e partidos com milhares e milhares de militantes, sedes e revistas. Muitos destes voltárom para casa, deixárom de fazer política, ou entom limitam-se a colaborarem com associaçons ou colectivos parciais dentro do panorama anti-globalizaçom. Muitos militantes anticapitalistas de há anos transformárom-se em voluntários de ONG's, em activistas do "Comércio justo" ou até em exploradores de si próprios nas "Cooperativas sociais".

Nos ultimos tempos, o que era o universo da assim chamada "Autonomia Operária", há décadas disperso em diversos grupos e tendências, praticamente desapareceu da cena política ou quando resiste, fai-no em formas muito diferentes a respeito do passado. Muitos grupos que venhem da história da antiga Autonomia Operária mais obreirista e radical dos inícios da década de 90 decidírom, quase de um dia para outro, modificar radicalmente a sua própria identidade política, abandonando a análise marxista da realidade e a referência ao comunismo e ao socialismo como objectivo estratégico. A ocasiom para muitos foi a rebeliom zapatista de Chiapas, utilizada em Itália para justificar o abandono da perspectiva revolucionária. Dali surgiu antes o movimento das "Tute Bianche", e a seguir o dos "Disobbedienti", que desde metade dos anos 90 até agora tenhem alternado momentos de conflito muito radical e outros de colaboraçom e até de integraçom na Refundaçom Comunista e os Verdes. Umha mudança tem acontecido depois das últimas europeias, quando o partido de Bertinotti decidiu conceder um escano no Parlamento europeu a um dirigent de Refundaçom tirando-o a um representante dos "Disobbedienti", que tinha sido eleito por vários milhares de eleitores. Desde aquela altura, muitos militantes de movimentos mais radicais decidírom romper com o PRC e denunciar a sua atitude moderada e de instrumentalizaçom dos movimentos em funçom da sua aliança com o centroesquerda para as próximas eleiçons parlamentares.

Há alguns sinais de renascer da tendência anarquista, sobretodo no Norte de Itália, e também de alguns colectivos ecologistas que desenvolvem o tema da soberania territorial e da luita contra a militarizaçom dos territórios. Enqunto nos últimos tempos desde a disgregada galáxia dos antigos grupos leninistas surgiu o projecto da Rede dos Comunistas. A ideia é juntar forças através de um programa de actualizaçom das categorias marxistas -em temas como a concorrência global entre potências a nível mundial, o carácter imperialistas da Uniom Europeia, o partido de militantes, o sindicalismo de classe- e também tentar aplicar estas análises à realidade. Agrupar forças quer dizer de umha parte coordenar na Rede colectivos de diferentes cidades procedentes de histórias e tradiçons diferentes. De outro lado, quer dizer ainda criar o húmus para o crescimento de algumhas campanhas de carácter cultural e ideológico, utilizando todas as forças disponíveis, embora nesta fase podam estar colocadas organizativamente em partidos ou colectivos mais "moderados".

Deste ponto de vista, a explosom do movimento "anti-globalizaçom", embora com os seus limites do seu carácter prevalentemente ético, tem mobilizado decenas de milhares de jovens contra o sistema económico e o sistema económico e político que por muitos anos foi desenhado como o único possível a seguir da crise do campo socialista e dos partidos comunistas no ocidente.

Marco Santopadre é Responsável de Relaçons Internacionais da Rete dei Comunisti

 

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