J

O Che, o degrau mais alto da espécie humana

Justo de la Cueva

Num dos momentos mais difíceis da sua derradeira campanha guerrilheira, a boliviana em que o esperava a morte, o Che Guvera dixo aos seus combatentes que “este tipo de luita dá-nos o ensejo de nos convertermos em revolucionários, o degrau mais alto da espécie humana”. Falava assim, e com verdade, quem se achava já, alçado pola sua vida, os seus factos e os seus contributos, nesse degrau mais alto. Porque já tinha feito umha revoluçom, a cubana, que quase meio século depois da sua primeira vitória em 1959 ilumina ainda hoje este planeta tenebroso, conduzido para o desastre ecológico polos brutais derradeiros suspiros de um capitalismo endoidecido que, agudizadas e levadas quase ao limite as suas contradiçons genético-estruturais, demonstra de dia para dia a validade da Lei geral da acumulaçom capitalista enunciada por Marx nos capítulos finais do Livro Primeiro do Capital. De dia para dia, os dados evidenciam o aumento incessante da exploraçom, da miséria, das doenças, do mal-estar vital, que som condiçom do também incessante aumento da acumulaçom de mais e mais riquezas em cada vez menos maos e de mais e mais destruiçons da ecologia do Planeta.

E de dia para dia, quando lemos na mentirosa imprensa capitalista, as contas minimizadas de desastres que nos dim, por exemplo, que 4.000 crianças morrem por dia devido à diarreia provocada por beberem água em mau estado, e 1.400 mulheres perdem a vida por dia durante a gravidez ou o parto por falta de assistência médica, sabemos que falta um pormenor a essa notícia. Falta-lhe é acrescentar que “nengumha dessas crianças é cubana”. Quando a UNICEF calcula que existam, no mínimo, 100 milhons de crianças sem serem escolarizadas, sabemos que a essa notícia falta um pormenor. Falta-lhe acrescentar que “nengumha dessas crianças é cubana”.

Sim, quando o Che chegou à Bolívia, já se tinha convertido em revolucionário, já tinha atingido “o degrau mais alto da espécie humana”. Porque a sua entrega pessoal se tinha unido à das e os camaradas que tinham posto em andamento a Revoluçom Cubana. Umha revoluçom que, em Fevereiro deste ano 2007, pudo proclamar com orgulho que, até este momento, mais de meio milhons de latino-americanos recuperárom a visom graças ao programa oftalmológico Operaçom Milagre, que desde 2004 desenvolvem conjuntamente Cuba e a Venezuela. Que nos últimos sete anos de colaboraçom, as brigadas médicas cubanas realizárom mais de 304 milhons de consultas médicas em 69 países e salvárom quase um milhom e 600 mil vidas. Que médicos cubanos intervinhérom quirurgicamente um número superior aos dous milhons e 100 mil pacientes. E que, desde 1963, mais de 270 mil colaboradores cubanos prestárom os seus serviços em 154 países e Cuba contribuiu para a alfabetizaçom de mais de dous milhons de pessoas em 16 países, enquanto mais de 28 mil jovens de 120 estados estudam em universidades cubanas, a maioria a especialidade de Medicina.

Nem a minha companheira Margari Ayestarán nem eu esquecemos o agridoce sabor da noite, quase quarenta anos atrás, em que assistimos na Embaixada cubana naquele Madrid franquista de 1967 à homenagem ao Che, recém assassinado por ordem da CIA. Nom esquecemos que ali nos foi dito que NOM ia haver um minuto de silêncio, porque um revolucionário nom pode ser homenageado com umha inacçom. Que ia haver um minuto de aplauso. Que se prolongou durante o que parecêrom ser horas, enquanto aplaudíamos verticalmente, porque os braços, já doloridos, eram incapazes de continuar a fazê-lo horizontalmente.

Os estreitos limites de um artigo como este nom me permitem nem sequer gizar a importáncia que a figura e a vida do Che tivérom para a luita de Euskal Herria contra os estados opressores espanhol e francês, e para a evoluçom da que é oficialmente denominada Organizaçom Socialista Revolucionária Basca para a Libertaçom Nacional Euskadi Ta Askatasuna. Vou limitar-me a lembrar que a ETA, que se proclamou solenemente comunista na sua VI Assembleia de 1973, foi umha das poucas organizaçons políticas comunistas que nom se murchárom nem desaparecêrom abaixo do entulho da implosom da URSS em 1991. Sem dúvida, porque o seu comunismo bebeu mais dos frescos mananciais da teoria e a prática de revolucionários como o Che Guevara, do que das degeneraçons burocráticas do PCUS.

Sim. O Che tinha razom. Os revolucionários som o degrau mais alto da espécie humana. Som os que luitam (e muitas vezes morrem nessa luita) para que ninguém cuspa sangue para que outro viva melhor. E os que quebram as grades dos cárceres que oprimem a humanidade.

A 29 de Setembro de 2001, na aula especial e pública sobre a guerra imperialista da Universidade Popular das Maes de Praça de Maio, Hebe de Bonafini leu um poema inédito do Che. Ei-lo:


Velha Maria
Velha Maria, vás morrer
quero falar-che a sério:
A tua vida foi um rosário completo de agonias,
nom houvo homem amado, nem saúde, nem dinheiro,
quase nem a fame para ser partilhada;
quero falar da tua esperança,
das três diferentes esperanças
que a tu filha fabricou sem saber como.
Segura esta mao que parece de criança
nas tuas polidas polo sabom amarelo.
Frega os teus calos duros e os nós dos dedos puros
na suave vergonha da minha mao de médico.
Escuita, avó proletária:
Acredita no homem que chega,
acredita no futuro que nunca verás.
Nem rezes ao deus inclemente
que toda umha vida mentiu a tua esperança;
nem pidas clemência à morte
para veres crescer as tuas carícias pardas;
os céus som moucos e em ti manda o obscuro,
sobretodo terás umha vermelha vingança
juro pola exacta dimensom dos meus ideais.
Morre em paz, velha luitadora.
vás morrer, velha María;
trinta projectos de mortalha
dirám adeus com o olhar,
num destes dias em que irás embora.
Vás morrer, velha María,
ficarám mudas as paredes da sala
quando a morte se conjugar com a asma
e copularem o seu amor na tua garganta.
Essas três carícias construídas de bronze
(a única luz que alivia a tua noite)
esses três netos vestidos de fame,
terám saudades dos nós dos dedos velhos
onde sempre achavam um sorriso.
Era todo, velha María.
A tua vida foi um rosário de magras agonias
nom houvo homem amado, saúde, alegria,
quase nem a fame para ser partilhada,
a tua vida foi triste, velha María.
Quando o anúncio de descanso eterno
enturva a dor das tuas pupilas,
quando as tuas maos de perpétua esfregona
absorverem a derradeira ingénua carícia,
pensas neles... e choras,
pobre velha María.
Nom, nom fagas isso!
Nom ores ao deus indolente
que toda umha vida mentiu a tua esperança
nem pidas clemência à morte,
a tua vida foi horrivelmente vestida de fame,
acaba vestida de asma.
Mas quero anunciar-che
em voz baixa e viril das esperanças,
a mais vermelha e viril das vinganças
quero jurá-lo pola exacta
dimensom dos meus ideais.
Segura esta mao de homem que parece de criança
entre as tuas polidas polo sabom amarelo
frega os calos duros e os nós dos dedos puros
na suave vergonha das minhas maos de médico.
Descansa em paz, velha María,
descansa em paz, velha luitadora,
os teus netos todos viverám o abrente,
EU JURO.

Assim é que o Che escrevia, assim é que sentia, assim é que vivia e assim foi que morreu e venceu inclusive na sua derrota. O Che que reivindicam e fam seu os revolucionários. Os que exercem a fecunda, imprescindível e saudável, quirúrgica, cirurgiá violência dos oprimidos. Que é sempre legítima. E é a esperança dos párias da Terra. A que mudará o mundo a partir da base e fará dessa Terra um paraíso. A Pátria da Humanidade.

Justo de la Cueva.
Militante de Batasuna.

 

Voltar a Abrente 43

Voltar à página principal

 

 

orthopedic pain management