O movimento juvenil e a esquerda independentista

Berta Lopes Permui

 

Historicamente, tem-se demonstrado o papel fundamental jogado pola juventude em todos os movimentos de tipo sócio-político que aspiravam a umha mudança na estrutura social onde se desenvolviam, qualquer que fosse a sua orientaçom ideológica. Porém, nom pode ser doutro jeito enquanto qualquer projecto político que aspira a se perpetuar tem de contar com um relevo geracional que garanta a sua sobrevivência. Trata-se dumha questom que resulta dumha evidência absoluta, contrastável com a aplicaçom do mais simples pensamento lógico.

Em todo o caso, quando estamos a nos referir a movimentos políticos de carácter emancipador, revolucionários, o imperativo de incorporar a juventude como sector social integrado no movimento político fai-se ainda mais urgente e desenvolve-se sob umhas condiçons particulares. @s jovens que fam parte de classes e povos oprimidos adoitam configurar junto às mulheres as fracçons mais agredidas polas condiçons de exploraçom, e portanto constituem a parte mais interessada em termos objectivos para atingir mudanças de calado nas condiçons materiais de existência.

Somem-se a este condicionante objectivo de fracçom sobre-explorada as características próprias da juventude como sector social: faculdades físicas e psíquicas na plenitude, predisposiçom para a mudança de vida, etc... e entenderemos ainda melhor porque para os movimentos revolucionários resulta tam importante a participaçom de jovens no seu seio.

Nom é um exagero dizer que nas revoluçons sempre a juventude cumpriu um papel fulcral. Nom nos estamos a referir, é claro, a que seja a mocidade o elemento central dos processos revolucionários, já que como marxistas entendemos que a centralidade corresponde à categoria classe social; nem tampouco estamos a ignorar que nas direcçons dos movimentos revolucionários tenha sido fundamental o contributo da experiência de militantes de diversas geraçons, mas a que o grosso dos efectivos revolucionários é integrado maioritariamente por jovens. Quem sai às ruas, quem forma as colunas guerrilheiras, quem rompe com as estruturas do reformismo e cria novas organizaçons, historicamente tenhem sido na sua maioria jovens em que os vícios do burocratismo ou a implacável acçom da desilusom provocada por anos e mais anos de submissom ainda nom figérom mossa.

A mocidade galega do século XXI

Partindo destas premissas, nom é estranha a importáncia que no nosso projecto de revoluçom damos à organizaçom e estruturaçom da mocidade. Para a esquerda independentista galega, a participaçom da mocidade é dumha urgência absoluta enquanto o risco de asimilaçom nacional é umha evidência no imediato que só pode ser refreada se conseguirmos somar às nossas fileiras umha parte substancial da juventude galega.

A mocidade galega de começos do século XXI nom é alheia às mudanças de fundo que está a sofrer a estrutura social em que se integra. O nosso país está a passar por um momento de mudanças radicais geradas pola acelerada destruiçom dos restos sociais pré-capitalistas. O retardo na inserçom plena no modo de produçom capitalista provoca que estes sejam ainda mais traumáticos, e que ao se darem através da dominaçom imperialista espanhola venham acompanhados da destruiçom das bases materiais em que assenta a consciência nacional galega, nomeadamente o idioma.

A Galiza do século XXI é cada vez menos o país das aldeias, da dispersom populacional e dum modelo económico baseado na pequena propriedade agrária de características minifundistas. Cada vez mais, a populaçom galega converte-se em urbana ou semi-urbana, mantendo-se em parte a habitaçom no meio rural mas descendo dum jeito brutal a dedicaçom laboral às tarefas agrícolas. Dos 70% de trabalhadores/as agrícolas que havia na Galiza de 1950, passamos aos escasos 10% de 2005, e com tendência para descer.

Na Galiza do século XXI, há umha maioria de trabalhadores/as assalariad@s na indústria, a construçom e o sector serviços que vivem fundamentalmente na grande área de desenvolvimento urbano comunicada pola A9 e em torno das três grandes cidades do interior (Ourense, Lugo e Ponferrada). Umha nova face para a realidade galega em que som evidentes os efeitos da assimilaçom cultural que afecta dum modo agravado às geraçons mais novas, enquanto as ligaçons destas com o modo de vida tradicional é cada vez mais difuso ou mesmo inexistente. Hoje já som muit@s @s moç@s nascidas na envolvente urbana, maioritariamente espanholizada, que nom tenhem como língua materna o galego, senom o espanhol.

Para além disto, a nova face da Galiza implica umha homologaçom quase total das pautas de comportamento social da mocidade com os padrons próprios de qualquer área do ocidente capitalista. As aspiraçons vitais, as pautas de ócio, etc... de qualquer moç@ galeg@ som em grande medida mais semelhantes às dum/ha moç@ da Alemanha ou de França do que as que tinham seus pais ou avós à mesma idade. Falando em termos científicos. As manifestaçons mais típicas da alienaçom ideológica capitalista som patentes na absoluta maioria da mocidade do nosso país.

A política da esquerda independentista para a juventude

Diante desta tessitura, a esquerda independentista galega nom pode ficar parada nem agir como se a realidade fosse outra. As mais mínimas condiçons para a sobrevivência do nosso projecto nacional, tais som o relevo geracional imediato, estám em perigo, polo que é prioritária a acçom política entre e para a mocidade.

Trata-se nom só de ganhar para a causa da libertaçom nacional a um amplo sector de moç@s, senom de fazer partícipe à parte desse sector social pertencente ao Povo Trabalhador Galego do proceso de construçom nacional que queremos levar avante. @s moç@s de extracçom obreira e popular, como dizíamos anteriormente, conformam umha das fracçons do PTG mais interessadas de jeito objectivo na libertaçom nacional e social de género. Só temos que olhar para as condiçons de vida que já sofrem @s moç@s galeg@s, e que todos os sintomas indicam que @s vam acompanhar no resto da sua vida: salários de miséria, instabilidade laboral, horários abusivos, carência de direitos laborais, etc... As condiçons em que vive a maioria da populaçom jovem do nosso país acentuam ainda mais a imagem que Marx queria transmitir naquela frase do Manifesto Comunista quando dizia que "@s proletári@s no capitalismo nom tenhem mais a perder para além das suas cadeias".

A nossa política dirigida para a mocidade deve incidir nessa questom, pôr de relevo a miséria em que o capitalismo está a afundir a mocidade galega, e como utiliza a opressom nacional para reforçar ainda mais as condiçons de exploraçom. Insistir que sem a edificaçom dum modelo nacional galego oposto ao espanhol nom é possível a emancipaçom, e que esse projecto nacional tem de ser construído polo Povo Trabalhador Galego para o pôr ao serviço dos seus interesses objectivos. Assimesmo, deve-se fazer um especial fincapé na opressom acrescentada que sofrem as moças e rebelar como o patriarcado reforça o poder da dominaçom do capital.

O MLNG tem que pôr a nu, diante dos olhos da mocidade, como Espanha é na realidade o projecto nacional da opressom capitalista. Um projecto nacional que se esforça em aniquilar os mais mínimos restos da identidade nacional galega porque sabe que estes som básicos para a organizaçom e estruturaçom dumha alternativa viável ao capitalismo no nosso país. Temos que ser quem de acordar e criar na mocidade de extracçom obreira e popular da Galiza a consciência da sua exploraçom e indicar o caminho da emancipaçom.

Insistimos que se o MLNG nom ganha para a causa da independência, o socialismo e o anti-patriarcalismo um importante sector da mocidade, a batalha estará perdida, posto que em poucas geraçons, talvez em só duas, desaparecerám as bases materiais do nosso projecto nacional.

A auto-organizaçom, premissa imprescindível

O único jeito de garantir a participaçom activa da mocidade no processo de libertaçom nacional e social de género nom é o de aguardar a que espontaneamente @s moç@s galeg@s fagam seus os nossos ideais e programas políticos, senom a de promover a auto-organizaçom em estruturas juvenis de todo o tipo que articulem, criem, desenvolvam e canalizem a actividade social da juventude popular dum jeito colectivo. Nom podemos aguardar a que as estruturas "adultas" da esquerda independentista nos dem as soluçons aos nosso problemas senom que temos que ser quem de definir essas soluçons por nós próprias.

Por este motivo, a questom da existência dumha organizaçom sectorial de juventude do MLNG é tam importante. Esta estrutura deve servir como elo de angaste do MLNG com a mocidade e da mocidade com o MLNG, e recalcamos a ideia do elo já que o que se precisa nom é umha mera correia de transmisom. Trata-se dumha relaçom dialéctica que se tem de retro-alimentar. O MLNG dá a noçom de globalidade do projecto revolucionário rumado para a transformaçom de todas as estruturas sociais, económicas, políticas e ideológicas, e a organizaçom da mocidade desenha e aplica a política sectorial adequada a essa noçom global, mas também influindo na configuraçom dessa mesma globalidade.

A organizaçom da juventude do MLNG debe cumprir o papel de consciência política colectiva do movimento juvenil galego. A sua funçom tem que ser a de analisar a realidade e desvendar quais som as necessidades reais d@s moç@s, informar e agitar sobre essas necessidades, e movimentar a mocidade galega na luita polas suas demandas.

No imediato, as tarefas prioritárias para a organizaçom juvenil do MLNG passam fundamentalmente por quebrar por todos os meios possíveis a ilusom da normalidade gerada pola alienaçom ideológica. Na Galiza, a situaçom que vivemos moços e moças nom pode ser considerada normal estando como estamos despossuíd@s do nosso idioma e da nossa cultura, sofrendo um sistema educativo que tam só pretende doutrinar-nos como bons cidadaos/as da Espanha e como submiss@s futur@s trabalhadores/as, forçados a um futuro laboral incerto salvo na miséria e a exploraçom que aguarda por nós seja qual for esse futuro. Nom podemos considerar normal que se continue a impor um modelo social em que as moças ocupamos umha posiçom de segunda categoria, em que a nossa sexualidade continua a ser considerada tam só em chaves reprodutivas e da que é claro que nom podemos considerar-nos donas.

É urgente promover revulsivos que visibilizem a existência da oposiçom ao sistema dominante. Este é um passo prévio para que esta oposiçom poda ser considerada viável e necessária para as mais amplas massas.

E estes revulsivos devem dar-se sobre aqueles factores da dominaçom mais evidentes e mais gravosos para a mocidade. No nosso ponto de mira situa-se o exército e as forças policiais, as instituiçons que som garante armado do status quo; a Igreja católica e todas as instituiçons que fam apologia das manifestaçons mais evidentes do patriarcado; os principais agentes da espanholizaçom do nosso país, atendendo especialmente ao aspecto idiomático, tais como instituiçons culturais-educativas e meios de comunicaçom; e com certeza o principal beneficiário da nossa exploraçom, o Capital personificado em todos os empresários que se aproveitam do nosso trabalho.

Temos que aprender de vez a partir das preocupaçons mais urgentes da mocidade para levar avante a nossa actividade. Na agenda da organizaçom da juventude do MLNG no dia de hoje nom pode aparecer só a agitaçom de palavras de ordem estratégicas ou mesmo de acabados planos tácticos que nom sejam compreendidos, e portanto assumidos, por parte de quando menos os núcleos mais rebeldes da mocidade galega. Hoje temos de falar de independência, socialismo e anti-patriarcado partindo das manifestaçons concretas da precariedade laboral, da ilegalizaçom de determinadas drogas e a lei do botelhom, das campanhas de recrutamento do exército espanhol, das dificuldades para aceder a anti-conceptivos e a ilegalidade do aborto, ou da ausência dumha cultura de massas no nosso idioma.

Mas a nossa acçom nom se pode reduzir à agitaçom senom que paralelamente devemos ajudar a promover todo o tipo de experiências associativas que configurem um autêntico movimento juvenil galego. Tam importante como que numha localidade exista umha assembleia de jovens independentistas ligados ao MLNG é que nela haja organizaçons culturais, sociedades desportivas, de mulheres moças, cine-clubes, etc... criados e dirigidos por jovens e em que as militantes da esquerda independentista podam desenvolver o seu trabalho. Trata-se de criar espaços de socializaçom que conformem umha juventude com vontade de se emancipar em todos os níveis da sua existência.


O modelo de organizaçom juvenil que deve impulsionar o MLNG

Na actualidade, a esquerda independentista galega passa por umha situaçom de anormalidade polo referente a sua própria estruturaçom no campo juvenil, convivendo na altura diversos projectos políticos juvenis que se situam em coordenadas políticas muito próximas. Tal situaçom é achacável a existência de diferentes focagens políticas que ultrapassam o propriamente juvenil, mas que no campo preciso deste sector apresentam se calhar um maior acirramento do que noutros.

Em todo o caso, a anormalidade desta situaçom nom pode ser, nem é, impedimento para que @s comunistas de prática independentista organizados em Primeira Linha apostemos por um determinado modelo organizativo que na actualidade está representado dum jeito mais acabado em BRIGA.

O modelo que nós defendemos para a organizaçom de mocidade do MLNG reflecte, em primeiro lugar, a conceiçom geral de movimento que @s comunistas galeg@s vimos defendendo nos últimos anos durante todo o processo de configuraçom do novo independentismo, umha conceiçom em que a pluralidade é umha exigência para todas as organizaçons unitárias que existam. Pluralidade que tem de ir acompanhada em todo o momento do reconhecimento da legitimidade da existência de correntes organizadas. É por este motivo que nom podemos aceitar que umha corrente concreta pretenda arrogar-se a exclusividade sobre um sector de luita concreto.

Doutra parte, a aceitaçom da nossa integraçom dentro dum movimento político mais amplo, totalizador, o MLNG, exige que fagamos do mais escrupuloso respeito à sectorializaçom um dos nossos sinais identitários. Para o bom funcionamento do MLNG, e por derivaçom para o correcto desenvolvimento de BRIGA, temos de agir em todo o momento respeitando as esferas de actuaçom das outras organizaçons do MLNG e coordenar a nossa actividade nos casos em que se exija umha actuaçom que atinja todos ou vários dos sectores. O MLNG nom ganha nada se habitualmente há várias entidades que desenvolvem idênticas campanhas, muito polo contrário, alarga-se a sua capacidade se as diferentes expressons organizativas do movimento desenvolvem correctamente a sua funçom sectorial complementando-se e aprofundando no desenho dumha linha de actuaçom política comum a todo o movimento o mais ampla e acabada possível.

Para além destas premissas orgánicas básicas ligadas ao desenho interno do MLNG, há outras características que entendemos devem ser próprias da organizaçom juvenil da esquerda independentista. A necessidade de um agir caracterizado pola combatividade e radicalidade prática, questionando ao máximo a "normalidade democrática". Nom basta com que umha organizaçom se diga revolucionária, nem tam sequer que o seu programa político seja muito avançado, senom que tem de demonstrar pola via dos factos que nom tem nengum apreço polo sistema vigorante e que está disposta a todo para o derruir e edificar um novo mais justo.

Além do mais, a própria proposta de movimento juvenil que fazemos, em que distinguimos um nível mais amplo, onde tenhem cabimento colectivos, organizaçons e entidades de mocidade de todo o tipo, dum outro mais restricto, ocupado pola organizaçom política de mocidade, obrigam a que proponhamos que BRIGA nom deva ser umha organizaçom de filiad@s senom de militantes. Isto é, BRIGA tem de ser a rede estruturada de quadros do movimento juvenil galego e o compromisso adquirido pola sua militáncia tem de ser elevado. Som muitos os factores que influem nesta necessidade, mas fundamentalmente devemos resaltar a renúncia consciente, voluntária e pracenteira que supom a dedicaçom de boa parte das horas de lazer que a maioria da mocidade emprega a qualquer outra cousa e que @ militante deve dedicar a reunions, planificaçom de actividades, distribuiçom de propaganda, organizaçom de mobilizaçons,... em definitivo, a fazer a revoluçom. Também nom devemos ignorar que umha organizaçom juvenil deste tipo vai sofrer a repressom, nos mais diversos níveis, polo que é preciso que quem a integre adquira o compromisso e esteja o suficientemente segur@ de poder agüentar as coacçons no ámbito familiar, laboral, educativo e com certeza as exercidas por parte dos aparelhos repressivos do Estado espanhol.

Já num segmento menos organizativo e mais político, devemos insistir, mais umha vez, em que a política de BRIGA deve ajustar-se à realidade concreta da mocidade, eludindo em todo o momento idealizaçons e análises erradas. Isso sim, o conhecimento desta realidade e a nossa adaptaçom a ela nom pode fazer-nos esquecer que a nossa intençom e transformá-la radicalmente, polo que devemos luitar contra todo género de alienaçom que na actualidade caracteriza a mocidade galega. BRIGA nom pode falar espanhol ainda que a maioria d@s moç@s o fagam, nom pode ser machista ainda que as condutas patriarcais sejam maioritárias entre a juventude, nom pode assumir o consumismo e as pautas de ócio destrutivas e alienantes por mais que sejam a norma geral... muito polo contrário, deve luitar contra cada umha destas manifestaçons da alienaçom do sistema luitando por construir a nossa alternativa.

Em resumo, para a sobrevivência do projecto nacional galego e a possível edificaçom dessa Galiza independente, socialista e livre do patriarcado por que luitamos, é absolutamente necessária a incorporaçom ao MLNG de amplos sectores da mocidade operária e popular do nosso país. Mocidade que na actualidade sobrevive numhas condiçons materiais realmente aterradoras e que é vítima directa dos debastadores efeitos da alienaçom ideológica promovida polo capitalismo. Só partindo da auto-organizaçom e da ligaçom do movimento juvenil galego ao MLNG se pode pôr freio ao processo de assimilaçom nacional e apresentar batalha sob umhas mínimas possibilidades de vitória. Sabemos que o caminho é difícil, mas nom nos fica mais remédio que andá-lo se realmente aspirarmos a edificar umha sociedade melhor.

Berta Lopes Permui é fai parte da Mesa Nacional de BRIGA

 

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