Devastaçom do Katrina: catástrofe natural ou responsabilidade do sistema capitalista?

Na imensa destruiçom provocada polo furacám Katrina a finais de Agosto no golfo de México nom podemos desconsiderar, e muito menos subestimar, as estreitas relaçons causa-efeito derivadas do modelo de "desenvolvimento" capitalista, acentuado nas últimas décadas polas receitas do neoliberalismo mais selvagem.

1- Embora o Katrina fosse um fenómeno metereológico anunciado com suficiente antecedência polos modernos meios de que os Estados Unidos disponhem, incidindo no seu profundo carácter destrutivo, as autoridades locais, estatais e federais aplicárom exclusivamente a mais pura lógica do mercado, abandonando deliberadamente dezenas de milhares de pessoas à sua sorte, ou seja às suas (in)capacidades individuais para fazer frente às letais conseqüências. Desde as primeiras horas em que se constatárom os diagnósticos da mortífera capacidade de devastaçom realizados previamente pola Agência Federal de Gestom de Crises (FEMA), o governo de Bush tam só transmitiu dous conselhos: fugir, abandonando o antes possível a imensa área que se previa fosse afectada, e rezar para paliar a "fúria" dos elementos. Ou seja, aplicar de maneira inexorável a lógica neoliberal de que cada pessoa tem que resolver individualmente todas as circunstáncias que afectam diariamente a sua vida. E para atingir objectivos, que melhor que solicitar ajuda a deus.

2- A potência imperialista, -que se gaba de ser a mais elaborada e desenvolvida forma da civilizaçom ocidental e, portanto, responsável pola manutençom da ordem mundial-, abandonou à sua sorte, na forma mais literal do termo, umha parte substancial das populaçons dos estados da Luisiana, Mississipi e Alabama, condenado à desolaçom, sofrimento e morte aqueles segmentos socialmente mais desfavorecidos: as classes populares pobres, basicamente conformadas por negros e latinos. As vítimas em mortes e ferid@s, na perda das suas casas e meios de subsistência, nom habitavam as zonas residenciais, nem as elegantes mansons de Garden District (que na sua maioria nem fôrom alagadas), e em que as companhias de seguros repararám parte das perdas; senom os bairros marginais onde se armazenam as maiorias deserdadas da velha cabana do Tio Tom, perpetuadas e condenadas polo american way of live a continuarem na pobreza e exclusom social.

3- As imagens de televisom, -previamente filtradas e seleccionadas polos grandes canais norte-americanos, que nas primeiras horas da penetraçom do Katrina convertêrom a cabeça do furacám num show para alargar audiência e obter mais lucro, mas que posteriormente, fruto da perplexidade, tivérom dificuldades para reagir, nom pudérom evitar mostrar Nova Orleans completamente alagada polas águas do lago Pontchartrain, parcialmente destruída, com centenas de cadáveres a boiar nas águas contaminadas, milhares de refugiad@s com fame e sede solicitando ajuda, a desesperaçom das crianças, a agonia de idos@s abandonad@s-, provocárom surpresa, incompreensom e estupor em todo o mundo perante a passividade das autoridades. Mas a serôdia, lenta e limitada reacçom das autoridades agravou a dimensom dumha devastaçom, que podia ter sido parcialmente evitada. O exemplo a seguir produziu-se meses atrás quando a Revoluçom Cubana foi capaz de proteger e evacuar, sem umha só vítima mortal, 1.3 milhons de pessoas, mais de dez por cento da populaçom, perante as ameaças do furacám Ivám. Cuba, um país periférico, com poucos recursos e constantemente agredido polo gigante imperialista, mostrou vontade e capacidade para salvar a sua gente e paliar a destruiçom, porque tinha planos de evacuaçom e um governo que se preocupa pola verdadeira segurança e bem-estar das pessoas. Eis a diferença frente à barbárie a que nos condena o modelo neoliberal.

4- O caos consubstancial ao modo de produçom capitalista foi quem propiciou transformar este agressivo fenómeno natural num hiper-destrutivo furacám. Porquê?. Em primeiro lugar, pola passividade criminosa à hora de evacuar o conjunto da populaçom, garantindo refúgios seguros e a sua manutençom durante o tempo necessário. Em nengum momento existírom, nem obviamente se aplicárom, planos integrais de evacuaçom, embora se possuíssem os recursos necessários, centenas de autocarros escolares, de companhias privadas, transporte ferroviário, marítimo e aéreo, para evacuar de maneira planificada e ordenada todas aquelas pessoas que careciam de meios próprios para abandonarem a área metropolitana de Nova Orleans. O complexo militar-industrial imperialista pode organizar em poucos dias, e mesmo em horas, imensas pontes aéreas para transferir tropas a Kosova ou ao Afeganistám por "motivos humanitários", e nom reage quando milhares de compatriotas estám a morrer polos efeitos das inundaçons no seu próprio território. Nos três principais estados afectados, as bases militares ali instaladas mantivérom-se à margem dos acontecimentos.

Mas o problema tem umha série de responsabilidades prévias. Parte do rico ecossistema dos territórios do Sul dos Estados Unidos, basicamente à volta do rio Mississipi, tem sido literalmente alterado polas políticas desenvolvementistas que drenárom milhares de hectares para construir complexos petroquímicos, cidades, áreas residenciais e industriais, de forma irracional e seguindo exclusivamente a lógica do lucro. Cerca de 4.000 quilómetros quadrados de barreiras naturais, -ilhas e terrenos costeiros- fôrom erosionados e destruídos nos últimos cinqüenta anos, segundo os estudos da Associaçom de Engenheiros Civis dos Estados Unidos. O delta do Mississipi foi canalizado para facilitar a navegaçom, alterando profundamente as defesas naturais perante a violência metereológica.

A guerra global que o complexo militar-industrial ianque desenvolve em diversas pontos planetários provocou a drástica reduçom das verbas destinadas a modernizar e alargar a imensa rede de diques e barreiras contra inundaçons que evitavam que a pérola da Luisiana, construída abaixo do nível das águas do Pontchartrain, do Mississipi e do mar, ficasse inundada polas águas que a rodeiam. Nova Orleáns está construida numha depressom natural da bacia inundável do Mississipi, e desde a sua fundaçom a finais do século XVIII está "protegida" por 1.900 quilómetros de diques e barreiras, muitas delas actualmente obsoletas e completamente deterioradas.

Desde 2003, o Governo Bush e o Congresso norte-americano deixárom de financiar o SELA (Programa de Controlo das Inundaçons Urbanas do Sul da Luisiana). No ano passado, o Corpo de Engenheiros do Exército, -entidade responsabilizada pola segurança de Nova Orleáns frente à ameaça das águas-, assim como diveros sectores e meios de comunicaçom da cidade, solicitárom reforçar com carácter de urgência o imenso complexo destas muralhas artificiais, reforçando-as e elevando a sua altura, estimando em 11 milhons de dólares o seu custo aproximado. Georges W. Bush tam só requereu ao Congresso 3 milhons e este concedeu metade do que se pedia: 5.5 milhons. Desta forma, os EUA optárom por cortar o orçamento, para alimentar a agressom imperialista no Iraque e no Afeganistám, e para fortalecer a estratégia de controlo social sob a justificaçom da segurança e combate ao "terrorismo", desviando-o dos serviços sociais, e também do que Nova Orleáns necessitava para evitar um cenário como o que o Katrina provocou a 28 de Agosto, perfeitamente prognosticado nas previsons do Governo norte-americano.
Mas, as causas primárias que levárom à parcial destruiçom da cidade e dos espaços naturais que conformam o universo de Mark Twain e Escarlata O`Hara, centenas de vezes reproduzidos pola indústria cinematográfica de Hollywood, reside no aquecimento global da atmosfera, o denominado efeito estufa, que o Governo Bush se nega a reconhecer e polo qual os EUA som um dos principais responsáveis. Os furacáns no Golfo do México, que já assolavam as culturas pré-colombianas, som cada vez mais freqüentes e destrutivos.

A alteraçom global do ambiente tem agudizado os fenómenos naturais, provocando a violenta e já inocultável mudança climática que provoca chuvas torrenciais, inundaçons, elevaçom da temperatura, incremento das secas e da desertificaçom. Segundo diversos estudos do Instituto Tecnológico de Massachusetts, a força dos furacáns experimentou um incremento de 50% no último meio século e o nível do mar subiu um metro no Golfo do México.

Os EUA, com 5% da populaçom, consomem 40% do petróleo e do carvom mundial, e seguem negando-se a aderir e assumir as raquíticas medidas previstas no Protocolo de Kyoto. A potência hegemónica imperialista deveria reduzir em 70% o consumo de combustíveis fósseis e assim poder contribuir para evitar converter em irreversível a destruiçom do planeta a que nos leva o irracional modo de produçom capitalista, mas isto questionaria a sobrevivência das grandes empresas e companhias tam bem representadas pola extrema-direita que governa Washington.

5-Mas o drama humano que atinge centenas de milhares de habitantes do Golfo do México tem um evidente carácter de classe, racial e de género. A divisom classista da sociedade capitalista, as suas conseqüências na composiçom racial, e as desigualdades de género provocadas polo patriarcado, determinárom que as vítimas sejam as classes populares, basicamente os sectores mais empobrecidos, mais de 30% da populaçom, desempregad@s, idos@s, imigrantes, basicamente pret@s e latin@s, com especial incidência sobre as mulheres. O grosso destes segmentos considerad@s "prescindíveis" na lógica criminosa da burguesia norte-americana, fôrom condenad@s à morte pola planificada destruiçom sistemática dos serviços sociais do Estado, na actualidade praticamente reduzido aos aparelhos coercitivos que garantam a apropriaçom da mais-valia polo grande Capital, e aos diversos mecanismos de dominaçom imprescindíveis para poder manter as estruturas de exploraçom que permitem sustentam a ordem social.
Desde a década de oitenta, as políticas neoliberais aplicadas nos USA provocárom o rebentamento do denominado "estado da providência", ou seja, a rede pública de serviços e prestaçons sociais, liquidando a sanidade, o ensino público, as pensons, gerando um incremento das desigualdades e da pobreza. A lógica do mercado provocou que desaparecessem as redes sociais que garantem a protecçom mínima do conjunto da populaçom, especialmente dos sectores mais vulneráveis: as crianças e as pessoas idosas. Após um processo de sistemáticas privatizaçons, o Estado ficava isento de toda responsabilidade social.

Os que ficárom atrapados em Nova Orlenas e nas cidades dos seus imensos arrabaldos fôrom tod@s aqueles que careciam de meios de transporte próprios: automóvel, ou bem de recursos económicos para poder frente às necessidades derivadas de abandonarem as suas casas. Milhares de famílias nom tinham literalmente nem forma de escapar, nem para onde ir. Nom tivérom mais opçom que permanecer nessa imensa ratoeira. Por se isto nom fosse suficiente, o Katrina impactou no fim do mês, quando já na maioria das casas que dependem de miseráveis subsídios, de salários de miséria, das ajudas da beneficência, se esgotáram os recursos para poder fazer frente à dura última semana que há que superar todos os meses, multiplicando assim os seus efeitos.

Quando as imagens de televisom começárom a mostrar parte da realidade na suas expressons mais impactantes de pánico, desesperaçom e morte, com dezenas de milhares de refugiad@s, cuja cor de pele semelhava mais Haiti ou Libéria do que o país mais "poderoso" do planeta, embora a obessidade mórbida que substituía os corpos desnutridos do "Terceiro Mundo" evitasse a confusom, o Governo viu-se obrigado a reagir. A popularidade de Bush achava-se em queda livre. Era necessário evitar mostrar que o regime que justifica as guerras e o uso mais brutal da violência imperialista para defender a "liberdade e os valores ocidentais" aparecesse mostrando o seu verdadeiro rosto de terror e crueldade: abandonando à sua sorte a parte dos seus habitantes. A dimensom e o impacto na opiniom pública interna e internacional perante tanta incompetência e passividade durante os acontecimentos, (Bush continuava a desfrutar de férias no rancho de Crawford, e Condoleezza Rice de compras nas distinguidas boutiques de Nova Iorque), provocou que os imensos recursos com que conta ou pode movimentar o aparelho estatal norte-americano começassem a movimentar-se. Porém, nos primeiros dias de Setembro, quando já faleceram milhares de pessoas, apenas se pom em acçom a maquinaria propagandística em colaboraçom com os grandes meios de comunicaçom. Visitas virtuais do presidente, mensagens de consolo, promessas e declaraçons eleitorais.

As primeiras medidas fôrom introduzir, como se gado se tratasse, dezenas de milhares de vítimas em dous grandes espaços: o estádio Superdome e o Centro de Convençons, sem os mais mínimos meios para poder garantir as necessidades mínimas das pessoas ali refugiadas. Sem luz, água, alimentos, ar condicionado, serviços higiénicos e sanitários, os dous colosos arquitectónicos rapidamente se convertêrom em campos de concentraçom onde armazenar e ocultar os efeitos da catástrofe em que o imperialismo converteu o furacám. O resgate da deputada do PSOE catalám e da sua família do Superdome constata novamente os privilégios e profundo carácter de classe no tratamento d@s refugiados no capitalismo. Ser brancos, ricos e das elites ocidentais, embora estrangeiros, permitiu que fossem resgatad@s por unidades especiais da polícia.

6-Para reduzir na opiniom pública interna e internacional as conseqüências do brutal impacto da tragédia, o descrédito dos EUA perante os povos do mundo, os meios de comunicaçom lançam umha eficaz campanha de intoxicaçom e manipulaçom baseada nas dificuldades de intervençom e distribuçom dos recursos movimentados polas autoridades estatais e federais. Perante as acusaçons desesperadas de Ray Nagin, presidente da Cámara de Nova Orleáns, quando após ter reclamado ajudas, perde os nervos afirmando "que mexam o cú e fagam algo", rapidamente o império constrói um cenário para a actuaçom dos serviços de resgate. Aqui também o racismo e classismo dos meios de comunicaçom nom perdoa: os pretos saqueiam e os brancos tomam emprestado.
É declarado o toque de recolhida, as tropas, Guarda Nacional, e corpos policiais deslocados ao cenário recebem ordem de dispararem a matar. Estas inicialmente tenhem como exclusivo cometido a defesa das propriedades e restabelecimento da ordem questionada polo desespero de dezenas de milhares de pessoas que procuram a toda a custa sobreviver. Como se pode definir de saqueadores as massas desesperadas que, sem roupas, bebida, comida, medicamentos, "assaltam" supermercados, armazéns e farmácias?. O Estado nom só nom garante a sua sobrevivência, senom que concentra meios em evitar que se apropriem dos recursos a que se pode aceder sobre o terreno.

7- A dimensom da destruiçom provocou paradoxos tam imensas como que o Estado responsável pola miséria de dúzias de países e povos tivesse que solicitar ajuda a quem empobreceu. Os Estados Unidos vírom-se obrigados a aceitar os contributos do Blangadesh ou México, mas também da UE que tam só aplicou a lógica dos interesses globais do capitalismo. Para evitar o colapso energético ianque, emprestou os centenares de milhares de barris de petróleo armazenados nas reservas estratégicas para momentos de crise, que os EUA necessitavam para impedirem deste jeito um ainda maior incremento dos preços do crude no mercado internacional e a conseguinte desestabilizaçom do sistema provocado pola destruiçom de algumhas plataformas e refinarias. Aqui nom se executam decisons alicerçadas na solidariedade e ajuda mútua. As que realmente sim derivavam destes valores, as oferecidas por Cuba e a Venezuela, a primeira em forma de médic@s e equipas sanitárias, e a segunda em forma de petróleo, foi rejeitada. O império, novamente, optou por sacrificar o seu povo ao nom permitir a ajuda dos seus inimigos, as revoluçons Cubana e Bolivariana.

8- Até que ponto a devastaçom provocada polo Katrina, e volto a insistir, prognosticada polo Estado federal, nom foi conscientemente evitada pensando nos impressionantes lucros que a reconstruçom vai gerar ao bloco de classes dominante, cuja interrelaçom com o complexo militar-industrial está suficientemente acreditada?. As grandes companhias e empresas como Halliburton, vinculadas a destacadas figuras do poder como Dick Cheney, tam só se lucram da morte e sofrimento humano, sem se importarem com se foi provocado em Hanoi ou em Los Ángeles, em Faluja ou Nova Orleáns. A ilimitada voracidade e total ausência de escrúpulos tem caracterizado historicamente o accionar do imperialismo. Os seres humanos som apenas números, frios algarismos, que podem ser empregados para gerarem mais dígitos nas contas bancárias dos paraísos fiscais, nas bolsas de Wall Street ou Londres.

9- Actualmente, após várias semanas do início da catástrofe, a verdadeira dimensom da tragédia na área desvastada, praticamente desapareceu da realidade virtual dos grandes meios de comunicaçom. Nom se informa do número exacto das mortes e desaparecidos, talvez nunca se saiba ou se demore anos a conhecer. O clamoroso silêncio responde aos fabulosoos interesses em jogo. As grandes empresas estám repartindo os imensos benefícios da reconstruçom, negociando decisons urbanísticas, políticas, sociais que favoreçam os seus interesses frente à desolaçom dos que perdêrom praticamente todo o pouco que possuíam.

Perante a carência, no coraçom do império, de movimentos populares questionadores do cerne do modelo socioeconómico imperante, o acontecido no Golfo do México deve ser umha nova liçom para os povos do mundo sobre o terror a que nos conduz o capitalismo na sua fase neoliberal. Os limites e imensas fraquezas da hegemonia norte-americana estám sendo habilmente combatidos nas ruas do Iraque pola resistência. Reforçar a luita popular de parámetros nitidamente revolucionários é o desafio que tenhem o conjunto das forças anticapitalistas, com destaque para as comunistas, se quigermos evitar a destruiçom planetária e civilizacional a que nos leva inexoravelmente a barbárie do imperialismo.

Carlos Morais. Secretário Geral de Primeira Linha

 

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