As dificuldades das mulheres na militáncia política. Mais um espaço em que avançar
·Kiskitza Gil de San Vicente

O texto que a seguir apresentamos pode ser dividido em duas alíneas:

Primeira alínea
Nesta alínea, mediante umha breve descriçom, analisamos a opressom das mulheres, o porquê da necessidade de um projecto integral de libertaçom. Quer dizer, fazer frente ao patriarcado construindo umha sociedade justa. E porquê umha aliança entre os sectores oprimidos para atingir tal projecto.

Segunda alínea
Como feministas, vemos a necessidade de fazer parte de um projecto comum. Para que este projecto responda às necessidades das mulheres e para que as dinámicas que se geram sejam feministas cumpre umha pressom dentro destes movimentos. Para convertê-los em verdadeiros sujeitos feministas é preciso mudar mentalidades e formas de comportamento. Nesta seguda alínea comentaremos a experiência que a este respeito temos as mulheres da esquerda abertzale.

Por último, umha reflexom
Nom acreditamos que esta experiência seja exclusiva das mulheres da esquerda abertzale. Ao contrário, julgamos que é umha experiência comum em mulheres que luitamos em organizaçons revolucionárias mistas e que vivemos processos de libertaçom nacional e social. Por isso tudo, as mulheres bascas propomos abrir um debate internacioinal à volta deste tema que nos permita partilhar propostas e gerar umha rede entre nós para influir nas nossas organizaçons e nos movimentos que a nível internacional estám a gerar-se.

Primeira alínea
Afirmamos que existe opressom sobre as mulheres quando as relaçons sociais se constróem com base nos sexos diferenciados, quando entre os sexos existe umha relaçom de poder e quando estas relaçons som mantidas mediante instrumentos ideológicos e repressivos.

Afirmamos que é umha opressom específica porque nom é produto directo da opressom nacional e de classe e porque, para ultrapassá-la, devemos construir umha nova concepçom dos relacionamentos entre os sexos nom baseados nem na diferença nem na dependência.

Às vezes, por sociedade patriarcal entendemos unicamente umha ideologia que minoriza as mulheres, o seu contributo e experiência. Mas a sociedade patriarcal tem a sua plasmaçom no político e no económico.

Nom podemos perceber a opressom específica das mulheres sem situá-la no seu contexto concreto, nom podemos compreender o Patriarcado sem analisá-lo no seu contexto actual. A opressom das mulheres bascas e galegas tem de analisar-se e perceber-se no nosso contexto económico, sociopolítico e ideológico concreto, quer dizer, num modelo social de relaçons capitalistas e de opressom nacional. As mulheres vivemos umha única opressom definida por estes três aspectos.

A libertaçom das mulheres virá de maos dadas com umha mudança global. Esta alternativa tem de reconstruir os relacionamentos sociais entre os sexos, deve garantir a igualdade de direitos e oportunidades, mas para isso é imprescindível alterar as relaçons de dominaçom em todos os ámbitos da existência.

Sofrer umha opressom específica fai-nos, como mulheres, sujeitos específicos de luita, quer sejamos conscientes da nossa situaçom, quer nom; luitemos em organizaçons mistas ou específicas de mulheres. As mudanças que já conseguimos tenhem sido produto da capacidade que tivemos as mulheres para tomar consciência da nossa situaçom, para definir alternativas e organizar-nos para atingi-las.

Paradoxalmente, quando os frutos desta autoconsciência e organizaçom tenhem começado a ser vistos, questiona-se a mulher e as mulheres como sujeitos específicos de luita. Paradoxalmente, quando os níveis de discriminaçom aumentam e a opressom sobre as mulheres começa a ter novas faces, questiona-se nom apenas a legitimdade que temos como sujeito oprimido para analisar, decidir e agir, como também isto perde o seu valor estratégico. Como pensamos luitar contra a violência sexual se as mulheres nom activam os seus mecanismos de autodefesa? Como pensamos exigir igual salário ou luitar contra a precariedade laboral se as mulheres nom alçamos a nossa voz e dizemos basta?. Embora este nom seja o tema deste texto, acho especialmente preocupantes estas formulaçons que nalguns sectores do movimento feminista estám a tomar peso.

Luitar por umhas novas relaçons sociais entre sexos é tarefa de todo movimento que se tenha por progressista, neste tema nom existe neutralidade. Quando nom se integra a perspectiva feminista no nosso projecto, linha de actuaçom e dinámica interna ou externa, estamos a integrar e reproduzir a perspectiva patriarcal. O esquecimento, o relegar em prol de nom se sabe que cenário político, esta perspectiva supom nom dar voz às mulheres, nem visibilizá-las, supom entender por trabalho o realizado no ámbito público, supom nom fazer frente ao sexismo na nossa luita... Esquecer é manter a estrutura patriarcal.

As mulheres e o movimento feminista devemos unir-nos aos restantes sectores oprimidos. Nem podemos luitar por nós próprias, nem podemos atingir os nossos objectivos sozinhas. Acho que temos um duplo repto à hora de gerar estas alianças: de umha parte, o movimento feminista tem de ser capaz de definir os seus mínimos e conseguir que se convertam em mínimos comuns para todos os sectores; e de outra parte, os milhares de mulheres que participamos em organizaçons mistas, que em sindicatos, partidos políticos ou organizaçons juvenis luitamos por umha mudança global, devemos luitar de dentro para que os nossos interesses colectivos se vejam reflectidos nas luitas e reivindicaçons colectivas.

As mulheres devemos exigir que este projecto, polo qual damos o nosso tempo e a nossa vida, responda às nossas necessidades como mulheres. Hoje em dia, no século XXI, quando experiências de luita anteriores nos tenhem demonstrado que tranquilamente podem esquecer-se as nossas reivindicaçons, que tranquilamente a esquerda pode fazer seu o discurso e a prática patriarcal, devemos pensar em pôr condiçons ao nosso investimento militante.

As mulheres militantes no movimento que conforma a esquerda abertzale estamos neste caminho, algumhas de nós no movimento feminista, outras fazendo parte das organizaçons mistas. Todas somos conscientes do esforço e os custos que isto gera, a nossa luita é para dentro e para fora e somos conscientes de que o inimigo é o de fora e os nossos companheiros e as situaçons de discriminaçom que a seguir havemos comentar som produto do sistema. A seguinte definiçom de Judith Astelarra ajuda-nos a compreender o porquê estas contradiçons nos som mais dolorosas:
"É um género de desigualdade que, a diferença de todas as mais, se produz entre dous colectivos cuja distáncia social, em termos sociológicos, é mínima. Os homens e as mulheres partilham a sexualidade e a afectividade, o mais próximo que existe entre os seres humanos. Por isso é tam difícil assumir as contradiçons e logo que as mulheres melhoram a sua situaçom preferem acreditar que a discriminaçom já findou. É um diagnóstico em que som acompanhadas imediatamente, com grande entusiasmo, polos seus companheiros. De aí que cada geraçom de mulheres que fai frente à discriminaçom passe primeiro por um complexo problema de autoconsciência".

Segunda alínea: experiência na esquerda abertzale
Como temos dito antes, as mulhers nom só estamos oprimidas como mulheres, por isso muitas de nós antepomos a luita por estas realidades à nossa específica. Nós somos mulheres feministas e abertzales, fazemos parte da esquerda abertzale, luitamos para converter esta num verdadeiro sujeito feminista. Quer dizer, para que responda de forma estrutural e concreta às necessidades das mulheres, para isso temos de levar em conta que:

- A esquerda abertzale nom é umha organizaçom, mas um movimento do qual participamos organizaçons de muito diverso género. Algumhas aspiram a conseguir uns mínimos democráticos para Euskal Herria. Outras, em troca, aspiram à Independência e ao Socialismo. Algumhas, aglutinam sectores populares à volta desses mínimos democráticos, e outras estám formadas por militantes com umha forte coesom ideológica. Portanto, temos muito claro que a forma de integrar a perspectiva feminista será diferente para cada umha destas organizaçons.

- De outra parte, temos claro que como movimento temos de seguir umhas pautas comuns. Estas seriam algumhas delas:

- Por otro lado tenemos claro que como movimiento tenemos que seguir unas pautas

-
o Para ser-se um sujeito feminista real e para se dar resposta às necessidades das mulheres, cumpre conformar um movimento igualtário. Quer dizer, na nossa prática interna temos que erradicar as discriminaçons sexistas e impulsionar a participaçom igualitária das mulheres.

o Existe um problema de conscientizaçom real na militáncia no seu conjuto. Um problema ideológico; muitas vezes assume-se o discurso dominante, nom existe um conhecimento da situaçom das mulheres, existe umha falta de cumplicidade com o movimento feminista e o feminismo no seu conjunto... Devem pôr-se mecanismos para solucionar estas deficiências.

o Para convertermo-nos em verdadeiro sujeito feminista, devemos integrar nas nossas análises a realidade das mulheres e todo o relacioniado com o ámbito privado. Temos de garantir que o nosso projecto político persegue construir umha Euskal Herria feminista, e portanto, que nas nossas linhas de intervençom e entre as nossas prioridades integramos esta perspectiva.

o Como estades a ver, referimo-nos a umha mudança estrutural na nossa prática interna e externa, umha mudança portanto de longo prazo.

No ano 98, Egizan (organizaçom feminista autónoma dentro da esquerda abertzale) pom acima da mesa esta análise e formula a necessidade de mudar a forma de entender a luita feminista. Egizan era umha organizaçom com umha dupla funçom, de cara ao movimento feiminista e à própria esquerda abertzale. A bola da responsabilidade feiminista foi situada nestes dous movimentos. O movimento feminista tem de analisar se responde às necessidades das mulheres bascas, se organiza e tensiona as mulheres oprimidas, se é referência e altofalante das necessidades delas, se é verdadeiramente autónomo e por cima das relaçons políticas e institucionais mantém os seus próprios critérios.

De outro lado, a Esquerda Abertzale assume que tem umha deficiência estrutural neste campo. No ano 2000 realizaçom-se assembleias de mulheres militantes na esquerda abertzale e definem-se os passos a propor para ultrapassar esta deficiência. A princípios de 2003, voltamos a juntar-nos para valorizar os passos realizados e propor outros novos. Nesta última assembleia reunimo-nos umhas 350 mulheres. Para nós, é chave manter um relacionamento, por cima das nossas organizaçons. Temos gerado umha rede feminista transversal que está a ser o verdadeiro motor do processo, motor para propor passos e instrumentos como para manter um tensionamento permanente.

Esta mudança nas organizaçons está a ser realizado em três fases. Umha primeira seria o realizar um diagnóstico participativo, muito dinámico, que nos permita conhecer qual é a situaçom e a opiniom real dos e das militantes. Umha segunda fase em que cada organizaçom, com base nos seus diagnósticos, definiria um plano a nível interno a desenvolver nos próximos anos. E umha terceira fase em que definimos as bases ideológicas feministas, os estilos de trabalho e as prioridades de intervençom externa para toda a Esquerda Abertzale e para cada umha das organizaçons.

Este processo nasce com o compromisso de todo o movimento, mas temos de ser francas, nom está a ser um processo fácil, os compromissos nom se desenvolvem com a mesma intensidade segundo a sua dimensom. Mas, sem dúvida, o compromisso está tomado. Nom só por coerência para com um projecto de esquerda e verdadeiramente democrática, mas por pura necessidade, é estratégico para todas as esquerdas organizar as mulheres, melhorar tanto a nível qualitativo como quantitativo a sua militáncia, fazer frente à ofensiva patriarcal defendendo os direitos conquistados e fazendo frente às novas problemáticas que o capitalismo neoliberal está a colocar-nos.

Intervençom realizada o 7 de Maio de 2003 em Compostela nas VII Jornadas Independentistas Galegas




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