Literatura cinzenta e memória seqüestrada

Ernesto Vázquez Souza

Umha das tarefas mais desconhecidas de Ángel Casal e um dos labores mais interessantes da imprensa-editorial Nós foi a impressom de várias revistas de conteúdo republicano esquerdista, assim como um sem-número de folhas voantes, panfletos e comunicados políticos de mui diversa índole.

Estas tarefas, das que pensamos apenas tenhem chegado referências ao presente, vam jogar um muito importante papel à hora de definir as relaçons políticas do galeguismo compostelano com o conjunto de forças de esquerda, que produzirám a escolha inquestionada de um nacionalista como alcaide de Compostela, dentro da gestora da Frente Popular entre Fevereiro e Julho de 1936.

A partir de 1933, com a radicalizaçom do ambiente compostelano, Casal tornara-se o principal impressor da esquerda: comunistas, anarquistas, estudantes, grupos antifascistas recorrem a ele ante a negativa de imprensas como La Ibérica, La Comercial ou especialmente Paredes, mais proclives à impressom das folhas dos grupos de pressom de Acción Española, da CEDA e da nascente Falange de Santiago Montero, Moralejo ou Castroviejo. Iniciativas contra as que a imprensa de Casal dá cumpridas respostas. Neste caso concreto e no mais relevante da Direita Galeguista, dos Manuel Beiras, Banet Fontenla ou Mosquera Pérez, temos folhetos doutros prelos para evidenciar com a ausência, frente a outras presenças como Mulheres Libertárias, POUM, Juventudes e sindicatos, o matiz nítido do compromisso, por cima das "amizades".

Por cima disto, a imprensa Nós jogará um papel fundamental no desenvolvimento desta série de linguagens modernas. Os conteúdos, os textos e as relaçons que se estabelecem entre a esquerda e a editorial de Casal (com notável ausência da direita, mesmo a galeguista), actuam como evidência gráfica e prova das alegaçons e considerandos da importáncia do prelo de Nós e da figura de Casal em Compostela como umha das figuras que mais impulsionou o achegamento do PG das plataformas de esquerda e da Frente Popular.

Porém, Casal e os prelos galeguistas da Irmandade já desempenharam um importante labor de actividade e propaganda contra o sistema político desde 1917. Tarefa ainda por fazer é a pescuda em arquivos públicos e privados do conjunto de folhas soltas e suplementos culturais e políticos que acompanham quase por entrega as páginas de A Nosa Terra ou se repartiam nos actos das Irmandades.

Também as imprensas Lar e Nós, na época corunhesa, seriam um importante centro de reuniom e propaganda contra o regime ditatorial de Primo de Rivera o que provocará um rijo controlo sobre as produçons da imprensa. Os registos policiais na procura de folhas soltas e folhetos da oposiçom republicana foi umha constante entre 1924 e 1931. O labor de impressom clandestino estava nesta etapa -pois a Corunha contava com umha importante tradiçom de impressom e prelos anarquistas- limitado aos sectores do republicanismo federal e massonaria que acabarám por convergir na importantíssima plataforma política que foi a também por estudar ORGA. O último livro impresso conjuntamente por Carré e Casal na etapa de transiçom de Lar a Nós, será o clandestino (sem pé de imprensa) O Militarismo, um duro alegado contra os espadons, do presidente no exílio da República portuguesa, o também massom Bernardino Machado, refugiado na Corunha.

Com a fundaçom da editorial Nós, Pubricacions Galegas e Imprenta, pretendia-se dar um novo impulso ao livro galego dumha perspectiva editorial claramente nacional e popular. Tentativa que, como sabemos, acompanha o galeguismo irmandinho desde a sua fundaçom. Em 1929, o aumento do negócio obrigara-o a buscar um local mais amplo, conseguindo um rés-do-chao en Linares Rivas, 50, onde permanece até o verao de 1931 e donde sairá para Compostela, à beira da ruína, ao tentar a aventura de um Diário republicano da tarde: El momento (Fevereiro de 1930), que só se sustentou, falto de apoios, por 14 números. A venda obrigada da maquinaria de impressom, votando à pequena minerva, implicava a frustraçom de umha empresa editorial moderna e o que é mais grave do livro galego em 1930.

Casal, fundador da ORGA, abandonará esta em 1931, apostando com a chegada da república por posiçons nacionalistas. Em Novembro de 1931, um importante sector da ORGA, membros da Irmandade da Fala, secessiona-se para, agrupados com nacionalistas conservadores formar o PG em Natal de 1931, tarde de mais, para apanhar o comboio do entusiasmo social que era a República. O labor de Casal em Compostela, com um centro de impressom de livros será o de ponte continua entre a esquerda social, o estudantado, e um galeguismo em que, até 1933, predominam as directrizes dos mesmos sectores que provocaram a divisom de 1923.

As tensons entre os distintos sectores do republicanismo e a constataçom a partir de 1932, que os velhos caciques e os velhos modos nom desapareceram da política espanhola, acabará por fracturar o republicanismo de esquerda. Todo o que provocará a apariçom de um diálogo constante en forma de anúncios, convocatórias, denúncias, em forma de cartazes, folhas voantes ou revistas satírico-políticas de curta vida (Estudiantes da FUE, La Estaca, El ciclón, Galicia federal, Máis!). As eleiçons de Novembro do ano 1933 e a Espanha autoritária que ressorde em 1934, acabarám por dar a razom a Ángel Casal, e ao seu grupo que demanda umha volta aos postulados progressistas e democráticos de 1931, antes de se verem obrigados a secundar a revoluçom social. É o tempo da revista Claridad. A de Seoane e Manteiga, a dos moços estudantes que vem a deterioraçom da República.

Esta evoluçom para o antifascismo, para a esquerda, para os conteúdos nidiamente de classe e republicanos é de destacar, e explica o posicionamento de Casal, o seu emborcar-se na política de ruas e o incessante trabalhar do seu prelo, convertido em fontela de folhas voantes, manifestos, e revistas políticas de matiz netamente esquerdista. E todo sem esquecer o livro galego. Filgueira Valverde é substituído da secretaria do Partido por Vítor Casas, Bóveda rectifica a sua política e Suárez Picalho, em Compostela, começa um labor de propaganda que terá como fruto a Assembleia de Compostela de 1935 e o pacto da Frente Popular, processos, debates, acordos, pactos e projectos que se plasmarám semana após semana na importantíssima plataforma SER, Semanario Gallego de Izquierdas.

A Gestora nacionalista do Concelho de Compostela e a política anticaciquista da Deputaçom da Corunha, saídas das eleiçons de Fevereiro de 1936, serám protagonizadas polo projecto político de esquerda com o Plebiscito de fundo, de Ángel Casal. O alcaide revelara-se como um político de esquerdas, maduro, dotado de umha fina sensibilidade social e umha cultura surpreendente, atento constantemente à problemática galega. Em breves meses, freia a deterioraçom urbanística de Compostela, traça un plano de reforma sanitário e urbanístico, medeia en todas as questons sociais, impulsiona a regaleguizaçom das ruas, cria umha comissom para dar forma ao ano jubilar de 1937 que coincidia com os centenários de López Ferreiro e Rosalia de Castro, apoia decididamente o Seminário de Estudos Galegos e organiza a Celebraçom do Congresso de escritores de Galiza, no qual será eleito sócio de honra.

Finalmente, como alcaide de Compostela e vice-presidente da Gestora da deputaçom da Corunha, ocupa o cargo de Presidente da Comissom executiva para a Autonomia de Galiza, à frente da qual desenhará um dos maiores despregamentos de propaganda e procura de recursos económicos que conhecera o Estado espanhol. Aprovado o Estatuto em plebiscito, apresenta a demissom de Alcaide. Posto que se verá obrigado a retomar a 19 de Julho, à volta de Madrid, pronunciando um derradeiro alegato desde a varanda da Alcaidia em Defesa da República.

Levado para a cadeia de Compostela em 4 de Agosto, será passeado em 19. Em Setembro a sua imprensa, arquivo, biblioteca, hemeroteca, seriam vendidos em leilom e queimados perto de Vigo pola sanha falangista. A sua viúva e companheira, Maria Miramontes, morria no exílio argentino em 1964.

Após a leitura do material documental existente no Arquivo Histórico Universitário de Santiago e o compilado pola nossa parte e que incluímos como apêndice da nossa tese de doutoramento, resulta mais do que difícil continuar sustentando certos tópicos historiográficos sobre o nacionalismo galego como partido de centro-direita, sobre o catolicismo militante dos núcleos e elementos centrais, sobre os propagandistas e "motores". Resulta também complicado continuar a avalar a leitura tradicional das relaçons contrárias entre nacionalistas e republicanos, entre nacionalistas e grupos de esquerda radical e entre nacionalistas e anarquistas. Resulta também tocada a visom só centrada numha elite intelectual apolítica pouco interessada nas luitas de rua e nas reivindicaçons sobre aspectos obreiros. E parece-nos, por fim, dificultosa a transmissom do que fora o movimento nacionalista na pré-guerra levada ao cabo desde o culturalismo "galáxio" de posguerra.

Fica pendente umha exposiçom e a análise nom só do impresso por Casal e os sectores progressistas, senom polos sectores anti-republicanos. Para conhecermos o ambiente e o dia a dia da desconhecida Compostela republicana seria fundamental recuperar, expor e estudar o diálogo, o debate e o conflito que transparecem todos os cartazes dos distintos grupos que acabarám por se posicionarem num ou noutro bando durante a Guerra Civil.

Para nós, e ante este material, só fica aberta a pergunta sobre o silêncio e pouco interesse das (hoje, já escassas) figuras sobreviventes à repressom de 1936. Fundamental seria que Francisco Fernández del Riego, testemunha presencial nos acontecimentos e a impressom de muitos destes lembrasse algumha vez esta fundamental tarefa de propaganda e também que Isaac Díaz Pardo nom a tivesse levado à categoria de anedota desintegradora, da qual pretendemos resgatá-la.

Por outra banda, com esta visom documental ganha em matizes a figura de Casal e a funçom político-social do seu prelo. Ganha em motivos o galeguismo e permite a explicaçom de redes, repressons e conteúdos que se estruturavam na alvorada de 1936 e com todo o pensamento alternativo fôrom soterrados e propositadamente esquecidos.



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