LIVROS (Abrente nº 27)
Direitos
da mulher e da cidadá
Olympe de Gouges, Mary Robinson, Elizabeth Cady Stanton, Matilda J. Cage,
Olive Schreiner
110 pág.
Selecção, comentários e tradução de Ana
Barradas
Com este novo volume da editora feminista portuguesa Ela por Ela, achegamo-nos a umha parte significativa dos textos fundacionais do feminismo contemporáneo. Olympe de Gouges, Mary Robinson, Elizabeth Cady Stanton, Matilda J. Cage e Olive Schreiner som só umha mostra daquelas mulheres que decidírom trasgredir o rol que a sociedade patriarcal lhes atribuia para erguer as suas vozes contra a dominaçom, exploraçom e opressom masculina. Todos os textos vam precedidos dumha pequena sinopse histórica que ajuda enormemente à sua compreensom e enquadramento.
O primeiro texto,
"Os direitos da Mulher e da Cidadá", publicado em 1791, constitui
um alegato à igualdade na França revolucionária. Olympe
de Gouge adverte da necessidade de que a revoluçom assuma a causa da
igualdade de sexos perante a consciente exclusom das mulheres por parte do
novo sistema que se instaurava. A sua luita feminista conduziu-na à
forca em 1793, nom sem antes deixar-nos alguns textos pioneiros como o que
este volume nos oferece.
Estas primeiras vozes de mulheres, -a maioria pertencentes a aristocracia
e às classes médias-, estendêrom-se rapidamente polos
estados que estavam a viver a revoluçom industrial e a padecer as suas
conseqüências: França, Inglaterra, Estados Unidos, etc.
Num primeiro momento, florescerám os salons literários em que
muitas mulheres conscientizadas debaterám sobre diversas questons:
direito à educaçom, à nom discriminaçom laboral,
divórcio, etc. Anos depóis nascerám os jornais de mulheres
e as primeiras organizaçons feministas da época, como o Movimento
Nacional polo Sufrágio das Mulheres, fundado em 1869 por Elizabeth
Cady Stanton e Susan B. Antony, inaugurando a luita sufragista nos Estados
Unidos. Embora muitas das reivindicaçons que faziam estas mulheres
hoje estejam formalmente assumidas, nom lhes restam interesse do ponto de
vista histórico e feminista.
Neste livro, além de oferecer-nos alguns textos e fragmentos da obra
destas pioneiras, topamos também exemplos das primeiras mulheres que,
dumha óptica de esquerdas, começam a reflectir sobre o papel
da mulher no trabalho. Ajudadas polas redes internacionais que se estavam
tecendo, -A Internacional das Mulheres dirigida por Clara Zetkin-, reflectirám
sobre a importáncia da independência económica e a escravatura
do trabalho doméstico.
(Noa Rios Bergantinhos)
MARX E A LIBERDADE.
Terry Eagleton
Edições Dinossauro, Lisboa 2002
@s camaradas de Edições Dinossauro venhem de editar no passado ano este pequeno volume do conhecido marxista británico Terry Eagleton. Nele topamos quatro ensaios em que se aborda o pensamento de Karl Marx da óptica da filosofia, a antropologia, a história e a política.
Apesar de ser um livro em que abundam as citas, dista muito de ser o consabido manual escolástico próprio doutras épocas aparentemente mais propensas ao desenvolvimento e o estudo do marxismo, mui polo contrário estamos diante dumha obra de agradável e cómoda leitura, facto a que ajudam a inclusom das citas no corpo do texto, e nom como notas a rodapé, e a sua brevidade, já que nom chega às setenta páginas. Apesar desta brevidade, nom achamos umha vulgarizaçom barata do marxismo, mui polo contrário estamos perante umha obra consistente em que o autor sabe sintetizar alguns dos aspectos mais importantes e interessantes do pensamento marxista, em muitos casos esquecidos e manipulados mesmo por alguns se dizem marxistas, trazendo-os de novo à cena para podermos reflectir sobre eles.
O Marx anti-filósofo, o materialista que pom a dialéctica de Hegel sobre os seus pés, vem seguido do Marx que descreve o fenómeno da alienaçom, para passar depois ao Marx que define o conceito Modo de Produçom, rematando com o Marx revolucionário que chama à tomada do poder por parte do proletariado. Nos quatro capítulos, um aspecto subjaz em todos eles, o que dá o título ao livro, a liberdade; conceito fundamental, às vezes esquecido e em tantas ocasions tergiversado, na obra e a vida de Karl Marx. A liberdade nom como utopia, senom como necessidade humana que é preciso conquistar gerando as condiçons necessárias para a sua existência.
Em definitivo, um muito bom livro que satisfará tanto quem já seja conhecedor da obra de Karl Marx como quem esteja a iniciar-se no conhecimento do método de interpretaçom da realidade mais correcto dos que actualmente conhecemos. (André Seoane Antelo).
Carla Mosca
e Rossana Rossanda
Mario Moretti Brigadas Rojas
Akal, Madrid 2002,333 páginas.
As jornalistas italianas Carla Mosca e Rossana Rossanda entrevistam neste
livro a um dos fundadores e principais dirigentes das Brigate Rosse. Em mais
de trescentas páginas Mario Moretti realiza um percorrido histórico
desde a fundaçom da organizaçom armada a inícios da década
de setenta até a sua posterior derrota e autodisoluçom a inícios
dos oitenta.
A luita de classes numha metrópole capitalista, a gestaçom da
autodefesa operária nas fábricas, o combate com o reformismo
e o revisionismo, estám continuamente presentes numha obra que nom
pretende auto-justificar, mas tampouco renunciar a esta experiência
refrencial. Embora umha das partes mais interessantes deste livro-entrevista,
realizado desde a cárcere na que segue preso desde 1981, som os cinquenta
e cinco dias do secuestro de Aldo Moro, -presidente da Democracia Cristiá-,
executado polas BV após ter decidido o estado abandoná-lo a
sua sorte, negando-se a realizar o mínimo gesto político que
solicitava a organizaçom armada para libertá-lo. Foi precisamente
este ataque ao "coraçom do estado italiano", utilizando a
terminologia brigadista, -realizado em 1978-, umha das causas, ligada basicamente
ao processo de profunda mutaçom da morfologia do proletariado italiano,
com as que Moretti explica o fracasso da estrategia política da guerrilha
comunista num dos países do capitalismo avançado.
Nom é umha entrevista convencional sobre umha organizaçom armada,
é umha entrevista que tenta analisar umha parte da história
italiana após a Segunda Guerra Mundial, a integraçom do PCI
no sistema burguês, o "compromiso histórico" entre
Andreotti e Berlinguer, o papel de Itália na guerra fria, as razons
de estado, as redes ocultas do capitalismo para evitar umha vitória
eleitoral d@s comunistas, o impresionante desenvolvimento da esquerda radical.
Mas também transmite com naturalidade e sinceridade umha experiência
concreta, o processo de gestaçom e desenvolvimento dumha organizaçom
armada configurada por operári@s das grandes concentraçons fabris
do norte de Itália, as relaçons intensas coas massas proletárias,
o papel da vanguarda nas luitas, a violência política.
Um livro que cumpre ler. (Carlos Morais)