Livros e web (Abrente 45)

Memorial da Liberdade. Represión e resistência en Galiza 1936-1977. Junta da Galiza, compostela, 2006. 666 páginas

Umha cuidada ediçom em formato livro reproduz a modo de catálogo a prática totalidade dos objectos, fotografias, cartazes, desenhos, armamento e documentos da exposiçom instalada no Auditório da Galiza, em Compostela, entre Novembro de 2006 e Janeiro de 2007.

O valor deste livro reside precisamente numha magnífica reproduçom de multidom de materiais dispersos em revistas e publicaçons, nom sempre fáceis de conseguir, nalguns casos indéditos, ou bem pertencentes a colecçons particulares, ou aos fundos de arquivos e instituiçons públicas de acesso restrito.

As cascas de pinheiro contra que fusilárom Bóbeda na Caeira, carimbos do Exército Guerrilheiro da Galiza ou documentos internos do DRIL pudérom ser contemplados numha exposiçom mal montada e concebida, incapaz de projectar e multiplicar a importáncia histórica e ideológica do imenso material empregado.

As mais de três horas e meia que era necessário investir para poder contemplar tam só superficialmente os objectos expostos reflecte a errónea concepçom de que a dia de hoje devem ser este tipo de iniciativas se pretendem realmente cumprir um papel pedagógico e didáctico com projecçom de massas, e nom ficar no armazenamento em vitrinas e painéis de materiais seguindo umha ordem cronológica que apenas podem interessar a eruditos e reduzidos sectores sociais. Essa mentalidade positivista decimonónica, -embora conte com um elevado orçamento e meios disponíveis, nom utilizou as novas tecnologias que facilitassem o seguimento e a atençom do público-, é parcialmente corrigida, agora, aqui, com este livro que permite a possibilidade de desfrutar e analisar com calma e sem a pressom deste tipo de eventos. Lástima que o preço e distribuiçom da obra aprofunde no carácter elitista de umha iniciativa que devia ter percorrrido a geografia nacional.

É necessário pois que todos estes materiais, ou ao menos boa parte dos mesmos, podam ser comtemplados permanentemente polo povo galego. Reinstaurar o saqueado Seminário de Estudos Galegos seria umha boa opçom para o ano da memória nom ficar numha simples lembrança para apaziguar as contas do passado. (Carlos Morais)

 

Orlando Borrego

Che. El camino del fuego. Hombre Nuevo, Buenos Aires, 2001. 434 páginas

Nestes tempos em que a figura do Che Guevara foi rebaixada a um mero ícone, no momento em que a maioria d@s habitantes do planeta que poderiam reconhecer a imortal imagem que do revolucionário cubano-argentino figera Korda mas que nom saberiam dizer dele muito mais que o seu nome. Mesmo quando de certo existem @s que admiram realmente a figura deste herói da humanidade mas só conhecem umha faceta parcial da sua actividade revolucionária como combatente e lider guerrilheiro. Nesta situaçom, ler este livro nom é simplesmente recomendável, mas inexcusável.

Orlando Borrego, quem também foi combatente guerrilheiro na Revoluçom Cubana, foi o colaborador mais próximo ao Che no período em que este estivo à frente do Ministério da Indústria e outras instituiçons do governo cubano. Esta circunstáncia permite-lhe nom fazer umha biografia ao uso, mesmo poderia pensar-se que se trata de umha aproximaçom muito parcial umha vez que só atinge aqueles anos em que o Che exerceu como estadista do governo revolucionário. Mas se tivermos em conta a quantidade de biografias publicadas, e que na sua maior parte passam muito levemente por este preciso período, o certo é que o Che que nos descobre Orlando Borrego para muitos é um autêntico desconhecido.

O obra nom nos mostra o herói de Sierra Maestra e da tomada de Santa Clara, nem ao combatente internacionalista no Congo e na Bolívia; também nom temos aqui o jovem argentino que com um empacho de romantismo se lança a percorrer a América do Sul de mota. Temos cá um Che maduro, solidamente formado e convencido no seu compromisso revolucionário com o comunismo, e que adopta a faceta de construtor empenhando tanto ou mais no desenvolvimento económico de Cuba como noutros momentos faria no combate armado contra o imperialismo.

E este Che, que possivelmente seja o mais esquecido, revela-se-nos como um teórico marxista de primeiro nível. Um Guevara que da experiência prática e das suas convicçons comunistas lança-se ao combate contra a presença do capitalismo na economia cubana e chega a propor umha radical crítica contra o escolasticismo da economia política soviética. De facto, se de todo o livro tivermos que escolher umha pequena parte pola sua trascendência, sem dúvida esta seria o rascunho do prefácio para o estudo sobre economia política que o Che tinha projectado escrever, e do qual deixou numerosas anotaçons e apontamentos. Nessas três páginas escassas Guevara demonstra pola via dos factos que seguia aquela máxima marxista que remarca a obriga de fazer umha crítica radical de todo o existente, denunciando sem nengumha dúvida que o que existia na URSS nom era socialismo.

Em resumo, um livro que nom é umha biografia completa do Che, mas que apresenta umha faceta dele sem a qual nom se pode entender a sua importáncia. (Manuel Pena)

 

Stephen Resnick e Richard Wolff

Teoria de classe e história. Capitalismo e comunismo na URSS. Campo da Comunicação, Lisboa, 2004. 424 páginas

Stephen Resnick e Richard Wolff, professores de economia na Univesidade de Massachusetts, som dous desses intelectuais que nos podem surpreender ao elaborar análise marxista desde as instituiçons académicas do império. Contodo nom deixa de ter certa lógica que lá onde se formam as elites dirigentes dos EUA haja cabida para quem à hora de tentar explicar o funcionamento da sociedade pretenda fazer ciéncia e nom propaganda. A fim de contas Fukuyama pode servir para tentar enganar as massas, mas nom para entender o que se está a passar no mundo, para isso é preciso o marxismo.

Os autores deste profundo estudo trabalhárom durante dez anos para achar umha explicaçom mais correcta das pré-existentes do que aconteceu com a Revoluçom e o estado soviético. Na linha da melhor tradiçom do pensamento materialista, o que se fai neste livro nom é umha simples colectánea escolástica das análises que com anterioridade se tinham achegado à questom tratada, mas realmente se propom umha nova tese que incide na estrutura de classes como elemento medular do problema.

Resnick e Wolff afrontam a questom das classes na sociedade soviética de um enfoque novidoso. Proponhem que à hora de definir o conceito classe o importante nom é a situaçom que os grupos humanos mantenhem respeito à propriedade dos meios de producçom, tal e como se entenderia dento de umha concepçom ortodoxa do marxismo, nem também respeito à questom do poder, como algumhas visons reformistas e mais afastadas do materialismo histórico tenhem defendido. A novidade relativa que apresenta este livro está na importáncia central que teria a questom da produçom e da apropriaçom e reparto do excedente.

Os autores argumentam que desta óptica umha sociedade comunista seria aquela integrada em exclusiva por elementos que som ao tempo produtores e apropriadores do excedente, enquanto a apropriaçom do excedente e o controlo da sua redistribuçom fique à margem d@s produtores/as, nom se pode falar de comunismo.

Partindo desta tese fai-se umha análise da sociedade soviética na qual se pretende demonstrar que lá nom houvo comunismo, mas desenvolveu-se um modelo divergente do que poderíamos chamar capitalismo privado e que se define como capitalismo de estado. Na URSS o papel que nas sociedades ocidentais lhe corresponderia ao capital privado e à burguesia, foi assumido de um modo atípico polo aparelho de estado, embora o funcionamento básico do modo de produçom capitalista ficar inalterado.

Em definitiva, esta é umha obra interessante que nom se cinge exclusivamente ao tema soviético, mas propom umha contribuiçom novidosa sobre a teoria das classes sociais nom exenta de discusom. (André Seoane)

 

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