UMHA ACHEGA PARA A ANÁLISE DO MOVIMENTO CONTRA A LOU. Publicado no Abrente nº 22

André Seoane Antelo

A nossa tarefa revolucionária obriga-nos a manter um continuum análitico dos factos que se produzem na nossa sociedade, análise que é ainda mais necessária quando o facto observado corresponde a um desses momentos de convulsom social em que por umha vez a política passa a ser protagonizada nom polos profissionais senom por umha ampla massa que decide prescindir de intermediários para agir de jeito auto-organizado. Este é o caso do movimento contra a LOU, um movimento social integrado maioritariamente por estudantes que se desenvolveu dum jeito espectacular durante os dous últimos meses de 2001.

Dizemos espectacular porque essa foi a impressom que recebeu tanto quem dele participou como quem o observou de fora. Espectacular polo nível de participaçom nas mobilizaçons convocadas; espectacular pola sua radical natureza democrática; e especialmente espectacular por ter-se produzido num momento histórico e entre um sector social, o estudantado, em que nom era de aguardar tal explosom contestatária.


Em primeiro lugar, convém recordar que a geraçom hoje presente nas aulas universitárias galegas é aquela nascida no após-franquismo, quer dizer, as pessoas bombardeadas durante toda a sua vida polas ideias-força da democracia espanhola, o “constitucionalismo”, a “superaçom da ditadura”, etc... Em segundo, esta mesma geraçom nasceu e viveu na etapa de assimilaçom no sistema dos partidos e sindicatos da esquerda oficial espanhola, tal como está a viver a assimilaçom do nacionalismo galego maioritário, nom sendo na sua grande parte consciente dumha alternativa organizada ao sistema político e económico imperante. Em terceiro e último, estas pessoas som as que de um jeito mais brutal estám a sofrer o bombardeamento ideológico capitalista, som a geraçom do individualismo como praxe vital e da alienaçom através das drogas, o futebol e o consumismo, como via de escape da miséria vital em que vivem submersas.
Mas, assim e todo, semelha que algo está mover-se na sociedade, algo que está a causar falhanço nos mecanismos de alienaçom de massas. Esse algo é o enfraquecimento das condiçons vitais da maioria da populaçom, enfraquecimento que na Europa occidental ainda nom se traduziu numha miséria absoluta como a que se sofre na maior parte do mundo, mas que sim é percibida na destruiçom do Estado-Providência, destruiçom que cada dia é mais acelerada.

A LOU, umha lei à medida do capitalismo espanhol

A Lei Orgánica de Universidades de 2001 tem que ser integrada dentro do quadro estratégico da reforma do sistema de ensino do Estado espanhol promovida polo PP, seguindo as directrizes iniciadas polo PSOE. As suas linhas mestras som fundamentalmente duas. A primeira, adequar o ensino às necessidades de “capital humano” impostas polo sistema capitalista. No nosso contexto, passam por um recorte drástico das pessoas com título universitário, ao qual só deve ter acesso umha elite maioritariamente proveniente do bloco de classes dominante, e um reforço da especializaçom técnica dum sector da mao de obra.

Isto traduz-se na imposiçom de um sistema educativo a três niveis. Um para a elite dirigente, que passará polas aulas universitárias; outro para a mao de obra especializada com uns mínimos conhecimentos intelectuais, à qual se destina a nova Formaçom Profissional; e um último nível para a ingente quantidade de massa social sem qualificaçom específica que encherá a bolsa do desemprego da qual as empresas tirarám essa maioria de trabalhadores e trabalhadoras destinadas à contrataçom em precário.

A segunda linha caracterizadora da reforma educativa do PP é a referente à funçom ideológica do ensino. Assim, das aulas tem que transmitir-se a ideia da unidade da naçom espanhola, com a conseqüente ignoráncia da realidade do nosso país, além de perpetuar o modelo social vigente. Resumindo, o ensino que o PP quer tem que ser capitalista, espanhol e patriarcal.

A verdade, nom nos enganemos, é que o sistema de ensino público até hoje existente já era mui semelhante ao defendido hoje polo PP. A diferença é que agora se pretende dar umha volta de porca. De acordo com a fase por que o capitalismo histórico está a passar, fase de crise estrutural, é preciso reforçar os seus aspectos mais repressivos, aqueles que permitem umha maior e melhor exploraçom da maioria. Um destes aspectos é o correspondente à educaçom, polo que o ensino na actualidade tem que ser ainda mais capitalista, mais espanhol e mais patriarcal do que foi até esta altura.

A reacçom dos privilegiados

Mas o PP nom deveu deitar bem as contas, ou se o fijo tinha que estar mui apressado, para enfrontar-se directamente contra umha das fracçons mais imobilistas e corporativas da burocracia estatal: o professorado universitário. Talvez influíssem na sua atitude os tradicionais “tiques” autoritários da direita espanholista, mas o certo é que nom duvidou em atacar parte dos privilégios desta casta social, submetendo o Governo universitário ao control directo do Estado. Após desta medida acha-se a necessidade de racionalizar economicamente a universidade, o que implica a desapariçom de algumha que outra cátedra universitária e mesmo de algumha que outra universidade. Evidentemente, isto nom é do agrado das pessoas que tam certas estavam da sua preminência social polo simples facto de chegar à titularidade da vaga nalgum departamento universitário.

Esta oposiçom dos privilegiados da Universidade contra umha medida concreta do governo foi transladada à sociedade ideologicamente mascarada. Os doutores, entre os que nom adianta fazer distinçons ideológicas pois que nestes temas agem como ente único, nom dim que estejam contra a LOU porque agrede os seus privilégios, fundamentalmente económicos, senom porque atenta contra a autonomia universitária, submetendo-a directamente ao controlo dos poderes político e económico, como se nom fosse assim até o de agora. Mas o certo é que a sua mensagem foi escoitada e coalhou especialmente entre o sector social mais directamente atingido pola lei, e que está em relaçom directa de submisom a respeito ao professorado, o estudantado.

Nom podemos negar que a prédica anti-LOU desde as palestras universitárias serviu como detonante do movimento de massas, poque do mesmo jeito que outras vezes umha boa parte do estudantado prestou ouvidos às palavras de ordem do professor que dizia que nom havia que secundar tal ou qual mobilizaçom estudantil, nesta ocasiom atendeu as razons de quem animavam a mobilizar-se.

O estudantado galego reagiu

Já desde há dous anos, quando após a consecuçom da maioria absoluta numha eleiçons legislativas estatais o PP se lançou decidido a aplicar o seu plano de reforma do ensino, as organizaçons estudantis galegas venhem denunciando as conseqüências nefastas que trará para o nosso país o reforço de um ensino espanholizador ao serviço do capital. Entre essas organizaçons estudantis salientou pola sua beligeráncia o estudantado da esquerda independentista, que afrontou a luita num momento caracterizado polo articulamento de umha estrutura unitária, AGIR, que atingiu a sua madurez como projecto precisamente no contexto do movimento contra a LOU.

Se em Outubro AGIR nom tivesse lançado umha campanha centrada na denúncia da LOU, seria muito difícil que o movimento tivesse atingido as dimensons tam amplas que se verificárom. Mas, por que foi em Novembro que o estudantado saiu à rua massivamente e nom em Outubro, momento em que se produz a primeira convocatória de AGIR?

Influírom vários factores. Em primeiro lugar, a fraqueza organizativa de AGIR, nucleada basicamente no cámpus compostelano, o que impediu o desenvolvimento pleno de umha campanha nacional. Em segundo, a acossa e a criminalizaçom do independentismo que fai com que umha boa parte do estudantado acredite que a organizaçom do estudantado da esquerda independentista é umha caste de “grupúsculo terrorista”. Em terceiro, a desconfiança do estudantado diante de qualquer entidade organizada devido ao desprestígio geral da política. Desprestígio provocado por umha história ateigada de traiçons aos interesses das massas protagonizada por um ronsel de entidades supostamente de esquerdas ou defensoras do estudantado.


Mas, contodo, Novembro estourou, e nom houvo que aguardar muito para que o estudantado se libertasse da tutela do professorado. Primeiro foi o cámpus de Compostela e depois somárom-se os outros seis cámpus galegos. O estudantado organizou-se através das assembleias que substituírom tanto ás organizaçons estudantis tradicionais como os órgaos de governo universitário. As pessoas assistentes às manifestaçons tivérom que se contar por milhares, a actividade académica ficou em suspenso, várias faculdades fôrom ocupadas, as cidades fôrom paralisadas por cortes de tránsito e mesmo escachou o grande mito da troula estudantil galega, a noite de umha quinta-feira compostelana viveu umha greve de consumo em que os locais normalmente ateigados de estudantes ficárom baleiros.
Durante este período pudemos assistir ao desenvolvimento e madurecimento de um movimento social em que nom tardárom em surgir contradiçons. De umha parte, o professorado pretendeu instrumentalizar o movimento estudantil para usá-lo como medida de pressom nas suas negociaçons particulares com o Estado; tal instrumentalizaçom tentou ser contrarrestada polos sectores mais conscientes do estudantado que provocárom com a sua praxe um afastamento que concluiu em confronto entre professores e estudantes em conflitos pontuais como o fechamento da Faculdade de Filologia em Compostela.

No seio do próprio movimento estudantil desenvolveu-se umha outra luita entre os sectores mais acomodatícios, proclives ao consenso e a pax social, e os mais combativos, conscientes da necessidade de radicalizar demandas e métodos de luita. Assim foi que os mesmos que protestavam contra as pessoas que guindavam ovos contra os prédios oficiais, ou faziam pintadas nas entidades bancárias; coincidiam com os que defendiam a volta às aulas ou pretendiam a dissoluçom das demandas específicas do estudantado galego numha tabela comum a todos os sectores universitários. Também costumavam coincidir com os sectores mais recalcitrantemente espanholistas que qüestionavam o uso do idioma galego e defendiam a integraçom na dinámica estatal.

Com todas as suas eivas e atrancos, o estudantado galego reagiu com dignidade. Se bem a fase por que passa o nosso país, caracterizada por um fraco movimento patriótico e revolucionário, após a já definitiva integraçom no sistema do BNG e das suas organizaçon satélites e a ainda precária situaçom de imadurez da esquerda independentista, impediu que o movimento contra a LOU atingisse um nível óptimo de combatividade e consciência. Mas o certo é que podemos dizer que serviu para avançar.

No seu seio, AGIR, e portanto a esquerda independentista, soubo estar a um alto nível representando os sectores mais inconformistas do estudantado galego. Pola primeira vez, o independentismo galego foi umha das principais forças políticas actuantes num conflicto social de releváncia na Galiza.

A jeito de conclusom

Com o objeto de tirar algumha aprendizagem, haveria que fazer umha série de valorizaçons finais que nos permitam perceber melhor o que é que significou o movimento contra a LOU e as conseqüências que pode traer num futuro próximo.
Em primeiro lugar, o governo do PP sai debilitado dum conflito em que, apesar de nom se conseguir paralisar a LOU, tornou patente que a maioria absoluta eleitoral nom é maioria social. Rebelou-se para muita gente qual é a natureza real de um partido que minusvalorizou em todo o momento a opiniom de amplos sectores populares que protagonizárom algumhas das maiores manifestaçons que recorda o nosso país. Para amplos sectores sociais, ficou bem claro que o PP nom escuita a voz do povo.


Em segundo lugar, manifestou-se mais umha vez a semelhança entre o PSOE e o BNG que, com leves diferenças de matiz no seu discurso, agírom de jeito parelho pretendendo instrumentalizar um movimento social. Contodo, a sua virtualidade como alternativa ao PP fica sem ser clara, pois que nom lográrom achegar os sectores mais descontentes que se matenhem ainda numha atitude de desconfiança diante destas duas forças políticas.

Em terceiro, como já dixemos antes, e graças à actividade de AGIR, a esquerda independentista situa-se pola vez primeira como umha alternativa política solvente para amplos sectores sociais. Diante da morneza de um PSOE e de um BNG que criticam, mas nom muito alto; a radicalidade do discuso independentista achou ouvidos entre quem descobre que com o sistema vigente nom tem nada a ganhar e sim muito a perder. Dependerá da habilidade da esquerda independentista para convencer e organizar esses sectores a possibilidade de articular umha alternativa política mais ampla.

Em quarto lugar, seja como for, resultou evidente que nem tam sequer a maquinaria ideológica do Estado espanhol é quem de ocultar as agressons contra as camadas populares e, com certeza, que estas nom estám dispostas a aturar as agressons sem dar umha resposta. O estudantado galego ergueu a sua voz e soubo pôr no seu sítio cada quem, a um lado ficárom os partidários do pacto: PSOE e BNG, e todo o ronsel de organizaçons sectoriais afins tanto de professarado, sindicais como estudantis; no outro quem está por um ensino público e galego, e portanto, por umha sociedade mais justa e livre, entre eles e fundamentalmente, a esquerda independentista.

Portanto, devemos ficar com umha sensaçom de optimismo, já que, se bem nom triunfamos plenamente, o certo é que há mostras claras de que algo está a se mover na consciência colectiva do nosso povo. O movimento contra a LOU demonstrou que ainda há esperanças para a rebeliom.

André Seoane Antelo

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