INDEPENDENTISMO, BURGUESIA E LUITA DE CLASSES NA GALIZA. Publicado no nº 23 de Abrente (Janeiro de 2002)

Carlos Morais

Magín Froiz, Manuel Garcia Balinha, Manuel Fernandez de Sousa, Roberto Tojeiro Diaz, Amancio Ortega, José Luís Méndez, Julio Fernandez Gaioso, Manuel Gomez Álvarez, som alguns nomes e apelidos dos principais proprietários e administradores do grande capital deste país. Froiz, Finsa, Pescanova, Gadisa, Inditex-Zara, Caixa Galicia, Caixa Nova, Coren, som algumhas das empresas e entidades bancárias que dirigem. Eles som um genuíno expoente da burguesia galega.

Desde a década de sessenta do século passado, o nacionalismo galego vem construindo parcialmente o seu discurso sobre a premissa de questionar, ou minimizar nalguns casos, a existência de umha burguesia própria, situada e assentada na Galiza. A aplicaçom mimética dos postulados do epidérmico marxismo proveniente dos países do mal denominado Terceiro Mundo, em pleno processo de descolonizaçom e guerras de libertaçom nacional, provocárom umha análise pouco correcta do papel, entidade e desenvolvimento das classes dominantes autóctones. Se bem esta burguesia era e continua a ser umha burguesia espanholista, subsidiária e intermediária da oligarquia financeira e industrial espanhola, carente, portanto, de qualquer compromisso com a naçom galega, pola sua cómoda integraçom nos interesses do bloco de classes dominante do Estado, é incorrecto e absurdo, mais alá das autojustificaçons do interclassismo reformista, defender que objectivamente possui idênticos interesses que a imensa maioria da populaçom que explora e domina, o Povo Trabalhador Galego, sendo necessária incorporá-la à luita pola independência nacional.

Se bem a burguesia galega historicamente, salvo contadas, esporádicas e breves excepçons fracassadas, -PPG, PGI, Coaligaçom Galega-, renunciou a dotar-se de um instrumento político próprio com que defender os seus interesses, um partido "nacionalista", que sob a aparente defesa dos interesses comuns do país, tam só protegesse os seus específicos interesses de classe, a dia de hoje semelha contar com essa estrutura. Por mor da evoluçom ideológica e a conseqüente deriva política, actualmente o BNG, acha-se em condiçons de cumprir esta funcionalidade, e só falta que a burguesia autóctone acabe por apostar pola via autonomista que o BNG lhe oferta para que o processo procurado polo BNG tenha sucesso. A coincidência entre PP e BNG quanto à necessidade de nom esvaziar totalmente de conteúdo a autonomia galega como actualmente pretende o PP madrileno reflecte a pugna de ambas organizaçons por protagonizar a defesa dos interesses da burguesia galega no que di respeito à sua capacidade de decidir sobre os interesses no ámbito territorial galego, embora sempre partindo do reconhecimento explícito da indissolúvel unidade do Estado espanhol. A ninguém escapa que a burguesia galega tem interesse em que a Junta da Galiza mantenha competências que evitem à burguesia autóctone ter que negociar em Madrid com outros sectores mais poderosos da oligarquia espanhola sobre assuntos concernentes ao seu domínio económico na Galiza, do mesmo modo que as burguesias basca e catalá defendem por motivos semelhantes as suas rerspectivas autonomias. Quanto ao BNG, umha dilatada e traumática trajectória interioriza no seu seio a doutrina política aprovada na Assembleia do Carvalhinho de 87 e plasmada na Lei de Bases: propostas de hoje para caminhar amanhá, de 1989, modifica o sujeito da luita de libertaçom nacional e social, -as camadas populares às quais apelava constamente o Beiras anterior a essa época-, polo difuso conceito actual de cidadania, que unicamente mascara os interesses da burguesia e da pequena burguesia, dos Amáncios Ortega, e do professorado, comerciantes e funcionariado hegemónicos entre os seus quadros e dirigentes.

Neste original processo, é o BNG quem pretende ceder e entregar o seu capital social e político ao serviço das classes dominantes, pois a diferença de outros países, nom som determinadas fracçons da burguesia as que impulsionam a sua própria força política sem intermediários, senom que perante a mudança de rumo do antigo adversário podem optar por utilizá-lo.

Os antecedentes

A inícios de século, por mor das peculiares características da estrutura social galega, um país eminentemente rural que ainda estava iniciando umha tímida industrializaçom, umha parte da numericamente fraca burguesia financeira e industrial, que acumulara capital fornecendo escrav@s para a América, concentrada nos núcleos urbanos costeiros, continuava a ser maioritariamente de origem foránea, -basicamente catalá, basca, espanhola, francesa-, característica que contribuiu para dificultar a sua imbricaçom na realidade nacional do país. Posteriormente, essa pujante burguesia financeira (Olimpio Perez, Soto, Viñas-Aranda, Pastor, Nogueira, etc), comercial (Simeón, Romero, Olmedo), a que controlava a totalidade dos transportes excepto os caminhos de ferro, a que hegemonizava as exploraçons mineiras, a construçom naval, a pesca de altura, o sector lácteo, conserveiro, madeireiro, eléctrico, financiou e apoiou sem reservas o levantamento fascista de 1936, pois necessitava derrotar o movimento operário e popular, e evitar o paulatino incremento da consciência nacional que já permitira a aprovaçom do Estatuto de Autonomia em Junho desse ano. O desenvolvimento da luita de classes e das reivindicaçons nacionais faziam perigar os seus privilégios. Esta burguesia justificou a selvagem repressom das décadas seguintes e ao calor das específicas condiçons sócio-económicas da autarquia franquista sentou as bases da sua imprescindível concentraçom que permitisse concorrer em novos mercados a partir da década de sessenta e setenta. O Grupo Fernández, proprietário de Pescanova, Frigsa, Zeltia, Transfesa, Cementos del Noroeste, etc, ou o Grupo Rodríguez, em menor medida, proprietário de Larsa, som conhecidos paradigmas da vitalidade da nova classe dirigente galega, plenamente inserida no bloco de classes dominante espanhol.

A ditadura franquista permitira esta fabulosa acumulaçom de capital por mor das facilidades concedidas polo Estado para impor condiçons sócio-laborais óptimas para a sobreexploraçom e pola absoluta carência de direitos laborais e democráticos da classe trabalhadora.

A impronta da década de sessenta

A configuraçom da UPG em 1963-64, como alicerce do nacionalismo galego contemporáneo, determinou e condicionou o evoluir e a caracterizaçom do soberanismo até praticamente finais da década de oitenta. O nacionalismo hegemónico na UPG, embora de matriz marxista, sempre priorizou as reivindicaçons nacionias sobre as de classe, instalado numha refractária e utilitarista concepçom da emancipaçom de género e as luitas nom estritamente economicistas.

Assim, sem cortar o cordom umbilical com o galeguismo anterior a Guerra civil espanhola, continuadora do essencialismo e minimalismo nacional do Partido Galeguista, afogada polo culturalismo, e modulada pola sua própria composiçom da sua direcçom: pequena burguesia mesocrática e funcionarial, a UPG construiu e adaptou, ao longo destas quase quatro décadas, umha visom da luita de libertaçom nacional constringida a umha idílica e falaz aliança nacional-popular entre todas as camadas sociais "objectivamente interessadas" em modificar a situaçom de dependência nacional que padece Galiza, minimizando a existência de umha burguesia própria e limitando a capacidade da classe trabalhadora para dirigir a sua própria luita emancipadora. Esta concepçom, -própria da pequena burguesia-, caracterizada polo exclusivismo patriótico, sempre subordinou a luita de classes a umha aliança cos sectores "objectivamente antimonopolistas e antimperialistas" da burguesia, enquadrada numha caracterizaçom da Galiza como um país terceiromundista. Estes erros estruturais no ADN político-ideológico, herdados polo conjunto das cissons independentistas que tivérom lugar (1976/78, 1981, 1986), permitem compreender e explicar as causas da deriva actual do BNG.

Os sectores do independentismo galego que continuam situados nestes idealistas parámetros "patrióticos", desconsideram que a defesa conseqüente da independência nacional, -só factível desde a esquerda-, radica na compreensom e caracterizaçom de nossa luita de libertaçom nacional como a forma que adopta a luita de classes numha naçom carente de soberania. Ou expressado de outro jeito, é a classe trabalhadora quem deve estar à frente da libertaçom nacional, pois é quem padece directamente nas condiçons materiais de existência as conseqüências da opressom nacional. A luita contra a exploraçom do capital, responsável da opressom nacional e social de género, só se pode impulsionar desde umha formaçom social concreta num contexto histórico determinado. No nosso caso desde a Galiza de inícios do século XXI. Frente ao cosmopolitismo burguês e frente o isolacionismo populista do independentismo sem projecto social, característico da pequena burguesia, @s comunistas galeg@s, -desde os parámetros do materialismo histórico-, proclamamos e defendemos que a única construçom possível da Galiza soberana e emancipada só é factível realizá-la desde a esquerda. A luita de classes é o único instrumento factível para elevar a consciência nacional e fazer convergir a luita pola independência com a luita polo socialismo.

As resoluçons do III Congresso de Primeira Linha som muito claras nesta matéria quando afirmam que "para um pequeno povo como o nosso, para umha naçom trabalhadora e periférica na divisom internacional do trabalho que nos tem destinado o imperialismo, a independência nacional nom só é umha alternativa viável, é umha necessidade ineludível para podermos sobreviver. Sem Estado próprio, Galiza desaparecerá irremediavelmente na maré uniformizadora que está aplicando com violência o capitalismo na actual fase de globalizaçom. A sua classe trabalhadora continuará a sofrer umha paulatina agudizaçom das agressons por parte da burguesia espanhola, do bloco de classes oligárquico mundial, e dos seus lacaios locais, -a burguesia intermediária galego-espanholista-, assim como a deterioraçom das suas condiçons materiais de vida". Eis a causa pola que defendemos que a classe trabalhadora se dote de um estado de seu. "Sem Estado, a classe trabalhadora galega carece do instrumento necessário para frear esta deterioraçom, o espólio que padecem os nossos recursos naturais; sem Estado, nunca poderemos recuperar e reconstruir as desfeitas provocadas polas agressons de quinhentos anos de colonialismo; sem Esatdo próprio nom é viável pôr em andamento a construçom de umha sociedade socialista".

Somos um país periférico do centro capitalista

Galiza nom é umha estrutura de classes homologável ao erroneamente mal denominado Terceiro Mundo, Galiza é um país periférico do centro capitalista. Pertencemos à reduzida nómina de países do "Norte" que, representando 23% da populaçom do planeta, dispom de 86% do produto bruto mundial, face aos mais de 4.000 milhons de habitantes dos países mais intensamente empobrecidos, para os quais ficam os 14% restantes. Contamos com umha burguesia própria, -embora pouco desenvolvida-, que se beneficia e perpetua a situaçom de sobre-exploraçom e colonialismo a que se ve submetido o Povo Trabalhador.

Burguesia que, com as suas respectivas fracçons associadas, apenas representa os dez por cento da populaçom do país, mas que concentra e acumula o capital, controla e manipula os meios de comunicaçom, dirige as forças coercitivas, enfim, controla todos os instrumentos, todos os mecanismos de dominaçom, e portanto, perpetua com facilidade este injusto e desumano sistema.

Os proprietários e administradores das medianas e grandes empresas, -submetidos voluntariamente às directrizes e aos interesses foráneos-, mantenhem umha aliança simbiótica com a oligarquia espanhola e tenhem praticamente as mesmas responsabilidades que os magnatas e oligarcas do BSCH, de Telefónica, Repsol ou Endesa, na situaçom que se acha o PTG.

A política d@s comunistas galeg@s de prática independentista é muito clara nesta questom. Frente ao interclassismo do autonomismo que renuncia a defender os interesses da maioria para buscar o respeito da burguesia e integrar-se definitivamente no regime da burguesia espanhola; frente aos coqueteios com estes postulados, emanados das incorrectas teses da deturpaçom marxista promovida pola III Internacional, presentes em sectores do nosso movimento patriótico, nom tem cabimento qualquer ambigüidade nesta matéria: o movimento de libertaçom nacional e social de género na Galiza tem que ter como único sujeito da transformaçom a classe trabalhadora em aliança com todos os sectores que configuram o Povo Trabalhador. Com a burguesia autóctone e com a oligarquia espanhola nom temos nada em comum, mais alá dum antagónico confronto por serem co-responsáveis da grave situaçom que padecem a imensa maioria das classes populares deste país e por condenar-nos a seguir padecendo umha opressom nacional que adopta a forma de colonialismo interno.

O processo revolucionário galego nom só deve estar comandado pola classe trabalhadora, deve estar ao exclusivo serviço dos seus interesses. A pequena burguesia, nas suas diferentes variáveis, -mesocrática, funcionarial ou comercial-, nom deve hegemonizar a sua direcçom, nom pode elaborar a linha política táctica e estratégica porque, polas suas origens de classe, sempre tenderá a buscar pontes e alianças com o capital. A história das revoluçons está pragada de exemplos desta capitulaçom, desta constante traiçom. Daí a peremptória necessidade de manter um nítido discurso de classe, de defender e procurar a hegemonia da classe trabalhadora na direcçom política do Partido e do conjunto de entidades da esquerda independentista, combatendo o discurso populista do interclassismo essencialista, a sua acomplexada e atormentada relaçom com o autonomismo, as sua veleidades reformistas, por muita aparência radical que projectem na defesa de todos os métodos de luita. O independentismo galego nom deve ser a versom radicalizada do autonomismo, umha fotocópia a cores do galeguismo de Paco Rodríguez e Beiras.

A obreira dum talher têxtil clandestino, -que com jornadas de mais de doze horas e salários inferiores aos 300€, carente de contrato, segurança social e os mínimos direitos laborais-, nada pode ter em comum com o proprietário da multinacional Inditex-Zara, instalada em Arteixo, por muito que Amancio Ortega Gaona resida na Corunha e fale galego. Como tampouco é possível desde postulados progressistas a existência de um instrumento político que, de parámetros de libertaçom nacional, poda conciliar num programa comum os interesses antagónicos da operária e do patrom, porque a exploraçom, a miséria e as penalidades que padece som as que permitírom a fabulosa acumulaçom dessa fortuna que a dia de hoje ocupa o posto vigéssimo-segundo no ranquing das pessoas mais ricas do Planeta segundo a revista Forbes.

A classe trabalhadora galega deve saber que só mediante umha luita de libertaçom nacional e social de género, ou seja, mediante a conquista da independência nacional, que dote a Galiza de um Estado próprio sob a sua exclusiva hegemonia, poderá superar a exploraçom que padece e conquistar a emancipaçom. Mas também deve saber que esta luita se enquadra numha luita global, mundial, que leva desenvolvendo-se desde há milhares de anos mediante o fio vermelho da luita de classes, que explica e permite compreender o desenvolvimento da história da humanidade. Galiza só poderá ser livre desde a esquerda e com o apoio e a solidariedade das classes trabalhadoras e povos do mundo. O independentismo só será plenamente libertador desde coordenadas internacionalistas e revolucionárias.

Galiza, nas tendências globais

As tendências actuais do capitalismo mundializado nom som alheias na nossa estrutura de classes. Na Galiza continua a deterioraçom das condiçons de vida d@s trabalhadores/as paralelamente com o processo de acumulaçom e incremento de ganho da burguesia. No mês de Fevereiro, o desemprego aumentou na Comunidade Autónoma 1'09% situando-se em perto de 150.000 o número de desempregad@s, mais de 13% da populaçom activa, especialmente agravado nas mulheres e na mocidade; a precariedade laboral atinge mais de 33% do mundo do trabalho; a miséria e a marginalizaçom social nom som fenómenos isolados, mais de 120.000 lares vivem por baixo do limiar da pobreza; o contínuo crescimento da sinistralidade e insalubridade laboral, o aumento da economia submersa; som dados, índices sócio-económicos reveladores dum panorma social em que a metade das famílias reconhece chegar com dificuldades a fim de mês e 64% nom é quem de poupar algum dinheiro.

Simultaneamente, a um ritmo estimado de duas fusons mensais, o capital galego concentra e aumenta o seu poder económico, político, social e ideológico. Pescanova vem de anunciar um incremento de ... no seu ganho; o grupo San José um crescimento de 32%; o grupo Coren do 20%, Amáncio Ortega reconhece possuir 10.556 milhons de euros; o chantadino Francisco González converte-se no presidente único do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria (BBVA) após despedir mais de 10.000 trabalhadores/as.

Ainda alguém acredita num projecto revolucionário, ou minimamente transformador, sob os parámetros do interclassismo?. Nós temo-lo muito claro. Só o povo trabalhador pode liderar o projecto revolucionário que conduza a Galiza para a soberania nacional plena.

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